In High School
20 20 - Lendo demais.
Notas iniciais
A oeste, a escuridão consumia os últimos raios da alvorada, os quais se retiravam, dando lugar as estrelas nítidas de uma noite limpa com temperatura agradável. Típica noite a qual prometia a maior diversidade de acontecimentos inesperados, como tudo na vida do loiro ultimamente.
Talvez a culpa não fosse sua, talvez as coisas aconteçam simplesmente porque tem que acontecer, Chopper havia o falado isso em uma de suas consultas com o psicólogo improvisado, e aquilo deixara Sanji um tanto pensativo. Tudo estava o deixando pensativo neste ultimo mês, o qual ficou marcado como o mês mais imprevisível de sua vida.
Várias pessoas já passaram por sua vida, durante estes longos 18 anos de estrada, já conhecera vários tipos de encrenqueiros, tímidos, mandões, simpáticos, antipáticos, psicopatas, etc. Mas nenhum deles causou tanta devastação como certo alguém de madeixas verdes, que simplesmente chegou e virou tudo de cabeça pra baixo.
Após um mês de brigas, confusões, desejos e algumas vezes, homicídios, Sanji se pôs a pensar que não adiantaria mais simplesmente querer fugir, ou ignorar como se não fosse nada demais. As coisas estavam tão nitidamente ligadas que quando chegou à sala de sua casa, todo arrumado, perfumado, com roupas elegantes e madeixas douradas devidamente penteadas e impecavelmente limpas, encontrou o caos de sua vida, sentado desajeitadamente naquele enorme sofá, com o controle da TV na mão, assistindo uma animação onde uma tartaruga velha com um cajado falava para um guaxinim.
“Às vezes encontramos nosso destino pelo caminho que tomamos para evitá-lo”
Parecia que tudo estava conspirando para estas teorias de mudança de vida. Aquilo, de certo modo, assustava Sanji. Natural, levando em conta que o diferente sempre assusta os humanos, mas nunca provara nada igual, era como se o mundo estivesse se transformando ao seu redor, quando na verdade, era o seu modo de ver o mundo que estava mudando.
Tudo por culpa daquele cabeça de marimo.
– eu não sabia que você, ainda nessa idade, assistia desenhos na TV – disse Sanji logo atrás do sofá, fazendo Zoro virar-se bruscamente, percebendo a presença do loiro ali.
– não tinha nada melhor passando – falou com a voz calma, porém com uma expressão diferente, havia uma ponta de adrenalina, ou até mesmo nervosismo em seus olhos. Ele fitou Sanji de cima a baixo, contemplando sua imagem esguia e elegante. Poderia até comparar com aquela cena clichê de filmes onde uma bela mulher desce a grande escada com seu melhor vestido, e o homem, a esperando no final dela, a fita, deslumbrado com sua beleza.
Talvez esse fosse o caso do Roronoa, porém era difícil de acreditar.
Tudo estava difícil de acreditar, ultimamente.
[...] Perto Dali [...]
A garota magricela andava em passos apressados de um lado para o outro dentro daquela pequena sala, sem objetivo algum, apenas como uma tentativa frustrada de esvair todo aquele nervosismo, típico de iniciantes, como dizia seu chefe. Odiava sentir-se de tal modo, pois ansiava por manter a ordem e o poder em prol do bem para qualquer lugar que fosse, alguns diziam que tinha vocação para policial, outros diziam apenas que a pequena morena deveria ir com calma neste estágio.
O estrondo abafado da madeira da porta range e surge dela a figura de sua maior inspiração. Alto, de cabelos grisalhos, quase albino, se sua pele morena não denunciasse que as madeixas esbranquiçadas faziam apenas parte de seu DNA, pois o mesmo não tinha cara de idoso, muito pelo contrário, aparentava ser jovem e esbelto, todavia, algo muito velho e escasso era carregado em seus olhos escuros, seus anos de experiência como policial investigador, talvez.
O grande homem apenas mantém a calma e tenta não surtar com o nervosismo de sua aprendiz pela milésima vez na semana, a pede calma e a explica do modo mais sereno possível.
– esta é apenas uma operação de investigação, observação, sem ação ou rendição, acho que fui claro o bastante para seu entendimento, Tashigi –
– sim senhor – ela responde, ainda um tanto nervosa, ansiosa, talvez sedenta.
Afinal... Alguém tinha que controlar esta sede ínfima de justiça que vivia na morena, e Smoker, como o chamavam, parecia ser a pessoa mais recomendável.
[...]
– não tinha nada demais passando na TV – disse ele, de modo despreocupado.
