Impulsiva
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Capítulo 9
Envolvida pelos cobertores, eu acabei tendo um sonho. Não sabia que horas eram, mas sabia que já era tarde da noite. Com um guarda-chuva acima da minha cabeça, cobrindo os prédios altos, me salvo dessa garoa de confusão, e vejo você.
O tecido fino do teu vestido preto cobre teu corpo mesmo que a chuva já o tenha alcançado. Desprotegida, insegura e triste, é assim que o seu tão chamado “eu verdadeiro” realmente é.
Você trouxe companhia. Quem será? Não consigo decifrar esses riscos escuros. Ele te oferece um guarda-chuva igual ao meu para não se molhar ainda mais. Eu não gosto desse sujeito e digo para recusar, só que você não me escuta e pega o guarda-chuva, toda agradecida, pela generosidade. Por que está assim, menina? Corro depressa tentando te encontrar, sem nem me importar com o frio. Você acreditou em um rosto qualquer, mesmo sabendo que não deveria ter confiado, e agora está encharcada até os olhos. Você se afogou no lago da tristeza e nem sequer quis pedir ajuda. Por que é tão orgulhosa, menina?
Os raios de sol invadiram o quarto enquanto a mais leve brisa passava. Fui tomar um banho, na expectativa de que o meu mau humor passasse e observei a árvore do lado de fora, quieta e silenciosa. Eles acham estranho ter mais fotos de árvores na minha câmera do que de pessoas sorrindo, mas mal sabem eles que os galhos pedem socorro, assim como você, menina. É um desespero sem igual, onde não se sabe pra onde ir e nem pra quem contar, só sabe repetir que não aguenta mais esse aperto dentro do peito. Pobres árvores! Não possuem boca para dizer nada. Só se balançam e deixam suas folhas caírem até que a chuva apareça.
Na janela embaçada, escrevo desajeitada a palavra “papai”, e o vapor faz as gotas escorrerem como se as palavras chorassem.
Às três horas a campainha foi tocada.
– Entra. – falei a Karl ao escancarar a porta. Ele se sentou no sofá da sala e colocou os braços por cima da perna dobrada.
– Então... O que você quer conversar? – perguntei, curiosa, e seus dedos não queriam ficar parados.
– Quem te deu aquele colar? – perguntou, baixo e calmo, mas eu sabia que as mentes mais barulhentas são daqueles que pouco se expressam.
– Por que quer saber isso? – ele passou forte as mãos nos cabelos, e se levantou andando de um lado para o outro. Eu estava confusa, por que afinal aquela pergunta?
– Me responda.
– Fica calmo! – e tentei segurar firme seus punhos. – Me diga o que realmente quer saber.
– Quero saber o nome do desgraçado que te deu isso. – disse, com o maxilar travado e o soltei, começando a andar também. Que paranóia!
– Por que é importante saber isso? – eu não ia entregar o jogo antes de ele me responder, porque se não fosse importante, ele não estaria parecendo um maluco.
– Você é surda? – ele estava nervoso e me olhando com raiva. – Qual a dificuldade em me dizer quem te deu isso?
– E você também é surdo? – perguntei da mesma forma arrogante com que ele havia feito a pergunta pra mim. – Eu não vou dizer até que você me responda por que quer essa informação.
– Eu só preciso saber o nome.
– Não sei o que está fazendo dentro do meu apartamento já que não confia em mim. – e abri a porta mandando-o sair. Ele fez menção de ir embora, mas, ao invés disso, colocou o indicador na boca pensando um pouco. Ele bufou em meio ao sorriso cínico e, eu sabia que ele não queria dividir nada do que sabia comigo, mas ele tinha consciência de que da minha boca nada iria sair.
– Eu preciso de um computador. – se acomodou em uma cadeira e fui até meu quarto, apressadamente, buscar o notebook.
Com uma feição preocupada, ele fitava a tela. Com a ansiedade transbordando, eu o encarava. Pegou do bolso traseiro o colar e me mostrou.
– Isso não é um colar. – e aos poucos ele foi dividindo o metal da baleia em dois, revelando um pen drive.
– O que tem aí? – eu estava completamente surpresa. Por que aquilo seria um pen drive? Ele o conectou no notebook, fazendo aparecer várias letras verdes na tela com um fundo preto e, depois, sete medalhões dourados. Cada um possuía um animal diferente, desenhado no centro e o tigre estava no topo. – O que isso significa? – ele me olhou, sentado, e depois, olhou para a cadeira ao seu lado. Então me sentei.
– Esses medalhões representam a nossa equipe de exportação. – começou a me explicar e apontar para cada um dos medalhões. – Águia é o Rolf, por causa da coragem e visão interior; Macaco é o Adam, aquele que estava junto com o Rolf na boate; ele possui inteligência e silêncio. O gato era o Anthony, por causa de seu jeito misterioso. Eu sou o tigre, impulsivo e chefe. E seu pai era o touro, por causa da sua proteção. – e concordei porque era uma enorme verdade. Sempre quis me proteger de tudo, como se a vida fosse algo perigoso. Mal sabia eu que ele estava certo.
