Implacável

8 Capítulo 8


Notas iniciais
Yeah, moças! Mais cedo do que esperavam? Hum, é que fevereiro é o mês de aniversário da minha irmã! É tipo aquelas promoções supimpas de supermercados? "O aniversário é meu, mas o presente é para vocês"! Tá, eu estava ansiosa para postar esse capítulo. Eu gosto dele, e nem sei porque.
Ah, queria agradecer os comentários de vocês. Alguns são tão tocantes!
Enfim, enfim, deixar de enrolação e ir logo para o que interessa :D

13h43, 2 de outubro, sexta-feira


Mônaco-ville, Principado de Mônaco


Sutil adj. Agudo, delicado, apurado, penetrante, que percebe facilmente as impressões;



Estavam hospedados em uma bela casa próxima à Marina de Mônaco e a loira agradecia por não estar em um quarto estéril de hotel ou passando pela constrangedora experiência de dividir um quarto com Gaara depois do beijo que trocaram no seu aniversário. Depois que partiram da França, eles trocaram poucas palavras; e Gaara parecia ter entendido que Ino precisava de espaço.


Quando chegaram a Mônaco, o Sabaku se concentrou em seus negócios, quase negligenciando a presença de Ino. Uma vez que ele sempre saía muito cedo e voltava muito tarde.

Mas Ino não se queixava. Os últimos dias no Principado de Mônaco tinham sido bastante agitados. Mesmo que Gaara não a acompanhasse em seus passeios, ela se divertia visitando lugares cada dia mais inusitados sempre acompanhada por Baki.

Quando acompanhava Ino, era impossível que eles não iniciassem uma conversa. E ela acabava sempre descobrindo alguma coisa surpreendente sobre o fiel empregado de Gaara. Como, por exemplo, que ele era turco, tinha uma filha e uma ex-esposa que viviam em Londres – muito perto de onde Ino morava, aliás -, que Baki gostava de carne seca e berinjela e que ele trabalhava para Gaara desde que o ruivo assumira dos negócios da família, aos dezessete anos.

Nessas conversas, Ino arrancou informações preciosas de Gaara. Ao que parecia, o ruivo tinha largado a faculdade de economia para se dedicar à companhia por mais tempo. Ainda que ele tivesse terminado o ensino superior com honras – depois de ser convencido pela irmã -, Gaara não demonstrava muito apreço pelo seu tempo na faculdade. Descobriu também que ele era muito próximo da irmã, Temari; que seu irmão, Kankurou, era bastante superprotetor em relação a ele desde que eram crianças; e que Gaara tinha um carinho especial pela falecida mãe, Karura.

Mas nem sob juramento, Baki falou de Evelyn. Aos olhos de Ino, a falecida esposa de Gaara era um assunto tabu, e sempre que Ino perguntava, Baki se esquivava dizendo: “não são assuntos que me dizem respeito, senhorita”. Imaginava se Gaara sabia da visita que recebera pouco antes de se decidir sobre o acordo.

Naquele dia, Ino tinha acordado mais cedo do que de costume. Fez sua higiene matinal, vestiu o macio vestido azul Royal que tinha usado em seu primeiro dia em Marselha e trançou o cabelo na altura da nuca. Não ligou em encontrar sandálias, já que a casa era sempre tão limpa, e praticamente saltitou até a cozinha a procura de seu café da manhã.

– Bonjur, madame Vardin! – Ino surgiu na porta da cozinha, assustando Sofia Vardin, a governanta da casa.

– Mon Dieu! – a mulher de cinquenta anos grasnou em seu francês monagesco. Fez uma pausa, como se pensasse nas palavras certas para dizer a Ino em inglês. – Não me assuste assim, menina!

– Eu estou faminta, madame Vardin. Pode me fazer waffles? Com bastante calda. – Ino ia se acomodando em uma das banquetas do balcão, mas a governanta fez um gesto para ela se levantar.

– O monsieur Sabaku está tomando seu desjejum no terraço da casa. E ele expressou o desejo de falar com a senhorita. Por que não o acompanha na refeição? – sugeriu Sofia.

– Hm, será que ele já está de saída? –Ino pensou com cuidado, olhando para seus pés descalços e sua aparência tão desleixada. – Eu queria colocar sapatos, pelo menos.

