Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
15 Capítulo 15
A frase daquele homem continuava flutuando no ar abafado do salão de recepção, espalhando-se pelas paredes de pedra esculpida e congelando cada guarda, conselheiro e diplomata presente.
Ela é quem decide com quem fica.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até mesmo o vento morno do deserto, que antes uivava fraco nas frestas das janelas em arco, pareceu calar-se diante da tensão imediata.
A postura de Sasuke não vacilou. Ele nem sequer piscou. A aura de gelo que emanava da sua figura não era apenas defensiva; era a presença esmagadora de um monarca absoluto.
Em vez de recuar, Sasuke deu um único passo à frente. O som de sua bota contra o piso de pedra soou como um tiro no salão silencioso. A mão esquerda repousou com firmeza sobre o pomo da espada na cintura, e seus olhos negros fixaram-se no governante de cabelos ruivos com um desdém frio e imperial.
— As fronteiras deste continente e os termos do nosso tratado são os únicos assuntos que me fazem tolerar o calor deste reino, Gaara — declarou Sasuke. A voz dele não subiu de tom, mas carregava o peso cortante de uma ordem militar indiscutível. — Você está aqui para assinar um pacto de guerra com o Império do Norte, não para ditar como eu governo meus súditos ou como comando os oficiais sob a minha bandeira. — ergueu levemente o queixo — Meus assuntos internos começam e terminam sob a minha palavra.
O uso direto e seco do nome do regente, sem qualquer protocolo diplomático ou deferência, foi uma demonstração de força bruta. Sasuke não estava debatendo; estava demarcando a hierarquia do salão e deixando claro quem detinha o poder de comando sobre mim.
Do meu lugar na retaguarda, senti o ar sumir dos meus pulmões. O peso daquela autoridade soberana era sufocante.
A resposta de Sasuke caiu sobre o salão como um golpe de martelo em uma bigorna. No entanto, o governante das Areias nem sequer piscou.
Se a presença de Sasuke era a tempestade gélida que ameaçava congelar tudo ao redor, o homem de cabelos ruivos era a própria rocha do deserto — inabalável, paciente e perigosamente sereno. Ele não se intimidou com o tom de comando do Imperador. Em vez disso, sustentou o olhar sombrio de Sasuke com uma tranquilidade calculada que apenas intensificou a tensão no ar.
— O Império do Norte dita as regras nas suas terras geladas, Sasuke — respondeu ele, a voz aveludada e pausada ressoando com uma autoridade sem sobressaltos. — Mas aqui, sob o meu teto, os costumes e as leis de hospitalidade das Areias prevalecem.
O regente deu dois passos calmos na minha direção. O movimento foi lento, quase indiferente à aura ameaçadora que emanava de Sasuke, mas cada centímetro que ele encurtava atraía os olhares tensos dos guardas do salão. Parou a uma distância respeitosa e seus olhos de tom verde-pálido percorreram novamente a minha figura: a túnica escura de gola alta com aroma do mar, a calça de couro gasta pela cavalgada e as botas de cano rígido manchadas pela poeira da viagem.
Ele ergueu o olhar para o meu rosto e, em seguida, voltou-se para Sasuke. A ponta de um sorriso cortante e diplomático surgiu no canto de seus lábios.
— Discutiremos as fronteiras e o tratado no banquete desta noite — continuou o governante, fixando o olhar em Sasuke com uma serenidade cortante. — Até lá, a sua tropa é bem-vinda.
Ele fez uma pausa calculada, direcionando o olhar para o meu uniforme empoeirado antes de encarar o Imperador novamente.
— No entanto... manter uma Haruno vestida como soldada de infantaria é uma lamentável falta de modos do Norte — disse — Se o Império não sabe como honrar a nobreza que o acompanha, as Areias terão o prazer de ensinar.
A estocada final do regente pairou sobre o salão como um desafio aberto.
