Notas iniciais
Espero que gostem!

Acordei no meio da noite com uma buzina vindo da rua. Olhei para o relógio que marcava 4 horas da manhã. Tinha exatas 3 horas para dormir. Adorava essa sensação de acordar no meio da noite e perceber que ainda tenho tempo de sobra para continuar dormindo, um sentimento de alívio vindo da minha mente boba. Eu havia passado os últimos dias acordada exatamente nesse horário, pois era nessa hora em que ele costumava me mandar uma mensagem de ‘boa noite’. Era tão ridículo ficar acordando sempre nesse horário esperando o celular vibrar mesmo eu sabendo que ele não teria nem mais meu número no celular, nem meu perfil em nenhuma de suas redes sociais. Como se eu estivesse presa, enjaulada. E meu único companheiro de cela era o arrependimento. Triste, mas real. Quando decidi me mudar, deixei de lado às exigências da minha casa e troquei a vida de Londres por uma vida sem freios que só segue na quinta marcha em Nova York. Nós éramos como pássaros, dentro de uma gaiola. A nossa gaiola. Troquei meu primeiro amor, talvez o único, pelos meus sonhos de uma caloura que não sabe nada da vida. Troquei seu cheiro de perfume importado, pelo cheiro de fumaça vindo dos carros que estragavam no meio do Madison. Troquei seu sorriso doce pelo mau humor dos meus vizinhos. Troquei suas carícias por noites vagas. Troquei seus elogios por vestidos de marca. Troquei você por um carinha da faculdade que mal sabe meu nome, mas com certeza se lembra da cor do batom que eu estava usando. Troquei nosso amor e não tem uma madrugada em que eu não acorde pensando em como fui idiota de abrir a gaiola e voar. Egoísmo da minha parte? Talvez.

Eu nunca parei de escrever sobre ele. Ele continua nos meus textos, mas não como o protagonista forte e sarado que eu queria que fosse interpretado pelo Tom Welling quando meus textos virassem filme. Sim, eu acreditava nisso. Ele mesmo dizia que eu escrevia tão bem que levava jeito para ser escritora. Naquela noite do verão passado eu prometi que minhas últimas palavras seriam dele. Mas repentinamente ele não fazia mais o papel protagonista, ele havia virado uma vírgula, talvez reticências, algo que ficou vago, um ator coadjuvante. Eu não queria que fosse assim, me doía perceber isso depois que lia meus textos no meio da tarde com folhetos e folhas de jornais no meio da escrivaninha e a bagunça do meu quarto com latinhas de coca cola meio tomadas. Eu não sabia nem mais como lhe descrever, não sabia mais seus gostos, nem se ele havia mudado o grau dos seus óculos. De qualquer forma ele permanecia aqui.

Mas eu precisava alinhar meus pensamentos, me concentrar. Hoje seria um dia importante: minha entrevista para uma revista de moda. Eu estava sentada na cafeteria à duas quadras do meu prédio. Depois de ter saído da faculdade e ter recebido metade da nota por um trabalho que eu passei uma madrugada toda fazendo, quando vejo um quadro com um anúncio bem convincente, que era tapado pelos cabelos emaranhados da mulher que cuidava do caixa. Me levantei e fui até ela:

— 5 dólares. – Sua voz era tão enjoativa e piorava conforme ela mascava o chiclete sem gosto, mas era disfarçada pela pinta gigante no meio da bochecha.

Tirei algumas notas de um dólar da minha bolsa, que estavam totalmente amassadas parecendo algum tipo de origami. Pedi licença educadamente para a mulher e li atentamente o anúncio: “Revista Vogue, uma das maiores revistas de Nova York – eles enfatizaram o maior para fazer uma pequena jogada de marketing – está à procura do seu Lobo Alfa, alguém que arrisque e escreva coisas que nenhuma mulher da alta sociedade está acostumada a ler.”