– Vá logo, menina! – a mulher bateu o pé com força no chão, fazendo Ino se levantar e correr desajeitada em direção ao terraço.

Subiu a escada caracol que ia da cozinha direto ao terceiro piso, e logo que chegou viu Gaara sentado à mesa de ferro retorcido com o desjejum quase intocado e olhando a vista de forma serena. Ino se aproximou devagar, puxou a cadeira à direita dele, se sentou, sorrindo de forma sutil, e já se servindo de chá.

– Bom dia, Gaara. – falou mansinho.

– Não achei que acordaria tão cedo hoje. – ele respondeu sem ainda olhá-la. – Voltou bastante tarde ontem de sua visita ao centro.

– Eu passei a tarde no teatro. Não entendi uma palavra do que os atores diziam – Ino riu. -, mas foi divertido. E Baki fez um resumo da peça para mim.

– Baki estava lhe acompanhando? – o tom de voz de Gaara era especulativo, e Ino tratou de “andar com cuidado naquele terreno”.

– Sim. Eu não conheço a cidade, e... Bem, meu francês é atroz. Ia acabar perdida nesse lugar sem um tradutor.

– Tem alguma coisa planejada para esta noite, Ino? – Gaara bebeu um gole curto do café em sua xícara.

– Nada, particularmente. Pensei só em ir em uma pâtisserie esta tarde. Ontem encontrei uma que parece ter coisas muito gostosas. – os olhos de Ino brilhavam só de pensar nos doces que poderia provar naquele dia. – Alguma sugestão?

– Na verdade, um convite. Será oferecido um evento em comemoração ao aniversário da empresa da qual sou investidor. Gostaria que me acompanhasse.

O sangue de Ino correu gelado ao ouvir que teria que ir em outro evento com toda aquela gente rica. Sua última aparição tinha sido um fiasco, que lhe rendera alguns minutos de discussão com Gaara. Temia que o resultado desta fosse ainda pior.

– Não se preocupe. – Gaara pareceu ler seus pensamentos. – Será um evento bastante informal. Em um cassino, então você só tem que se preocupar em não beber champanhe demais e não perder muito dinheiro com apostas.

– Isso me tranquiliza muito. – Ino resmungou.

– Sua estilista virá às cinco. E às seis a equipe do salão.

– Estilista? Equipe de salão? – grasnou.

– Sim, sim. Gente paga para cuidar de você, e não te submeter a tortura. – ela viu Gaara rolar os olhos. – De todo modo, um carro virá buscá-la as oito.

– Você não vai comigo?

– Encontro você lá.

Sem dizer mais nada, Gaara se levantou e deixou Ino sozinha no terraço. Ele parecia estranhamente mal-humorado, ou mesmo desanimado para aquele dia. Mas Ino acho que ele poderia estar somente cansado.

Assim que Sofia veio trazendo seus waffles, Ino abriu um sorriso em contentamento e mergulhou o universo doce do seu desjejum.


愛



– Senhor Sabaku, entenda que seus termos são inaceitáveis. – resmungou um homem pequeno, ariano e que tinha uma carranca de descontentamento.


Gaara suspirou entediado daquela discussão que se seguia a dias na sala de reuniões de uma das maiores construtoras de Mônaco. Estavam negociando um terreno para a construção de um edifício que seria a sede um cassino que eles almejavam ser o maior de Mônaco, mas Gaara parecia relutante em construir outro cassino naquela cidade. Ainda mais por um orçamento tão alto. Queria alterar o projeto para um hotel, que seria muito bem vindo, tendo em vista a localização do terreno.

– Posso mandar o projeto para outra construtora, uma Londrina, quem sabe. Eles farão pelo preço que estou disposto a pagar, incluindo os gastos que terei trazendo-os para cá. – Gaara resmungou lacônico. – Estou sendo justo, não sovina. De todos os adjetivos que possa usar para me descrever, certamente sovina será o último deles.

– Entenda que o terreno pode abrigar um cassino que vai superar Monte Carlo! – o homem exclamou. – Vamos negociar isso e chegar a um acordo. Temos tempo!

– O senhor tem tempo, eu não. – Gaara disse olhando em seu relógio. Já era quase sete e meia da noite. Ele lembrava-se de alertar Baki para não marcar mais nenhuma reunião após as dezoito horas; enquanto o homem argumentava – em vão – sobre as vantagens do cassino e o motivo de seu preço acima de mercado.

