In Another Way
1 Que Aniversário
Notas iniciais
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Aqueles típicos casais de filmes e seriados de televisão amam uma boa desculpa para passearem de mãos dadas sendo ultra melosos em um parque ao pôr do sol ou de noitinha. Andando pelos caminhos de pedras, passando pelas pontes do lago, sentando-se em bancos para olhar as árvores...
Essa gente que escreve tv tem algum tipo de problema sério.
Ou nunca na vida pisou em um parque logo após o pôr do sol, porque dali onde estava, sentado no banco, em ótima posição para observar as árvores, Emmett Swan só via sombras medonhas, possíveis locais de estupro, ótimos lugares para desovar cadáveres e, é claro, o motivo de estar ali: seu alvo.
Homem, branco, na faixa dos trinta anos, procurado por pensão alimentícia, incitação de menor e assédio sexual. Não era grande coisa, era bem pão com ovo na verdade, já pegara adolescentes com fichas piores que essa.
O problema que o manteve sentado naquele banco há quase uma hora: Seu alvo estava acompanhado de outra pessoa. Na maior parte das vezes, Emmett não tem problema em pegar um alvo assim – a não ser se o cara for muito grande, ou aquela vez do lutador de MMA – mas atacar dois indivíduos de uma vez é uma coisa que deve ser bem pensada.
O plano que tinha até agora era: Chegar e dar voz de prisão – procedimento padrão, infelizmente – se ele se entregar, ótimo; se correr, o pegaria, esse tipo de pessoa raramente é rápido; mas se ele resistir e atacar... Pode ser um problema. Ambos os homens não são o que ninguém chamaria de atlético, mas eram dois. E isso não é um filme de super herói. Não dá para lutar contra duas pessoas ao mesmo tempo.
E realmente não tinha tempo de pensar em algum plano de ataque ou coisa do gênero, visto que os homens estavam se levantando e indo embora. O caçador de recompensas não perdeu mais nenhum segundo e andou até os indivíduos.
“Ei, você, o de moletom.”
O alvo o olhou de cima a baixo, no mínimo tentando descobrir se era um policial. “Posso ajudar?”
“Pode. Você pode facilitar a vida de todo mundo e se entregar, Liam Paux, eu precisava daqueles sete mil....”
Os olhos do homem não poderiam ficar maiores sem cair do crânio, o alvo empurrou o colega com força na direção de Emmett e saiu correndo, Swan se recuperou rápido, tirando o outro homem do caminho, e seguindo o alvo o mais rápido que conseguiu. Saindo da calçada, desviando de árvores, buracos, troncos caídos e pedras eles se aproximavam rapidamente do portão do parque quando Emmett conseguiu chegar perto o suficiente para pular no meliante e derrubá-lo no chão.
Algemou-o e, com certa dificuldade – o cara se mexia mais que cobra mal matada, o colocou no banco de trás de seu carro, levando-o para a delegacia para receber sua recompensa. A viagem foi bem mais tranquila depois de Swan ter desmaiado o alvo.
Os procedimentos padrão aconteceram sem problemas: Levar o fujão para a delegacia, apresenta-lo lá, puxarem a ficha do cara, o caçador assinar os papéis sobre a captura do foragido e ter o dinheiro depositado em sua conta e ir para casa. Bem, menos essa última parte, um dos delegados mais antigos da delegacia, um que parece sempre estar ali quando Emmett entrega uma recompensa resolveu puxar assunto.
“Swan... Vai pra casa... Só você estaria aqui num dia desses.”
“Só eu preciso de dinheiro nesse país então...”
“Digo – Bah, deixa, não adianta falar nada pra você não é?”
“Não costuma funcionar... Não.”
“Só me faça um favor então: Tá cedo ainda. Aproveita um pouco, ok? Aqui, me disseram que esse é muito bom, num bairro bom, onde não acontece muita coisa.” Disse entregando um cartão ao loiro, quem olhou do cartão para o delegado com uma sobrancelha erguida.
“Eu tô cansado, com sono, irritado e com dor. Só quero ir pra casa e beber até desmaiar, a última coisa que eu quero na vida agora é uma droga de um strip club, ok?”
“M – “
“Boa noite, Korsak!”
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Depois de uma fuga rápida da delegacia, Emmett dirigiu até uma loja de conveniência perto de sua casa, onde comprou uma garrafa de um amado conhecido seu, Jose Cuervo e, só para garantir, do colega Johnnie e, claro que não podia faltar hoje, um cupcake e uma velinha.