– tem mais de cem canais aí, me engana que eu gosto, Zoro – Sanji duvidou, incrédulo, mal sabia ele que o espadachim simplesmente adorava vê-lo pronunciar seu nome – vamos sair ou não? – ele perguntou, de modo a apressar seu companheiro, enquanto pegava a chave do carro.
Surpreendentemente ele é parado em seu ato pela mão do espadachim envolta de seu pulso, fazendo Sanji apreciar o toque secretamente. Ali ele realizou-se que seus gostos haviam mudado, não sabia desde quando gostava de toques de mãos grandes e ásperas, másculas, costumava preferir as pequenas e delicadas... Não, ele não vê nada demais em nenhum dos homens, Zoro havia se tornado o centro de tudo, o padrão de tudo. Como deixara isso acontecer?
Foi tirado rapidamente de seus devaneios por um pensamento mais plausível, do tipo
“como ele chegou até mim tão rápido? Eu sequer o vi e...”
– vamos andar – ele convida, de modo misterioso.
– mas... Por que isso agora? – o loiro indaga, confuso com o ato do maior.
– digamos que está... Uma noite muito... Apreciável – ele falava pausadamente, como se tentasse escolher as palavras certas – e andar faz bem, conversamos mais, temos mais atitudes de pessoas saudáveis, sabe? Talvez o lugar aonde vamos não fique nem a duas quadras daqui –
– desde quando você se importa? – Sanji pergunta, ainda muito desconfiado, agora sua desconfiança parecia muito mais provocativa do que qualquer outra coisa. Zoro tornara-se um desafio, um enigma o qual o loiro se dispusera a tentar desvendar, de tal modo que deixou um sorriso escapar do canto de seus lábios, fazendo Zoro perceber o pequeno joguinho e querer justificar-se como inocente.
– apenas... Eu... – ele falava, rindo também, cativado pelo riso do menor – eu acho carros muito poluentes para o meio ambiente – agora ele fala tentando parecer sério – devemos contribuir para a diminuição da emissão de gases to... – tenta justificar enquanto é bruscamente interrompido por uma gargalhada alta vinda de Sanji.
– HAHAHAHAHA e desde quando você se importa com isso? – ele fala, largando a chave em cima do balcão, perto da porta e indo em direção a saída.
Zoro percebe que não há mais jeito de convencê-lo de qualquer coisa, e o segue em direção à calçada banhada pelos últimos raios alaranjados de sol que aos poucos iam sendo cobertos pelo manto negro da noite, limpo, cheio de estrelas. A brisa denunciava a chegada iminente de um entardecer com temperatura agradável... Perfeito para estar ao lado de quem gosta.
[...] perto dali [...]
Um carro de áurea obscura, com as janelas impenetráveis por olhares curiosos, mas que ao mesmo tempo cumpria seu papel de não chamar atenção alguma, estaciona perto de um restaurante daquela cidade. Parecia não ter pressa de sair dali, apenas os mais detalhistas perceberiam que logo depois de estacionado, nenhum ser vivente se deu ao trabalho de deixar o veículo, era como se estivesse se locomovendo sozinho, ou até mesmo que a pessoa que estivesse ali dentro estaria usando o carro apenas como um escudo para observar o movimento. A segunda teoria era a mais aceita pela dama sentada desajeitadamente em uma das mesas do restaurante, comendo uma grande porção de batata frita enquanto manchava guardanapos com seu batom rosado. Estava na companhia de uma morena alta, muito mais elegante e sutil do que ela, aparentemente, a qual se contentava apenas com um pequeno vidro de sorvete com calda, comia calmamente, parecendo muito menos despreocupada com o movimento nos arredores.
– se você tem algo a dizer, esse é o momento, Bonney – disse a morena de forma calma e serena, enquanto levava a boca mais uma colher do sorvete.
– eu achei que você já deveria ter percebido, já que você é a espertona, Robin – a moça de cabelos rosados responde de boca cheia, de modo mal educado.
– claro que eu percebi, só não vejo razão alguma para ficar nesta tensão – diz Robin. A calma da morena irritava Jewerly algumas vezes.
– você fala assim porque você não é tão encrencada como eu – Bonney retruca.
– ambas temos nossos desencontros, Jewerly –
– o que não significa que não precisamos tomar alguns cuidados necessários, como por exemplo: sair com gente que chama atenção demais – a rosada agora dirigia seu olhar furioso para uma ruiva perto do balcão, falando algo com o gerente, acompanhada de uma garota menos chamativa, de cabelos azuis, caindo como cascata por seus ombros.
– qualquer mulher chama atenção, Nami esta apenas agindo normalmente, é o que mais precisamos aqui, de pessoas agindo normalmente – Robin responde.
