Implicância Romântica
14 ... intimidade.
Notas iniciais
Espero que vocês gostem, estamos na reta final! *-*
Boa leitura e desculpem erros!!
Eram 07h15min da manhã, e alguns poucos alunos esperavam o sinal de 07h30min tocar para entrarem em suas salas. Sentado em um dos bancos de madeira que ficava no pátio, Shaka lia um livro. Não prestava atenção a nada em sua volta, até que uma bala de morango caiu bem em cima das páginas, escorregando para seu colo. Imediatamente o loiro levantou os olhos a fim de ver o intruso, mas não se surpreendeu ao ver que era Ikki.
O moreno sorriu e em resposta foi ignorado, Shaka voltou a ler seu livro como se ninguém estivesse o importunando. Mas Ikki não se abalou, sentou-se ao lado do loiro e cruzou os dedos em cima da barriga. Fitou o mais velho por uns segundos e suspirou.
– Oh, bom dia pra você também! – Sorriu irônico. O loiro rolou os olhos e por fim acabou fechando o livro, o olhando com expressão tediosa.
– O que você quer Ikki? Não vê que estou ocupado?! – Balançou o livro.
– Justamente por isso que eu vim aqui. – Sorriu aberto.
Shaka bufou e abriu o livro, voltando a lê-lo. O moreno riu abafado e levou uma mão à coxa do loiro, ali fazendo um carinho lento. Shaka o olhou de esguelha tentando entender aquela atitude bem no meio do pátio.
– Qual é o seu problema Ikki? – Perguntou impaciente, retirando a mão do moreno de sua coxa. Fechou o livro novamente.
Ikki suspirou sem mais o sorriso bobo nos lábios, o olhou nos olhos.
– Ah... Nada. Só... Queria ter certeza de que depois de ontem, as coisas estariam... Normais. – Disse hesitante. O loiro continuava o olhando com expressão confusa. O moreno suspirou novamente e desviou o olhar. – Esquece, esquece. Volta aí pra sua leitura, depois nos falamos. – Levantou-se, ajeitou a blusa e se pôs a andar, mas foi parado quando o loiro o puxou pelo pulso.
– Espera, espera. – Pediu suavemente. – O que quis dizer com aquilo? – Indagou realmente confuso.
– Eu só quero ficar perto de você, só isso. Relaxa, não é nada. – Deu um leve tapa na testa do outro, e com um sorriso de lado, andou até sua turma que estava poucos metros a frente.
O loiro ficou olhando para as costas largas do moreno tentando entender o que foi aquilo. Quer dizer, a primeira impressão foi que ele estava inseguro. E não pôde controlar seu coração ao ouvir aquelas palavras de Ikki. Ao pensar nisso, deu um leve riso. Pegou a bala de morango e a abriu, logo a levando a boca. O sorriso imperceptível não saía dos seus lábios, até mesmo quando voltou a sua leitura.
Isso que é felicidade?
X
– Então não esqueçam que no sábado terá a festa de arrecadação ein! Começará às 18 horas! Quero ver todos aqui. Até mais queridos alunos. – Disse Saga, ironicamente. Ao sair da sala pôde ouvir alguns “ah, você ama a gente”. Até parece, bando de adolescentes. Pensou Saga.
– Qual é Saga, tá estressadinho hoje? – Zombou Aiolia, o seguindo pelo corredor.
– Volta pra sala, criança. – Disse indiferente.
– Oh, brigou com Aioros foi? – Brincou, sorrindo.
O mais velho parou de andar e com a expressão impaciente o olhou.
– O que você quer, pessoa?
O mais novo riu com vontade.
– Nada, é legal te irritar. – recebeu um olhar medonho em resposta, mas fez questão de ignorar – Sabe, quero tirar uma dúvida. Quer dizer, duas. Mas aconselho que estejamos a sós. – Comprimiu os lábios, em uma expressão misteriosa. Saga já tinha sacado o que era e sem pensar duas vezes o levou para o laboratório de Química. Não tinha nenhum outro professor lá.
O mais velho colocou os livros e a pasta em cima da bancada, e sentou-se em um dos bancos. Aiolia se sentou de frente para ele.
