Impregnada

18 10 de Fevereiro :capítulo 18


Notas iniciais
Saudades de fazer capítulos grandes :')

Era um sábado. Lembro que estava assistindo ao The Big Bang Theory na pequena televisão do quarto e bebendo meu chocolate quente matutino. Pensava no que faria assim que terminasse aquele episódio e ainda me decidia entre chorar e ler alguma coisa que me fizesse chorar.

E então eles apareceram.

Lembro também que tinha ouvido alguns ruídos altos no corredor, mas imaginava que seria alguém fazendo uma surpresa para um doente qualquer. Até porque, bem, eu não tinha amigos de verdade. (Clary só tinha me visitado uma vez e durante todo o tempo ficara me xingando, rindo e roubando meus remédios).

Eu estava errada, mas não completamente. Era mesmo uma surpresa, mas para mim.

Quando abriram a porta, até cheguei a imaginar que tivessem confundido o quarto, mas então reconheci os rostos daqueles adolescentes que eu não via fazia meses. Lily, Sara, William, Ben, Kris e, bem no meio e com o maior e mais lindo sorriso que eu já tinha visto, Jeremy.

Metade dos segundos que passei paralisada foi por causa da sua forma de sorrir. Bem no fundo, senti que estava sentindo falta dele. Lembrava de termos nos visto algumas semanas antes, mas ele não sorria assim. Lembrei-me do quanto amava aquele sorriso.

Eles seguravam cartazes e desenhos e Kris até tinha levado o seu violão. Quase comecei a chorar ali mesmo, mas consegui segurar a vontade. Todos os seis ficaram olhando para mim e não pareciam ter pena do meu estado; mostraram se importar mais com me ver do que com a forma que eu estava.

Enquanto cada um me abraçava, eu sentia seus cheiros com água nos olhos. Fiquei lembrando de como os abraçava o tempo todo e de como tinha reduzido tanto a minha vontade de abraçar nos últimos meses. Jeremy me deu um abraço forte e, devagar, colocou um pedaço de papel no meu colo. Ouvi todos eles falarem que estavam com saudades e fiquei balançando a cabeça e sorrindo fraco, com o rosto em chamas e os olhos pregados nas letras escritas no papel que estava no meu colo.

Prestei atenção em cada palavra que eles diziam, e isso só fazia meu sorriso aumentar. Eles falaram sobre todos os eventos e muitas novidades que haviam acontecido enquanto eu estava ausente. Entregaram-me um cartão feito com papel A4 e assinado por todos os membros do nosso grupo, até mesmo os que eu não conhecia, desejando-me melhoras e falando que Deus ainda estava comigo.

Foi então que percebi que minha mãe não estava mais no quarto. Perguntei-me onde poderia estar e então notei que Sara tinha me feito uma pergunta. Balancei a cabeça e olhei para eles de novo e vi como estavam sérios. Jeremy estava sentado ao meu lado na maca enquanto todos os outros estavam em um banco ou poltrona , exceto Will que permanecia de pé. Então Sara repetiu a pergunta:

– Como você está se sentindo, Aly?

E naquela hora percebi que ainda não tinha falado nada.

– Na verdade – suspirei – não estou legal. Minha perna tá doendo muito e eu nem consigo me mexer direito. É uma droga precisar de ajuda para andar.

Percebi que eles tinham ficado tensos com o que falei e talvez preocupados, por isso continuei:

– Mas, por outro lado, é bom. Se eu acordo cedo, é só para tomar remédio e então fico o tempo todo aqui, deitada. Nada de escola nem de tarefas ou obrigações. Posso passar o dia inteiro deitada na cama. Além do mais, não estou com problemas de saúde sérios o bastante para não poder comer o delicioso estrogonofe daqui.

E riram fraco, e só ouvir esse som me fez bem novamente.

– E você passa o dia todo deitada, tipo, fazendo nada? – questionou Ben.

– É, cara, exatamente assim. Leio um pouco, assisto a séries, até tenho internet aqui.

– Eu queria isso – e riu – Só que, bem, sem ser desse jeito e...

Um silêncio constrangedor predominou no quarto de novo e eu não sabia mais como quebrá-lo.

– E como foi que isso aconteceu? – perguntou Will.

– Hum, eu tava correndo pela rua e acabei sendo atropelada.

– Por que correndo pela rua, Alyson?

– Vi o meu namorado pendurado no pescoço de outra garota, aí fiquei com raiva e comecei a correr.

– Espera – disse Jeremy – Você tá namorando?