Chegou em casa, pendurou o casaco e tomou uma dose de tequila antes de encarar o cupcake por alguns minutos até acender a velinha.
Aniversários nunca foram sua data favorita. Nunca houve motivo para serem sua data favorita: Crescer no sistema de adoção nunca dera oportunidade de comemorar o dia, na verdade, só descobriu o próprio aniversário aos seis anos quando uma das crianças mais velhas tiraram sarro dele por ser aquela criança que foi abandonada numa rodovia; nunca teve tempo de celebrar como adolescente, correr de uma casa e outra e procurar meios de se sustentar faz acaba com o tempo de uma pessoa; e entre estar preso e dar um giro de cento e oitenta graus na própria vida, seu aniversário tinha quase nenhuma importância.
Não que ele não reconhecesse seu próprio aniversário, ou que a data passasse batida, não. Na verdade foi uma das poucas coisas que guardou de sua outra vida. A vida de antes.
E era nisso que pensava ali olhando para o cupcake que acabara de acender, em como mesmo tudo sendo tão diferente de antes esse dia insiste em ser a mesma coisa de sempre – sozinho, com um cupcake de loja de conveniência. Talvez devesse ter aceito a proposta do delegado.
Não. Aquilo seria só dor de cabeça.
Ninguém merece passar o dia de hoje com ele. Tem noção disso.
Mas, mesmo assim....
Só não queria estar mais sozinho...
Soprou a vela e, como mágica – não seja ridículo, mágica? – a campainha tocou. Claro que o universo zoaria com ele fazendo a campainha tocar logo depois dele fazer um pedido daqueles... Bem que poderia ser a vizinha do andar de cima, de lingerie segurando um bolo enorme de nuttella... Mas, conhecendo sua sorte, seria a vizinha do lado querendo açúcar ou algo assim porque acordou essa hora com vontade de fazer bolo pro neto...
Ou pior ainda, uma porra de uma criança. Na porta de seu apartamento. Na porta de seu apartamento às dez da noite. Uma criança. Onde colocou o tylenol mesmo?
“Hey – “ De repente viu toda a confiança sumir da criança e seus olhinhos esperançosos e extremamente felizes se tornarem confusos e aflitos. “An... Uh... É que... Emma, Emma Swan se encontra...?”
Sabe aqueles momentos em que o mundo pára por alguns instantes antes de voltar com velocidade máxima e te acertar que nem um chute na cara?
Esse é um daqueles momentos.
E, com toda a paciência e força de vontade que conseguiu, olhou o menino nos olhos antes de perguntar com a voz ligeiramente trêmula.
“Onde ouviu esse nome?”
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Depois de colocar o menino para dentro e dar um copo enorme de suco de laranja para ele, teve alguns instantes para pensar:
Aonde essa criança pode ter descoberto esse nome? Melhor ainda, como essa criança descobriu esse nome e o associou com esse apartamento? Quem o mandou? Será que ele sabe de algo importante? Ele pode estar envolvido com aqueles coreanos de Nova York. Não, é só um menino. Se bem que já vira aqueles coreanos usarem hamsters como assassinos treinados... Não sentia que esse era o caso.
Emmett com certeza não passara os últimos sete anos de sua vida apagando cada migalha de existência de Emma do mundo para uma droga de uma criança catarrenta sair procurando por ela e chegar até ali.
Não existiam mais propriedades de nenhum gênero no nome de Emma, não existiam mais certidões de nenhum gênero no nome de Emma, não existiam mais contas de nenhum tipo associadas à Emma. Apagara completamente – pelo menos até onde a lei permitira – a existência de Emma Swan.
Não tem aonde essa criança tê-la encontrado.
Mas... Tem uma outra solução além dos mafiosos coreanos para Emma ter sido encontrada. Uma em que uma certa lei que dita que Emma Swan não pode ser completamente apagada do mapa – nem em caso de programa de proteção a testemunhas. Uma que arrepia todos os pelos do corpo do loiro. Uma que o faz querer, e muito, que esse moleque trabalhe para os coreanos.
Olhou nos olhos da criança e perguntou tão calmamente que ele mesmo se assustou.
“Onde ouviu esse nome?”
O menino mexeu o copo algumas vezes nas mãos. “É que... Bem... Ela é.... Ela é minha mãe e eu estou procurando por ela.”