– Olha Saga, eu não tenho nada contra você. Mas o que você me falar agora vai me ajudar muito e não se preocupe que não vou botar seu nome na roda.
– Fala de uma vez. – Mandou impaciente.
O aluno suspirou.
– Você tem um caso com meu irmão, não tem? – Indagou decidido, mas ao mesmo tempo hesitante.
Saga o olhou por uns instantes, tentando entender porque a dúvida só apareceu agora na cabeça de Aiolia. Ele e Aioros eram tão explanados que era impossível Aiolia não ter percebido antes. Mas, enfim, resolveu responder.
– Estamos namorando há 5 anos Aiolia. Como você pode ser tão lerdo para não ter percebido? Adolescente idiota. – Zombou e o mais novo rolou os olhos.
– 5 anos? Porra! – Depois de a frase fixar na sua cabeça, ele mesmo ficou surpreso por não ter percebido antes. – Caralho! – Murmurou. – Puta que paril... Car-
– Porra Aiolia! Fala de uma vez a outra pergunta que eu tenho mais o que fazer! – Esbravejou. Como se estivesse num transe, Aiolia se recompôs e se ajeitou na cadeira.
– Então, meus pais sabem que vocês estão juntos?
– Sabem, mas só não expulsam Aioros de casa, porque eles iriam ter que te falar do porque que ele foi expulso e eles têm vergonha de ter um filho viado. Então eles fizeram uma troca, Aioros não te conta do nosso relacionamento e aí ele pode continuar morando lá.
Aiolia estava perplexo. Como assim? O que é isso?
– Peraí, eu não posso saber de vocês, só porque meus pais tem vergonha?
– Eles têm medo de Aioros ser uma má influencia pra você e você acabar indo pelo mesmo caminho. – Disse, sua voz emanava mágoa e raiva. Odiava os pais de Aioros com todas as forças, por tudo que os dois tiveram que passar só porque se amam. Saga já teve que escutar muita merda dos “sogros”, principalmente do pai e até hoje não sabem como foram fortes e aguentaram todos esses anos. – Esse acordo está válido até vocês se mudarem. Aioros vai morar comigo, então você não vai mais ter contato com Aioros, ou seja, não terá mais má influencia. E tudo será resolvido, esse é o plano maléfico dos seus pais. – Cuspiu as últimas palavras, porque por ele já teria ido lá e feito o maior barraco, mas por respeito ao namorado, ficou quieto até agora.
Aiolia estava de queixo caído e mal acreditava naquilo tudo. Isso tava mais para um filme de máfia japonesa do que para uma vida de estudante normal.
– Peraí, porque você tá me contando isso tudo então? – Indagou confuso.
– Porque eu já to cansado de esconder isso, você não saber de nada acaba prejudicando seu irmão também, que até hoje esconde isso de você pra te proteger.
– Sério cara, isso tudo é muito bizarro. Eu sabia que meus pais não são lá muito confiáveis, mas chegar ao ponto de fazer um acordo com meu irmão pra me proteger é demais não é? O que é isso? Uma espécie de pais super protetores? Porque em casa eles mal falam comigo!
– Aiolia! Se você virar viado também, destruirá o orgulho nobre dos dois! Até parece que eles estão preocupados se você ou seu irmão vão sofrer na vida por gostar de homens. – Suspirou fortemente. – Olha, eu não quero fazer a caveira dos seus pais aqui, só estou te contando os fatos. Aconselho a você a conversar com seu irmão numa boa. Esclarecerem tudo isso e pode dizer que fui eu quem contou.
Saga deixou um aturdido Aiolia pra trás, saiu da sala sentindo que tinha feito a coisa certa. Apesar de tudo, combinou com Aioros que se Aiolia o perguntasse, ele colocaria as cartas na mesa e contaria tudo. Já tinha feito a sua parte, agora é com Aioros.
O leonino não sabia o que fazer. Parecia que uma bomba tinha estourado bem em cima da sua cabeça. Descobriu tudo de uma vez e estava confuso. Ficou relembrando de tudo que Saga disse várias vezes, até se dar conta de que precisava voltar pra sala.