Olhei para o governante de cabelos ruivos, genuinamente impressionada. A forma como ele falava — sem elevar o tom, sem perder a compostura, mas devolvendo cada golpe com uma elegância letal desafiando Sasuke — era algo que eu nunca tinha testemunhado. Ele não apenas peitara o Imperador do Norte; ele fizera isso usando a etiqueta diplomática a meu favor, tratando-me com uma consideração e um respeito que eu há muito não sentia. O contraste com a rigidez e a frieza com que Sasuke me tratara durante toda a viagem era avassalador.
Apertei os punhos ao lado do corpo, sentindo o peito palpitar.
Busquei o olhar de Sasuke, esperando uma explosão ou um comando ríspido para anular a ordem do regente. Mas o Imperador não falou.
A sua reação foi um silêncio de chumbo, denso e sufocante. A mandíbula dele travou com tanta força que o contorno do seu rosto pareceu esculpido em ferro. Seus olhos negros, profundos e perigosamente sombrios, desviaram-se do regente para se cravar em mim. Havia um vulcão contido naquele olhar — uma névoa pesada de ciúme, orgulho ferido e possessividade que ele tentava, a todo custo, mascarar sob a farda do Norte.
Sasuke sabia que intervir ali e proibir que eu mudasse de trajes ou de aposentos seria admitir publicamente a fraqueza do seu controle sobre mim. Ele estava encurralado pela própria política.
As duas servas do palácio das Areias aproximaram-se de mim com passos leves, fazendo uma mesura respeitosa.
— Por favor, senhorita Haruno — disse uma delas, com a voz suave. — Acompanhe-nos até a ala nobre.
— Seus oficiais serão conduzidos aos aposentos da guarnição militar — decretou o regente, sem tirar os olhos de Sasuke, dando a audiência por encerrada. — Descansaremos até o banquete desta noite.
Dei um passo à frente para seguir as servas. Ao passar pela linha da comitiva do Norte, senti a aura gélida de Sasuke me envolver por um segundo. Não me virei para olhar para trás, mas sabia que, até a porta do salão se fechar, os olhos dele não saíram das minhas costas.
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Deixar aquele salão foi como emergir de uma câmara de vapor prestes a explodir.
As duas servas me guiaram em silêncio para além da ala principal do palácio, subindo as escadarias em arco que levavam ao topo da construção, o setor reservado à alta realeza e aos convidados de honra do reino.
À medida que nos afastávamos dos corredores austeros, o ambiente ao redor parecia mudar de natureza. Caminhávamos por varandas sustentadas por majestosos arcos esculpidos em rocha clara, onde o vento morno do deserto soprava livremente. O ar, embora seco e quente, não me sufocava; pelo contrário, ao roçar na minha pele, trazia uma estranha e inexplicável sensação de aconchego, como uma carícia antiga e esquecida.
Pisei no piso de pedra suave, sentindo o calor acumulado da rocha atravessar a sola rígida das minhas botas. Havia uma vibração calma naquele lugar. Fontes de água cristalina murmuravam nos pátios internos, cercadas por palmeiras e jardins suspensos que perfumavam o ar com um aroma denso de flor de laranjeira, mirra e jasmim.
Fechei os olhos por um breve instante, respirando fundo. O cheiro da areia aquecida pelo sol poente e o som distante do vento nas dunas não me pareciam estranhos ou hostis. Era um conforto quase intuitivo, como se uma parte de mim já soubesse exatamente como se sentir em casa sob aquele céu de ouro.
— A senhorita Haruno ficará nos Aposentos de Mirra — anunciou uma das servas com uma voz suave, fazendo uma mesura antes de empurrar as pesadas portas de madeira entalhada com incrustações de madrepérola.
Quando o espaço se revelou diante de mim, perdi o fôlego.
O quarto era uma fortaleza de conforto e opulência. Tetos altos pintados com afrescos em tons de ouro e lapislázuli, divãs estofados em tecidos macios e um vasto balcão de pedra clara debruçado sobre a imensidão do deserto banhado pelo pôr do sol. No centro do recinto, uma enorme cama estava ornamentada com cortinados de seda diáfana que balançavam suavemente com a brisa da tarde.
Ao fundo, através de uma divisória de treliça dourada, podia ver uma piscina de imersão esculpida em pedra-sabão, de onde emergia um vapor suave e perfumado com óleos essenciais.