Voltei pra casa em passos lentos, tentando decifrar aquele maldito anúncio. Entrei no elevador e o velho rabugento nem olhou na minha cara. Anti socialismo burguês, que eu já deveria ter me acostumado. Um mês em Nova York e nada. Cheguei no meu andar e levei 5 minutos para achar a minha chave cheia de chaveiros do Stars Wars e de penduricalhos chamados “artesanatos” que eu comprei em uma feirinha em Bristol dois verões passados com a minha mãe, três por 10 dólares, achei justo. Abri a porta de madeira e comecei a investigar, Roberta ainda não havia chegado em casa, passei pela sala / corredor / meu quarto, finalmente. Entrei no meu quarto e o vi naquele estado: restos de comida chinesa, roupas meio dobradas em baixo da cama, minha coleção de CD’s na estante com ursos de pelúcia da Disney pedindo socorro, livros mofados com livros da faculdade no meio da última "boa pro final de semana” na escrivaninha que era branca, mas estava marrom pelo café derramado nas noites em claro, e cartões postais escritos pela metade que eu já deveria ter enviado para os meus pais, a penteadeira com cremes de quinta pela metade e perfumes de bebê que eu usava pra disfarçar a minha idade, garrafas de ice da última escapada no canto do quarto. Chegou a me dar sono ver toda aquela bagunça, larguei a bolsa marrom de franjinha no chão e me joguei na cama de casal que havia servido de abrigo só pra mim. Lençol branco, travesseiro branco, edredom branco. Estava tudo tão embolado que eu não sabia distinguir o lençol do travesseiro. Sacudi o edredom e consegui deitar, fiquei alisando meu próprio cabelo até receber um sinal.

Como eu não havia pensado nisso antes? Era tão óbvio. O anúncio da cafeteria estava no Forest Hills no Queens, o subúrbio. A verdade nua e crua é que a Vogue precisava de alguém do subúrbio que dissesse o que pensa das mulheres ricas de Manhattan e seus poodles com cheiro de vinho francês. Aposto que esse anúncio estava espalhado por todos os bairros suburbanos de Nova York, a Vogue havia saído à caça do Lobo Alfa. Eu caloura na faculdade de Nova York cursando jornalismo com meus textos e músicas mal terminados, não vi oportunidade melhor de ganhar um salário dizendo o que eu penso de um jeito muito fácil.

E hoje, era a tal entrevista. Haveria muitas pessoas disputando pela vaga, afinal, se tratava da Vogue e eu mais do que todos precisava de um salário fixo, já que o dinheiro que os meus pais me mandavam não dão nem pra pagar os meus vícios ingleses.

Voltei à dormir e o meu estômago se revirou de nervosismo. Sempre vou para debaixo do edredom, até o sono me chamar, parece que fujo da realidade pensando em como seria a minha vida sem esse turbilhão de escolhas que eu fiz precipitadamente. Mas como sempre o despertador nos chama de volta, ele fala com a gente, grita, nos puxa pro mundo até sufocarmos e é assim todos os dias. Dormi tranquila, mas meu inimigo Sr. Despertador me chamou pra guerra e eu não tenho munição, nem um exército.

Cruzei o corredor, vi Roberta dormindo pela porta do quarto entre aberta. Tomei um banho, coloquei um vestido estilo retro salmão com um cinto fino que tirei de uma blusa de bolinhas, um sapato de salto preto, prendi meu cabelo em rabo de cavalo para disfarçar o tom loiro dos meus cabelos longos com a cor do vestido, minha maquiagem aparentava ser de alguém que está de bem com a vida e não da pessoa que troca o dia pela noite. Me olhei no espelho da minha penteadeira e vi o quanto eu mudei: mudei o corte de cabelo, deixei minhas unhas crescerem, aprendi a andar de salto, sei combinar o fino com o chique, não saio mais de casa sem o velho batom vermelho, decorei as frases do Bob Marley, virei uma pessoa ocupada com uma agenda lotada, tenho mais amigos do que eu costumava ter.

