Impossible
31 30º - Inimigo.
30º — Inimigo.
Pela primeira vez, Artemis não acordou cedo.
O sol já raiava alto, quente demais em suas costas pra ela ter a certeza de que passava das oito da manhã. E estava tão calor.
Suspirando, seu corpo pequeno ficou de lado, só pra então compreender o porquê.
Apolo.
Lindo, calmo, dormia tranquilamente com a cabeça contra seu ombro, o rosto bonito a poucos centímetros do seu e um braço serpenteando sua cintura, aquecendo mais que o necessário, de forma que se encontrava com o cabelo grudando na nuca.
Mas esqueceu de tudo isso ao fitá-lo.
Ele era lindo.
E era seu.
Um sorriso apareceu em seus lábios ante a lembrança da noite anterior, com ele dizendo que a amava. Esse maravilhoso homem era seu.
Não, só até ele perceber o brinquedo quebrado que ele adquiriu, pensou cinicamente seu lado mais racional. Artemis compreendia a complexidade do que seria deixá-lo amá-la, mas naquele momento não queria lembrar-se disso.
E cá estava, ansiosa e sufocada com o pensamento dele deixá-la. Precisava de ar. Precisava de espaço. Mesmo os toques de Apolo estavam a sufocando agora.
Tentando não fazer muito alarde, pois queria o deixar dormindo, Artemis procurou um modo de se esgueirar para fora daquele circulo.
E tudo foi em vão. No momento em que saia, o aperto se intensificou e belos olhos azuis encararam os seus, meio sonolentos.
E ele estava mais sexy do que ela jamais havia visto.
Os cabelos despenteados, os olhos extremamente amorosos em sua direção, um sorriso badboy nos lábios e aquele peito geometricamente perfeito contra o seu. Artemis corou. Droga, não devia estar olhando para aquele corpo tão descaradamente.
Apolo, se percebeu, não deu alarde, apenas começou a suavemente a deslizar o nariz em sua nuca. Aquilo era maravilhoso.
- Bom dia, Artie – sussurrou ele, roucamente contra seu ouvido. – Onde pensa que vai
E todo o seu plano de conversar com ele foi por água abaixo.
De alguma forma, sabia o que poderia lhe dar confiança, o que poderia afastar essas idéias cruéis de sua mente. E foi pensando assim, que se inclinou contra um surpreso Apolo, prendeu os dedos nos cabelos loiros e o beijou com tudo o que tinha.
O simples ronrono que saiu da boca dele foi o suficiente para acalmar seus nervos, as mãos enormes deslizando por sua cintura, a puxando para cima dele e então o desejo que ele emitia a cada toque em seu corpo a fez ter a certeza de que ele a queria. Que era ela. E pela primeira vez compreendeu a necessidade de saber que estavam bem daquela forma.
Suavemente, Apolo deitou sobre seu corpo, jamais deixando de beijar ávida e carinhosamente sua boca. E ela não ligou. Tinha grandes e definidos músculos das costas dele para poder descobrir e passar a unha enquanto aproveitava aquela sensação de estar... Completa.
Apolo ria baixinho ao mordiscar seu pescoço.
- Hum... Esse foi o melhor bom dia que já recebi... Você dormiu bem
Artemis fechou os olhos. Ela não queria conversar agora. Na verdade, a ultima coisa que ela queria era conversar. Precisava daquilo, precisava conectar o sentimento que ele dizia com aquela parte dela que era sempre negativa. Por isso, puxou-o para cima e o encarou. Os olhos azuis estavam como fogo. O tão maravilhoso fogo azul que ela amava. E que agora a fez sorrir.
- Shh, depois. – e o beijou.
Apolo não precisou de outro incentivo para fazer isso. Sorrindo maliciosamente, ele segurou delicada, mas com força seu rosto e depois tudo o que Artemis pode sentir foi prazer.
[...]
Artemis estava bem. Pra dizer a verdade, esta mais feliz do que jamais esteve antes e devia estar mostrando isso. Se sentada à mesa, tomando quietinha seu café da manhã, após ter ficado enrolando na cama com Apolo e tomado banho junto com ele, depois de se amarem mais uma vez (o que fez corar naquele instante ao recordar disso), Artemis havia resolvido que o melhor era encarar a família. E Apolo não dissera nada.
Agora, Artemis tomava seu café, trajando um de seus tantos moletons. Scarlet também se encontrava ali, em um fenomenal vestido azul, fazendo todos sorrirem. Zeus lia seu jornal. Sua mãe arrumava a próxima coleção em seu tablet. E Apolo encarava seus olhos com aquela diversão de quem esconde algo.
Artemis corava ao abaixar o olhar.