O mundo parou por mais alguns instantes enquanto um dos medos da vida de Emmett se realizava bem na sua frente.
“Eu – Eu peguei esse endereço online e.... Bem, você sabe onde posso encontrar Emma Swan?”
Engoliu em seco antes de responder bem devagar. “Está olhando para ela, moleque.”
O menino piscou algumas vezes, inclinou um pouco a cabeça e cerrou as sobrancelhas. “Mas... Você é homem.”
“Quer uma medalha pela observação?”
“Mas... então...”
“Eu já fui Emma Swan, por isso você nasceu, e por isso você encontrou esse nome. Encontrou esse nome em um registro que você realmente não deveria ter acesso.”
O moreninho ficou olhando para o loiro por um bom tempo com uma expressão que Emmett não conseguia identificar. Mas não era o que estava esperando, o que estava acostumado a ver na maioria das pessoas que recebiam essa informação.
“Não vai falar nada...?”
“É que... Então eu te chamo de mãe ou de pai?”
Espantado é pouca descrição para como o loiro se sentiu. “Essa é a sua pergunta?”
“Bem, é uma pergunta importante. Eu não quero confundir ninguém.”
“Como você não está confuso agora moleque?”
“Confuso com o que?”
“Comigo. Você vem aqui procurando sua mãe, e me encontra.”
“Bem... Me pegou de surpresa, claro. Mas, acredite, comparado com de onde eu vim, minha mãe sendo homem agora não é tão confuso assim.”
“Huh?” Ok. O confuso agora era Emmett, esse moleque deve ter uma família de bons seres humanos, porque já encontrara várias pessoas mais velhas que esse garoto que automaticamente o tratavam mal depois de descobrirem isso. E não consegue parar de pensar que realmente fez a coisa certa ao dá-lo para adoção.
“Então, pai ou mãe?”
“...Eh.... Que tal Emmett mesmo?”
“...Oh.” Uma mistura de tristeza e decepção se mostrou nos olhos avelã da miniatura de gente e Swan se ajeitou em sua cadeira, estava começando a ficar desconfortável, não tinha muito jeito com crianças.
“Aliás, o que está fazendo aqui a essa hora?”
“Preciso da sua ajuda.”
Isso eriçou os instintos de caçador de recompensas do loiro, ninguém procura ajuda dele sem ser algo no mínimo sério. “Com o que?”
“Para quebrar uma maldição.”
A cabeça de Emmett caiu em suas mãos e ele soltou um gemido quase que de dor. “Você veio até a minha casa a essa hora da noite pra falar de maldições, moleque?”
“É sério!”
“É? Então tá na casa errada, os Winchester moram do outro lado da rua.”
“Você não entendeu! Você é a Salva – Você é o Salvador!”
“Vai pra casa.”
“Mas – “
“Vai pra casa.”
Quando o garoto não se mexeu, ou melhor, se remexeu na cadeira olhando para todos os lados possíveis do apartamento antes de seus olhos pararem nos de Emmett, o loiro sentiu um arrepio nas costas.
“Aonde você mora, moleque?”
“Meu nome é Henry, não moleque!”
“Aonde você mora?!”
“... Storybrooke... No Maine...”
Swan saiu bruscamente a procura do seu celular no balcão da cozinha. “Vou chamar a polícia.”
“Eu digo que você me sequestrou.”
“E eles vão acreditar em você porque eu sou sua mãe biológica.” Disse colocando o celular de volta na mesa. “Mas sabe, mole – Henry... Eu tenho um superpoder: Eu consigo dizer quando alguém está mentindo para mim. E você está.”
“Por favor... Vem comigo...” E aqueles olhinhos brilhantes de filhote de cachorro que caiu da mudança deveriam ser considerados um crime, o moleque sabia bem demais como usá-los.
“Ok. Ok. Eu te levo pra casa. Mas só.”
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Depois de pegar sua fiel jaqueta vermelha, carteira, celular e afins, e prender o moleque no impala com o cinto, saiu para a viagem de quase duas horas até Storybrooke, Maine – um diabo de cidade que nunca ouviu falar na vida. Não viu nem no mapa esse inferno, e, se já não tivesse confirmado com seu superpoder que Henry realmente não trabalha para os coreanos, teria certeza que estava indo direto para uma armadilha.
“Então... Por que você é homem agora?” Dizer que o olhar de pura e simples curiosidade nos olhos do menino não trouxe um nó para a garganta do loiro seria mentira.