Assim que entrou na sala se surpreendeu. Todos estavam quietos, pois era aula de Pandora. Tinha esquecido que essa era a hora da aula da bruxa – segundo os alunos.
– Oh, Aiolia, o que estava fazendo fora de sala? – Indagou sorrindo irônica.
– Tava resolvendo uma coisa na secretaria. – Mentiu, mas foi bem convincente.
– Oh, espero que seja verdade. Pode se sentar, por favor? – Sorriu largamente, e Aiolia teve vontade de vomitar.
Andou até sua cadeira e sentou-se.
– Onde você estava? – Mu sussurrou no ouvido do outro.
Uma onda de choque percorreu por todo o corpo de Aiolia, por fim eriçando todos os pelos. Mu que estava sentado atrás dele viu quando isso aconteceu na nuca do leonino. Achou engraçado, mas Aiolia estava meio paralisado.
Ficou arrepiado porque Mu sussurrou no seu ouvido? Soltou um riso nervoso.
– Tava resolvendo uma parada ai, depois te conto. – Sussurrou de volta.
Depois das aulas terminarem, Aiolia puxou Shaka para um dos banheiros masculinos que quase ninguém usava.
– Que que você tá fazendo Aiolia? – Indagou o loiro enquanto ainda era puxado pelo pulso. Porque todo mundo me puxa assim? Pensou Shaka.
– Preciso tirar uma dúvida. – Disse um pouco desesperado.
– Ai meu deus, o que é garoto?! – Perguntou já com medo que dúvida seria essa.
Assim que chegaram ao banheiro, o leonino olhou para ver se tinha alguém para logo depois fechar a porta. Olhou para o seu amigo e o viu encostado na bancada da pia.
– Olha Shaka, é uma pequena dúvida, ou melhor, tenho que provar uma coisa.
O loiro o olhou desconfiado.
– Do que você tá falando Aiolia? – Recuou um pouco.
– Calma! É que eu... Preciso saber se vou sentir a mesma coisa do que aquela vez. – Disse hesitante, coçando a nuca.
– Que vez?
– Uma vez aí, que eu não vou te contar. Só preciso que você faça uma coisa. Não estranha tudo bem? É só uma pequena dúvida... – Disse se aproximando felinamente do amigo que empurrou o peitoral de Aiolia.
– Não! Aiolia, não posso fazer isso! Eu, eu.. – Aiolia não podia estar pedindo para ficarem ou algo assim não é? Só faltava isso! Falou a primeira coisa que veio na sua cabeça. – Eu, eu tenho namorado! – Disse para logo depois ver a expressão chocada do leonino.
– Shaka... Você tá namorando quem? É o Mu não é? Não, mas ele não tá lá ficando com Shura? Aliás, do que você ta pensando que eu to falando? – Disse desesperado. Seu rosto totalmente vermelho.
O loiro observou aquele comportamento do amigo, e não conseguiu controlar a gargalhada.
– Cara, do que você tá falando? – Limpou as lágrimas. – Sério, que dúvida é essa? Fala de uma vez!
Aiolia abaixou a cabeça e resolveu deixar a vergonha de lado. Aproximou-se de Shaka que ainda estava encostado na pia.
– Sussurra no meu ouvido. – Shaka esbugalhou os olhos e quando ia abrir a boca para falar, Aiolia o interrompeu. – Eu sei que isso é muito gay, mas eu só confio em você pra fazer isso e eu preciso tirar uma dúvida. E por favor, não me pergunte por que estou te pedindo isso. Seja um bom amigo, faça e fique quieto. – Suplicou, sua expressão séria fez com que o loiro achasse que ele estava passando por um momento difícil e que precisava da sua ajuda. Então, era isso que ele ia fazer.
– Certo, o que você quer que eu sussurre? – Indagou.
Pensou em dizer “qualquer coisa”, mas achou melhor ser mais direto no ponto.
– Onde você estava?
O loiro achou muito estranho, mas resolveu não comentar nada. Descruzou os braços e aproximou seu rosto até seus lábios tocarem no ouvido do leonino.
– Onde você estava? – Sussurrou.
