Impressões
2 O vento
Notas iniciais
Um remédio, eles disseram. O tempo é o melhor remédio. Na verdade, não passa de um simples vento.
Não é esse o seu objetivo, afinal de contas? Soprar para longe toda memória, todo sentimento, sejam estes bons ou ruins? Alguns podem considerar isso uma purificação e uma cura, mas eu não consigo ver mais do que um ladrão que assalta suas vítimas durante a noite e some sem deixar vestígios.
As dores não deveriam ser apagadas. Elas fazem parte do que somos e nos guiarão pelo restante da trilha como luzes. Pisar num espinho pode lhe ensinar a não andar descalço, assim como perder alguém pode lhe fazer dar valor às outras pessoas enquanto há tempo.
Mas não adianta culpá-lo; ele não vê suas vítimas, não as escolhe, não as ouve gritar. Alheio a tudo e a todos, apenas passa carregando consigo sua preciosa mala de pertences coletados pela estrada, sem parar ou olhar para trás. Se algo se vai, significa apenas que sua hora chegou. O tempo não se atrasa e nem se adianta, ele sempre é pontual. Alguns corajosos arriscam dizer que ele voa.
Saber disso não me impede de repetir toda noite as mesmas palavras entre lágrimas até que caia no sono.
Vire-se e volte ou ande mais depressa. Traga-a para mim ou me leve até ela, não importa, o que for mais rápido. Farei qualquer coisa por mais um minuto com o rosto deitado em seu peito quente, ouvindo seu coração bater. Por favor.
Como de costume, ele ignora meu pedido e segue imparcialmente seu caminho, sempre pontual. Não me surpreendo quando, outra vez, a avermelhada manhã chega sem que eu tenha conseguido descansar, nem mesmo quando ela traz a tiracolo a tão temida solidão que me assombra desde o dia em que ela se foi.
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