In A Darkened Room
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sim, vou começar uma fic nova sem terminar outra... MAS juro para vocês que terminarei as duas! Juro mesmo ^^
Espero que gostem XD
In a Darkened Room
Capítulo I
In a darkened room
Beyond the reach of god's faith
Lies the wounded, shattered remains of a love betrayed
And the innocence of a child is bought and sold
In the name of the damned
The rage of the angels left silent and cold
Ludwig não sabia há quantas horas estava debruçado naqueles papéis. Apenas a dor incômoda no pescoço denunciava a posição contínua e seu estômago roncando anunciava que já estava mais do que na hora de abandonar aquele hospital e comer alguma coisa no caminho de casa, como tornara-se rotina. Mas embora seu corpo clamasse por trégua, Ludwig não levantaria de sua mesa antes de assinar todos aqueles exames, afinal, como bom médico que era – um excelente médico, como era de esperar de um alemão legítimo -, não deixaria trabalhos pendentes para outro dia por motivos tão insignificantes.
Ele até poderia deixar aqueles pedidos de licença para o outro dia se esse maldito ‘outro dia’ não fosse tão importante.
As ruas de Munique já se apresentavam agitadas com todas aquelas pessoas correndo para lá e para cá, enfeitando tudo o que viam pela frente e fazendo tamanho barulho que nem uma frota die Panzer seria capaz de fazer. Desde o início daquele mês toda a Alemanha parecia ter entrado num estado de euforia, ainda mais agora que restava apenas um dia antes do grande acontecimento do ano.
Quer dizer, agora não restava nenhum.
Quando soou meia noite, os fogos de artifício começaram a estourar, iluminando o céu de toda Munique, especialmente o centro da cidade onde se localizava o hospital que o esforçado médico alemão trabalhava.
Ao terminar de finalmente assinar aquele amontoado de pedidos, Ludwig olhou para a janela a fim de contemplar os últimos fogos que ainda coloriam a noite da cidade. Seus olhos azuis captaram também a hora em que os guardas chegaram para acabar com a algazarra antes que aquela comemoração adiantada se tornasse motivo para confusão. O grupo baderneiro que havia começado com os foguetes coloridos logo foi amontoado dentro de um camburão e levados, assim concluia Ludwig, para a delegacia. Dentro de instantes o restante das pessoas correram para suas casas e o centro de Munique voltara ao seu rotineiro silêncio em um piscar de olhos.
Era de esperar que todos estivessem tão alegres com as festividades marcadas para aquele 20 de Abril. No ano passado as comemorações foram magníficas, com desfiles milimetricamente apresentado à população que ia à loucura quando identificavam seus parentes fardados marchando pela rua principal, saudando os principais generais da cidade encarregados de representar o aniversariante do dia.
Enquanto um dos garotos responsáveis pela bagunça com os fogos de artifício era levado ao camburão por dois guardas, gritava a plenos pulmões “O grande Führer merece!” e isso chamava ainda mais a atenção do alemão que assistia a tudo pela janela de seu consultório.
Não o fato do garoto ser jogado com certa indelicadeza para dentro do camburão. Certo, esse era outro motivo, até porque o mais jovem era alemão – pelo menos apresentava traços germânicos. Um alemão não deveria ser tratado daquela maneira dentro da Alemanha, certo?
A não ser que ele não se comportasse como um bom alemão.
Ai era justificável.
Mas o que mais intrigava Ludwig era essa forma exagerada de se expor que a sociedade alemã havia adquirido desde que o austríaco tomara as rédias do país. Hitler era como uma droga para a população, as pessoas o seguiam como se o caminho traçado por ele os levariam a nada menos que a glória e a vitória que a muito esperavam.
Isso sim era intrigante.
O jovem garoto foi levado à delegacia por se deixar levar por um sentimento de pertença que nunca antes fora presenciado por Ludwig em toda a sua vida. Era como se aquela data fosse mais importante que seu próprio aniversário. Fosse mais importante que o Natal, a Páscoa ou qualquer outro feriado importante. Era como se o garoto, Ludwig e o Führer fizessem parte de uma só família.
Uma família que hoje estava em festa.
Os devaneios do médico à janela pararam subtamente quando a porta de seu consultório de abriu revelando uma figura de jaleco a observar-lhe.