Aiolia olhou para o espelho a sua frente e viu os cabelos loiros de Shaka caírem graciosamente até a cintura do virginiano. O loiro era muito bonito, tinha que admitir, mas não sentia vontade de passar os dedos no rosto dele assim como fez com Mu. Não sentiu nada quando Shaka sussurrou em seu ouvido. Será que só ficou arrepiado quando o ariano fez porque foi pego de surpresa? Ou por que... Enfim, era melhor não pensar nisso. Estava mais confuso que antes.
– Valeu Shaka, só... Não conta isso pra ninguém, pode ser? – Perguntou, colocando a mochila nas costas.
– Claro, fique tranquilo. – Viu Aiolia sair do banheiro, e a curiosidade quase o matava por dentro. Droga, custava contar porque ele pediu para fazer isso?
Aiolia corria pelo pátio, ansiando chegar logo em casa. Queria se trancar em seu quarto e pensar, pensar e pensar. Colocar os pensamentos em ordem e decidir o que fazer.
Que merda estava pensando pedindo para Shaka fazer aquilo? Não podia mais se enganar, estava confuso com a sua sexualidade. Com seus pensamentos impuros e suas atitudes impensadas, movidas apenas pelo instinto. O que será que vão pensar dele?
O que será que Mu pensaria se pedisse para ele sussurrar outra vez em seu ouvido?!
Será que acharia estranho? Pelo menos Mu não se sentiria incomodado em fazer isso, já que ele é gay. Mu é gay.
Mu é gay, Mu gosta de homem, gosta de pênis.
Pensar nisso estava o deixando excitado. Pensar que Mu poderia gostar do seu corpo, pensar que ele ficaria consigo, que teria essa possibilidade, o deixava excitado.
Estava excitado. Duro como pedra e a única coisa que importava era chegar em casa e se aliviar no banheiro. Precisava se aliviar.
E assim o fez, passou que nem um foguete pela sala e foi direto para o banheiro. Ligou o chuveiro, tirou a roupa e entrou no box.
Pensou em tudo que passou nos últimos dias. Na boca de Mu, na voz dele em seu ouvido, do abraço, dos cabelos. Imaginou tocar aquele corpo nu, naquela barriga reta, puxar aqueles cabelos e sugar a pele clara do pescoço. Apertar aquela bunda redonda e ali enfiar um dedo. Engraçado que em vez de imaginar um pênis, aquela parte ficava escura. Ainda não estava preparado para imaginar um pênis. Então voltou todo o caminho dos pensamentos, e não demorou muito para gozar fortemente.
Chegou a cair no chão, sentou-se e ficou por ali mesmo, estava fraco. Sua mente em branco era a melhor coisa que precisava agora, mas não demorou muito para cabelos lilases e a voz suave aparecerem em sua cabeça, o fazendo sacudi-la a fim de tirá-los dali.
O que estava acontecendo?
Em algumas horas começou a pensar em Mu e não parava mais, porque isso? Aliás, isso era tudo que ele não precisava.
Depois de tomar o banho, Aiolia saiu do banheiro e vestiu apenas uma boxer. Entrou no seu quarto e encontrou Aioros sentado na sua cama com uma expressão séria. Já presumia o que estava por vir.
– Feche a porta Aiolia. – Mandou Aioros.
Assim o mais novo fez, fechou a porta e sentou-se ao lado do irmão. Aioros apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça em mãos.
– Eu já soube que vocês conversaram. Aiolia, tudo isso é muito difícil pra mim. Euquero me desculpar por esconder tudo isso de você, mas eu não tive escolha. Era isso, ou essa casa viraria o inferno e isso não seria bom pra você e nem pra ninguém. Eu só aceitei o acordo porque as coisas seriam mais fáceis dessa forma. Eu também soube que você brigou com os dois esses dias, e eu nem sei o que falar... Não sabia que você não queria ir embora, porque não falou comigo primeiro? – Olhou para o irmão mais novo pela primeira vez e Aiolia pôde ver naqueles orbes muita mágoa.