Sem nenhum senso de polidez, Gaara se levantou, sendo acompanhado pelo homem, o cumprimentou e deixou a sala de reuniões sem dar mais satisfações.

Tomou o corredor que anexava o centro empresarial a o hotel-cassino em que ocorreria o evento que tinha combinado com Ino. Pegou o elevador privativo até o andar do quarto que tinha reservado, e lá iniciou um rápido processo de se preparar para o evento composto por: uma ducha fria e rápida, vestir seu smoking, calçar os sapatos, trocar a bengala de marfim simples por uma preta com detalhes em prata e dar um jeito no cabelo. Por mais que Gaara tentasse, o cabelo ruivo continuaria ter o aspecto rebelde de sempre, então não demorou muito na última tarefa.

Desceu para o saguão do hotel assim que engoliu a refeição que tinha mandado providenciar. Até então, suas ações pareciam ter sido rigidamente programadas e Gaara agia no modo automático, mas assim que colocou os olhos nela deixou suas convicções de lado e passou a agir por instinto.

Ela estava deslumbrante em um vestido Versace vinho, sem alças e com uma fenda que deixava a perna esquerda quase toda a mostra e pouco para a imaginação. O cabelo solto exibia ondas simples e discretas. O único enfeite que levava era um par de pequenos grampos com pedras de brilhantes na lateral esquerda, separando a franja do restante do cabelo. A bonita gargantilha de diamantes que Gaara comprara na Tiffany&Co. parecia ter sido feita para o pescoço elegante e alongado de Ino; assim como os brincos de platina com peças de diamantes que faziam par com a gargantilha.

Ino parecia ter chegado há pouco tempo, mas antes de Gaara. Ela tentava disfarçar, mas parecia um pouco nervosa ao se ver sozinha ali. Quando se aproximou dela, Gaara quase teve de segurar a mão que ela ia projetar contra seu rosto, com o susto que levou ao sentir alguém envolver sua cintura com um dos braços.

– Você parece nervosa. – Gaara sussurrou em seu ouvido enquanto caminhavam em direção ao salão nobre do hotel.

– Claro, esse colar e esses brincos brilham como diamantes de verdade. Vai que um doido resolve me atacar para roubar isso. – ela murmurou cansada.

– Não se preocupe quanto a assaltos, a segurança do hotel jamais permitiria que você fosse atacada. E só para constar, essas joias possuem seguro.

– Não sabia que colocavam seguro em joias feitas de zircônio. – Ino olhou confusa para Gaara, e o olhar que ele lhe devolveu fez os olhos dela se arregalarem. – São diamantes de verdade?! – sibilou.

– Você está comigo, e jamais permitiria que usasse algo que não fossem diamantes verdadeiros. – ele deu de ombros.

Ino freou em seus calcanhares, e quase caiu, pois os saltos extremamente altos não permitiam esse tipo de movimento. Gaara olhou para ela, esperando uma justificativa para ela ter parado na entrada do salão, onde vários fotógrafos os registravam em júbilo.

– Eu sou a última pessoa para quem você vai querer emprestar diamantes. – Ino rosnou em tom baixo.

– Eu não os emprestei a você. Eu os dei a você. Se perdê-los, é problema seu. Então vamos entrar antes que esses fotógrafos comecem a ganhar mais do que a ética permite com essa sua cena desnecessária. – ele sussurrou, mas Ino sentiu um leve tom de ameaça. Caminhou suavemente ao lado de Gaara, e quando estavam na segurança do salão cheio da elite de Mônaco, ele lhe disse com calma: — Aliás, o vestido ficou muito bem em você.

Ino não sabia se corava com o elogio vindo de Gaara ou fechava a boca, aberta de espanto pela elegância do lugar. O salão nobre era finamente decorado a moda vitoriana, com lustres de cristais, belos arranjos florais e com mesas forradas pelo mais fino linho. Era um jantar dançante, então o centro do salão estava livre para os casais que praticamente deslizavam elegantemente ao som do pianista e da cantora – que mais parecia uma diva dos anos 30.