Foi aí que eu percebi o quanto estava errada desde o momento em que cheguei aqui. Fico pensando nele e em como ele deve ter mudado e não reparei que ele continua lá, em Londres levando a mesma vida que ele planejou pra nós e quem mudou foi eu. Eu era a complicada da relação, pessoas complicadas nos prendem, nos viciam e exigem demais, querem explicação pra tudo onde não há. Já ele era o simples, pessoas assim nos deixam ir onde devemos ir sem precisar de desculpas esfarrapadas e nos aceitam assim, simplesmente.

Talvez seja por isso que dizem que os opostos se atraem. Eu, com as minhas teorias falhas logo cedo, 8 horas da manhã. Saí de casa com a minha bolsa que não era de marca, direto pro metrô. Não comi nada, nada passaria pela minha garganta. No metrô lotado aquela música dos The Drums entrou na minha cabeça, como se eu estivesse num filme, algumas pessoas dormem no banco do metrô e eu fico me perguntando como elas percebem que já está na hora de descer? Ou como conseguem dormir com esse tanto de gente dentro dessa caixa gigante. O homem de 40 anos que retorce o pescoço tentando tirar um cochilo me faz rir até eu perceber que está na hora de descer. Cheguei à Times Square com exatos 10 minutos para achar o número 04. Com sorte achei o prédio de edição à tempo, entrei pela grande porta e uma secretária me encaminhou até uma sala lotada de pessoas de tudo quanto é estilo: desde o despojado até o terno. A mulher pegou o meu currículo e eu sentei no sofá de couro do lado de uma mulher que cheirava a cigarro. Na sala havia uma TV de plasma ligada em um canal que passava a matinê de quarta, e também tinha uma porta, que levaria até a pessoa que estaria fazendo a entrevista.

A ordem de chamada era alfabética. Quando começaram a chamar as pessoas com letra A, minhas mãos começaram a suar e o meu estômago se revirou e eu dei um suspiro que fez todas as pessoas da sala ouviram. A maçaneta da porta virou, tranquei a respiração:

— Alice Morris. — um homem com um cavanhaque, com óculos de grau redondo e em um terno da Dolce & Gabbana segurando uma prancheta transparente havia me chamado.

Levantei do sofá, fechei a porta vendo a expressão de nervosismo das pessoas que continuariam na sala. Havia uma mesa redonda com as fotos e currículos de todos os candidatos em cima, fui até a mesa e me deparei com o currículo de uma mulher ruiva, com uma expressão bela na fotografia. Sentei na cadeira a girando de leve e o homem fez o mesmo. Ele juntou as mãos num gesto de oração, enquanto as minhas estavam encharcadas.

— Você é de Londres, certo? — afirmei com a cabeça, enquanto ele lia o papel — Cabelos loiros, olhos azuis, 1,75 de altura e 55 quilos. Você não tem nada de lobo não é mesmo? – ele soltou uma risadinha esganiçada e me fez rir também, era um elogio certo?

Ele tinha o rosto longo em forma de triângulo, estava bem vestido e usava tanto perfume que me deixava meio tonta.

— Então... – ele voltou a falar. – O que você faz? É formada no que?

— Não sou formada ainda. – um ponto negativo. – Mas faço faculdade de jornalismo, à um mês.

— Hm... – o “hm” mais longo que eu já ouvi na vida. – Então você não tem experiência? Já trabalhou alguma vez?

— Ajudar os meus pais à venderem as coisas no quintal no final do ano conta? – eu abri um sorriso largo e o homem não fez expressão alguma, ajeitou os óculos e continuou lendo o papel, eu abaixei a cabeça e fiquei encarando a mulher da fotografia. Eu não estava cooperando, mas pelo menos estava sendo sincera.