Eu fora instalada em um verdadeiro palácio particular no coração das Areias, tratada com uma dignidade que parecia ecoar o próprio calor acolhedor daquele deserto.
O som da água gotejando no tanque de pedra-sabão trazia uma paz quase hipnótica para aquele ambiente vasto.
As duas servas movimentavam-se num ritmo fluido e perfeitamente sincronizado. Para mim, aquilo era um choque absoluto. Desde que me lembrava, a única pessoa que tocara no meu cabelo ou me ajudara com alguma farda fora a Tenten, e de uma forma prática, rápida. Ter duas mulheres estranhas cuidando do meu corpo com tanta deferência me deixava sutilmente desconfortável, sem saber exatamente onde colocar as mãos.
Aqueceu-se a água em caldeirões de bronze até atingir a temperatura exata — uma morosidade acolhedora que abraçou meus músculos doloridos assim que afundei até os ombros no tanque. Pétalas de flor de laranjeira, jasmim e pequenas flores secas de alfazema flutuavam na superfície, libertando um vapor perfumado que preencheu o ar do quarto.
Senti cada quilo de tensão das semanas de marcha cavalgando no exército se dissolver naquela água. Uma das servas aproximou-se com uma esponja macia impregnada com sabão de azeite e óleos aromáticos, esfregando delicadamente meus braços, costas e ombros, tirando a poeira entranhada do deserto e os restos de suor do couro do uniforme.
Enquanto eu tentava relaxar apesar da timidez, meus cabelos foram lavados com uma infusão doce de mirra e leite de amêndoas que deixou os fios extremamente macios e maleáveis. Quando saí do tanque, fui envolvida por toalhas grossas de algodão.
Foi então que elas desdobraram o traje, e o meu queixo simplesmente caiu.
Que roupa... que roupa é essa?
Um choque elétrico percorreu minha espinha. Aquele pano não cobria nem metade do que eu estava acostumada a vestir. Pela forma como elas seguravam com extremo cuidado podia-se dizer que pertencia à alta nobreza do deserto, mas, para quem passara dias sufocada em botas pesadas, calças de couro e fardas abotoadas até o pescoço, aquilo parecia quase indecente.
— Eu... eu não posso usar isso — murmurei, recuando metade de um passo com o rosto queimando em um rubor violento. — Isso é... tem pele demais aparecendo! A cintura, os ombros... é praticamente uma roupa de baixo!
— É a vestimenta tradicional de gala das altas senhoras das Areias, senhorita Haruno — explicou a serva mais velha, mantendo a postura paciente e respeitosa. — Sob o nosso teto, cobrir-se com tecidos pesados e fechados durante as celebrações é visto como um sacrifício inútil. A seda leve permite que a brisa corra, e o ouro honra a linhagem nobre.
Respirei fundo, tentando acalmar o peito desgovernar. Aos poucos, entre hesitações e o toque ágil das servas, deixei que me vestissem.
A sensação do tecido contra a minha pele foi um segundo impacto: a seda num tom lilás-suave era fria, leve como uma nuvem e incrivelmente macia. O top curto ajustava-se perfeitamente ao meu busto, deixando meu abdômen e minha cintura completamente expostos ao ar fresco do quarto. Fios delicados de ouro drapeavam-se sobre o tecido, caindo em correntes finas com pedrarias reluzentes que acompanhavam cada respiração minha. A saia dupla e as calças fluidas de seda transparente cobriam minhas pernas de forma sutil, presas por um cinto largo de ouro cravado de rubis.
Ajustaram os braceletes com diamantes nos meus pulsos e, por fim, colocaram sobre a minha cabeça um véu diáfano e transparente decorado com pequenas joias incrustadas em fios de ouro dourado. Soltaram meus cabelos róseos, que caíram macios e volumosos sobre meus ombros e costas. Uma leve e quase imperceptível maquiagem em meu rosto.
Quando me virei para o espelho de bronze polido, perdi o ar.