– Eu não sei. Só sei que não quero sair daqui, tudo está aqui. Não ia aguentar ir embora... Eu sei que seria mais fácil pra todo mundo se eu fosse com eles, mas Aioria, chega de seguir o caminho mais fácil. Não vê que estamos sofrendo do mesmo jeito?! Você não sabe a culpa que sinto por obrigar a você não ser totalmente feliz com Saga só porque você tem que me proteger de não sei o que!
– Você não entende Aiolia! Você não conhece o pai que tem! Só porque sou gay, só por isso! Se eu estivesse matando e roubando, capaz dele me dar uma medalha de honra. Mas ser gay é fundo do poço. Para falar a verdade, eu estou contando os dias para eles irem embora e esse inferno acabar, mas Aiolia, eu não quero que você vá. Você não tem culpa de nada irmão, são eles que acham que podem controlar todo mundo. Pelo menos, ele nunca me bateu.
– Mas o que vou fazer?
– Conversa com a mãe. Só vocês dois. Ela pode ser escrota na frente do pai, porque tem medo de enfrentá-lo. Mas ela não é tão ruim assim, ela já acalmou muitas vezes o pai quando ele começava a soltar o verbo. Faz isso, conversa com ela que você sabe da minha situação porque acabou descobrindo sem querer e que não quer ir embora.
– Mas ela não vai poder ajudar cara. Ela nunca vai passar por cima do pai.
Aioros levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.
– Tenta! Só tenta, se não der certo, fazemos um barraco e foda-se tudo, toda essa merda! To cansado dessa porra toda. Eles vão embora de qualquer jeito e a gente se vira por aqui. Eu trabalho, eu junto dinheiro há anos e tem uma boa grana lá e tu também tem poupança que eu e minha mãe abrimos pra você.
– Sério? – Indagou surpreso.
– É, pra faculdade, caso você não passe pra uma pública, o que eu acho muito provável. – Aioros ainda conseguiu zombar no meio da situação.
– Tá me gastando? – Brincou.
O mais velho riu.
– To falando sério. Você tem planos para entrar em alguma faculdade pública? – Parou de frente ao irmão e cruzou os braços.
– Hãn, claro que tenho. Acha que sou só esse corpinho aqui? – Zombou.
– Se liga otário, se você quiser ficar aqui mesmo, vai ter que meter a cara. Entendeu? – Disse com o dedo em riste, como se estivesse falando com uma criança. Aiolia riu com gosto.
– Sim senhor. – Riu de lado.
Antes que falassem mais alguma coisa, a porta do quarto abriu e por ela entrou a mãe dos dois. Olharam-na esperando-a falar alguma coisa. Sara fechou a porta assim que entrou no quarto, e lentamente andou até a cadeira do computador e ali se sentou. Ficou em silêncio por uns segundos para logo depois fitar os filhos.
– Acredito que você já saiba de tudo Aiolia. – O mais novo nada respondeu, apenas ficou a olhando, esperando o pior. – Olha... Eu sou contra a tudo que seu pai fez com Aioros e o que está querendo fazer com você, te levar para o exterior. Para quem não entende a situação, acha que Alexandre é homofóbico e louco. Mas meus filhos, o buraco é bem mais em baixo. – Sara suspirou. O que ela estava prestes a contar era um segredo que afetou muito a vida de muitas pessoas. – Quando o pai de vocês era pequeno... – Suspirou fortemente, era um assunto delicado que a deixava um pouco desestabilizada, uma mulher forte e bem-sucedida que estava ali, mostrando seu lado fraco para seus filhos. Sentia vergonha, mas era preciso para que seus filhos não tivessem raiva do próprio pai. – Quando ele era pequeno, ele viu o pai dele na cama com um amigo da família. Ele ficou muito chocado com aquilo, mas resolveu ficar quieto, porém aquela cena não saía da sua cabeça. Não demorou muito para a mãe dele descobrir a traição. Ela ficou tão mal que entrou em depressão profunda e deu entrada ao divorcio. Seu avô não conseguiu suportar a pressão da família, dos amigos e até do próprio amante. Acabou que ele se matou. – Suspirou. – Foi uma grande onda de desastres que ficaram marcados pra