O que ele pensava que estava fazendo¿ Alguém poderia notar, ou melhor, Scarlet podia notar. Mas incrivelmente ninguém disse nada, nem mesmo a morena, apenas conversava como se nem notasse como Apolo a fitava. Artemis comeu mais um pedaço de bolo.
- Rick está namorando, sabia¿ — dizia Scar para um Apolo sorridente. – Quem diria que ele fosse arrumar namorada! Agora só falta você, Apolo. O único solteiro do nosso grupo.
Artemis mais escutou do que viu a risada conspiradora que Apolo soltou com Scarlet.
- Tem lá seus lados bons de ter uma namorada, Scar.
- Sem dúvida... Mas, opa, isso quer dizer que tem uma mulher por ai¿
Ah, não. A ruiva tomou sua água enquanto esperava Apolo responder.
- Talvez, isso tudo é meio novo.
Como ele podia responder aquilo com tanta calma¿ Fosse como fosse, Artemis finalizou seu café da manhã e sorriu para o pessoal.
- Licença. – assim saiu.
[...]
Artemis tinha certeza de que havia algo errado com ela. Algo de muito errado. Escorada contra a grande janela de vidro e a fitar o jardim, todos seus músculos ardiam, de um modo nada prazeroso como fora de manhã. Seu peito estava angustiado. E ela simplesmente não sabia o porque.
Não, sai daí, pensou, voltando a recordar-se de Apolo, afundando-se nas lembranças das ultimas horas, de quando acordaram. Ele era um bálsamo mesmo longe.
Não soube quanto tempo ficou lembrando-se de tudo, seu corpo se aquecendo pelo desejo e pelo amor que ele demonstrava, no instante em que o click da porta se fechando a fez girar a cabeça. Sabia que Apolo não iria demorar muito, por isso virou-se sorrindo, não desejando que ele visse que havia algo de errado com ela.
E toda sua alegria se foi ao assistir o modo gracioso que Scarlet aproximava-se em seus saltos tão altos que era incrível que ela não ficasse maior que Apolo. Os olhos azuis escuros analisaram seu rosto com falsa cortesia, a hostilidade brilhando por baixo.
- Então... – começou Scarlet sorrindo de lado. – Quer dizer que você já deu pra ele¿ Devo admitir que você é esperta, foi rápida dessa vez. Um ponto.
Artemis sentiu seu estomago começar a se revirar ante a certeza dela de que aquilo havia acontecido. Como...¿ Apolo havia dito algo¿ A morena deu de ombros, como se lesse seus pensamentos.
- Esta na sua cara de “fui fodida por Apolo”. É algo que todas as mulheres que dormem com ele costumam mostrar. E eu pensando que a freira seria diferente. – Scarlet parou. – Na verdade, eu acho que foi o melhor jogo que já vi com essa coisa toda de não me toque. Sem duvida você mostrou o pra Apolo o que um garoto mais gosta: desafio. Até me perguntei porque não usei isso antes... De qualquer forma, boa jogada.
Tudo o que Artemis podia fazer era olhar estarrecida para a morena que sorria, os olhos azuis escuros sobre os seus verdes.
- Oh, me poupe dessa cara, eu já entendi seu jogo. Trouxe o lado protetor de Apolo, conseguiu tempo com ele pra torná-lo incapaz de te deixar na mão e então foi logo pra cama dele. Admito que nunca tinha pensado em um plano a longo alcance. E que você devia ganhar o Nobel de estratégia esse ano. – e o sorriso que havia na boca dela sumiu para uma expressão séria – Mas acabou. Você conseguiu dormir com ele, agora saia.
Artemis abaixou a cabeça. O que merda aquela louca estava pensando¿ Que ela enganara Apolo somente pra dormir com ele¿ E o que ela estava fazendo ali¿
- Ah, Apolo está conhecendo uma amiga minha – respondeu Scarlet, com aquele jeito que estava dando raiva em Artemis. Mas a raiva se foi ao ter outra coisa envolvendo-se em seu coração. Encarou a mulher a sua frente. Ela sorria. – Ciúmes, querida, isso se chama ciúmes. E, antes que morra, essa amiga eu posso controlar. Mas, sabe como é, preciso do Apolo mulherengo outra vez antes de trazê-lo pra mim. Agora que ele já comeu você, ele volta a ativa.
Todo o seu sangue foi drenado ao simples pensar em Apolo trocando-a rapidamente. Dor, forte em seu coração, rasgando. Não, Artemis, ele te ama. Ele te disse isso. Mas será mesmo¿ Como ele podia mudar tão rapidamente¿ Como...¿ Aquela mulher a sua frente estava quebrando toda a sua confiança.