O impacto de ver a minha própria imagem me fez dar um passo em falso. Não havia qualquer traço da soldada cansada, poeirenta e rebaixada que viajara na retaguarda do exército. O contraste das cores frias da seda com o brilho do ouro fazia o verde dos meus olhos saltar e destacava o tom único do meu cabelo de um jeito hipnotizante. A leveza da roupa dava à minha postura uma elegância sensual e misteriosa que eu jamais imaginei possuir.
Passei a mão trêmula pela cintura nua, sentindo o arfar da minha própria respiração. A vergonha e o choque de estar tão exposta ainda queimavam no meu rosto, mas, abaixo da timidez, uma onda súbita e perigosa de audácia começou a tomar conta de mim.
O que o Sasuke vai pensar quando me vir assim?
A imagem do Imperador do Norte — sempre tão imperturbável, frio e controlador — sendo confrontado por essa versão minha, vestida com a opulência e a liberdade do deserto, fez meu coração disparar no peito. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava me escondendo atrás do uniforme de punição que ele me impusera.
Duas batidas na madeira da porta me fizeram dar um pulo.
O pânico subiu direto para a garganta. Puxei o tecido de seda sobre a cintura, tentando me cobrir de qualquer jeito, sentindo as mãos tremerem. As servas foram abrir e, quando a porta se moveu, eu quase esqueci como se respirava.
Era o regente.
Ele deu dois passos para dentro e parou. Sozinho, vestindo uma túnica festiva em tom de areia e bronze. Quando os olhos dele pousaram em mim, o silêncio no quarto ficou denso. Ele passou o olhar devagar — pela seda lilás, pelo brilho no véu, pelos meus cabelos totalmente soltos. Não foi um olhar agressivo ou faminto, mas teve um brilho ali, um sobressalto sutil na postura dele que entregou o impacto.
Com um gesto rápido, ele dispensou as duas servas. A porta se fechou com um estalido seco.
Meu coração disparou. Estar a sós com o governante daquele império, vestida com uma roupa que deixava metade do meu corpo exposto, me deixou completamente desestruturada. O rubor queimava no meu pescoço e na minha face.
— Eu... perdoe a falta de modos, Regente — comecei, tropeçando um pouco nas palavras e ajeitando o véu com dedos incertos. — Eu só... não esperava o senhor aqui no meu quarto. E nem... vestir algo assim.
O regente notou o meu nervosismo. Em vez de avançar, ele encostou a mão levemente no portal de pedra, mantendo uma distância confortável, e deu um sorriso calmo.
— A culpa é minha por surgir sem avisar, senhorita Haruno — disse ele, a voz bem pausada, quase macia. — E não precisa tentar se esconder sob o véu... A seda e o ouro das Areias foram feitos para o nosso sol — ele fez uma pausa — Mas devo confessar... o resultado foi surpreendente.
Engoli em seco, sentindo o peito arfar sob o top de seda. Soltei o tecido com vergonha, tentando focar em outra coisa para não transparecer o quanto eu estava perdida ali.
— O senhor... quer dizer... Vossa Majesta...
-Gaara — ele interrompeu-me com delicadeza. — Pode me chamar assim... títulos são coisas do Norte e do Sul.
Pisquei os olhos. Ele não parecia alguém que deixaria ser chamado dessa forma por qualquer um. Mas a calma em seu olhar, e o fato de que provavelmente não seria adequado contrariar.
-Gaara... — repeti, com certa vergonha. — Você me chamou por um nome estranho no salão — soltei de uma vez, a curiosidade finalmente vencendo o receio. — Falou algo como Al-Zumarrod... e olhou para o meu bracelete no braço direito... O que isso significa? O que o senhor sabe sobre mim?
O regente inclinou a cabeça devagar. O seu olhar baixou suavemente até o meu braço direito, fixando-se por um segundo na pedra verde cravada no metal. Ele caminhou até o balcão, deixando a brisa do deserto entrar, e se virou para mim.
— A'lam al-Zumarrod — repetiu ele, e a palavra soou antiga, quase um sussurro no idioma ancestral do deserto. — Significa 'a força guardiã da esmeralda' ou 'aquela que carrega a joia viva'. É como as crônicas mais velhas do meu Povo chamam os que possuem a marca e a linhagem que o seu bracelete protege.