– você chama aquilo de normal? – Retruca Bonney – só falta ela pedir um microfone e pendurar um colar com uma melancia pra chamar mais atenção, e ainda por cima trás a garotinha inocente que se assusta até com formigas... Tenha dó, Robin. Eu não saí de casa pra isso –
– seja mais conveniente, Jewerly – o tom da voz de Robin se tornou muito mais severo e firme, sem deixar de ser sereno – eles estão aqui apenas para observar, nos estudar. É mais do que óbvio que estão loucos por um motivo para nos incriminar, é como caminhar sobre uma corda bamba, escorregou: você já era. O que temos que fazer é, obviamente, agir como pessoas normais, o máximo que conseguirmos –
– e quem mais normal que a Nami, não é? – Bonney ironizou, sendo ignorada pela morena.
A garota ruiva e a azulada voltam à mesa, sentam-se enquanto falam de algum assunto fútil, em um tom alto de voz. Por mais que Vivi fosse mais tímida e retraída, ela parecia estar se adequando ao modo Nami de ser.
Robin mantinha a calma enquanto Bonney ficava cada vez mais atenta no movimento. Alguém ali precisava manter a concentração.
[perto dali...]
O ar úmido e pesado agradava o loiro. O mesmo andava sentindo aquela leve brisa fria de uma noite a qual prometia chuva. O tempo estava adorável, uma vez que Sanji não aprovava calor excessivo, e preferia dias nublados a dias ensolarados, eles simplesmente parecem mais aconchegantes e convidativos, mais inspiradores.
“A felicidade é totalmente rotulada”
Esta era a frase pichada em um muro velho da cidade, provavelmente por algum delinqüente juvenil, ignorada por maioria dos elementos que passavam por ali. Porém era algo que fazia refletir.
No pensamento das pessoas, ao se falar em felicidade, praticamente todos visualizam uma imagem de um dia ensolarado, com crianças correndo em um parque com a grama verde, e pais felizes sentados em uma toalha de piquenique os assistindo de longe.
A felicidade tem concepções diferentes para todas as pessoas, cada um tem seu próprio jeito de sentir-se feliz, e as pessoas tentam vender felicidade como se fosse um tipo de produto, em troca de dinheiro, felicidade falsa, passageira.
“O que te faz feliz?”
Sanji ouviu uma voz falar isso em sua mente, e de repente, sentiu-se confuso, sem ter uma resposta exata. Todos já nos sentimos assim, pelo menos alguma vez na vida. Na vida de todos, sempre houve aquela uma pergunta que te deixava confuso, sem ter uma resposta exata, e você tem aquela vontade de dizer simplesmente “sei lá” por preguiça de pensar em todas as pequenas coisas do seu dia-a-dia que compõe a sua felicidade, e muitas delas são despercebidas por nós... Ou só reparamos sua falta quando ela se vai.
Refletindo sobre tudo isso, seu olhar pousa no garoto de cabelos verdes ao seu lado, usando três brincos que balançavam conforme seu caminhar despreocupado, com uma expressão que parecia, assim como Sanji, estar apreciando o tempo agradável.
Aquele tempo lhe fazia feliz, sua casa lhe fazia feliz, seus confortos lhe faziam feliz... Até mesmo a sua companhia de hoje à noite lhe fazia excepcionalmente feliz.
Um dos seus medos estava ali, tornando-se realidade... Zoro lhe dava uma felicidade peculiar jamais sentida antes, como se o espadachim fosse uma fonte dessa riqueza tão procurada por muitos, a qual veio até Sanji sem o mesmo pedir por nada. Talvez isso fosse sorte, talvez não devesse mais fugir de seu destino, como a tartaruga velha na televisão dissera.
– eu gosto do tempo assim – ele disse, tentando quebrar o silêncio.
– eu também, muito mais agradável do que o sol ardente – Sanji concordou.
Sentindo falta de um cigarro, Sanji apanha um em seu bolso e o acende com um toque em seu isqueiro de prata, protegendo o fogo de ser apagado pela brisa fria, guardando-o logo em seguida para dar uma tragada e soltar toda aquela fumaça branca pela boca.
Zoro costumava odiar aquilo no loiro, achava que fumar era um hábito auto-destrutivo totalmente estúpido e não entendia o motivo das pessoas fumarem, como se elas quisessem destruir a si mesmas.
– pregando o próprio caixão desde já, Ero-cook? – ele pergunta, curioso para saber o que Sanji responderia.
– aaaaah é haha – ele riu, ironizando – esqueci que você detesta isso – falou isso sem se preocupar em parar de fumar — logo logo ele acaba, não se preocupe – terminou a frase dando uma piscadela para o maior, o que o surpreendeu.
