Impulsiva
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Capítulo 7
Fui acordada pelo som incessante do despertador que estava em cima da mesinha. Me levantei e vi, embaixo da porta, uma conta de água. Parabéns, Lisa, segunda conta atrasada por causa do seu esquecimento! Coloquei a carteira no bolso da calça-jeans e, depois do almoço, fui até o centro.
Entrei no banco central e dois guardas estavam um ao lado do outro, com seus uniformes padrão e suas grandes botas. O careca que usava óculos não parava de andar, como se não conseguisse manter as pernas firmes no chão; o moreno mantinha seus braços cruzados e uma expressão séria.
Peguei uma senha e me sentei na poltrona ao lado de uma senhora com cabelos presos por um pregador colorido. Na parede havia um quadro pendurado e em uma telinha pequena, perto do teto, vi o número da minha senha ser anunciada e fui pagar a conta. Na volta, resolvi passar em um aquário famoso, que tinha na cidade, já que não havia fotos programadas para aquele dia. Mas, o cheiro da pipoca estava tão bom que fui comprar.
O carrinho estava em frente a uma escola particular com grade azul, vermelha e amarela. E crianças por toda parte! Sentado no chão, vi um mendigo com cabelos desgrenhados e uma roupa suja. Ele era conhecido do meu pai. Peguei o saquinho e fui me servir da pipoca-doce, quando percebi que Bocão – seu apelido por causa da sua boca grande – soltou um grito e se jogou no chão. Por um momento, todos acharam que era uma brincadeira, talvez querendo pregar peça nas crianças. Só que não era brincadeira. Ele começou a tremer freneticamente; todo seu corpo se remexia e as veias de seu braço queriam saltar.
Todos olhavam, adultos e crianças, como se fosse uma estranha peça teatral que o rapaz estava fazendo. Até que, finalmente, um homem de boné e bermuda azul segurou com muita dificuldade seu rosto e tentou agarrar a língua de Bocão. Não tive reação quando vi meninas de 12 anos rindo e garotos filmando toda aquela cena. Ele parou de se mover e o rapaz que havia ajudado Bocão pegou um papel para limpar sua mão. Olhei ao redor e ouvi um grupinho gritando “morreu, morreu” e nessa hora, quis arrancar aqueles cabelos ondulados e fazer-lhes engolir o que disseram. Como um ser humano com tão pouca idade consegue ser ruim a esse ponto?
Havia duas moças ao meu lado, conversando.
– Eu vi as meninas rirem. – uma loira, com mechas, falou, virada pra outra mulher e arrumando sua bolsa laranja no braço.
– Que horror! – a senhora de cabelos lavados disse, espantada. – Ele é igual a todo mundo.
E saiu vagando pelas ruas. Peguei meu celular e disquei o número do hospital. Ambulâncias indisponíveis. Então liguei para o corpo de bombeiros. Ocupado! Queria ver se fossem essas meninas, ali, sofrendo, sabendo que não havia unidade disponível para socorrê-las, qual seria a sensação. É fácil rir da cara do outro, em um momento de desespero. Difícil mesmo é imaginar se fosse com você.
Bocão estava falando sozinho, e as mulheres ao redor começaram a sair de perto, levando suas crianças até os seus carros importados. Sentei perto dele, encarando seu chinelo imundo.
– Olá. – disse sorrindo. Ele coçou a cabeça e me olhou.
– Lisa? O que faz aqui?
– O que você está fazendo aqui, Bocão? – devolvi sua pergunta e ele simplesmente se levantou, pegou sua mochila preta e saiu ainda atordoado. O movimento em frente à escola já havia diminuído, mas o carrinho de pipoca ainda continuava lá. Paguei e fui comendo pela avenida. Todos nós, um dia, iremos precisar de ajuda, mas como melhorar se a negarmos?
A tarde estava ensolarada e resolvi ir até a biblioteca pública para ver se encontrava algo para ocupar meu tempo nos dias entediantes. Passei a mão pela enorme estante de madeira, sentindo a lateral dos livros nas pontas dos meus dedos. Os corredores vazios deixavam que somente o cheiro das páginas, cobertas por segredos, ficasse no ar.
Um livro me chamou a atenção mais que os outros, e, minha curiosidade de saber sobre de quê se tratava, prevaleceu. Segui até a bibliotecária e assinei no papel do meu cadastro. Ela colocou em uma sacola o livro A cidade do sol e senti uma brisa no meu rosto ao sair da biblioteca. Fui andando no passeio, sorrindo para todos os estranhos que passavam. Talvez aquele sorriso pudesse mudar o dia de alguém, porque era tudo que estava acontecendo com o meu.
Fiz coisas ruins, mas o importante é que quero fazer coisas boas. Atravessei a rua e fui parar em outra, totalmente deserta. O sol já estava se pondo quando senti mãos fortes puxarem meu braço e me prensar contra a parede. Suei frio quando minha pele tocou no muro e um homem encapuzado tirou brutalmente meus cabelos perto do pescoço e, depois de alguns segundos me fitando, ele saiu correndo. Meu Deus! Que estranho!
Meu medo, aos poucos, foi sumindo e meu coração desacelerando, deixando que só fosse ouvido o vento contra meu corpo. Fui pra casa, mesmo que minha mente estivesse extasiada com aquilo tudo. Liguei para uma confeitaria e encomendei um bolo para o dia seguinte. E eu não conseguia parar de andar pelo apartamento de um lado para o outro, como se minha alma estivesse inquieta. De uns tempos pra cá, venho pensando no quanto precisamos de um chacoalhão para perceber que a vida vale a pena. Por onde passo, eu vejo pessoas com sorriso falso no rosto, esperando ir para suas casas até a noite cair e deixar que o choro reprimido se desfaça. Por que esconder seus problemas e não pedir ajuda? Não consigo entender como podem saber que estão mal e não fazerem nada para mudar a situação. Nossa felicidade não é uma brincadeira qualquer.
Queria que você, menina, que se sente sozinha, soubesse que é forte. Você só sairá desse buraco negro chamado tristeza, se for humilde para aceitar a luz. Encontre o que te faz bem e agarre isso como puder, porque momentos ruins todos nós temos. Do que adianta sua existência se não for para ser feliz?
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