Ele olhou bem nos meus olhos, sem pressa nenhuma.
— Para o Norte, talvez você seja apenas uma soldada que Sasuke tenta manter sob controle. Mas aqui, o seu nome e esse bracelete no seu braço têm um significado muito mais profundo do que uma farda militar. — falou com sua voz calma e serena — Quando a vi lá embaixo, quis garantir que você fosse tratada pela história que carrega, e não pelo papel que o Imperador quer que você desempenhe.
Fiquei sem resposta por alguns segundos. A forma direta e ao mesmo tempo respeitosa como ele falava desarmava qualquer tentativa minha de erguer barreiras. O nervosismo ainda estava ali, mas a sensação de ser enxergada de verdade trazia um alívio estranho.
— Eu nem sei ao certo o tamanho do que carrego — confessei, baixando a cabeça por um instante, o meu olhar também caindo para o bracelete no meu braço.
— Ninguém sabe no início — ele respondeu, dando dois passos lentos na minha direção.
A presença dele preencheu o espaço entre nós com um peso solene. O regente estendeu a mão aberta, palma para cima, em um convite paciente e carregado de um respeito formal que parecia me elevar de posição a cada segundo.
— O banquete de boas-vindas está prestes a ser servido. — disse com um pequeno sorriso — Não precisa carregar o peso de todas as respostas esta noite, senhorita Haruno. Apenas me dê a honra e a distinção da sua companhia na mesa de honra.
Eu travei por um segundo. A respiração acelerou no meu peito, fazendo as pequenas correntes de ouro no meu top faiscarem sob a luz das velas. Um arrepio de ansiedade percorreu a minha espinha ao perceber o peso daquela escolha: descer a escadaria do salão de braço dado com o soberano do Deserto. Um posição de honra, de fato.
Hesitante, levantei a mão trêmula e pousei os meus dedos sobre a palma dele.
O impacto foi imediato. A pele de Gaara era surpreendentemente quente — um calor vivo e denso, como a própria areia aquecida pelo sol da tarde, contrastando com a pele ligeiramente gélida de Sasuke. No exato instante em que o toque se selou, o metal do bracelete no meu braço direito reagiu: a esmeralda deu uma espasmo de luz, vibrando contra a minha pele em uma pulsação morna e cadenciada, como se reconhecesse a energia daquele reino e do seu senhor.
Um sobressalto de choque passou pelos meus olhos, e vi os olhos verde-pálidos de Gaara baixarem por uma fração de segundo para o meu braço antes de voltarem para mim, com um brilho de fascínio ainda mais profundo.
Apertei os dedos suavemente contra a mão quente dele, tentando conter o tremor do meu corpo.
— Tudo bem... vamos.
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A caminhada pelos corredores do palácio parecia suspensa no tempo. O mármore translúcido sob os nossos pés refletia a luz suave dos archotes, enquanto a mão do Regente permanecia firme e quente sob a minha, alimentando a pulsação morna do bracelete no meu braço direito. A cada movimento, as finas correntes e moedas de ouro do meu traje tilintavam suavemente, um lembrete constante da seda lilás e da pele exposta na minha cintura.
Duas portas gigantescas encrostadas com madrepérola e ouro foram abertas em silêncio por guardas de elite.
O salão de recepção privada era uma demonstração avassaladora de poder e opulência. O teto em domo exibia afrescos banhados a ouro, de onde pendiam lustres de cristal de rocha iluminados por velas perfumadas com óleo de mirra e jasmim. No centro do recinto, sobre tapetes persas de seda pura tão densos que abafavam qualquer ruído, estendia-se uma imponente mesa baixa de madeira nobre envernizada. Sobre ela, a prataria lavrada, as taças de cristal lapidado e os jarros de vinho do porto reluziam sob a luz quente.
Ao redor da mesa, acomodados em almofadas de veludo bordadas, estavam apenas os poucos e mais altos oficiais da cúpula do Deserto e a elite militar do Império do Norte.