– isso é um modo de suicídio, um mais lento, mas ainda sim é um modo, você sabe que ele vai te matar, mas você não para, simplesmente não quer parar – Zoro refletiu.
– quem não tem um vício jamais será capaz de entender – Sanji respondeu sério enquanto andava vagarosamente e tinha suas madeixas loiras espalhadas pela brisa que ficara um pouco mais forte.
Zoro ainda conseguia surpreender-se com alguns argumentos do loiro, mostrava o quão forte era sua personalidade e seu caráter e o quão habilidoso tinha sido para conseguir deixar uma marca significante na vida deste garoto, sem ser uma mulher qualquer. Contemplava sua imagem em silêncio enquanto ambos andavam e pensava em tudo o que tinha feito neste ultimo mês, um dos mais movimentados da sua vida, emocionalmente falando. Zoro nunca fora de se abalar sentimentalmente, mas aquele cozinheiro estúpido fora o único capaz de mostrar-lhe tudo isso. Aos poucos, aquela culpa provinda das lembranças de suas primeiras intenções ao se aproximar dele ia sumindo, ia sendo esquecida.
Zoro estava disposto a esquecer aquilo para sempre. Um erro havia se tornado o caminho para achar uma das melhores pessoas que passaram por sua vida.
[ ...... ]
Robin assistia a agitação mental de Bonney enquanto a mesma mastigava freneticamente alguns de seus sanduíches. A rosada ainda não havia se acalmado, e jogava olhares feios para a ruiva que conversava alto com a amiga de cabelos azuis, um pouco mais quieta e menos chamativa.
– e quero ir embora pra minha casa, não agüento mais esse lugar –
– seria suspeito demais ir embora agora, aproveite a pouca companhia feminina que consegue te aturar e divirta-se conosco – respondeu Robin de modo seco e sereno.
Jewerly se impressionava como a morena conseguia manter a calma em uma situação como essas.
Logo os olhos misteriosos e calmos de Robin avistam um par de homens adentrando o recinto, homens jovens de rostos conhecidos. O que seus companheiros de escola faziam ali?
“eles não costumavam se odiar? Eu me surpreendo cada vez mais com as pessoas huhuhu”
– e como se tudo não estivesse ruim o suficiente ... – reclama Bonney, mais tensa ao avistar Zoro.
– Ele não teria vindo aqui se soubesse que alguém relacionado ao Smoker está rondando o local, buscando motivos para nos encrencar – Robin respondeu de modo lógico. O que intrigava a morena era o fato do moreno de madeixas verdes parecer ignorar o perigo que o rondava. Aparentava estar completamente focado no moreno à sua frente na mesa para dois.
“Então o Cook-san entrou para a turma?” ela perguntou a si mesma, ponderando as possibilidades.
[ ... em uma mesa próxima]
– é sempre bom vir a lugares diferentes, além de cozinhar, eu gosto de provar das combinações de temperos dos mais diversos cozinheiros, sempre aprendo coisas novas – Sanji explicava com um bom humor estranhamente fluente enquanto Zoro lhe escutava com atenção, coisa que o espadachim não costumava fazer com as pessoas.
Não costumava ficar completamente distraído também, ou focado em um único objeto, seus instintos geralmente foram aguçados para analisar o local como um todo.
– é sempre bom provar de novas sensações – ele replicou enquanto puxava a cadeira para sentar-se em fronte ao loiro, naquela pequena mesa reservada apenas para dois.
– esse dilema tem me feito balançar muitas coisas em minha vida, ultimamente – ele murmurou, enquanto apagava o ultimo cigarro da noite em um cinzeiro.
– ouvi dizer que quando se é jovem, não se deve pensar muito nas coisas – Zoro falou, com um ar mais sério que o normal.
– e quem te disse isso? A tartaruga velha ou o guaxinim naquele desenho para crianças que você assistia na minha televisão? – indagou Sanji, de modo zombeteiro, o moreno das madeixas esverdeadas logo reparou o tom de sarcasmo e decidiu, por sua vez, surpreendê-lo.
– na verdade... Eu li em um livro – anunciou.
– O QUE? – Sanji pergunta, desabando-se em risos forçados logo após – você? Lendo? –
– sim, eu lendo... Disseram que não combina comigo –
– ler? Não combina mesmo... – concordou em disparada, ainda com seu tom chacoteador fluindo.
– tanto ler como pensar demais sobre esse tipo de assunto ... veja, eu sempre detestei aulas de literatura e filosofia, porém, coisas acontecem em minha vida que me deixam muito confuso, logo lembrei de um dia em que eu ouvi que nos livros, havia a resposta para a maioria das perguntas, logo me enchi de esperanças que houvesse uma resposta para a minha –
– e qual era a pergunta? — indagou Sanji, curioso e com certa aflição.