“...Porque... Porque eu... Ha... Porque eu não me sentia como uma mulher e eu tive essa opção.”
“Isso foi... depois que eu nasci não é?”
Emmett entendeu a pergunta rápido como qualquer criança no sistema de adoção entenderia e respondeu o mais rápido que pôde, com memórias de sentimentos muito familiares e nada agradáveis.
“Não. Não foi porque você nasceu, Henry. Eu... Acho que sempre me senti assim: diferente. Acho que você ter nascido só me deu força o suficiente para tomar essa decisão.” O pequeno sorriso do menino por aquela resposta aqueceu o loiro, de certa forma.
“Você... disse que eu ser transexual não é tão confuso quanto aonde você mora, você não mora num circo né moleque?” Disse brincando, mas só com um pouquinho de preocupação.
“Hahaha, não, é que minha cidade é meio estranha e confusa até você se acostumar com ela... Se bem que minha mãe sempre fala que o conselho da prefeitura parece um circo... Mas ela já me contou de pessoas que não se sentem bem com como elas são, acho que esse é um caso, não é?”
“Creio que sim, moleque...”
“Henry...”
“...Sua, sua mãe parece uma boa pessoa.”
“Não! Não é!”
O tom de Henry fez Emmett virar a cabeça para olhar para ele. “Como assim?”
“Ela é má!”
Ok. Esse é um adjetivo que se escuta algumas vezes no sistema de adoção. Um que nunca quer dizer algo bom vindo da boca de uma criança de dez anos. Um adjetivo que ele mesmo já ouviu mais vezes que gostaria de admitir e que sempre formava uma bola de medo em seu estômago.
“Henry... Ela... Te bate?”
O menino se espantou com a pergunta e a cara de ultraja que ele fez foi o suficiente como resposta. “Não. Claro que não! Ela nunca me bateu.”
Ok. Essa foi uma resposta negativa. O ultraje do menino ainda presente era uma coisa boa, ele não aparentava medo, nem desconfiança, o que pode significar que todas as respostas a partir daí seriam negativas. Ou que o moleque não sabe identificar abuso. O que seria infinitamente pior. O loiro decidiu continuar com as perguntas básicas que cresceu associando aquele adjetivo.
“Você pode sair de casa, digo, ela te tranca no quarto o dia todo?”
“Não... Assim, eu não posso sair de casa se estiver de castigo.”
“Ok.” Até aqui tudo bem, a mãe dele não parece uma louca varrida ou abusiva. “Você se sente mal.... ou humilhado de alguma forma?”
“...Não.”
“Ela bebe?”
“Ela faz a própria cidra de maçã, e a Ruby – a garçonete do Granny’s – diz que é muito boa.”
“Quis dizer: Se ela bebe muito, moleque. Tipo, se ela passa o dia bêbada eu você quase nunca vê ela sóbria.”
“...Eu nunca vi ela bêbada...”
“Seu pai faz alguma das coisas que eu falei e ela não faz nada a respeito?” E isso é um ponto válido. Emmett já passara por três casas onde o marido era a personificação do adulto abusivo e a mulher fingia que não via. Em uma casa foi ao contrário.
“Eu... não tenho pai. É só eu e minha mãe.”
Ok, sem pai maníaco. Só mais uma pergunta. A mais desconfortável de todas, mas talvez a mais necessária.
“Ela... Ela já... uh... Ela já te... tocou... de forma inapropriada...?”
Foi impressionante como Henry conseguiu dar um salto semi olímpico no espaço de um banco de carro e, se o loiro achava que a reação à primeira pergunta fora ultraje, não sabia nem o que era aquilo no rosto do menino, quase beirava a fúria e Emmett não sabia se ficava aliviado pelo menino ser bem tratado, orgulhoso porque, querendo ou não, ele era seu filho e ele estava protegendo a honra da mãe; ou se ficava com medo de tomar uma livrada na cabeça. Aquele livro era enorme.
“O que?! Que tipo de pergunta é essa?! Não! Ela nunca fez isso! Ela não é uma esquisitona!”
“Ok, ok, moleque, era uma pergunta necessária.”
Então, ele não apanhava, era bem cuidado, bem alimentado, nunca foi abusado de nenhuma forma, tem boas roupas e com certeza tem uma boa educação – se alguns dos termos que viu a criança usar forem base para alguma coisa.