No momento em que o Regente deu o primeiro passo para o interior do salão, conduzindo-me de braço dado ao seu lado, o murmúrio discreto das conversas diplomáticas simplesmente colapsou.
Um silêncio denso e elétrico tomou conta do ambiente.
Os generais das Areias entortaram a postura nas almofadas, impressionados pela presença de uma mulher estrangeira vestida com a seda e as joias reservadas unicamente à altíssima nobreza do Deserto. Os guardas de elite do Norte congelaram a meio caminho de levar as taças aos lábios. Eles, que passaram semanas marchando ao meu lado vendo uma de farda surrada, botas cobertas de lama e cabelos presos de qualquer jeito, pareciam incapazes de assimilar a mulher nobre e deslumbrante que entrava ali.
Os meus cabelos róseos e soltos caíam em ondas sedosas sobre os ombros, o véu com bordados de ouro moldava o meu rosto e a seda lilás destacava a curvatura da minha cintura, enquanto a esmeralda do bracelete no meu braço direito brilhava com um eco místico.
Eu não parecia mais uma prisioneira ou uma serva de guerra do Norte.
Na ponta principal da mesa, a figura mais imponente da comitiva imperial permaneceu imóvel.
Sasuke estava com a taça de cristal cravada entre os dedos. A sua postura rígida e impecável travou por completo. Quando os seus olhos negros se chocaram contra a minha imagem — a seda, a pele exposta, o ouro e a minha mão sobre o braço de Gaara —, vi o exato milissegundo em que a sua máscara de frieza absoluta trincou.
As pupilas dele se dilataram. Os nós dos seus dedos ao redor do cristal ficaram brancos pelo excesso de força, e a aura sombria e possessiva que o envolvia pareceu tensionar o ar de todo o salão.
O silêncio no salão não era apenas incômodo; era perigoso. Tinha o peso de uma tempestade preste a desabar.
A mão de Sasuke apertava a taça de cristal com tanta intensidade que achei que o vidro fosse se estilhaçar a qualquer segundo. Os olhos dele, frios e tempestuosos, percorreram cada centímetro da minha figura sem qualquer pudor. Ele encarou a seda lilás que emoldurava o meu corpo, a pele nua da minha cintura exposta à brisa do palácio, os cabelos soltos caindo em ondas e, finalmente, com uma fúria tempestuosa, na minha mão pousada sobre o braço de Gaara.
A mandíbula do Imperador travou, o músculo da sua bochecha pulsando de raiva contida. A farda escura do Norte, abarrotada de bordados prateados e condecorações rígidas, parecia pequena demais para a fúria que ameaçava transbordar do seu peito. A mensagem no olhar dele era cristalina, quase audível: Como ousa se apresentar assim diante de mim?
Senti o meu peito arfar sob o top de seda. A antiga soldada dentro de mim quis recuar, vacilar sob o peso daquele comando silencioso. Mas o calor da mão de Gaara e a pulsação firme do bracelete no meu braço me mantiveram de pé.
Sem pressa alguma, o Regente conduziu-me em direção ao centro da mesa em "U".
Em vez de me direcionar para as almofadas destinadas aos oficiais secundários ou à guarda de elite do Norte — onde Sasuke claramente esperava que eu me sentasse —, Gaara guiou-me diretamente para o lugar mais nobre do salão: a cabeceira principal, posicionando-me à sua direita.
Exatamente de frente para Sasuke.
— Acomode-se, por favor, senhorita Haruno — disse Gaara em um tom audível, a voz macia cortando o ar pesado como uma lâmina de seda. Ele mesmo puxou a grande almofada de veludo bordada a ouro para que eu me sentasse, um gesto de cortesia tão elevado de um governante que fez os generais do Norte trocarem olhares apreensivos.
Ajustei a saia dupla e as calças fluidas com cuidado, sentindo os adornos tilintarem suavemente enquanto me acomodava. Quando ergui o rosto, dei de cara com o olhar de Sasuke a escassos metros de mim.