— Heil Hitler! Vejo que esse ano será ainda mais incrível que o anterior, não acha Herr Beilschmidt?
Ludwig encarou seu colega de setor sem a metade do entusiasmo que o homem a sua frente demonstrava. Limitou-se a responder a saudação com um gesto, oferecendo-lhe logo após uma cadeira para o seu ‘ilustre visitante’ sentar-se.
— Sei que está aborrecido por causa dos inúmeros pedidos de licença que mandei para cá. Por isso decidi vir eu mesmo explicar-lhe cada um deles.
O sorriso de satisfação do médico fez Ludwig suspirar pela enésima vez naquela noite, como se todos os seus esforços de sair daquele hospital tivessem sido desmembrados pelos dentes expostos do outro médico.
— Como o senhor pode ver, esses pedidos têm fundamento científico, meu caro colega. Não pediria a transferência desses paciêntes para Dachau se eles realmente não valessem a pena.
— Entendo.
Ludwig olhava com visível desinteresse para as fotografias que Dr. Brandt o mostrava com tanta alegria. O sadismo com que Brandt apresentava aqueles casos deixava seu colega de hospital ainda menos interessado.
— Quantos mais pretende transferir para Dachau?
O outro médico pareceu refletir. Ludwig tinha a impressão que Brandt havia finalmente conseguido o tão sonhado sinal verde de seus superiores para começar a por em prática o plano de eliminar o perigo genético que rondava a Alemanha. Se assim fosse, não demoraria muito para Ludwig ser mandado às pressas à Dachau, embora esse assunto já estivesse morto e enterrado nas profundezas de sua mente.
— Não muitos. Uns quatro. No máximo cinco.
A sede do partido em Berlin mandou um documentário para toda a comunidade médica alemã com o intuito de conscientizá-la de que seres que nascessem deformados não sofriam apenas privações físicas, mas sim, privações da alma. Um corpo doente era uma prisão para a alma e cabia aos médicos alemães a libertação desse indivíduo de sua cela.
— E o que esses quatro ou cinco apresentam de tão especial, Herr Brandt?
A libertação do indivíduo de seu sofrimento nada mais era do que a libertação da própria Alemanha. Se uma pessoa apresenta o tão combatido defeito hereditário, a nação adoece. Todos faziam parte de um grande todo e esse todo necessitava de limpezas para poder continuar a trilhar seu caminho.
— Isso não é meio óbvio, Herr Beilschmidt? – Brandt dirigiu-se à porta do consultório, sustentando ainda no semblante seu sorriso sádico. – Quem sabe o amigo não queira dar uma boa olhada antes de qualquer decisão?
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Munique parecia acordar aos poucos com os primeiros raios solares a tocarem suas ruas. Nem parecia que aquela noite havia sido agitada por alguns baderneiros entusiasmados com os festejos comemorativos ao aniversário de Hitler. A não ser, é claro, pela decoração que jazia incompleta em alguns postes mais centrais da cidade.
Por fora, o grande hospital de Munique também estava decorado com bandeiras vermelhas, hasteadas uniformemente por todo o prédio. Ao centro de todas elas podia-se ver nitidamente a Suástica, símbolo do Reich que o Führer construira com suas próprias mãos para durar mil anos.
Ludwig caminhava a passos largos pelos corredores da ala sul do hospital, destinada aos paciêntes que seriam levados às outras alas. Seus olhos mal se dirigiam ao companheiro, que lhe apresentava um tedioso monólogo sobre o estado de saúde de cada pessoa daquele lugar.
— Desculpe-me, Herr Brandt, meu interesse nesse nosso passeio pelo hospital não é conhecer seus paciêntes, mas sim reconhecer os que serão transferidos para Dachau, assinar a transferência e ir para casa.
— Estou ciente disso, Dr. Beilschmidt. Mas não se preocupe, estamos quase chegando. – Respondeu-lhe o mais velho. – Ah, aqui estamos! Willkommen auf meiner Station!
Ludwig acompanhou Brandt até um armário onde o segundo médico parecia guardar as chaves da enfermaria. Com o molho em mãos, os dois começaram novamente a explorar o hospital, dessa vez em silêncio.
