Implicância Romântica
16 ...Sinceridade.
Notas iniciais
Em toda sua vida não sabia exatamente o momento que lhe deixou com mais medo. A primeira vez que quase se afogou, ou quando perdeu a virgindade, sua primeira aula de artes marciais quando era pequeno, quando uma abelha lhe mordeu, quando se masturbou pensando em Mu ou quando se deparou com Aioros, sua mãe e seu pai lhe esperando na sala. Aquele silêncio era aterrador.
Mal conseguiu se mexer. Sentar-se no sofá foi uma tortura. Sair daquele momento feliz e mágico com Mu, para começar um dos piores momentos da sua vida.
Mesmo Aioria chegando, o silêncio continuou por mais uns segundos, quando a dona Sara resolveu começar o diálogo mais difícil para toda a família.
– Meninos, eu e o pai de vocês conversamos e achamos que o melhor é sermos sinceros uns com os outros e pensarmos em uma forma mais adequada para resolver nossos problemas.
Aioria não se aguentando por mais nenhum segundo, resolveu falar tudo que havia pensado mesmo se for para tomar as dores de Aioros, faria.
– Pai, sobre a viagem, eu não quero ir. – disse Aioria – Eu amo esse lugar, amo meus amigos, quero fazer faculdade aqui, construir meu futuro aqui e eu te peço que reconsidere sobre isso. Mas tirando esse assunto que podemos conversar depois, há algo mais importante que precisa ser conversado agora... – hesitou por uns segundos – Mamãe nos contou tudo que aconteceu... No seu passado. – mesmo com tudo na cabeça, era tão difícil falar, mas não ia desistir – Eu quero te dizer que te entendo. Entendo seu comportamento conosco, mas principalmente com Aioros. Tudo que você passou justifica. Talvez mamãe já tenha te falado isso, mas sei que é diferente vindo de nós.
Aioria ia continuar, mas seu irmão o cortou.
– Justamente Aioria. Eu que fui o mais prejudicado, pois sinto muito, pai, eu não posso mudar o que sou. Querendo ou não, continuo sendo filho de vocês dois e isso nunca vai mudar. E eu sei que você não é tão contra assim, não repudia tanto assim, pois querendo ou não você me manteve aqui. Mesmo você não me aceitando, você fez de tudo para manter a família unida e eu reconheço isso. Mesmo não concordando com a sua abordagem, eu sei que foi por uma boa causa. – fez uma pausa – Eu tive que pensar muito bem em tudo, tive que vencer meu orgulho e me botar no seu lugar, o que foi muito, mas muito difícil! Porque nunca entendi sua razão para não me aceitar, para ser tão grosso e estúpido comigo desde sempre! Mas pai, depois de ouvir tudo que aconteceu... Pensei melhor em tudo, sabe. – Seus olhos lacrimejavam, falando assim tão abertamente da sua dor, de tudo que passou por amar um homem... Tudo veio à tona, tudo que sempre quis falar. Estava ali, entregue só esperando uma palavra do pai.
O silencio se instaurou novamente, mas o clima era diferente. A mãe mal conseguia conter suas lágrimas.
Os olhos do pai dos meninos estavam tão vermelhos que piscar doía. Talvez deixar passar tanto tempo escondendo toda essa história fora um erro. Entendeu uma coisa naquele momento, que em toda sua vida se manteve escondido: A sinceridade entre família onde se encontra seu porto seguro; onde é o lugar que se volta após o trabalho cansativo; onde se encontra a paz foi perdida há muito tempo. Percebeu também, que nunca sentou para escutar seus filhos, que muitas vezes podia fazê-lo ser uma pessoa melhor.
– Eu sinto muito, meus filhos. – Foi tudo que conseguiu dizer antes de cair nos prantos, escondendo o rosto com as mãos.
Seus filhos não são o espelho do seu passado, era para eles serem a transformação da sua dor em amor, companheirismo e verdade. Para que, então, piorar o convívio, esconder verdades e projetar todos seus traumas em cima de Aioros? Não é justo. Não é nada justo. Cada pessoa é uma pessoa. E fazer o que fez com Aioros, não dar amor, impedi-lo de viver como ele é, é o pior de todos os pecados. No final das contas, não tem nada contra gays, seu maior trauma existe por justamente gays estarem envolvidos, projetou então sua raiva e repudia em qualquer gay e ter um filho assim, quase o matou. Agora as coisas estavam muito claras em sua cabeça. Mal podia suportar entender isso só agora.