Ele não piscava. A sua aura sombria e suffocante parecia avançar sobre a mesa, como se quisesse me arrancar dali e me cobrir com o seu próprio manto.
Gaara acomodou-se ao meu lado com uma calma irritante. Ele pegou um jarro de bronze trabalhado e serviu pessoalmente uma taça de manjar dourado para mim, antes de erguer a sua própria em direção ao Imperador do Norte.
— Espero que a viagem tenha sido agradável, Imperador — declarou Gaara, sustentando o olhar furioso de Sasuke com um sorriso leve e enigmático. — Como pode ver, a sua comitiva foi recebida com as mais altas honras que o Deserto pode oferecer. Especialmente os seus talentos mais valiosos.
Sasuke inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. A taça de cristal entre os seus dedos finalmente pousou sobre a madeira, mas o som do vidro contra o tampo ecoou como um golpe.
— A minha comitiva segue a disciplina e a hierarquia do Norte, Regente — a voz de Sasuke saiu baixa, grave e rasgada, carregada de um aviso mortal que fez os guardas do recinto colocarem as mãos sobre os punhos das espadas. — O uniforme e o dever vêm antes de qualquer espetáculo.
— No Norte, talvez — rebateu Gaara, sem perder um milímetro de compostura, levando a taça aos lábios. — Mas aqui, nós sabemos reconhecer quando uma joia está sendo sufocada pelo aço.
O ar ao redor da mesa estava tão denso que respirar parecia um esforço consciente.
Por dentro, meu coração martelava contra as costelas. A intensidade do olhar de Sasuke era como uma pressão física, um peso sufocante tentando me dobrar e me fazer baixar a cabeça. A soldada dentro de mim — aquela que passou dias obedecendo ordens e engolindo o orgulho sob a farda pesada — gritava para que eu recuasse.
Mas o calor da esmeralda no meu braço direito continuava pulsando, firme e constante. E ter Gaara ao meu lado, tratando-me com uma nobreza que eu jamais experimentara, acendeu algo diferente no meu peito: orgulho.
Ergui o queixo. Ajustei o véu de moedas sobre os ombros com gestos calmos e sustentei o olhar de Sasuke. Pela primeira vez, não baixei os olhos. Vi uma faísca de surpresa e fúria crua chispando nas pupilas escuras do Imperador ao perceber que o seu comando silencioso não funcionara.
Segurei a taça de cristal de vinho dourado que Gaara servira e tomei um pequeno gole, sentindo o sabor doce de tâmara e especiarias aquecer minha garganta.
— O dever do Norte é admirável, Imperador — disse eu, com a voz clara e audível que fez a mesa inteira me encarar em choque. — Mas a hospitalidade das Areias nos lembra que a força não precisa ser demonstrada apenas por rigidez.
A reação da comitiva foi imediata. Um dos generais de Sasuke quase engasgou com a bebida, e o próprio Sasuke estreitou os olhos, a mandíbula travando com tanta força que o músculo do seu rosto desenhou-se sob a pele. A audácia de eu ter falado diretamente, em um tom de igual para igual diante de duas potências imperiais, era uma afronta ao controle rígido que ele exercia.
Gaara sorriu — um sorriso discreto, mas cheio de satisfação — e apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.
— A senhorita Haruno compreende com clareza a essência das Areias — pontuou o Regente, direcionando o olhar para o centro da mesa, onde os mapas de couro repousavam. — Mas creio que o Imperador não viajou semanas pelo continente apenas para discutir etiquetas.
A atmosfera do jantar mudou num piscar de olhos, migrando do confronto pessoal para a frieza dos negócios de estado.
Sasuke ajeitou-se nas almofadas, a postura impecável e predatória. Ele gesticulou levemente com a mão, e Shikamaru apressou-se a desenrolar um mapa estratégico sobre a madeira envernizada da mesa.
— Vamos ao que interessa, Regente — a voz de Sasuke ressoou grave e cortante. — O Império do Sul expande as suas sombras sob a influência da casa Akasuna e das forças mercenárias da Akatsuki. O Norte marchará contra o Sul. Exigimos o direito de livre trânsito das tropas da Guarda de Ferro através das fronteiras do Deserto.