sempre na vida de todos daquela família. O pai de vocês desenvolveu muitos complexos, ele não sabe o que é ser pai, ele não conversa com vocês, ele tem tantos problemas psicológicos que vocês nem queiram imaginar. Esse problema na infância o fez ter pavor disso, de gay, de tudo isso. Ver o próprio pai se matar por causa de outro homem o atingiu de uma forma inimaginável. – Seus olhos ardiam, pois se lembrava de quando o marido lhe contou essa história, o quanto era duro ver a pessoa que ama sofrendo. – Então, por favor, meus filhos, não culpem o pai de vocês. Ele tem problemas demais para lidar. O plano era vocês não saberem disso nunca, mas chegou a hora em que foi preciso ser contado. Vocês nem chegaram a conhecer seus avós, e não entendo até hoje vocês não se perguntaram o por que. A avó de vocês morreu pouco tempo depois, de tão perturbada que ficou. Aiolia... Eu vou conversar com seu pai sobre a mudança. Eu sou uma mãe horrível, eu sei. Não sou presente e finjo que não me importo, mas sempre, sempre, estou preocupada com vocês. E Aioros, eu te peço perdão por nunca intervir devidamente as reações brutas do seu pai. – Algumas lágrimas desciam, e seu peito doía muito. – Eu prometo... Prometo que quando vocês quiserem, vamos sentar e conversar direito sobre isso. Vocês podem me perguntar qualquer coisa, mas agora eu só peço que vocês tenham paciência com o pai de vocês, as coisas vão se resolver, só peço a compreensão de vocês. – Fungou o nariz avermelhado e com esse discurso, Sara deixou o quarto com o coração na mão.
O silencio no quarto era ensurdecedor, as palavras ainda ecoavam pelo quarto, como se a essência do peso daquelas palavras ainda estivesse no ar e nunca mais iria sair. Ambos olhavam para o chão, perdido naquela revelação brutal e triste. Estavam em choque, como assim, o pai... Aquele homem que Aioros odiava era tão traumatizado assim? Tudo fazia sentido agora. Apesar de ser uma história absurda.
Aiolia sentia um peso muito grande no peito. Como assim Sara vai ali, joga a bomba para os filhos segurarem e vai embora? Aquilo não fazia sentido! O que ela queria agora? Que ambos perdoassem o pai só porque ele é traumatizado e então ele pode fazer o que quiser com as vidas dos filhos? Mesmo que ele tivesse passado por vários problemas, ele não tem o direito de fazer seus filhos sofrerem por conta dos próprios traumas! Aiolia estava revoltado.
O mais novo colocou uma calça jeans, um tênis e uma blusa branca. Na mochila, colocou o material que precisaria amanha, escova de dentes, o uniforme e cueca.
– Vou dormir fora. – Avisou para o irmão que ainda estava atônito sentado na cama.
Passou direto pela mãe na sala, pegou seu skate e começou a andar sem rumo.
Que dia! Que grande dia de merda! Pensava Aiolia enquanto deslizava pelo asfalto.
Primeiro descobriu que seu irmão mais velho namora seu professor de química há 5 anos, depois descobre que seus pais fizeram um acordo com seu irmão de que se Aioros não o contasse do relacionamento com Saga, poderia continuar morando em casa. Depois descobre que deseja sexualmente seu amigo de infância e logo depois descobre que seu avô se suicidou e sua avó morreu de depressão.
O que é isso? Todos a minha volta são gays, ou pelo menos, estão envolvidos. É óbvio que eu ia acabar virando um. Pensava Aiolia com certa raiva.
Estava com tanta raiva e ele nem sabia bem o por que. Mas mesmo com toda essa história, não conseguia sentir repulsa em pensar em Mu desse jeito.
Quando viu onde estava, quase deu meia volta. Mas parou, de repente esse seja o melhor lugar para que sua confusão mental acabe de vez. Olhou para o portão, e decidiu por fim, tocar a campainha.
Poucos segundos depois, Aiolia pôde ver dois orbes verdes o olhando surpreso.
– Tá fazendo o que aqui? – Indagou entre atônito e curioso.
– Posso dormir aqui hoje? – Pediu, coçando a nuca.