– eu nunca soube ao exato, mas neste livro dizia que quando os homens envelhecem, tornam-se fantoches dos fantasmas das paixões passadas e dos arrependimentos –
– isso faz sentido – o loiro concorda, fitando o enfeite, localizado ao meio da mesa, como se viajasse e refletisse enquanto escuta as palavras do espadachim.
– logo minha dúvida se concretizou: o que posso fazer para não ser um desses velhos babacas e reclamões? – Ele disse, fazendo Sanji rir um pouco — logo uma duquesa velha e rabugenta perguntou à um sábio lorde “o que devo fazer para não ser este fantoche?” – interpretou Zoro, fazendo Sanji sorrir e mal acreditar que estava vendo a cena á sua frente. Roronoa Zoro refletindo sobre pensamentos de um livro.
– e qual foi a resposta, senhor literatura? – o cozinheiro responde, zombando amigavelmente.
– ele disse a ela que ela deveria repetir todas as loucuras de sua juventude... – ele fez uma pausa, como se jogasse a idéia no ar e logo a capturasse outra vez para remoê-la – disse que a juventude é uma jóia rara que não deve ser desperdiçada de maneira alguma, e que deve ser vivida sem arrependimento algum, que é a época de provar de todas as novas sensações possíveis... Odiar e amar intensamente, pois ela dura pouco e passa pela nossa vida apenas uma única vez –
– isso é ... fascinante – Sanji o encarava, pensativo ... até esqueceu-se de perguntar qual livro é este, adoraria lê-lo, parecia que ele obtinha as respostas que ele também havia procurando intensamente neste ultimo mês – então agora o senhor virou Cult? –
– não hahahaha – disse Zoro, quebrando o clima “Cult” e voltando para sua natureza normal – ainda sou aquele brutamonte burro que você julgou na saída da escola, na porta da sua casa e em vários outros momentos, eu apenas parei para tentar buscar algumas respostas –
– eu falo de você, mas ... eu também nunca fui muito chegado a livros, nunca fui culto e inteligente, me esforçava nas matérias da escola por querer chamar atenção de Zeff mesmo, aí acabou virando costume ... alguns livros realmente, tem coisas muito interessantes a dizer, queria ter o costume de ler mais frequentemente — .
– até eu mesmo acabei gostando – Zoro revelou.
– imagino você fazendo musculação em um braço enquanto lê Shakespare – Sanji pronunciou isso, rindo demasiadamente logo após. Logo o Roronoa fora contagiado pelo riso e admitiu-o ter sua graça nesta cena bizarra imaginada por aquela cabeça loira.
– “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” – O espadachim pronunciou, de modo repentino, Sanji o olhou, espantado, com os olhos azuis esbugalhados -... Sim... Eu andei lendo Shakespare ... sem fazer musculação ao mesmo tempo, mas eu li –
Logo ambos caíram em um riso profundo e gostoso, sem saber ao certo o motivo.
– você lendo – Sanji balbuciava entre as risadas – não consigo crer -.
– nem eu... Mas isso me parou para refletir por horas, sabe? Arriscar é o segredo de tudo –
– odeio afirmar isso, mas... Você tem razão – admitiu pouco antes de ficar quieto e centrar seu olhar para o telhado, como se tentasse lembrar de algo. Logo mais, pronunciou – “É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada. –
– então você também é Shakesperiano, ero-cook? –
– as damas adoram –
–aaaaah – Zoro bufou, como se surpreendesse com uma resposta a qual já esperava.
– trata de espadas e brutamontices, logo me lembrei de você – o loiro diz, pondo-se a rir outra vez.
– ainda não nos atenderam aqui neste restaurante? Terei que usar de espadas ou sorrisos? – Zoro brinca, rindo junto com o cozinheiro.
– nesse caso, sorrisos, Zoro... Violência é repudiada pela maioria das sociedades – ele fala, dando um de seus sorrisos charmosos, enquanto levanta o braço e acena para um dos garçons.
Uma mulher um tanto atrapalhada vem e atende aos pedidos diferenciados, um prato exótico e refinado para Sanji e uma porção de batatas fritas, hambúrguer e nuggets para Zoro, observava-se a diferença entre aqueles dois apenas pela comida. Logo a garçonete nova e pequena anotava o pedido enquanto segurava-se para não derrubar mais coisas pelo caminho.
Zoro a encarou por alguns instantes. Parecia um tanto familiar, porém logo sua atenção voltou para o loiro a sua frente.
– como se pode apreciar a diferença entre batatas fritas industrializadas e refrigerante? – Sanji indaga em tom de crítica.