Aqueles que não dançavam, ou estavam em suas mesas conversando animadamente com outros convidados ou ficavam mais próximos do bar, bebendo e aproveitando os aperitivos que os garçons serviam com maestria.

– Venha. – Gaara puxou Ino suavemente em direção a uma mesa onde um homem de cabelos acinzentados lhes acenava. Ele parecia ser alguns anos mais velho que Gaara, e estava acompanhado de uma mulher de cabelos castanhos na altura dos ombros e vestida de roxo.

– Gaara, quanto tempo! – o homem se ergueu para cumprimentar o ruivo.

– Você parece bem, Kakashi. – respondeu educadamente e logo cumprimentou a mulher do Kakashi. Em seguida, se virou para Ino e a trouxe para mais perto de si. – Kakashi, Rin, esta é Yamanaka Ino. Ino, estes são Hatake Kakashi e sua esposa, Rin.

– É um prazer conhecê-los. – Ino cumprimentou Kakashi e Rin, e logo se acomodou com Gaara na mesma mesa que o casal.

Como de costume, Gaara conversou sobre negócios com Kakashi, enquanto Rin iniciava uma amena conversa com Ino. A morena, ao que parecia, era restauradora de obras de arte, e Ino ficou mais que entusiasmada em poder falar sobre um assunto que lhe era tão familiar com alguém.

Por diversas vezes, alguém passava pela mesa onde eles estavam para cumprimentar Gaara e Kakashi, e por consequência, Ino era apresentada àquelas pessoas. Alguns dos homens mais velhos até arriscavam um elogio ou um flerte, que deixavam Ino corada e causavam a diversão de Gaara.

– Fico feliz que esteja se divertindo, ainda que seja às minhas custas. – Ino bufou logo que um senhor tinha se afastado após ter lhe dito que ela era uma sereia e mais um monte de coisas que ela não entendeu, pois o homem estava visivelmente bêbado.

– O que eu posso fazer, Ino? Os homens não podem evitar de reparar em você... E isso realmente me diverte. – o sorriso de canto que Gaara lhe lançou fez o corpo de Ino se aquecer, e ela logo desviou os olhos de Gaara para sua bebida.

Assim que teve a oportunidade, Ino escapou para ir ao banheiro. Pensou que naquele recinto exclusivamente feminino teria um pouco de tranquilidade, mas uma mulher lhe abordou, querendo saber o segredo de Ino para ser tão bonita e ter conseguido fisgar o Sabaku.

– Há anos ele não sai de Londres. E agora aparece com você! Menina, me conte seu segredo. – a mulher disse energicamente.

– Bem, eu não fisguei o Gaara. Eu apareci na casa dele cheirando a banheiro, despejei um monte de ofensas nele e agora estamos aqui. – Ino sorriu amarelo com a expressão de incredulidade da mulher.

– Cheirando a banheiro... É o perfume novo da Chanel? – a pergunta pareceu tão idiota que Ino não teve coragem de desiludir a mulher, então confirmou, para poder sair logo dali.

Assim que se livrou da senhora, Ino caminhou de volta a mesa onde Gaara estava, mas antes que pudesse dar sequer cinco passos naquela direção, alguém a capturou pela cintura e a puxou em direção a pista de dança.

– Me deve uma dança, senhorita Yamanaka.

O homem de cabelos brancos, de aparência arrogante já tinha lhe solicitado uma dança, quando Ino estava sentada com o casal Hatake e Gaara. Ino forçou o cérebro a lembrar do nome do homem e teve um leve lampejo quando conseguiu.

– Senhor Valois... – ela começou. Gaara tinha lhe alertado para se manter longe de Hidan Valois, e ela nem precisava desejar isso com firmeza. O hálito acre de álcool que ele tinha a estava fazendo desejar correr para o mais longe possível daquele homem.

– Me chame de Hidan, por favor. – ele ainda a puxava em direção ao lugar reservado para danças.

– Então, Hidan, eu não acho que Gaara vá gostar de nos ver assim, tão próximos. – Ino tentou se afastar ao menos um pouco de Hidan, que a mantinha junto a seu corpo e já começava a dançar a balada dos anos 20 que a cantora interpretava.

– Me poupe, senhorita. – Hidan riu. – Gaara foi casado com Evelyn Kerr. Ou ele tem vocação para ser corno ou é um homem bastante desprendido de suas mulheres. Não se preocupe.