– Ahn, claro. Aconteceu alguma coisa? – Perguntou, fechando o portão logo depois de Aiolia passar.
– Sim, muitas coisas. Mas... Eu só preciso ficar de boa. Tem alguém em casa? – Indagou, já entrando na casa e rumando para o quarto do amigo.
– Não, meu irmão vai chegar só à noite. – O seguiu até o quarto, e deparou com Aiolia tirando a camisa, a calça, o tênis, ficando apenas com a boxer.
O leonino andou até a porta, a fechou, ligou o ar condicionado e deitou na cama, seus olhos fitavam o teto.
– Não acha que está abusando demais não? – Zombou, se sentando em frente ao computador, onde estava antes de Aiolia chegar.
– Fica quietinho aí, vendo esses pornôs gays e me deita em paz, vai. – Brincou.
– Ei, eu não vejo pornô gay! Nem preciso disso! – Gabou sorrindo matreiro, enquanto respondia algumas pessoas no Facebook.
– Ah claro, deve dá pra meio mundo então? – Ironizou, mas ficou um pouco preocupado com a resposta, apesar de saber que era uma brincadeira.
– Oh, até parece! – Disse divertido, porém um pouco tímido. Não tinha costume de conversar essas coisas com Aiolia.
– Mu. – O chamou languidamente.
– Hm? – Estava tão concentrado nas conversas, que acabou ignorando o leonino só de cueca todo esparramado na sua cama.
– O que você tá fazendo?
– Face. – Respondeu simplesmente.
– Qual é, sou visita, você tem que me dar atenção! – Reclamou, fingindo aborrecimento.
– Visita uma ova né. Tem uma gaveta com roupa sua no meu armário! Trate de levar isso tudo pra casa, não tenho nem mais espaço pras minhas roupas direito. – Murmurou.
– Bla, bla, bla. – Zombou Aiolia. – Não vai perguntar o que aconteceu?
Mu bateu as mãos no teclado e o olhou com expressão de desprezo.
– Tá de sacanagem né? E o “Mas... Eu só preciso ficar de boa.”? To esperando você falar.
Aiolia se apoiou em um cotovelo.
– Você está muito amargo hoje. Cadê a sua amabilidade natural? Estou precisando, beleza? – Disse, fingindo carência.
Mu quase se jogou em cima daquele corpo perfeito e bronzeado de praia. Como, em que mundo alguém aguentaria ficar conversando no Facebook quando tem um leão gostoso daquele na sua cama pedindo pela sua atenção?
Mu. Mu é o tipo de pessoa que tem um autocontrole do cão, mas acabava sendo um pouco bruto, porque continuar como sempre era pedir demais.
Suspirou cansado e saiu do facebook, sentou-se na cama e olhou para o leonino, se segurando para se concentrar só no rosto do amigo.
– Então, me conta, o que aconteceu? – Perguntou com a costumeira voz aveludada e suave.
Aiolia sentiu todos seus músculos relaxarem ao ouvir aquela voz e ver aqueles olhos o olhando profundamente. Ao ver que Mu estava lhe dando atenção, se sentia o Rei Leão, o maior de todos os reis.
Sorriu fracamente e contou tudo que tinha acontecido naquele dia. Claro, menos a parte de Shaka e a parte no banheiro também. Ficou feliz ao ver que Mu estava realmente interessado e tentava pensar em várias soluções para seu problema, mesmo tendo ficado muito surpreso com a história do pai do leonino. Sentiu-se tão calmo que poderia dormir ali mesmo, Mu tinha esse poder sobre ele, todas aquelas preocupações pareciam pequenas agora.
– Mas Aiolia, isso é muito sério! Seu avô.. Uau! Estou chocado! – Sua expressão condizia com suas palavras, seu queixo caído e seus olhos levemente arregalados – O que... O que você está sentindo sobre tudo isso? Sei lá, o que você pensa? – Perguntava um pouco apressado, só de pensar que se essas coisas acontecessem com ele... Não conseguia pensar no que faria.
Aiolia fitou o teto pensativo durante uns segundos, tentando pensar nessas perguntas. O que ele estava sentindo?