– E de quem são esses outros dois medalhões?
– Eles não fazem mais parte da equipe. – aos poucos tudo ia fazendo sentido na minha cabeça. Faltavam mais duas pessoas e, por que, afinal, Daniel me daria aquele colar? Isso eu ainda não sabia, mas precisava descobrir se ele, realmente, fazia parte.
– Me diga quem são eles.
– Primeiro, me fale quem te deu o colar. Esse foi o acordo.
– Daniel. – ele se levantou com a mão na cabeça e me olhando numa expressão assustada.
– Como assim, você o conhece?!
– O pai dele era amigo do meu, e acabamos nos tornando melhores amigos.
Minha cabeça girava tão depressa que achei que fosse desmaiar. Minha preocupação maior era com Dussel. Por mais que ele não fosse muito simpático comigo, eu tinha o dever de me importar com ele, já que o conhecia há tanto tempo. Será que Daniel havia lhe contado dessa grande porcaria que ele havia feito?
– Por favor, não me diga que vocês saíram nesses últimos meses.
– Não me diga você, que ele fazia parte da equipe. Isso não encaixa. Ele estava num intercâmbio nesses últimos anos!
– Intercâmbio? – ele gargalhou. – Ele estava na Suíça para cuidar das análises das mercadorias.
– Ele não mentiria... – falei, cabisbaixa, tentando entender a situação. Queria sumir do mapa, se isso fosse possível. Daniel havia mentido e agora eu estava duvidando até do que era verdadeiro.
– Ficou surpresa? Sinto muito se o seu namorado não te diz a verdade. – senti meus olhos arderem e uma vontade imensa de chorar me apareceu. Seja forte, Lisa. Você tem que ser forte.
– E desde quando eu estou namorando ele?
– Está escrito na sua testa que vocês não são apenas bons amigos. – ele riu e não me contive. Cheia de fúria. Lhe dei um forte tapa em seu rosto.
– Eu não sou uma de suas amiguinhas de que você pode falar o que quiser e como quiser. Você está na minha casa e terá que me respeitar. – não sei de onde aquela coragem havia saído e, depois de tudo que ele já havia me feito, a única coisa que poderia passar pela minha cabeça era me esconder embaixo do sofá. Mas, ao invés disso, eu não recuei. Seria eternamente grata por aquele ato impulsivo. Ele respirou fundo e tocou as dobras que começavam a se formar em sua pele. – E nós namoramos sim, caso você queira saber, mas eu tinha 14 anos. – ele esfregou o rosto e saiu andando pelo corredor do meu apartamento. Eu fui atrás. Ele estava com os braços esticados e apoiados na pia, com a cabeça curvada.
– Eu odeio tanto isso em você. – falou com uma voz baixa, quase sussurrada. As veias em seus braços eram notáveis, assim como sua irritação.
– O quê? – eu estava com a esperança de que aquilo virasse uma piada entre nós, como sempre era.
– Essa mania de me maltratar o tempo inteiro. – e vi pelas linhas de seu rosto que ele deu um sorriso de canto, disfarçado. Poderia estar rindo de si mesmo, quem sabe?!
– Coitado do neném! – disse, rindo e brincando, mas com o soco que ele deu na pia, percebi que era mais sério do que havia imaginado.
– Eu não sou seu saco de pancadas. Será que você não consegue me levar a sério um segundo sequer? – e saiu do banheiro, me deixando sem reação. Ouvi a porta do apartamento se abrindo e corri em sua direção. Coloquei a mão em seu ombro e o virei para mim.
– Eu não sei aonde quer chegar com esse assunto.
– Esqueça, Lisa. – e começou a descer as escadas, rapidamente, como se estivesse em uma fuga. Fugindo de mim?
– O seu problema é se silenciar por medo. – falei alto e ele parou de andar. – Não há problema em dizer o que se passa na sua mente, Karl. – ele riu, balançou a cabeça e continuou de costas com a mão no corrimão.
– Não. – e virou um pouco o rosto para que seu olhar penetrasse o meu. – O meu problema é ter coisas demais pra te dizer.
E saiu do prédio. Simplesmente saiu!
Ele me deixou abandonada nos degraus frios, sentindo seu perfume aos poucos evaporar do ar. Havia tanto para ser dito e os dois idiotas, mudos!
Os faróis dos carros transformavam a poça d’água na rua numa espécie de pote de ouro. Olhei para o céu, pensando que era a lua, mas era só mais um poste de luz, entre tantos outros, querendo me confundir. O tempo estava nublado e eu sabia que uma forte chuva cairia logo em seguida.
Fale com o autor