Impregnada
6 29 de Janeiro :capítulo 6
Notas iniciais
Gastava algumas horas do meu dia pensando naquela mensagem. Ficava me perguntando a sua origem, a intenção da pessoa que a havia mandado e o porquê de ter sido enviada justamente naquele horário – era ou não uma coincidência?
Por algum tempo, quando a observava abismada, fiquei me perguntando quem tinha vencido o mundo. Então a ficha caiu depois de ter visto a fonte (João 16:33); era certamente um trecho da Bíblia. Então, logicamente, quem tinha dito era Jesus.
Nunca tinha me perdido por tanto tempo por causa de um versículo. Era muito estranho, sinistro. Pensava tanto naquilo que me dava dor de cabeça.
Então a semana enfim acabou e eu não tinha recebido mais nenhuma mensagem, então resolvi deixar de lado. Talvez tivessem simplesmente mandado para o número errado, talvez fosse uma dessas correntes que circulam entre as pessoas. Deixei a mensagem lá e voltei a pensar em outras coisas.
Era semana de provas e eu ainda estava bem mal. Tentei estudar, juro que tentei. Mas não conseguia. Meus olhos liam as palavras, porém a mente não processava a informação. Já tinha revirado dez páginas de cinco livros e ainda não entendia nada; isso me dava náuseas.
Aí eu desisti. Não adiantaria nada continuar tentando, só iria perder mais tempo. Por mais que tentasse me concentrar, acabava me perdendo de novo e isso parecia inevitável.
Peguei o celular e fiquei com a tela ligada no plano principal, ainda pensando no que poderia fazer. Então fui vendo as minhas caixas de mensagens, das mais recentes até as mais antigas.
Encontrei um contato que estava lá no fim, mais de um ano com quem eu não conversava, antes só de umas pessoas com quem eu nunca falava. Seu nome estava marcado como Ian Sandake, mas lembrei que antes era Ian Mor e alguns corações. A última mensagem tinha sido ele quem mandara.
“Tchau”.
Comecei a ler a conversa desde o início. Desde um oi meu até o último tchau. Meu coração apertou quando terminei, meus olhos estavam cheios d'água.
Ian era um descendente de indianos da minha escola que tinha se mudado para a Califórnia. Eu o chamei para perguntar como estavam as coisas e acabamos começando a namorar. Ele prometeu que voltaria para me visitar e eu estava ansiosa para vê-lo. Sempre tinha achado Ian lindo mas não éramos nem tão próximos. Nunca imaginei que algum dia teria algo com ele.
Ian: Tem uma coisa que eu sempre quis te falar.
Alyson: Pode falar.
Ian: Eu sempre gostei de você, desde o dia em que tinha te visto passar pela porta da sala 18. Sempre te achei linda e encantadora mas tinha medo de que nunca me desse bola. Depois de ter te conhecido melhor, percebi que era ainda mais bonita por dentro e aquilo me parecia impossível. Quero que saiba que pode contar comigo, mesmo que estejamos a milhas de distância. Meu amor pode viajar para te encontrar todos os dias, e ainda assim não estou satisfeito. Juro que vou pra aí assim que puder e quando te encontrar te farei a garota mais feliz do mundo. Eu te amo, Alyson Brunner.
No Dia dos Namorados da sétima série eu tinha recebido meu primeiro cartão que não havia sido mandado por alguma amiga minha. Estava assinado por um admirador secreto mas reconheci ter sido de Ian por causa da escrita perfeita. Procurei por ele depois, mas não quis me falar nada.
Ian já tinha escrito vários textos para apresentações e trabalhos, sempre sendo reconhecido. Na verdade, tinha sido ele quem me incentivou a começar a escrever depois de ter visto uma redação minha. Sério, sou muito grata a ele por isso.
Ele me mandou depois também um poema, mais amigável dessa vez. Lembro de ter ficado surpresa, mas feliz. Ian parecia ser muito legal, e a maneira como ele escrevia sempre me admirou.
Mas aquele texto em especial tinha sido diferente. Mesmo que fosse normal, comum e tudo mais, ainda era lindo. Ele tinha me tocado de verdade, feito com que eu me sentisse... diferente. Realmente acreditei que alguém pudesse gostar de mim de verdade.
Lembro de não ter sabido exatamente o que responder. Estava tão encantada, tão feliz, que as palavras fugiam da minha mente. Nunca em nenhum outro momento estive com tanta vontade de ver Ian – e beijá-lo.
Contudo, naquela época, eu e Dave já nos conhecíamos mas ainda não namorávamos. Foi por ali mesmo que comecei a ver que ele era lindo e interessante, foi naqueles momentos que eu me apaixonei por ele. Por algum tempo, não soube o que fazer. Já estava na cara que o sentimento era recíproco e estava prestes a me pedir em namoro. Fiquei confusa e indecisa, mas depois decidi terminar com Ian. Ele demonstrou estar muito, mas muito triste, porém que entendia os fatos. Aceitou minha decisão e perguntou se poderíamos continuar amigos. Depois daquilo, nunca mais nos falamos.
Ian Sandake morreu dois meses depois em um acidente de carro. Foi o único presente que não resistira. Quando descobri, era como se alguém tivesse arrancado um pedaço de mim. Me arrependi completamente por não ter continuado a falar com ele e fingido que não existia. Sua irmã me mandou uma mensagem pelo Facebook, me convidando para o velório e para fazer um elogio fúnebre, mas não me parecia certo, por isso recusei. Segundo informações da internet, em seu caixão estava inserida uma frase que ele próprio tinha escrito: aceito a realidade, então a realidade me aceitará.
Depois de ter lido toda a conversa, senti minhas pálpebras pesarem e comecei a dormir com a tela do celular ainda ligada. Sonhei com um cavalo e um coelho e alguns arco-íris estranhos. Mas acordei pensando em Ian, em Dave e em Henry. E passei o dia pensando na droga que tinha arranjado para a minha vida.
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