– Não sei... Parece que é muito absurdo que isso tenha acontecido na minha família sabe? Acho que a fixa não caiu direito. Não sei nem como vou olhar pro meu pai agora, talvez pena, compaixão...? Não sei. – Suspirou.
– Mas sinceramente, acho que entendo um pouco a atitude dele com vocês. Tudoque aconteceu na infância dele tinha que refletir de algum jeito no comportamento dele quando adulto. E na verdade, você tinha que agradecer a Deus que ele não tenha se tornado um homofóbico maluco e pensar que ele ainda mantém o filho gay em casa, quer dizer que ele não tem tanta repulsa assim. Se fosse outro já teria deserdado sem pena. – Respirou fortemente. – Isso é muito complicado...
Ainda olhando para o teto, levou um braço para trás da cabeça.
– Eu também acho que ele não deve ter tanta repulsa assim. Mesmo ele não querendo que eu siga o mesmo caminho que meu irmão, ele fez as coisas de forma sutil e nunca encostou um dedo em Aioros.
–Pois é. Mas sabe... Eu acho que você deveria conversar com ele. Você e Aioros. Talvez tudo que ele precise é que vocês o compreendam, e conversem numa boa. Acho que as coisas podem melhorar.
– Você tem razão. Acho que o melhor que posso fazer agora é pensar pelo lado bom. Mas em relação à viagem... Não sei o que fazer agora. – Disse sinceramente.
Mu o olhou preocupado.
– Então... Está cogitando ir com eles? – Indagou com pesar.
O bronzeado se apoiou nos cotovelos, e olhou o amigo nos olhos.
– Não! Claro que não. Vou ficar aqui, mesmo que eu não tenha onde morar. – Disse um pouco desesperado, como se tivesse que confirmar isso para Mu. Como se devesse explicações.
Mu torceu os lábios para evitar sorrir, mas sua expressão suavizou-se.
– Mas eu já falei não é? Se você ficar aqui mesmo, tem onde morar, não se preocupe. – Disse sorrindo.
– Eu durmo na cama e você usa o colchonete já é? – Brincou apertando a lateral da barriga de Mu, que acabou deitando na cama de tantas cócegas que sentia.
– Para- Para Aiolia! Que coisa! – Ainda rindo, tentava tirar as mãos de Aiolia da sua barriga.
Subitamente, Aiolia começou a pensar no sussurro e em outras coisas a mais... Mas para disfarçar, parou de fazer cócegas e continuou deitado como se a brincadeira tivesse acabado naturalmente. Pelo menos Mu não estranhou.
– Seria bom né? – Comentou o bronzeado.
Mu não podia evitar os pensamentos mais impuros caso Aiolia fosse mesmo morar em sua casa. Ao mesmo tempo em que seria o paraíso, seria muito ruim, pois iria alimentar sua ilusão e esperança.
– É... – Murmurou.
Enquanto pensava em como seria morar com Mu, lembrou-se que tinha uma coisa muito mais séria para resolver. Sentia-se tão bem com ele, que tinha até esquecido que se masturbou pensando no amigo. Não pôde evitar de suas bochechas ficarem vermelhas, olhou de esguelha para o ariano e o viu mexendo nos cabelos distraidamente. Virou na cama, ficando de lado. Precisava fazer isso, precisava...
– Mu, eu sei que isso vai soar estranho... Mas você pode fazer uma coisa pra mim? – Perguntou decidido. Queria muito saber o que sentiria, apesar de já saber que deseja Mu, queria ter mais uma confirmação para poder se afogar em seu martírio que é desejar outro homem.
– Fazer o que? – Perguntou curioso, se apoiando no cotovelo.
Aiolia se sentou na beirada da cama, que acabou ficando de costas para Mu. Sua barriga enrolou, e sentiu um enjoo incrível. O que é isso? Estava ficando nervoso? Fala sério!
– Então... É... Você pode... Sussurrar no meu ouvido?
Notas finais
Então, gostaram?! *o*
Espero que sim /o/
Muito obrigada pelos comentários anteriores, e me desculpo novamente pela mega demora!
Vou postar o próximo logo logo, prometo.
Um enorme beijo a tooodos!
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