- E ele não te ama, ele me disse isso. – Scarlet mexeu com uma pulseira que tardiamente Artemis notou que era a de seu pai. – Apolo me deu isso, disse que era muito bobo pra ele ficar usando, quer dizer, ele só queria pegar a irmã gostosa dele, não se casar com ela. Mas ele sabia que ia ter que fazer a de algum jeito para te ter.
Artemis prendeu a respiração enquanto seu peito doía. Ele havia mesmo feito aquilo¿
- Ah, querida, pense comigo... Apolo lindo daquele jeito se sentiria atraído por você que é talvez um quatro caso você não estivesse toda não me toque¿ Pensei que fosse uma garota inteligente, Artemis. – e os olhos azuis estavam sérios ao fitarem os seus. – Você não teria qualquer chance, Artemis. Apolo está acostumado com mulheres como eu, você não seria nem mesmo notada por ele. Além do fato de ser estranhamente ruiva. Agora que você entendeu o que quero dizer, saia da vida dele, já conseguiu o máximo que poderia ter de Apolo, aproveita
Que ainda tem seu orgulho ou vai ficar como milhares, ligando e sendo ignorada por ele. Porque ele continua sendo meu.
Assim, Scarlet se virou, deixando sua pessoa parada, pasma e confusa, mas que ainda via a verdade nas palavras dela. De fato, ele não notaria, nunca teve nada, além do cabelo, que chamasse a atenção dos outros. Mas, e daí¿ O “se” não estava valendo agora. E, Artemis sabia, não ia sair sem lutar. Apolo fizera por ela muito mais do que qualquer outra pessoa. Seria nada menos do que traição desistir assim. Enquadrando os ombros, Artemis ergueu o queixo, olhando para as costas de Scarlet, no instante em que disse em um tom calmo:
- Não.
De onde estava, Scarlet parou e se virou lentamente. Artemis calmamente suportou o peso dos olhos azuis escuros sobre os seus. A morena estava pasma.
- Como disse¿
Dando um sorriso de canto, Artemis deu de ombros, sentindo-se de repente confiante.
- Não, Apolo não é seu.
Foi como dizer que o cartão de crédito dela havia sido cancelado: ela ficou com tanta raiva que Artemis pensou que fosse bater nela, mas agüentou ao ter o rosto de Scarlet a centímetros do seu, a expressão que havia dado medo antes aparecendo.
- Saia da vida de Apolo.
Querida, agora que você bateu o pé, agüenta firme, pensou e percebeu pela primeira vez que se não se encolhesse, era da mesma altura de Scarlet. E não precisava de saltos para se impor. Artemis sorriu tranquilamente.
- Com medo, Scar¿
- Ele é meu, para o que temer¿
- Se ele é tão seu, o que ele estava fazendo na minha cama ao invés da sua¿ Por que ele deixou você de lado ontem pra ficar comigo¿ Por que ele não liga para suas vulgares investidas¿ — Artemis dizia com calma. – Me responda Scar, que eu estou morrendo de vontade de ouvir você.
Os olhos azuis escuros ficaram fitando os seus com raiva, muita raiva. Artemis imaginou que havia passado alguns pontos, mas tinha que se impor. Chega, já havia dado seu tempo de aceitar outras mulheres dizendo aquelas coisas pra ela. Apolo havia lhe ensinado algo: confiança. A chave de tudo. E era isso que precisaria, pois só desistiria de Apolo no momento em que ele dissesse na sua cara que não a amava. Nenhuma vadia faria isso por ele.
- Puta.
Antes que pudesse registrar o que havia feito, Artemis virou a mão na cara de Scarlet assim que aquela palavra saiu daquela boca venenosa. Scarlet a encarou pasma, uma mão sobre o
Local que ficara vermelho, o som ainda ecoando pelo cômodo. E em momento algum, Artemis desviou seu olhar do dela.
- Que porra é essa¿
Ambas giraram a cabeça para ver um furioso Apolo se aproximar em passadas rápidas. Artemis desviou o olhar dos azuis cristalinos para fitar os azuis escuros de Scarlet.
- Conte pra ele, Scar. Diz pra ele o que disse pra mim.
Mas tudo o que a morena fazia era olhar para Apolo como se não pudesse acreditar que ele estava ali, como se uma parte do seu plano tivesse ido por água abaixo...
- Do que a Artie está falando, Scar¿
Ambas podiam ouvir a raiva na voz de Apolo. Artemis sorriu de lado.
- Já que você não está conseguindo falar, Scar, eu vou te ajudar. – e finalmente sua confiança se quebrou ao se virar para fitar os olhos azuis confusos, mas nervosos de Apolo. E... Se fosse verdade¿ E se o que Scarlet disse havia sido verdade¿ Só havia um modo. Se encolhendo no moletom, Artemis disse. – Scar fez o favor de demarcar território, avisando-me gentilmente que você era dela, que ficou comigo por ser um desafio, que você me “comeu” porque era tudo parte de seu plano onde você ficaria com ela depois e... E... – desviou o olhar ainda sereno de Apolo. -... Que você não me amava. Uma aula bastante... Educativa.