– Tava – respondi.

– Você parece bastante interessado, Jeremy – comentou Sara, fazendo todos rirem. E isso fez com que eu me lembrasse de como tentavam juntar nós dois até Lily descobrir que eu estava com o Dave e pedir que parassem com isso. Mas no fundo, eu gostava... e muito.

Depois de alguém ter puxado um assunto e termos rido muito, pedi a Kris que tocasse um pouco e ela me atendeu. Começou por Up In Arms1 e percebi como sentia falta de ouvir aquela música. Então me ocorreu que talvez não sentisse falta deles nem das músicas e sim da paz que tinha quando estávamos próximos, do motivo que nos única. Mas afastei aquele pensamento da cabeça e cantei cada um dos versos porque me lembrava da música inteira e principalmente do seu significado na minha vida.

E eu estava sorrindo, sorrindo com vontade. Cantamos juntos e rimos juntos e acabei até me esquecendo da dor física que me prendia naquela cama e da sentimental que me derrubava. E à medida que o tempo ia passando, eles percebiam que precisavam ir embora e saíam aos poucos e quase todos já tinham ido, exceto Jeremy que ainda estava sentado na maca.

Ele virou para mim e sorriu e senti um frio na barriga e enrubesci. Pedi que deitasse do meu lado e ele o fez e deitei no seu peito e senti os seus dedos no meu cabelo. E fiz algo que não gostava de fazer na frente de alguém.

As lágrimas vinham para os meus olhos e percebi que não estava mais chorando de emoção e sim por causa da dor que ainda existia no meu coração. E alguns minutos depois comecei a soluçar e ele percebeu o que estava acontecendo.

– Alyson – ouvi sua voz – O que está acontecendo?

Solucei mais um pouco e chorei descontrolavelmente no seu peito, sem entender exatamente por que estava fazendo aquilo. E respondi entre soluços:

– Eu estou morrendo.

Senti o seu olhar pesar sobre mim e respondeu:

– Não, não está. Pode parecer complicado e muito doloroso, mas você vai sair desse estado. Nem é tão sério assim, Alyson. Sua perna vai ficar boa logo e...

– Não é isso – interrompi – De verdade. Eu estou morrendo lentamente por dentro, desde que o Dave terminou comigo.

– Como assim?

E percebi que já estava contando para ele mais do que já tinha contado a qualquer outra pessoa e mesmo assim preferi continuar.

– Lembra do Dave? – e ele fez que sim com a cabeça – Então. Dia 16 de Agosto, quando parecia que estava indo tudo bem, ele resolveu falar comigo sobre uma conversa que eu tinha tido com meu amigo Henry onde muitas mensagens envolviam corações. Eu tentei lhe explicar que eu e o Henry nunca havíamos tido algo físico, que tinha sido apenas naquele momento e porque eu estava com saudades do Dave na verdade, mas ele não quis me ouvir. Não me perdoou nem mesmo quando eu disse que ele era meu tudo. E quando falei que não sabia viver sem ele, pediu para que eu me matasse e me chamou de vadia. E eu tentei me matar. Fui para a cozinha e peguei uma faca enorme. Apontei-a para a minha barriga e estava quase perfurando-a, só precisava de coragem para fazer isso. E quando estava conseguindo-a, meu pai apareceu e começou a me bater.

“Foi aí que começou a minha depressão. Engordei demais, depois emagreci demais e comecei a parar de ir para a escola. Fiquei duas semanas faltando e ninguém parecia nem se importar com isso. Até minha mãe conversar comigo e pedir que voltasse, e eu a obedeci. E vi o Dave e a Kandice na escola se beijando na minha frente.

“Comecei a namorar o Henry. Éramos melosos demais e gostávamos muito de ficar juntos. Mas não parecia legal. Não só porque ele pediu que eu parasse de escrever e sumiu com o meu caderno. Também porque, todo o tempo que eu passava ao seu lado, não conseguia parar de pensar no Dave e em como ele tinha sido o motivo para estarmos separados. Foi nessa época também que eu me cortei pela primeira vez, acho. E lembro de termos terminado, de uma outra garota ter supostamente beijado-o, de eu ter ido que ele nunca seria o Dave e ele me chamado de vadia também.