Pararam apenas quando alcançaram uma porta branca sinalizada com um pequeno “1”, escrito em romano.
— Vejamos... Michael Von Müller. Dez anos. Trinta e quatro quilos. Olhos azuis, cabelo loiro. Nada mal, não acha, meu amigo? – Brandt despejava as informações como se tivesse decorado a situação de cada paciênte que se encontrava sob seus cuidados.
— Num primeiro momento, sim... – Respondeu-lhe, acompanhando Brandt para dentro do quarto onde a criança referida aparentemente dormia. O peito do garoto subia e descia ritmadamente e Ludwig viu-se perguntando o que tinha de errado com aquele rapaz.
— Os pais do garoto – Murmurou Brandt, tirando Ludwig de seu devaneio. -, membros do partido desde janeiro desse ano, enviaram-no para cá depois que eu os convenci de que não havia outra escolha se não o tratamento médico adequado para o caso dele. – Os dois aproximaram-se do leito para poder observar melhor o menino ainda entregue ao sono. – Imagine só, meu amigo, que desgraça para a família ter seu primogênito que não consegue andar!
Ao terminar a frase, Brandt retirou com certa violência o lençol que cobria o garoto, expondo seu corpo lácteo maculado com diversas manchas arrocheadas distribuidas pelo tronco. Nos pulsos e nos tornozelos, as manchas aumentavam, denunciando o tipo de tratamento que Brandt estava aplicando no garoto.
Mas o que mais chamou a atenção de Ludwig naquilo tudo foi a inercia que o garoto ainda se encontrava. Mesmo com toda aquela conversa dentro do quarto e as maneiras nada delicadas com que Brandt mexia nas pernas de Michael, o menino não esboçava nenhuma reação.
— Por que o dopou?
— Hum? Ah, ele nunca coopera com os exames. – Brandt deu de ombros, soltando o paciente e dirigindo-se a porta.
Ludwig encarou o outro médico por alguns segundos até decidir acompanhá-lo. Embora se dirigissem ao encontro dos outros enfermos, a mente de Ludwig parecia estar ao lado da criança, analisando o caso como se fosse um paciente seu.
Dopar uma criança daquela idade com tamanha frequência, pensava o loiro mais novo, iria acabar afetando ainda mais sua saúde. Sem contar nos inúmeros hematomas em seus membros, resultado do tratamento violento da qual era submetido sabe-se lá quantas vezes por dia.
E assim os dois seguiram pelo corredor da ala sul sob responsabilidade do Dr. Brandt, visitando três dos quatro quartos dos quais Ludwig deveria analisar e conceder a transferência dos pacientes à Dachau.
— Enfim, meu caro amigo, chegamos ao último quarto. Gosto muito desse caso, embora eu já saiba qual o destino desses dois... – Falou com falso pesar.
— Dois?
— Sim. Gêmeos! – O médico mais velho abriu a última porta do corredor, sinalizada com um número “4” em romano igual às anteriores, como se mostrasse seu novo troféu. – Lovino e Feliciano Vargas. Quinze anos. Quarenta e sete e quarenta e cinco quilos respectivamente. Cabelos e olhos castanhos. Pele morena...
— Italianos? – Interrompeu Ludwig.
— Exatamente.
— Como vieram parar aqui?
— Um mistério. – Suspirou Brandt. – Hermmann simplesmente adentrou em meu consultório exclamando que Mengele queria esses gêmeos imediatamente.
— Ele não disse como eles vieram parar no hospital? – Indagou Ludwig cada vez mais intrigado com a situação.
— Hermmann é apenas um residente. Se Churchill aparecesse em sua frente vestido de bailarina russa é capaz do rapaz não notar a diferença.
Como Michael, os gêmeos jaziam dopados em suas camas, com o semblante calmo, como se realmente estivessem dormindo. As semelhanças eram indiscutíveis, exceto por uma mecha de cabelo que sobressaia da cabeça de cada um. Uma mecha rebelde parecia se destacar desde a raiz do cabelo de um, enquanto a do que parecia ser um pouco menor ondulava-se a partir da metade do comprimento. Tirando esse fato, Ludwig teria dificuldades para identificá-los naquele estado.
— E como Mengele ficou sabendo dos gêmeos?
