Impregnada
10 2 de Fevereiro :capítulo 10
Notas iniciais
Me olhei no espelho com um sorriso no rosto. Um sorriso forçado, claro, só para ver como estava minha expressão. Olhei nos meus olhos e sorri um pouco mais. Abri meu guarda-roupa e enfiei as melhores roupas na minha bolsa. Tinha combinado com Clary que iria me arrumar na sua casa.
Ouvi batidas na porta.
– Aly? – chamou minha mãe.
– Pode entrar – respondi.
Ela a abriu e entrou no meu quarto, fechando a porta atrás de si. Sentou-se na minha cama e ficou me observando com aquela sua expressão perdida.
– Você precisa mesmo fazer esse trabalho hoje? – ela perguntou.
– Sim, mãe.
– Mas é a festa na casa da sua avó e...
– Ah, mãe, sério. Aquele pessoal não se importa comigo. Eu duvido que alguém realmente se importe comigo – e me sentei ao seu lado.
Passou os dedos entre os fios do meu cabelo e me abraçou com força.
– Eu me importo com você, filha – falou – Eu me importo mesmo.
Foi uma sensação repentina. Tive vontade de afundar no seu abraço e permanecer ali para sempre. Não sei se era seu cheiro, sua pele ou qualquer outra coisa, mas era completamente reconfortante. Era algo que eu senti que precisava.
Quando me soltou, a sensação não parou. Eu me sentia mais completa, revigorada, como se todas as minhas necessidades tivessem sido atendidas. Abri um sorriso – um sorriso de verdade, diferente daquele que estampava no meu rosto momentos antes – e a observei.
– Obrigada – sussurrei.
Ela se levantou e acariciou meu cabelo de novo, com um sorriso branco.
– Sugiro o vestido preto – falou – Vai lá. Deixa que eu e seu pai aguentamos sua avó.
Então saiu do meu quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos.
Por um momento, tudo parecia normal. Mas então a ficha caiu: minha mãe sabia que eu ia a uma festa. Eu tinha contado que ia para a casa de Clary – minha nova amiga – fazer um trabalho de ciências. E não só sabia: ela me deu permissão para ir.
Olhei tudo ao redor e então encontrei minha bolsa: aberta, mostrando todas as roupas que estavam lá dentro. Então deduzi que foi dessa forma que ela tinha descoberto tudo.
Mesmo assim, não tive tempo a perder. Terminei de arrumar todas as coisas, enfiei uns livros dentro da bolsa e esperei a campainha tocar para sair de casa correndo. Não cumprimentei Clary direito, simplesmente a segurei pela mão e comecei a correr.
– Ei ei – ela falou – Não precisa ficar tão ansiosa assim, você nem sabe onde moro.
– Não sei mesmo – respondi, rindo – Só quero me afastar daquela casa o máximo possível.
Clary se jogou na minha frente e disse:
– Bem, então vamos nos afastar indo em direção à minha casa, pode ser?
Ri.
– Cara, você já tragou hoje? – ela perguntou.
Balancei a cabeça negativamente.
– Bem, estamos diante de uma nova Alyson Brunner, pessoal, palmas!
E agarrou a minha mão e me puxou em direção ao outro lado, correndo também, as bolsas que eu carregava voando para trás, prestes a cair a qualquer momento.
Chegamos diante de um portão branco na frente de uma casa tão grande quanto a minha. Ela entrou na minha frente e o trancou. Então me puxou, indo direto ao seu quarto.
Jogou minha bolsa na sua cama e a abriu, tirando de lá todas as roupas. Espalhou cada uma e sorriu para mim ao vê-las.
– Muito lindas, Alyson – e riu.
Então pegava uma peça, a estendia e apontava algum defeito.
– Não tem como você não ter uma roupa legal – disse ela.
Enquanto isso, permaneci calada, apenas observando. De certa forma, me senti humilhada. Ninguém nunca tinha comentado nada sobre a minha maneira de me vestir e aquela sempre tinha sido a que mais me confortava, a que mais fazia com que me sentisse eu mesma. Uma dor apertou meu coração e me segurei para não desabar. Já estava sensível; qualquer coisinha poderia me destruir.
Até que Clary puxou o vestido preto que minha mãe havia sugerido e falou:
– Ele é perfeito. Só um cinto e um salto, pode ser?
– Acho que... fica demais – concordei.
– Ótimo. Pode vestir.
Segurei o vestido nas mãos e fiquei olhando para ela.
– Que foi? – perguntou.
– Hã... aqui? Com você me olhando?
– Qual é, Aly – riu – Eu não vou te estuprar.
Suspirei e, devagar, comecei a tirar minha blusa. Ouvi-a falar entredentes “mas que dá vontade, dá”, porém ignorei seu comentário. Notei seus olhos presos em mim e no meu corpo, fazendo com que eu me sentisse constrangida. Tentei ignorar isso e também o fato de que nunca tinha visto Clary falar de ou dar em cima de um garoto nas últimas semanas em que nos conhecemos. Botei o vestido e prendi o cinto. Depois calcei o sapato e fiquei me olhando no espelho. Penteei o cabelo e então sentei-me na cama, esperando que Clary se arrumasse. Ela pôs uma blusa preta e uma saia azul.
E, então, saímos.
Fomos a pé. Segundo suas instruções, a casa não era muito longe. O ar estava gelado e eu me sentia uma idiota usando um vestido sem mangas. E nada de casaco.
Mas, de certa forma, me senti bem. Mais uma vez. Era como se estivesse buscando algo e o tivesse encontrado. Na verdade, eu realmente estava.
Buscava a felicidade.
Não acredito em coincidências. Depois de um tempo, percebi que elas não eram reais. Nada é irrelevante.
Você pode dizer que foi coincidência. Contudo, naquele exato momento, enquanto eu, de braços cruzados com Clary, caminhava num vestido curto até uma festa adolescente, recebi mais uma mensagem.
O povo que andava na escuridão
viu uma forte luz;
a luz brilhou
sobre os que viviam nas trevas
(Isaías 9:2)
Fale com o autor