Após o pai se refazer, explicou melhor tudo que havia acontecido, tudo que pensava durante todos esses anos e a conclusão que chegou agora com a ajuda de seus filhos. Foi um momento muito especial em uma família tão desgastada e muito pouco acolhedora. Foi o começo de uma nova era. Muitas dúvidas foram tiradas, muito se discutiu sobre tudo e o tempo passava que nem percebiam.
Nunca haviam se reunido por tanto tempo assim.
– Sobre a viagem, Aioria – começou o pai – Eu não acho que você sozinho aqui seja uma boa. Sei e entendo seus motivos de querer ficar aqui, mas conosco lá fora, podemos te dar uma base melhor, te acompanhar nos estudos e te apoiar de forma mais direta.
– Pai, eu me responsabilizo por Aioria. Se o senhor confia em mim, sabe que vou cuidar muito bem do meu irmão como já venho fazendo. – Afirmou Aioros, com muita convicção em suas palavras.
Eles se fitaram por um tempo que parecia uma eternidade. O pai suspirou pesadamente, seus olhos doíam e seu nariz estava um pouco entupido por causa do choro recente. Sua aparência cansada demonstrava todo o peso que havia carregado em sua vida. Eram muitas mudanças em seu interior que mal conseguira processar.
– Vou pensar, tudo bem? Preciso dormir. – Como antes nunca feito, levantou-se e deu um beijo na testa de cada filho e ao passar pela esposa, lhe fez um breve carinho no ombro.
Aioria estava aliviado. Seu pai tomou consciência de tudo que havia feito a Aioros e talvez se sensibilize sobre a viagem. O leonino ligou rapidamente para Mu e contou tudo que havia acontecido e que estava esperançoso. O ariano não se aguentava de ansiedade para o dia seguinte, torcia com todas as forças que tudo desse certo.
Após desligar o telefone, o olhou por breves segundos e refletiu sobre... Mu foi a primeira pessoa que pensou em ligar e contar um acontecimento super importante em sua família. Riu ao constatar isso já certo de alguns pensamentos.
No dia seguinte, após o pai chegar do trabalho, chamou Aioros e Aioria na sala para conversarem.
– Aioria, eu tenho uma proposta para você. A viagem será daqui a dois meses e a prova de vestibular é um mês depois da viagem. Não quero que você a perca. – suspirou – E o resultado só sai no inicio do ano que vem. Você já estará formado do colégio, e só estará esperando o resultado. Sugiro então, que você continue aqui morando com seu irmão para terminar a escola, estudar, fazer a prova e esperar o resultado sair. Se você passar para alguma faculdade pública, eu deixo você ficar de vez, senão, nada feito e você vai morar comigo e sua mãe. – Terminou de explicar sua proposta com um peso na voz. No fundo, queria que Aioria fosse com eles, pois a partir do dia anterior, sentia-se uma pessoa melhor, um pai com mais a oferecer.
Só que era a primeira vez que Aioria se revoltou daquela forma, que decide por si mesmo o que quer da vida. E também acreditava no potencial de Aioria, sabia que ele passaria sim para alguma faculdade, mas essa pressão era necessária. Afinal, faria com que o mais novo se dedicasse em dobro e não precisaria se preocupar tanto com o rumo que as coisas irão tomar sem estar próximo do filho. Apesar de que essa estratégia o entristecia um pouco, pois sabia que o filho faria de tudo para não ir morar consigo.
Aioria mal acreditou. Era tudo que precisava ouvir! Se dedicaria ao máximo aos estudos, se dependesse dele estudaria com afinco todos os dias e noites para essa maldita prova! Abraçou seu pai como nunca.
Ouviram com atenção todos os detalhes que o pai lhes deu de como seria dali a diante, sobre dividir o mesmo teto. E que enviaria um apoio financeiro para Aioria se sustentar junto ao irmão.