Ludwig ouviu o outro suspirar mais uma vez. Estava claro que Brandt não sabia responder suas perguntas, mas a situação era demasiada intrigante para ser deixada de lado.
O médico mais velho dirigiu-se para perto de um dos garotos e começou a analisá-lo.
- Sei que deve estar com milhares de dúvidas na cabeça, meu amigo, mas se isso confortar-lhe de alguma maneira, também tenho muitas perguntas a respeito desses dois. Hermmann ficou como responsável pelos gêmeos e eu nunca os vi sem estarem sob o efeito de calmantes fortíssimos. A única coisa que sei é o que você sabe agora, Herr Beilschmidt.
Ludwig tentava processar todas as informações com o máximo de atenção afim de conseguir juntar todos os dados de que lhe eram dirigidos e formular alguma resposta para todas as dúvidas que pairavam pelo quarto dos gêmeos.
- Onde está Hermmann? — Perguntou Ludwig, se aproximando da cama onde se encontrava o gêmeo que aparentava ser mais novo. Seus olhos repousaram sob a mecha rebelde que tanto chamava sua atenção e deixava aquele garoto com um ar cômico. Não conseguindo conter o impulso, dirigiu a mão lentamente até aquele fio de cabelo tão incomum. A mecha não aparentava ser diferente do restante do cabelo, pelo contrário, era idêntica aos outros fios. Porém, ao agarrá-la com mais força, o garoto pareceu tremer levemente na cama, o que fez Ludwig recuar e o que aconteceu a seguir foi tão rápido que nem dera tempo do médico reagir.
Ao recuar seu pé enroscou em alguma coisa, fazendo com que o loiro caisse de costas no chão. Com a cabeça doendo e seu mau humor batendo recorde mundial, Ludwig sentou-se no chão com a mão a massagear as têmporas.
- Mas que...
- Stare lontano da mio fratello!
O alemão ao chão ergueu os olhos até o lugar de onde viera aquela voz esganiçada e, para seu segundo espanto da noite, um dos gêmeos imobilizava Brandt com um bisturi que provavelmente fora roubado pelos italianos de algum enfermeiro descuidado. Ludwig tentou levantar, mas os gritos e ameaças vindas do gêmeo mais velho o fizeram voltar ao chão.
- Escute, – Ludwig ergueu as mãos enquanto falava, mostrando ao italiano que não iria fazer nada. — solte o Dr. Brandt para que possamos resolver essa situação.
- Non! – Vociferou o rapaz, passando a apertar ainda mais o bisturi contra a garganta do médico. – Eu saber o que acontecer depois! – Respondeu, utilizando-se de um péssimo alemão.
- Prometo que tiro você e seu irmão daqui, mas solte-o...
- Non! Eu saber como você tratar nostra gente! Você ser como todos! – O garoto dirigiu o olhar para a cama de onde seu irmão, encolhido, parecia esconder-se de todo aquele inferno. Foi então que, seguindo o olhar do rapaz, Ludwig descobriu a causa do seu tropeço: o corpo de Hermmann encontrava-se estirado embaixo da cama, com um grande corte em seu pescoço que ainda sangrava. Ludwig ficou tão impressionado com a cena que nem viu o corpo do Dr. Brandt cair igualmente ensanguentado no chão, muito menos a aproximação do italiano. Depois disso, Ludwig apenas sentiu uma dor aguda no peito, tombando para o lado ao ser empurrado pelos gêmeos que correram mais do que depressa para fugir do local.
E a morte nunca lhe pareceu tão certa.
Notas finais
Queria dizer algumas coisas antes de ir dormir:
- Essa fic não está sendo betada (nem pelo meu word, que nem apontar erros aponta mais ¬¬), dann... Desculpem os erros.
- Eu tentei deixar a fic um pouco fiel à História, mas vocês sabem que isso é puramente ficcional, então não a levem a sério.
- Espero poder postar o segundo capítulo logo, mas não prometo nada porque minhas provas estão arrancando meus dedos (sim, escrever sobre a Unificação da Alemanha numa prova de Contemporânea I é tão divertido quanto escrever uma fic /tiros)
- Muito obrigada por ler ^^
Küsse und Tschüss
Sih.
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