Foi numa tarde que tudo aconteceu muito rápido, sem aviso. Bom, para Flores não era tão sem aviso, mas com toda a certeza que tinha, o acontecimento pegou Hector de surpresa.

Estavam conversando sobre a exposição que Hector faria de algumas de suas pinturas dali a alguns dias (ou melhor, discutindo se deveriam conversar sobre ela ou não para não causar constrangimento a Flores) quando uma voz masculina interrompeu, sem nenhuma cerimônia:

— Hector? É você mesmo?

O clima, então, que vinha mudando paulatinamente ao longo das últimas semanas, virou subitamente. Em um momento Hector estava ao seu lado, afagando seus cabelos perpetuamente bagunçados; no outro, gritava, já a alguns passos de distância de onde estivera segundos antes:

— Themas! Você está mesmo vivo, os boatos eram verdade!

Flores não precisava enxergar para saber que a reunião entre os dois era extremamente calorosa, com um abraço longo e apertado. Já havia escutado menções a Themas algumas vezes ao longo do tempo que estava junto de Hector; Themas, seu irmão gêmeo que havia se sacrificado em DW para que ele pudesse fugir e viver uma vida digna em MDN. Themas, seu adorado irmão que temia estar morto, pois nunca se sabe o que acontece aos moradores de MDN em DW.

Algo pesou no coração de Flores naquele momento e ele se sentiu deixado de lado. Os irmãos agora conversavam com vozes exaltadas e Hector insistia para que Themas ficasse em sua casa, tomasse um chá, faz mais de dez anos que não nos vemos, não é mesmo?

—… mas não posso ficar. Eren, Orfeu, Heleno e as outras crianças que ajudei a resgatar dos Centros de Treinamento Juvenis precisam de abrigo também e imagino que não tenham espaço numa casa só de vocês dois.

— Claro que temos, não temos, Flores?

Flores precisou de todo o autocontrole que tinha em seu ser para não fazer uma careta, pois imaginava que todos os olhos presentes deviam ter se repousado sobre si.

— Acho que se abrirmos espaço no atelier… Também podemos pegar emprestados uns colchões com os vizinhos em troca de algumas das frutas da horta...

— Viu, Themas? Eu disse… — A atenção de Flores se desviou do papo furado entre os dois quando sentiu a presença de alguém ao seu lado, sentado onde antes estivera Hector.

— Você não parece muito feliz com a presença do famigerado irmão gêmeo do seu amor — debochou uma voz indefinida e Flores soube que não era humano.

— Um Transcendente? Que interessante… — Recostou as costas no banco e virou o rosto para onde acreditava estar o ser a quem se dirigia. — Não estou muito feliz, mas deve ser porque não sou particularmente um grande entusiasta de mudanças. E você? O que faz longe de seu criador?

— Ele está sendo consolado pelo irmão mais novo. Fugiu de um estupro, mas teve que deixar a irmã mais velha em DW.

A palavra “estupro”por si só já era medonha o suficiente para que Flores sentisse o estômago embrulhar e precisou se inclinar para a frente, ofegante.

—… Você não viu muita coisa pesada na sua vida, não é mesmo?

— Eu não vi nada, sou cego. — Talvez não fosse o momento para fazer piadas, mas ainda não havia processado direito que algo como um estupro pudesse ser corriqueiro em DW a ponto de um Transcendente usar a palavra com tanta calma, como se falasse do tempo.

— Hahaha, você até que tem senso de humor! — Sentiu dedos suaves afagarem suas costas e fios de cabelo roçarem em seu ombro. — Mas não se preocupe. Não vou mais alugar seus ouvidos com ideias tenebrosas. Acho que seu namorado e o irmão chegaram a um acordo. Se quiser saber mais sobre os horrores de DW, no entanto, só chamar por “An”.

E a presença se havia ido, deixando para trás um gosto amargo como sangue.

— Flores, quer ajudar com as malas? — Hector veio perguntar, com um afago em sua bochecha.

Flores fez que sim com a cabeça, embora seu corpo gritasse para mandar todos eles para o Inferno.