– ouvi dizer que eles mesmos fabricam tudo o que servem aqui, desde os legumes até, eventualmente, as batatinhas – Zoro responde, sem preocupação.
– você não tem jeito mesmo – o cozinheiro desaprova-o.
– já estou acostumado com suas críticas, seu mauricinho de merda -.
– marimo besta –
– sobrancelhas de bigode-
– brutamonte idiota –
Uma pequena pausa tomou a troca de elogios de ambos para um sorrir para o outro de modo simpático e um tanto... Romântico?
Zoro debruçou-se sobre a mesa praticamente vazia, talvez com o objetivo não apenas de descansar os braços, mas sim de aproximar ainda mais seu rosto á face de Sanji, que agora se encontrava um tanto ruborizada.
A respiração do loiro ficou mais pesada, o mesmo começou a sentir seus batimentos cardíacos aumentarem de ritmo repentinamente. Logo sentiu como se uma carga elétrica lhe percorresse o corpo, em frações de segundo. Odiava e amava aquele sentimento ao mesmo tempo, todavia, nunca havia o sentido em tamanha intensidade como antes.
Zoro era diferente, todo beijo ou toda simples aproximação de rostos parecia a primeira, causava o mesmo nervosismo da primeira, e como a primeira, o fazia se apaixonar cada vez mais.
Tudo era como se fosse pela primeira vez.
Ambos não sabiam como agir. Zoro então se afastou e encostou suas costas no encosto do estofado confortável da cadeira, talvez feliz com a reação que tinha causado.
“Maldito” Sanji o amaldiçoava “Acho que o amo”
[na mesa ao lado...]
Um homem de porte grande e misterioso adentra o restaurante movimentado, cheio dos ruídos de pessoas batendo talheres e falando sem parar. Os garçons corriam de um lado para o outro, de modo ágil e rápido. Era difícil focar em determinada pessoa naquele local, tendo em vista que os serviços pareciam não serem tão eficientes e bons quanto a comida servida.
O “casal” na mesa próxima a janela que o diga... Conversavam quase que melodicamente e caiam em risos uma vez ou outra, parecia estar ambos se divertindo muito, mesmo com a demora da garçonete para atender ao pedido. O mesmo parecia ocorrer na mesa em que quatro belas moças sentavam-se, enquanto saboreavam um sorvete, pareciam estar ali há muito tempo, e uma delas aparentava estar dando severo trabalho e prejuízo ao restaurante... Ela comia por três pessoas, ou até mais. Tinha um olhar preocupado que rondava o lado de fora do recinto através da grande vidraça que refletia o manto negro e agradável daquela noite, protegendo os clientes da brisa fria, deixando apenas o clima noturno felicitar-los.
Apesar da evidente aflição da rosada, as demais pareciam divertir-se normalmente, até mesmo a morena alta, a qual tinha mais cara de observadora de todas.
“Mal imaginam o quanto estas crianças são pestinhas” pensou o homem enquanto fingia se concentrar em escolher um pedido no cardápio, ao mesmo tempo em que tentava concentrar-se em concertar o erro de outras pessoas ali, naquele local feliz e descontraído até demais para seu gosto rude e sério.
Logo, uma garçonete totalmente atrapalhada chega em sua mesa, cambaleando e gaguejando:
– p-posso anotar seu pedido, senhor? – ela indaga, ofegante e aflita.
– anote sim, desejo um pouco de ordem, disciplina e obediência, bem temperados e passados ao molho de empatia –
A moça pareceu não acreditar no que ouviu.
– c-c-como assim, senhor? –
– você me ouviu bem, Tashigi –
– OOHHHH, GENERAL SMOK... –
– SEJA DISCRETA pelo amor do santo deus – Smoker interrompeu-a, implorando.
– me desculpe – ela sussurrou – eu não resisti –
– não resistiu e deixou seu senso de justiça ultrapassar os limites outra vez, eu lhe disse que esta era apenas uma missão de investigação, sem ação alguma, mas você insis... –
– me desculpe, por favor, eu precisava ver mais de perto e ... –
Logo, Tashigi fora chamada para servir outra mesa, até mesmo para garçonetes disfarçadas o trabalho ali era árduo.
[na mesa perto da janela...]
A conversa entre aqueles dois jovens fluía como música doce em mãos de músicos talentosos inspirados. Conversavam sobre tudo e todos, riam e gargalhavam, trocavam insultos, porém, ambos sequer acreditavam que estavam apreciando a companhia um do outro. Como as coisas mudam...
– eu não acredito que ainda estou aqui – Sanji riu enquanto tomou mais um gole daquele refinado vinho que havia pedido.