— Você poderia se descrever rapidamente pra mim? – ele colocou o papel sob a mesa e ficou me encarando.

“Bom, pra começar sou extremamente extrovertida. Eu gosto de fazer as pessoas rirem, também sou tímida com as pessoas desconhecidas, falo demais, gosto de colecionar fotografias, às vezes falo de boca aberta, lambo o prato depois que termino de comer, toco violão e bebo socialmente. Não sou a pessoa mais interessante desse mundo e nunca zerei qualquer jogo no playstation. Tenho 1001 manias e uma delas é ficar criando histórias antes de dormir. Sou exagerada e dramática, morro de preguiça de escovar os dentes antes de dormir. Faço turnês no chuveiro ao som de The Beatles. Escrevo textos sobre qualquer coisa, até sobre o atendente nerd da padaria que tem alface entre os dentes. Eu choro antes de dormir. Me mudei pra cá, morro de saudades da minha família e larguei a única pessoa com quem eu daria certo pra estar aqui nesse momento, então escreve meu nome nessa ficha idiota e me contrata logo.”

— Sabe... – minha voz era angelical, eu queria parecer fofa mas ao mesmo tempo madura o suficiente para ser contratada – me mudei pra Nova York com esperança de ter o trabalho dos sonhos, eu tenho 19 anos. Não sou muito experiente, mas meus textos são sinceros. Posso escrever sobre qualquer coisa, — eu poderia escrever um texto até sobre você e essa sua cara de manga olhando pra mim — comecei aos 13. Leio livros, jornais e revistas e tento ficar por dentro de todos os assuntos.

— Alice, você tem apenas 19 anos. Não acha que é muito nova comparada com os outros candidatos que estão lá fora? – ele se inclinou na mesa ficando mais perto e começou a me fuzilar mais ainda, minha vontade era de falar um longo e sonoro “Não, seu burro!” mas eu era muito educada pra isso. Afinal, o que ele estava querendo dizer com aquilo? Que foi perda de tempo eu ter vindo nesse lugar? Não é preciso experiência pra escrever um texto decente, se você tiver talento e boa vontade já conta.

— Talvez eu seja. Mas diferente das pessoas que estão lá fora, eu sei exatamente o que vocês querem. Vocês não estão à procura de uma pessoa que entenda de moda, de uma mulher chique e bem sucedida. Vocês querem alguém que fale o que pensa, que não precise de roupas pra isso. Talvez o meu vestido e a maquiagem não aparentam, mas isso é só a casca. Eu tenho muito à oferecer. Só de te olhar sei exatamente o quanto está entediado entrevistando pessoas tão bem vestidas e aparentando ser o que não são. Sei também que seu chefe irá te demitir se você não achar alguém que esteja à altura, só pelo tom da sua voz eu vejo o quão desesperado você está. – ele mudou a feição, viu que finalmente aquilo tudo estava se tornando interessante – Passou algumas noites em claro, suas olheiras são gigantescas. Não que eu me importe com isso, já passei algumas noites assim e não me arrependo. Você tem trabalhado tanto não é? Deveria tirar algumas férias... – acabei falando mais do que deveria, mania absurda de não controlar a boca.

— Bom, você só pode...

— E-eu não queria ofender, mas talvez tornar essa conversa mais interessante seria o ponto chave para você me contratar, não acha? Além disso só uma pessoa com talento pra escrita é capaz de perceber tantas coisas em apenas um gesto. – meu tom de voz era irônico.

— Isso já foi o bastante. – ele estava um pouco irritado, acho que ele deve ter gostado disso tudo no final. Outrora eu havia tirado o seu tédio e perdido o meu tempo invés de estar no Central Park nessa manhã com Roberta reparando nas pessoas que passam.

Levantei da cadeira desamassando o vestido com as mãos e dei o melhor "Bom dia" que eu consegui, delicado e sutil.

Notas finais
Comentem! :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.