Era perfeito. Queria chorar, se jogar no chão e rolar de um lado para o outro! Pegou o skate e foi depressa contar a novidade para Mu.
X
– Amanha é a festa no colégio e você tem que ir, Ikki! Tivemos muito trabalho, tem ideia do quanto ralei para fazer aquela lista de musica infernal? Tem ideia do quanto você encheu o meu saco por causa dessa lista? O quanto eu tive que aguentar? – Disse um loiro aparentemente calmo e despreocupado, mas uma veia saltava discretamente em seu pescoço.
Ikki bufou pela terceira vez, não aguentava mais ouvir a voz daquele loiro reclamão que só sabe lhe encher o saco. O olhou secamente, enquanto trocava o canal da TV do seu quarto.
Antes de Shaka começar a reclamar da festa, estava reclamando de que queria estudar e que essa tinha sido a condição para ter ido dormir em sua casa. Primeiro estudos, depois distrações. Mas Ikki passou por cima dessa condição ao ligar a TV e convencer a Shaka ver uma série que o moreno julgava genial.
No final das contas Shaka realmente se interessou pela série e largou os estudos, mas não demorou muito, logo tentou voltar aos livros. Só que o assunto da festa surgiu e agora o mais velho reclamava sobre isso também.
– Você só sabe reclamar? – Vociferou para o loiro ao seu lado esquerdo da cama. Shaka nem se importou e continuou falando.
– Ikki, seu tempo na escola vai acabar também, você precisa aproveitar tudo que acontece! Todos os eventos são importantes, afinal, são tradições da escola. Você precisa ir!
– Eu não preciso nada Shaka! Eu já fiz minha parte que era ajudar-
Foi cortado por um loiro corado de irritação.
– Ajudou para matar aula! Acha que sou tapado?
O moreno bufou mais uma vez e o olhou fixamente, foi quando percebeu algo.
– Porque faz tanta questão que eu vá, eim? – Sorriu matreiro. Como amava provocar aquele loiro.
E foi em cheio. O loiro desviou o olhar e lhe faltaram palavras por um momento.
– Obviamente que é porque quero que você aproveite sua época escolar. – Disse sem muita convicção olhando para um ponto qualquer.
Ikki soltou um riso contido. Puxou o queixo do loiro em sua direção e o fez o encarar.
– Agora pode falar a verdade. Diz que é porque você quer minha presença lá. Diz que o colégio sem mim não tem graça. Que você quer me ver todos os dias. – o olhava sedutor e Shaka mal conseguia elaborar uma resposta atravessada – Diz, meu amor. – Zombou.
Shaka se soltou da mão do moreno e o fitou mortalmente. Ikki gargalhou.
– Olha Ikki, pode parando de palhaçada. Porque implica tanto comigo? Você é tão irritante! – Reclamou voltando ao seu estudo.
Mas não demorou muito novamente, Ikki que já estava deitado o puxou para cima de si e o loiro teve que se encaixar em cima do moreno.
– Sabe por que eu gosto tanto de implicar com você? – o loiro fez uma expressão de duvida e Ikki sorriu carinhoso – Porque eu amo você.
Por um momento o tempo parou. Shaka mal acreditava naquelas palavras. Não era muito cedo? Simplesmente não conseguia acreditar na veracidade daquela declaração. Mas não seria Shaka se não problematizasse aquilo, como sempre problematiza qualquer coisa.
– Ikki, espera. Qual sua concepção de amor? Porque vamos combinar, se for a universal, não acha que é meio cedo para-
Foi cortado mais uma vez.
– Não Shaka, não é cedo. Tenho muita certeza de tudo que estou sentindo. Quero tanto você. – Disse apertando as nádegas do loiro. Shaka desviou o olhar embaraçado tanto pela declaração quanto pela apertada no timing perfeito. Esse moreno não valia nada.
Shaka sentia-se tão completo como nunca na sua curta vida. Estava tão feliz que parecia mentira. Mas uma preocupação assolou seu peito de forma devastadora. Sua expressão confirmou isso e Ikki ficou confuso sobre sua reação.