– por quê? Eu me esforço para ser uma boa companhia e assim que você agradece? – Zoro fingiu indignação de modo sarcástico.
– porque eu te achava um babaca, e agora estou aqui conversando com você, apreciando sua companhia... Até que você não é tão mal – o loiro admitiu.
– pare um pouco ... escute – ele fez uma expressão séria, como se tentasse captar algum som baixo no ar.
– o que foi? – Sanji perguntou, curioso, ao mesmo tempo que procurava pelo misterioso som.
– são os ensinamentos da vida sussurrando “nunca julgue pelas aparências” – ele concluiu, fazendo Sanji ter vontade de acertá-lo com um soco.
– e eu pensando que fosse sério –
– mas é sério ... tire lições de suas experiências, até mesmo das fracassadas –
– estou tirando muitas desde que você chegou –
– ah é mesmo? – Zoro lhe lançou um olhar desafiador.
– sim, coisas como ‘Não deixe espadachins te seguirem no caminho para casa’ e ‘nunca dê carona para um espadachim bêbado de cabelos verdes sem senso de direção’ –
Ambos se puseram a rir deliciosamente.
– mas é sério – continuou Sanji recuperando o fôlego – aprendi neste ultimo mês que ... jamais devo descartar nenhuma possibilidade na vida... tudo é possível, tudo mesmo! – ele concluiu, deixando certa seriedade pairar sobre o ar.
– até mesmo ... – Zoro murmurou, baixando o olhar para o enfeite ao centro da mesa, como se pesasse com cuidado o que ia falar, com medo da resposta que podia obter -.
– até mesmo? – Sanji pediu continuação.
– até mesmo a possibilidade de você... – fez mais uma pausa misteriosa com a expressão mais serena de todas, com certa ansiedade no olhar – de você... Entrar pro time do Okama Way? –
Sanji tentou acertar um tapa no espadachim, porém sem sucesso, o mesmo desviara-se enquanto ria freneticamente. Logo o cozinheiro também caiu na risada.
A garçonete desajeitada chegou à mesa, esparramando o pedido de ambos os jovens, fazendo Sanji a encarar com um olhar um tanto espantado. Ela tinha trazido cerca de cinco ou seis pratos ao mesmo tempo.
Zoro ainda a achava estranhamente familiar. Tinha certeza que já vira uma pessoa tão atrapalhada quanto esta moça em algum lugar. Logo desviou sua atenção do que pensou ser um simples deja vú para o movimento rápido de Sanji ao impedir que a estranha moça derrube um dos pratos, pegando-o no ar habilidosamente.
– être plus prudent, mademoiselle – Sanji segura seu fino braço com leveza ao toque, pronunciando de modo doce as palavras em seu francês quase fluente.
A garçonete encara Sanji com quase o mesmo espanto que Zoro, só que ao contrário do espadachim, ela logo se retira do local, como se estivesse extremamente nervosa e cheia de ansiedade.
Sanji sentou-se outra vez com um sorriso charmoso estampado em sua face, satisfeito por ter mexido com o emocional da moça, até encarar um olhar estranho vindo do maior, um misto de indignação com... Ciúme?
– “Nos ciúmes existe mais amor-próprio do que verdadeiro amor.” – o loiro citou, desta vez rindo demasiadamente em ver a reação de maior indignação do moreno de madeixas esverdeadas. Parecia até estar um pouco corado. Vangloriava-se em pensamento por ser o único a conseguir arrancar tal reação de uma pessoa com sentimentos de pedra como o Roronoa.
– você se acha o garanhão demais, sobrancelhas de bigode –
– o que posso fazer se sou irresistível às damas? – ele indaga, desvanecendo-se.
– não existe ciúme nenhum, quem tem o ego gigante aqui é você – Zoro bufou, enquanto enchia a boca de batatas fritas e ketchup.
– ambos temos nossos egos gigantes – ele dá uma elegante primeira garfada em seu prato refinado – eles apenas têm maneiras diferentes de se expressar-.
– “Os homens de poucas palavras são os melhores.” – Zoro citou.
– Shakespare mais uma vez... Concordo plenamente, e gosto desta sua nova forma de ego... Um tanto mais moderada e agradável à companhia –
– meu ego nunca diminuiu, Sanji – Zoro pronunciou tais palavras com a boca cheia de batatas fritas – fui sempre eu quem correu atrás de você o tempo todo, tentando criar uma amizade... E fora sempre você quem insistia em dizer que eu era um estorvo em sua vida – concluiu.
– então é como eu pensei... Fui eu quem me tornei mais agradável, com um ego menor –
– de nada – o espadachim disse, provocando-o.