Apolo não fez nenhum movimento. Nada. Por alguns segundos só havia o silencio. Mas havia raiva ao perguntar:
- E por que você bateu em Scar¿
Artemis cruzou os braços como que para se assegurar de que aquela dor vinha do seu coração, a dor de ser traída e trocada. E deu um passo para trás. Eles dois estavam muito perto e sentia que começava a entrar em pânico. Que ia ter um ataque. Engoliu a seco, sem jamais voltar a encarar Apolo. Outra vez, ele ficava ao lado dos amigos mais velhos, ela devia ter pensado em algo assim. E por que ele era leal com todos, menos com ela¿ Seria verdade, que ela só era um desafio¿ E porque isso não era difícil de acreditar¿
Lagrimas picaram em seus olhos, mas não permitiu que elas caíssem. Seu orgulho. A única coisa que ficaria. Uma agulha afundou-se em seu coração.
- Ela... Ela... – respirou fundo. – Scarlet me chamou de puta.
Então, parecia que Scarlet voltara a funcionar, pois ela arquejou.
- MENTIROSA! Você não vai acreditar nela, vai Apolo¿ Ela quem me disse pra ir embora, que ela agora te tinha na palma da mão e podia roubar o seu dinheiro como a mãe dela faz. Ela me disse. Apolo, ela falou que era tudo por dinheiro. Essa... Falsa! – Artemis olhou pasma para o rosto de Scarlet. Incrivelmente, ela chorava, tão real. E Artemis viu o olhar de Apolo vacilar um pouco sob aquelas palavras e o jeito dela. – Apolo, eu sou sua amiga, você sabe que eu só iria querer o melhor para você.
Apolo virou-se para encarar seus olhos verdes. Os azuis estavam impassíveis, impossíveis de ler, como naquele dia em que ele disse pra ela que estava grávida. Olhando ali, ela soube que algo estava errado. Não, não... Seus olhos começaram a se encher. Ele ia acreditar nela... Ele ia... Com aquele golpe de traição certeiro em seu coração, Artemis deu um passo para trás, colocando a mão na boca. Como ele podia dizer que a amava se na primeira vez que confrontavam alguém, ele mudava de lado¿ Scarlet estava certa. Sempre certa.
Abaixou para os olhos azuis escuros de Scarlet, então para a pulseira de seu pai no pulso dela, e tudo o que pode fazer foi dar as costas e sair o mais dignamente que podia antes de explodir em lágrimas assim que esteve longe do cômodo.
Apolo havia acreditado nela. NELA. Artemis correu para onde os carros ficavam, pouco ligando para o olhar pasmo de Zeus que tentou falar com ela enquanto pegava uma chave, e entrou no primeiro Jaguar que havia. Antes que Apolo ou Zeus pudesse detê-la, Artemis acelerou. Segundos depois, estava em alta estrada.
[...]
Artemis não soube por quanto tempo dirigiu, nem por onde ia, muito menos quanto havia passado desde o instante em que estacionou o carro na orla da praia com uma freada brusca e saira dele, sentando-se na areia enquanto chorava. Na verdade, chorara o caminho inteiro, às vezes pensando e implorando para um caminhão aparecer do nada e matá-la. Estava grávida, sua vida em pedaços e o homem que amava acreditara em outra ao invés dela. Era tudo uma merda.
O tempo foi passando, com ela ali, olhando o movimento do mar e do sol se pondo, o seu celular vibrando loucamente em seu bolso e a música do som do jaguar a envolvendo. Sentia seu corpo pesado. Sua mente doendo de tanto chorar. E sabia que pouco ligava para o que acontecia, mas no momento que viu que horas eram, aceitou receber uma só chamada.
Atena suspirou.
- Graças a deus, Art, eu te liguei mil vezes. Apolo está louco atrás de você. Na verdade, todos estamos. Poseidon está por ia te caçando.
A voz de sua amiga pareceu só o necessário para o vidro trincar mais uma vez e lágrimas caírem silenciosas.
- Estou bem, Atena. Fala pra eles pararem. E só atendi pra dizer que não precisa se preocupar. Preciso ficar sozinha.
- Art...
- Não, Atena, não vou deixar você rastrear minha ligação. Estou bem. Tchau.
E desligou, antes que Atena pudesse fazer algo. O que ela menos precisava era da cavalaria. Só queria ficar quieta, com sua dor, era pedir muito¿ Argh. Sem pensar muito, com raiva, Artemis caminhou para o mar, onde a água começava a ficar preta pelo começo de noite, e pulou na onda gelada.
O mundo era uma merda.
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