– Ikki... – sussurrou – O que vai ser de nós? Daqui a uns meses isso tudo vai acabar. Eu vou para a faculdade e você vai continuar na escola. Nossas vidas serão outras! Nossas prioridades serão outras. Eu vou precisar me dedicar muito aos estudos e tenho receio de não ter tempo para isso.
– Isso? Shaka, sou eu e você e vamos achar uma solução para isso. E outra, ainda temos muito tempo, nem no meio do ano estamos ainda! Tem muita coisa pela frente. Nem sabemos se até o final do ano não vamos nos matar! – Zombou, fazendo o loiro rir e encostar a cabeça no peito do moreno.
– Acho que estou sendo muito precipitado pensando em um futuro tão distante. – Divagou.
O moreno compreendia todo esse incomodo de Shaka. Mas o dele era outro. Sim, vai continuar na escola. Qual é a graça da escola sem Shaka? E o loiro na faculdade vai conhecer milhões de pessoas novas, tinha receio de ficar para trás... Mas evitaria demonstrar esse medo. Ainda era muito cedo para esse papo tão sério.
– É compreensível, pois eu também tenho essas preocupações. É inevitável. Mas se formos ficar nos preocupando com isso agora, não iremos aproveitar tudo que temos para viver. Mesmo tendo que evitarmos ao máximo que nossa relação seja descoberta, afinal, ainda não me sinto preparado para assumir abertamente, é uma preocupação existente. – Falava em um tom tão calmo e sereno, sendo raro se tratando de Ikki.
Shaka sorriu abafado.
– Você está mais maduro, sabia? Quem diria que um dia ouviria você falando assim. Você deve tá brincando, mais a sua cara! – Provocou. Esse papo estava muito sério, pensou Shaka, não queria pensar sobre assumir nem nada, estava muito bom assim por enquanto.
– Cala essa boca, loiro safado! – Zombou jogando o mais velho longe. – E vem cá, você não vai falar que me ama também? – Indagou chegando ao auge do seu estresse em questão de segundos só por se lembrar de que não foi correspondido.
– Eu não! Ninguém mandou ser apressadinho! – Afirmou em tom de brincadeira.
– O que você quis dizer com isso, seu...! – Tacou o travesseiro no loiro.
E continuaram assim por muitas horas, como de costume. No final das contas, Shaka não conseguiu estudar nada e constatou que não adiantava levar seus livros para quando for dormir na casa de Ikki.
X
Como prometido, ali estava Aioria na porta de Mu novamente. O mais baixo nem precisou perguntar, pois além da expressão de pura felicidade no rosto do bronzeado, o mesmo mal entrou portão adentro e já disparou tudo que havia acontecido.
Depois de contar detalhe por detalhe, se abraçaram fortemente e Aioria não se continha de tanta felicidade. Mas além do felizardo estar muito agitadíssimo, quem estava radiante mesmo era Mu.
– Eu vou pegar tanto no seu pé para você estudar, Aioria! Você realmente precisa se esforçar triplamente! – Afirmou Mu e Aioria fazia seu discurso de que isso virou o seu maior objetivo e ele quem vai encher o saco do ariano.
Nunca sentiu tanto alívio em sua vida. O amava tanto! Seria tão difícil estar tão longe dele assim... Seu peito apertava só de pensar. Aioria nunca imaginaria a angustia que sentiu quando ele saiu de sua casa mais cedo para ter a fatídica conversa com a família.
– Mu, eu estou tão aliviado que nada mais me dá medo. Então, eu preciso te confessar uma coisa. – sentou-se na cama de Mu e fez um sinal para que o dono da casa sentasse ao seu lado, o que foi feito – Bem, depois do meu futuro passar pela minha cabeça de uma forma absurda, consegui imaginar meus dois possíveis futuros, aqui e lá fora com meus pais. E o que eu conseguia pensar era tudo que eu deixaria para trás. Mas uma coisa ficou bem mais forte em minha cabeça. – abaixou o olhar – Pensar em ir embora daqui me deu tanto medo que quando essa história acabou me senti capaz de muitas coisas, inclusive de te falar uma coisa que vem acontecendo comigo e talvez você ache ruim. – Olhou Mu nos olhos vendo muita confusão nos orbes verdes.