– não seja tão convencido, marimo – Sanji disse, revirando os olhos, porém, o loiro não queria admitir que devia agradecimentos ao Roronoa, de fato. Mal sabia ele que esta talvez fosse a ultima mentira pronunciada na noite.
– não estou me convencendo – ele riu um pouco ao falar – apenas acho que desde o dia em que te conheci, sempre achei esse seu apego por mulheres um tanto ... exagerado –
– Zoro, mulheres são maravilhosas, são seres divinos e ... –
– pare e pense de modo racional, protetor do santo Graal! – Zoro o interrompeu de imediato em sua adoração cega à imagem feminina.
– você anda lendo demais pro meu gosto – Sanji fez uma cara feia e parou para escutar-lhe.
– a maioria das coisas nas mulheres são pura ilusão, elas andam muito artificiais desde os primórdios da humanidade. Elas admiram a crueldade absoluta, mais que tudo, possuem admiráveis instintos primitivos, mesmo depois de emancipadas, estão sempre a procura de um senhor ... – refletiu.
– é isso tudo o que você pensa das mulheres? Elas continuam divinas e dignas de todo o respeito –
– dignas de respeito sim, mas sem serem livres do egoísmo humano –
– eu não sei como não consegue amá-las – Sanji pronunciou, fingindo uma indignação exagerada.
– talvez eu não acredite tanto no amor –
Uma pausa se fez entre os dois. O silêncio cortou o ar, invadido pelas demais conversações no local, e um feixe de gelo atravessou o coração do loiro, o qual bateu mais rápido. Como assim aquele marimo idiota não acreditava no amor?
– mas o amor move mundos, ele move ... –
– move sim, mas entre pessoas sem relações sanguíneas, encontrar o amor é mais difícil que encontrar um diamante muito raro ... quero dizer, é extremamente raro algo que dure para sempre, eu desacredito muito tudo isso –
– você não se acha bom o suficiente para achar essa relíquia tão valiosa? – Sanji disse, em tom de desafio.
– só não acho que tenho sorte o suficiente ... bom, achava, muitas coisas estão me fazendo mudar de opinião –
Um sorriso surgiu nos lábios do loiro, um dos mais sinceros e espontâneos.
– temo que devo dizer o mesmo, estou vivenciando coisas que chegam perto disso ... desse tal de amor –
Zoro sorriu, feliz por ser compreendido.
– e você PRECISA definitivamente parar de ler tanto, marimo, faz mal pra sua cabecinha – o cozinheiro debochou, rindo um pouco.
– pode não parecer, mas eu me ofendia profundamente quando você me chamava de “estúpido como uma porta” ... eu apenas quis entrar no seu “nível” – ele gesticulou as aspas com os dedos, de forma irônica – mas descobri que seu “nível” nem é tanto, usa da arte da literatura como pretexto pra conquista, ero-cook –
– e de que mais vive um homem se não for para conquistar? – Sanji ergueu sua taça de vinho enquanto pronunciava tais palavras poeticamente.
Zoro se dera por vencido, apenas esta vez. Gostava muito do rumo que esta conversa estava tomando. Poderia ficar ali a noite toda. A companhia daquele garoto era a melhor, definitivamente.
[ perto dali ... ]
As garotas conversavam em alto e bom tom, enquanto Tashigi as observava de longe, esperando que o pequeno grupo de delinqüentes juvenis aprontasse alguma esta noite. Estava atenta e alerta, pronta para julgar e condenar por qualquer deslize, qualquer que fosse ele.
Viu a ruiva ficando boquiaberta ao localizar o alvo alternativo da “missão” de cabelos verdes, sentado junto a um loiro, com o qual conversava tranquilamente.
Logo ela levantou, e partiu em direção a mesa dos dois, parecia querer tirar algum tipo de satisfação.
A moça comilona de cabelos rosados pareceu aproveitar-se da oportunidade de distração, e ao levantar-se e dar alguns passos em direção ao caixa principal, Tashigi foi movida por um impulso sem explicação, pareceu esquecer que seu chefe a observava de perto, extremamente fulo com sua desobediência.
A abordagem da rosada chamou a atenção da ruiva e dos dois cavalheiros sentados a mesa. Olhares voltaram-se para a morena magrela e atrapalhada, e em uma questão de segundos, o maior, de cabelos esverdeados havia puxado o ruivo para fora daquele restaurante, deixando algumas notas em cima da mesa.
Pareciam fugir de uma manada de monstros, corriam como se o mundo estivesse acabando.
A ruiva tentou persegui-los por alguns passos, mas logo desistira.
Zoro não queria ficar mais ali. Não queria ter que encarar Nami, muito menos Tashigi ou Smoker. Apenas precisava dizer a Sanji toda a verdade.
Ele o amava.
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