Se esse moleque foi até Boston sozinho à noite e o arrastou para uma cidade fantasma no meio do nada porque a mamãe dele não quis comprar uma porra de um videogame pra ele, Emmett jura que vai prender esse ordináriozinho no capô do carro, depois de contar pra ele exatamente o que são pais maus.
“Então como diabos ela é ‘má’, moleque? Se isso tiver a ver com brinquedo – “
“Não! Ela é má! Não tem a ver com brinquedo! Tem a ver com a maldição! Ela é a Rainha Má!”
Emmett olhou de novo para o livro que Henry segurava. “Rainha... Má?”
“Sim.”
“Que lançou uma maldição na sua cidade?”
“Sim.”
“E você quer que eu vá lá quebrar a tal maldição?”
“Sim.”
O loiro deu um facepalm que deixaria qualquer meme de internet orgulhoso. “Ok, moleque, eu acho ótimo que você acredite em contos de fada, muito legal mesmo, mas não é bom quando você começa a chamar a sua mãe de Rainha Má por causa disso.”
“Eu não estou inventando nada. Os contos de fada são reais! E a minha mãe é a Rainha Má.”
“...Ok...” Quem é Emmett Swan para discutir com uma criança sobre contos de fada.
Passaram-se alguns instantes com o carro em um silêncio desconcertante, o loiro dirigindo tentando prestar atenção na estrada – não que fosse acontecer alguma coisa, não havia absolutamente nada na estrada; e o moreno alternando entre olhar para fora da janela e ler seu livro.
“Então... você gosta de futebol...?”
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A última hora do percurso foi passada com conversa fiada, pelo menos com a melhor conversa fiada que os dois conseguiram fazer, o que não quer dizer muito.
Storybrooke era uma verdadeira cidade fantasma: Nada aberto – nem uma loja de conveniência vinte e quatro horas; nenhuma luz, só um único letreiro aceso na cidade, o de uma pousada; nenhuma alma na rua, até porque aparentemente não tinha nada para fazer nessa cidade. Não é à toa que o moleque fugiu para Boston atrás de aventura. Não que tivesse sido uma boa ideia, claro.
Emmett parou seu carro perto de uma torre com um relógio que, com certeza, estava com a hora muito errada.
“Então, aonde fica sua casa?”
Quando o menino não respondeu, o loiro sentiu novamente a vontade de amarrá-lo no capô do carro.
“Ok, moleque, você pode me contar onde fica sua casa agora, ou vai dormir embaixo daquele toldo ali.”
“Você não me deixaria na rua.”
“Não, não deixaria. Mas eu bateria de porta em porta até achar a sua casa, e, se eu sei alguma coisa sobre cidade pequena é que todo mundo se conhece e todo mundo ficaria muito puto com você por ter alguém estranho batendo na porta deles a essa hora da noite porque você não quis dizer aonde você mora.”
Henry não teve tempo de responder antes de um homem que não aparentava ser muito mais velho que Emmett, de casaco e sapatos sociais segurando uma coleira com um dálmata se aproximasse e chamasse a atenção do menino.
“Henry? Henry!”
“Boa noite, Dr. Hopper.”
“Aonde estava, Henry? Sua mãe está louca atrás de você.”
“Eu fui atrás da pessoa que pode quebrar a maldição e salvar todo mundo da cidade.”
“Ah... O livro, Henry? Você não pode sumir assim, Henry, todo mundo estava preocupado.”
“Eu... Me desculpe, Dr. Hopper...”
“Tudo bem, Henry, conversamos mais sobre isso amanhã na terapia.” E, virando-se para o loiro esticou a mão para apertar a do caçador de recompensas. “Obrigado por encontrá-lo, mas acho que nunca te vi por aqui antes...?”
“Emmett Swan, motorista de moleque fujão aparentemente.” O médico sorriu.
“Archie Hopper, sou o psicólogo do fujãozinho.”
“Dr. Hopper, o senhor por acaso não saberia me dizer aonde o Henry mora não é? Ele não quer me contar.”
Archie olhou com uma sobrancelha erguida para Henry antes de explicar o endereço da casa do moleque e como chegar lá. Uma casa que, aparentemente, é um caralho de uma porra de uma mansão. Uma mansão, com direito a jardim na frente, estatuazinhas de mármore e, pelo que conseguiu ver a essa hora da noite, um enorme quintal todo gramado. Puta que pariu.