Mu estava realmente muito confuso. Não sabia o que esperar e no fundo achava que era algo muito sério. Mas nada vinha em sua cabeça.
Aioria sentia-se do tamanho do mundo de tanta coragem, mas na hora de colocar em palavras acabou ficando nervoso. Pois, apesar de toda essa vontade de confessar o que estava acontecendo dentro de si, morria de medo de dar errado. Mas em seu interior algo o movia cada vez mais para essa confissão.
– Eu espero que... Talvez... Você possa me ajudar, ou que você não mude comigo, caso você tenha a reação que eu não quero que você tenha. – engoliu em seco, suspirou pesadamente, desviou o olhar, pois não conseguiria falar o olhando nos olhos – Há um tempo, eu venho sentindo umas coisas. Uma atração inexplicável por uma pessoa, quer dizer, por você Mu... – revelou vagarosamente, com muito medo em suas palavras. Mu apenas arregalou os olhos e fez um sinal de “pare” com as duas mãos, sua reação é claramente de descrença – Calma Mu, antes de você falar qualquer coisa. Eu... Tenho vontade de te beijar, de tocar em você! E eu sinto tanto ciúme, como eu nunca senti por ninguém! E essa coisa que eu mais pensei quando eu estava quase certo de ir embora, foi você.
“Foi você Mu. Seu companheirismo, sua leveza, seu carinho, suas palavras, cada detalhe que eu venho prestando atenção nos últimos tempos e eu neguei por diversas vezes. Em incubei essa vontade bem lá no fundo, porque não sabia o que aconteceria se eu revelasse isso a você. Meus ciúmes, nossa, como você não percebeu? Aliás, você percebeu? Porra, to falando pra caralho aqui e, meu deus Mu, fala alguma coisa!” – Disse um leonino muito desesperado, pois Mu simplesmente não expressava nenhuma reação.
Mu não tinha palavras para expressar o que estava sentindo. Era um sonho? Devia ser! Muito provável. Sem perceber, soltou um sorriso e abaixou a cabeça. Não sabia se devia se sentir feliz, pois ainda não sabia se era real.
– Você não está acreditando em mim? – Perguntou Aioria, mas Mu estava alheio demais para respondê-lo.
Mas não por muito tempo, pois Aioria puxou Mu e colou seus lábios nos dele. Durou cerca de segundos até Mu muito corado empurrar o leonino.
– O que você está fazendo? O que está acontecendo? Pelo amor de Deus Aioria! Como assim você estava sentindo essas coisas e não me contou logo? Porque me deixou sem saber de nada? – Estava tão abalado que mal conseguia formular suas dúvidas.
– O que você sente Mu? O que acha disso tudo? – Indagou seriamente.
O ariano o olhou por alguns segundos. Suas sobrancelhas juntas e os olhos brilhando exacerbadamente demonstravam o quanto aquilo estava lhe causando uma confusão interna difícil demais de lidar.
Pensou rapidamente e todo um cenário do futuro se formou em sua cabeça, o fazendo recuar.
– Eu não acho uma boa ideia Aioria. – seu estômago revirava de nervoso, sentia-se tão inseguro – Talvez você devesse repensar em tudo que está me falando. Talvez não seja bem assim. Talvez seja passageiro...
Aioria sentiu-se derrotado.
– Mu... Está dizendo que não sente nada?
O ariano bufou e apoiou a cabeça em suas mãos. As coisas estavam tão intensas dentro de si que mal conseguia controlar-se. Seus olhos ardiam! O dia que sempre desejou, que sempre sonhou havia chegado, mas não conseguia levar fé naquilo. Estava tão pessimista sobre isso tudo. Estava inseguro, pois não era na mesma intensidade, afinal o amava há anos enquanto Aioria começou a sentir-se assim há pouco tempo em relação a ele.
Como começar algo com tanto desequilíbrio? Iria se apegar tão rapidamente e Aioria iria enjoar e... Nossa! Nunca fora tão pessimista dessa forma! Resolveu que para acabar com aquilo tudo precisava ser sincero, assim talvez Aioria desistisse e voltassem a serem como antes, ou perderia de vez a amizade do leonino. Mas era sua oportunidade de falar tudo que esteve preso por tanto tempo.