“Certo dia, o Dave me beijou. Eu estava muito deprimida e ele me beijou da mesma forma que me beijava antes, da forma que eu sentia tanta falta. Recebi a primeira mensagem anônima com um versículo bíblico, João 16:33. Depois, outro dia, a Kandice me bateu por causa disso. Não por causa da mensagem, ela nem sabe da existência dela. Por causa do beijo. Tentei lhe dizer que ele que tinha me beijado, mas também não quis me escutar. Gritou comigo e começou a me bater e tava doendo muito. Eu poderia ter morrido ali, mas então a Clary apareceu e expulsou-a. Cuidou de mim, levou-me para outro lugar e mandou o Peter tratar dos meus ferimentos. E foi naquele dia e naquele momento que eu fui apresentada ao baseado como uma forma de fugir da realidade à qual estava presa.

“Quando completou dois meses desde que eu e o Dave tínhamos terminado, encontrei com o Henry ao sairmos da escola. Caminhamos juntos e conversamos um pouco, li um texto para ele. Acabamos começando a discutir e ele falou que nunca tentou roubar o lugar do Dave, que só queria ter o seu lugar garantido. E me beijou uma última vez e foi embora, me deixando sozinha. Nunca mais nos falamos.

“Nesse dia também, fui à minha primeira festa. Disse para os meus pais que ia fazer um trabalho na casa da Clary, mas na verdade fugi com ela para a casa de um garoto chamado Andrew. Não lembro de muitas coisas daquela noite porque estava chapada, mas lembro que foi dentro de um armário que tive a minha primeira vez. Dormi na casa dela e estava passando muito mal, mas voltei para a minha salva, contudo nem tão sã. E foi aí que eu parei de me drogar.

“Eu e o Andrew saímos algumas vezes e ele até chegou a me beijar também. Parecia um garoto muito legal e me fazia rir bastante. Foi nessa época que fui a uma consulta psicológica, mas não saí nem um pouco satisfeita. Queria alguém que me ouvisse e me entendesse, não que agisse como se eu fosse qualquer uma.

“Três vezes eu tentei me matar depois disso. Pulando de uma janela da escola, com uma faca de novo e através de overdose, não necessariamente nessa ordem. E foi então que eu percebi que não conseguia mais morrer porque já estava morta. E ficava escrevendo muito e não conseguia mais me desgrudar do meu caderno, até meu pai queimá-lo.

“Então o Andrew me pediu em namoro e eu aceitei. Não é que não parecesse certo, como o Henry. Mas eu não me sentia bem naquele relacionamento. Tentei muitas vezes tentar ficar feliz quando estávamos juntos, mas não conseguia. Tanta gente me dizia que ele não era certo para mim, contudo eu não queria ouvir. E percebi que a dor que estava sentindo era por falta de confiança e tentei usar isso como um motivo perfeito. Fui para a sua casa pensando nisso, tentando me determinar cada vez mais para não acabar sendo fraca e cedendo.

“Foi aí que eu o vi beijando outra garota no portão de casa. Por mais que quisesse terminar o nosso namoro, senti muita raiva. Fiquei completamente irada e comecei a xingá-los e não lhe dei tempo de explicar. E foi no meu momento de raiva que eu comecei a correr e acabei atravessando a rua sem olhar para os lados e aconteceu o acidente.

“E estou aqui, morrendo de dores. Presa numa maca vendo todas as temporadas de cinco séries pelo menos e bebendo chocolate quente todas as manhãs porque a enfermeira sabe como eu gosto muito de chocolate. Também passo o tempo pensando em como nada é irrelevante e que cada detalhe é importante. Porque se qualquer coisinha tivesse sido diferente, eu não estaria assim.”

Parei de falar abruptamente e Jeremy também nada falou. Enquanto contava tudo, ficava me mexendo e fazendo pausas para me confortar cada vez mais. Quando terminei, estávamos nos olhando e eu estava perdida nos seus olhos que tanto sentia falta. Ele não sorriu, ficou completamente sem expressão. Subitamente, tive vontade de beijá-lo, mas optei por ficar parada.

– Sabe o que dói muito, muito mesmo? – perguntei, vendo-o balançar com a cabeça – Ele não me ligou. Não mandou nenhuma mensagem. Não tentou se explicar nem nada parecido. Não mantemos mais nenhum contato. Nem sei se ele sabe que eu estou aqui, mas, se sabe, não se importa. E por causa dele, estou nesse estado de inércia, prestes a morrer e sendo consumida pela dor. Isso me dá muita raiva e dói demais.

Jeremy piscou.

– Vai valer a pena – foi tudo o que disse.

Bem aventurados os que choram,

porque serão consolados.

(Mateus 5:4)

Notas finais
Espero que tenham gostado, amores. 1/+ comentário(s) = Próximo capítulo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.