Antes que Emmett pudesse pensar muito em como amarraria esse moleque de ponta cabeça no relógio da cidade, a porta da casa – digo mansão – se abriu e o loiro esqueceu como andar por alguns segundos. De dentro da mansão saiu a morena mais linda que ele já vira na vida – e ele já vira supermodelos em seu trabalho – baixinha, com o cabelo curto e tão perfeitamente estilizado, com uma roupa que deveria ser proibida por lei de tão perfeito que deixava o corpo dela e com os olhos marrons tão cheios de amor pelo menino que derretia o coração do loiro.
É. Talvez aniversários não sejam tão ruins assim.
E é claro que a voz dela seria uma perfeição também. “Henry! Henry, me deus, você está bem? Aonde estava? O que aconteceu?”
O tom que Henry usou com essa deusa grega latina fez Emmett ter vontade de dar um cascudo nele. “Eu encontrei o meu pai de verdade!” E o moleque saiu correndo para dentro da casa sem ver a dor que passou nos olhos da mãe. Olhos esses que estavam tão calorosos e cheios de afeição para com o filho e que se endureceram em uma velocidade incrível ao olhar para o loiro em sua frente. O mesmo loiro que teve que fazer seu cérebro lembrar como falar quase que manualmente quando teve uma pergunta direcionada a ele.
“V-Você é o pai biológico do Henry?”
“An... Emmett Swan.” O homem que estava logo atrás da morena escolheu aquele momento para fugir dali – digo ir ver se Henry precisava de alguma coisa. Emmett teria se sentido estranho por olhar a mulher dos outros daquele jeito se não tivesse visto que o homem era o xerife da cidadezinha.
Os olhos da morena não revelavam nenhuma emoção e o sorriso em seus lábios era tão falso e tão praticado que, juntamente com o fato de viver em uma mansão, o caçador de recompensas teve certeza que ela algum tipo de política.
“Gostaria de uma taça da melhor cidra de maçã que já experimentou na vida?”
Agora, se isso fosse um filme do horário privê, e Emmett tivesse certeza que a faísca que viu passar pelos olhos da mulher fosse desejo carnal e não homicida, vocês sabem aonde isso acabaria. Não que ele tivesse algum problema ou qualquer coisa contra acabar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa com aquela deusa grega, mas isso não é cine privê, então o loiro só acenou com a cabeça.
“Não tem algo mais forte aí?”
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O interior da casa da morena era o que ele esperava: Perfeito. É o tipo de lugar que tem uma barreira mágica que barra pessoas como ele de entrar. Tudo nesse lugar não é para o bico dele. Principalmente a mulher servindo duas taças do líquido dourado que ele acredita ser a cidra.
“Bem... Eles me disseram que a mãe não queria contato. Mas não me falaram nada de você.” Swan conhecia muito bem o olhar que a latina o dava. Já teve esse olhar direcionado a ele várias vezes antes de ser designado para alguma família nova: Ela o estava avaliando. Determinando se era bom o suficiente. No mínimo tentando decidir se Henry se pareceria com ele futuramente, claro, porque Henry o apresentara como seu pai. Há. Por mais que se sentisse muito bem com a pequena luz de aprovação no fundo daquele olhar, essa mulher realmente não gostaria que Henry acabasse parecido com o pai biológico.
“Foi uma adoção fechada.”
“Onde está a mãe?”
“Não muito contente que Henry tenha conseguido acesso a registros que deveriam estar lacrados.”
“Hm. E devo me preocupar com ela?”
“Não.”
“E com você, Sr. Swan?” Disse colocando o copo de cidra em sua mão. E meu deus, como era forte aquele trem.
“Nenhuma preocupação.”
O homem, o xerife, desceu as escadas da casa naquele momento com uma expressão de alívio, pelo menos até avistar a morena e Emmett, aí sua expressão se tornou aflita e ele parecia querer sair dali o mais rápido possível.
“Eu já coloquei o Henry na cama, Sra. Prefeita e já vou voltar para a ronda noturna.” Olhou para o loiro como quem diz ‘boa sorte’ e saiu tão rápido que quase não ouviu o agradecimento da, aparentemente, Prefeita.
A latina o olhou de cima a baixo novamente antes de levá-lo para o que parecia um escritório de filme.
“Eu não sei o que aconteceu com ele hoje.”
“Crianças fazendo arte, nada muito fora do normal.”
“Mas não tem nada normal em fugir de casa e ir para Boston sozinho à noite para encontrar o pai. Tem?”