– Tudo Aioria. Eu sinto tudo. Se estamos colocando tudo em pratos limpos, então nada mais justo do que te falar tudo que sinto.
Mu explicou tudo que sentia todos esses anos, todo o sofrimento. Contou todos os detalhes. Aioria não poderia ficar mais chocado. Como nunca percebeu? Em questão de segundos chegou à conclusão de que, bem, era Mu. O ariano era o mestre em esconder o que realmente sente. Pensou em tudo que fez para que Mu sofresse e sentiu uma enorme culpa, mesmo sabendo que não era culpa dele, pois até então não tinha ciência desse amor de Mu por si.
– Então Aioria, estamos em níveis diferentes, sabe. Me sinto inseguro demais de ficar com você desse jeito. Sinto que tenho mais probabilidade de me magoar. – Expressou seu medo com a voz firme e decidida.
Aioria o olhou analítico. Como podia falar de sua dor com essa expressão de nada? Achou uma graça. E também como podia ser tão controlado em uma conversa tão séria assim? Afinal, dependendo do resultado desse diálogo, as vidas de ambos mudariam radicalmente. Mas achou uma graça isso também. Achou uma graça o cabelo meio despenteado e as mãos cruzadas apoiadas no colo, e as pernas esticadas onde os pés descansavam no chão, só com a pontinha das nádegas sentadas na cama.
Percebeu tarde, mas sabia que esse sentimento só tendia a crescer. Ele tinha certeza disso!
– Mu, eu quero arriscar. Por que não? A gente começa devagar, cada coisa em seu tempo. O que acha?
O ariano o olhou e só via determinação naqueles olhos que tanto amava. Era sua chance de ser feliz com quem esteve apaixonado por tanto tempo. Mu levantou-se e ficou de frente para o leonino, pegou sua cabeça em mãos e o olhava penetrante.
Aioria só podia sentir arrepios e mais arrepios, seu coração batendo acelerado. Aqueles olhos o olhando daquela forma o fazia tremer. Enquanto Mu aproximava cada vez mais de si, mais se sentia entregue. Ah, como queria beijar aqueles lábios! Mal se segurava para tacar Mu na cama e beijá-lo da forma que quisesse! Aquilo era uma tortura!
Sentia Mu tocando seus lábios com os dele e sua ansiedade só aumentava. Colocou as mãos na cintura de Mu o puxando para sentar-se em seu colo de lado, o que foi feito. O ariano se ajeitou no colo do outro e passou seus braços pelo seu pescoço. Aioria enlaçou sua cintura e seus lábios tocaram-se suavemente, mas o leonino não aguentando mais, aprofundou o beijo sentindo a língua do ariano.
Separaram-se o suficiente para se olharem.
– Isso é um sim ou você só se aproveitou do gostosão aqui? – Zombou Aioria.
– Estava demorando! – Mu sorriu deixando-se levar pelo momento.
Mesmo que possa se magoar no final das contas, achava que isso tudo não é uma coisa que podia deixar passar. Sentia-se tão sortudo que mal podia acreditar. Agarraria essa oportunidade com todas as forças e aproveitaria tudo que estava lhe sendo proposto.
X
No dia seguinte
Camus acordou um minuto antes de o despertador tocar, logo o cancelou. Olhou para seu lado direito e lá estava um loiro completamente esparramado, desrespeitando totalmente as regras de espaço. Sim, o ruivo impôs regras de convivência, pois estavam passando muito mais tempo juntos e ele precisava manter algumas coisas de sua rotina. Como por exemplo, o espaço adequado para conseguir dormir bem. Até porque, era impossível dormir abraçado com Milo, então após constatar isso, resolveu criar a regra do espaço em sua cama.
Para que, não é mesmo? Nunca era ouvido!
Apoiou-se em um dos cotovelos e começou a olhar o escorpiano, passou o olhar pelos braços abertos e as pernas jogadas de qualquer jeito, uma delas a metade da canela estava para fora.
– Milo, acorda.
Sabia que isso nunca seria suficiente. Então o empurrou com um pouco de força, mas achou que tinha sido fraco. Sentiu-se culpado, mas como o loiro não acordou rapidamente a culpa dissipou-se.