Gaara soltou uma risada fraca e aveludada, inclinando a cabeça com uma calma desconcertante.
— As Areias mantiveram-se neutras em todas as guerras entre o Norte e o Sul desde a fundação dos reinos, Imperador — rebateu Gaara, a voz serena cortando a ambição do outro. — A neutralidade é a nossa maior armadura. O Deserto não se envolve em conflitos alheios.
— A sua neutralidade é uma ilusão, Regente — retrucou Sasuke, a voz grave e soturna. Ele apoiou os cotovelos na mesa, encarando Gaara sem piscar. — A Akatsuki não respeita as suas fronteiras. Eles já estão usando as suas rotas marítimas e adentrando os seus mares em segredo para fazer emboscadas e desestabilizar o continente. A guerra do Sul já chegou às suas águas, quer você admita ou não.
Os generais das Areias trocaram olhares tensos na mesa. Sasuke sabia exatamente onde apertar.
— O Norte oferece a concessão perpétua de três grandes nascentes de água doce do Vale Setentrional em troca do livre trânsito das nossas tropas — continuou o Imperador, a postura fria e implacável. — Unimos forças para esmagar a Akatsuki antes que o seu reino seja engolido por ela.
O silêncio tomou conta do salão. Gaara olhou para o mapa sobre a mesa, o rosto mantendo a fachada de pura e inabalável serenidade, embora a menção às incursões secretas nas suas águas claramente tivesse tocado em um ponto crítico.
Mesmo surpreso com o nível de informação de Sasuke, o Regente não cedeu imediatamente. Ele encostou-se no espaldar da cadeira, calmo.
— Informações interessantes, Imperador. Mas o Deserto não toma decisões precipitadas sob ameaças ou promessas de água. Analisarei os seus relatórios e a sua oferta no devido tempo.
A mesa parecia ter chegado a um impasse diplomático gelado, com ambos os lados escondendo as garras. Foi quando decidi romper o silêncio.
Sem memórias do passado ou das guerras antigas, tudo o que eu tinha era a minha capacidade de observar o agora. E a reação das pessoas naquela mesa dizia absolutamente tudo.
— Se o perigo não fosse real, o Imperador não ofereceria as nascentes mais valiosas do seu próprio reino — soltei de forma clara, a minha voz ecoando por todo o salão.
O ambiente congelou no mesmo instante. Os generais do Norte travaram de choque diante da minha audácia, e até a guarda de elite prendeu a respiração.
Ajustei a seda lilás sobre os meus ombros, pousei as mãos sobre a madeira envernizada e olhei de Sasuke para Gaara, sustentando o peso dos dois impérios sobre mim.
— E se a ameaça às suas águas fosse uma mera invenção do Norte, os generais do Deserto não teriam se calado e trocado olhares de preocupação no instante em que as emboscadas foram mencionadas — continuei, firme. — Nenhum dos dois lados está blefando. A fumaça já está no ar; ignorá-la não vai impedir o incêndio de chegar às dunas, Regente.
Sasuke estreitou os olhos, surpreso com a audácia e a percepção da garota que ele tentara manter sob rédeas curtas.
Gaara virou o rosto devagar na minha direção. O olhar dele baixou por uma fração de segundo para a esmeralda no meu braço direito, que continuava emanando um calor brando e constante, antes de subir para encarar os meus olhos. O respeito e a reverência na expressão dele eram inegáveis.
O Regente baixou a sua taça de vinho com um estalido suave contra a mesa e olhou para o Imperador do Norte.
— A sabedoria milenar dos A'lam al-Zumarrod é sagrada... — declarou Gaara, a voz ressoando com uma solenidade ancestral que arrepiou os presentes. — Quando A'lam al-Zumarrod aponta a ameaça, o Deserto escuta.
Ele fez um gesto calmo com a mão, fechando o mapa sobre a mesa.
— A senhorita Haruno tem razão. A fumaça já está no ar. Amanhã ao amanhecer, reavaliaremos os limites das nossas fronteiras.
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