“Não, creio que não.” Sentaram-se em sofás que, com certeza, eram mais caros que o carro de Emmett.
“Eu sou prefeita e mãe solteira, por vezes fica difícil equilibrar todas as responsabilidades, como tem acontecido ultimamente. Mas eu nunca perco a ordem da minha casa ou da minha prefeitura, Sr. Swan. Então sim, sou rigorosa com Henry em algumas situações, mas não acredita que, por isso, sou uma pessoa má, não é?” E Emmett conhece a cruzada de pernas que a prefeita deu nesse momento. Emmett já usara essa cruzada de pernas algumas vezes para fazer certas pessoas concordarem com ele. E ergueu uma sobrancelha desafiadora para a morena antes de responder. Ele não seria tão facilmente manipulado assim.
“Creio que não. Mas acredito que ele só tenha dito isso por causa do livro de contos de fada. Sabe, madrasta sempre sendo uma bruxa má e talz.”
A prefeita parou por um momento. “Que contos de fadas?”
“Sabe, o livro que ele tem? Onde todo mundo é um personagem? O psicólogo dele é o Grilo Falante.”
Ah, e lá está: a máscara da morena voltou para o lugar. Talvez realmente tivesse algo suspeito nessa cidade. Digo, uma vez em Detroit prendeu uma gangue de colarinho branco em que os membros se identificavam usando apelidos de histórias da Disney, contos de fada não estavam muito longe disso.
“Desculpe, mas, não sei do que está falando.” Seu detector de mentiras interno não apitou com essa declaração. Mas isso não quer dizer que não tenha algo estranho aqui.
“Quer saber, não é da minha conta.” Só vai verificar em Boston se há alguma recompensa por alguém que foi visto nessa área ultimamente. “O filho é seu. E já está tarde, é melhor eu ir.” A menos que ela queira ir para algum lugar com ele. Só porque ela tentou intimidá-lo desde que pisou na casa não quer dizer que ela ainda não é linda de doer.
“Claro, deixa eu acompanhá-lo até a porta.”
O loiro se levantou terminando o conteúdo de seu copo. “Não tem necessidade, Sra....?”
“Senhorita Mills, Regina Mills”
“Senhorita Mills.”
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Henry o olhando da janela foi a última coisa que viu antes de entrar no carro e dirigir para casa.
Francamente, o moleque mora em uma mansão, muito provavelmente tem tudo o que quer e tem uma mãe que é o sonho de consumo de qualquer pessoa: Elegante, inteligente, bem educada, sabe pôr ordem no barraco, trabalha – em um emprego impressionante aliás, linda e, o mais importante, que ama aquele menino. Henry tem uma vida que Emmett só teve em sonhos. E olhe lá.
Se o guri voltar resmungando para Boston de novo, ele será amarrado de ponta cabeça da cerca da varanda do apartamento. Sem discussão.
Mas, no fim das contas, o loiro estava feliz. Feliz que o filho que deu para a adoção acabou em uma casa incrível como aquela e não sendo jogado de família em família como uma batata quente. Feliz que tudo que o menino tem sobre o que reclamar são futilidades como dever de casa, desenhos e contos de fada. Feliz que ele tem as bochechas rosadas e soube ser educado com o médico. Feliz que ele tenha boas roupas que realmente sirvam nele. Feliz que... Ele seja um malandrinho esperto que esquece suas coisas em lugares estratégicos. Francamente.
O livro de contos de fada de Henry estava em seu banco de passageiros. Sentando lá. Rindo dele. Claro que ele teria que voltar agora para entregar o diacho do livro, se não o fizesse era capaz do moleque aparecer em sua casa de novo amanhã.
E talvez devesse ter prestado mais atenção na estrada, ou talvez aquela cidra de maçã fosse mais forte do que pensava, ou talvez Henry tivesse razão sobre ninguém conseguir sair da cidade – e talvez essa última fosse o álcool falando mais alto; mas, de um jeito ou de outro, ninguém teria visto aquele lobo que surgiu do meio do nada. E mais ninguém conseguiria a proeza de rodar o carro e bater em cheio na placa da cidade.
Emmett retira o que disse: Aniversários sempre serão o pior dia do ano.
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Notas finais
Sério, eu preciso muito mesmo saber o que acharam, para poder saber se continuo escrevendo ou não.
Enfim, obrigada por lerem! :D
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