Bufou impaciente e resolveu fazer o que sempre funcionava. Chutou o loiro e o fez cair da cama com travesseiro, cobertor e tudo, este gritou de susto e levantou rapidamente do chão automaticamente fuzilando o ruivo, mas este estava ainda na mesma posição com um sorriso de canto, segurando para não gargalhar. Era sua diversão matinal.
– Ah Camus, eu espero que você se prepare, pois as coisas não ficarão assim! – Ameaçou dirigindo-se para o banheiro. Camus foi atrás.
– O que posso fazer? Você só acorda assim, Milo. – Pegou sua escova de dente e colocou pasta, logo a levando a boca.
– Quem sabe, talvez, me acordar com beijos e carinhos, quem sabe um oral! Eu com certeza acordaria rápido e de quebra com um ótimo humor! – Afirmou exasperado, como o ruivo podia fazer isso com ele? É uma maldade sem tamanho!
Camus o ignorava, pois estava concentrado escovando os dentes. Milo bufou e começou a escovar seus dentes também.
Olhou para o ruivo que estava com os olhos fechados escovando os dentes, olhou em volta do banheiro, o espelho refletindo ambos escovando os dentes e foi então que teve um deja vu.
Era surreal! Mesmo sendo um deja vu parecia uma previsão, como se isso fosse acontecer no futuro, e não que já aconteceu. Essa era impressão que tinha. Aquilo ficou martelando na sua cabeça até terminar de escovar os dentes. O aquariano terminou primeiro, lavou sua boca e foi para o quarto se trocar.
Milo chegou logo após e chamou o ruivo para sentar-se na cama, pois precisava lhe contar do deja vu ao contrário.
– Deja vu ao contrário? Isso não existe, Milo. A não ser que você seja um vidente, o que também é impossível!
– Foda-se o deja vu, o que eu quero dizer é que... Camus! – levantou-se agitadíssimo – Imaginei a gente na faculdade sabe, morando juntos. Tendo uma rotina juntos. Talvez poderíamos abrir uma república! O que acha?
Camus estava achando aquela conversa surreal demais para se ter às 7:30 da manhã. Mas estava em um relacionamento com Milo, o que poderia esperar, não é mesmo?
– Milo, estamos muito longe dessa realidade ainda, porque você está pensando isso há essa hora? – Milo ia responder, mas o ruivo o parou – Sim, por causa do deja vu! – Bufou.
– Você não se imagina comigo até lá? Não imagina um futuro comigo? A gente juntos na faculdade? – Essas preocupações começaram a surgir nesse momento em seu interior.
Camus sendo uma pessoa racional passou a refletir sobre essas questões. Obviamente queria estar com Milo por muito tempo, o amava e mesmo a convivência sendo um pouco difícil, achava que poderia durar muito tempo.
Mas na faculdade as coisas são diferentes. As coisas se perdem. Os relacionamentos costumam se perder, é tanta euforia, mundo novo, pessoas novas. Tudo pode acontecer, não é mesmo? Camus não sabia, pois não tinha mesmo como saber se esse relacionamento aguentaria a pressão de tantas coisas novas. Não era pessimismo, era a realidade.
Olhou para Milo e sabia que se falasse seus pensamentos, o magoaria. Sabia que sim. Mas não tinha outra coisa a se falar.
– Milo, claro que imagino. Mas imaginar não é o suficiente, afinal, as coisas vão mudar muito quando estivermos lá. Não dá para ter certeza, sabe. Mas eu estou focado no nosso presente, não quero ficar me preocupando com algo que nem sabemos. O futuro é sempre incerto, e é ruim ficar especulando tanto sobre isso. Meu plano é ficar com você, portanto, vou fazer de tudo para dar certo. – suspirou – Então, para de se preocupar com isso, tá bem?
Milo queria chorar. Às vezes se achava uma criancinha perto do ruivo, ele era tão maduro! Sentia-se tão seguro. O amava tanto. Pulou em cima do ruivo e o encheu de beijos. Claro que Milo não queria largar o pobre ruivo, resultando no atraso de ambos para a festa.
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