Ino ficou mortificada com as palavras do Valois. Novamente tentou se afastar, mas o homem estreitou ainda mais os braços em volta dela e lhe lançou um sorriso como quem dizia “apenas aproveite”. Resolveu não fazer uma cena, então concedeu aquela dança a Hidan.

Quando a cantora acabou a música, Ino fez que ia sair, mas novamente Hidan não permitiu.

– Apenas mais uma música, senhorita. Gaara está entretido com o casal Hatake. – ele fez um gesto com a cabeça na direção de Gaara, e Ino pôde reparar que ele não parecia estar prestando muita atenção no que ela fazia. Mas ainda sim, desejava se livrar daquele homem, e rápido.

– Eu estou cansada, senhor Valois.

Tentou se afastar, mas a mão que Hidan mantinha na base de sua cintura desceu para uma das nádegas da loira e a apertou com lascívia. Ainda que desejasse socá-lo, Ino apenas sorriu, fingindo aceitá-lo; mas quando ele menos esperava, o fino salto dela encontrou seu pé com força. Hidan mal teve tempo de gritar, pois Ino tinha lhe agarrado o dedo mindinho o o torcia com vontade.

– Nunca mais coloque essas suas mãos imundas em mim, Valois. – ela sibilou para o homem que se curvava em dor. Em seguida, suavizou sua expressão, e fingiu um tom preocupado. – Senhor Valois, me desculpe! Mil perdões!

– Vadia! – ele gritou, atraindo todos os olhares para eles. Hidan estava curvado, quase pulando da dor que senti a no pé e no dedo torcido.

– Foi sem intenção! – Ino tinha virado o jogo. Todos pensavam que Hidan estava furioso com o “pisão acidental” que ele tinha levado da moça, e achavam sua atitude excessiva.

– Ora, Hidan, não é para tanto. Não vê que foi um acidente e Ino está tão sentida. – Gaara aproximou-se com a expressão tranquila. Passou o braço em volta da cintura de Ino e lhe deu um beijo no alto da cabeça para lhe sussurrar: — Bom trabalho.

– Eu sinto tanto, senhor Valois. Há algo que eu possa fazer...?

– Saia daqui, sua vadia imunda! – o homem rosnou e saiu mancando do salão, sob as críticas dos convidados.

Ino queria rir, mas tinha que continuar fingindo. Assim que o garçom passou com champanhe, Gaara pegou duas taças e ofereceu uma a ela, que aceitou de bom grado e virou o líquido de uma vez na boca.

– Vá com calma. – ele a advertiu. Ino notou que Gaara não estava levando-a para mesa. Adentraram juntos uma das grandes sacadas do salão, onde puderam respirar o ar frio da noite. – Você está bem?

– Furiosa faz parte da sua definição de “bem”? – Ino rosnou.

– Eu estava indo intervir pouco antes dele a... acariciar. Mas você foi mais rápida. – Gaara bebericou seu champanhe. – Onde aprendeu aquilo?

– Meu pai foi do exército. Me ensinou a me defender de porcos como Hidan Valois.

– É bom eu me lembrar disso. – Gaara riu abertamente, fazendo Ino o olhar, incrédula.

O riso dele era limpo e claro, mas se tornava algo excessivamente sexy com a voz rouca e grave de Gaara. Ino sentiu seu rosto esquentar e um discreto arrepio percorrer seu corpo.

– Está com frio? – ele perguntou, já tirando o casaco de seu smoking e o vestiu em Ino. Pôde sentir o cheiro fresco da colônia que Gaara usava e o calor daquela peça. Aconchegou-se um pouco mais no casaco e tentou concentrar seus pensamentos em algo que aliviasse sua raiva de Hidan.

– Você foi o único que não me pediu uma dança. – Ino falou suavemente.

– Eu não danço muito bem. – pela primeira vez, ela o via corar, ainda que Gaara só tivesse adquirido um leve tom rosado, quase imperceptível.

Ensaiou seu melhor olhar pidão, que Gaara não pôde resistir. Ele deixou sua taça e sua bengala apoiada no balaustre de mármore da sacada, estendeu-lhe uma mão e, juntos, os dois deslizaram suavemente ao som pálido da música que vinha do salão.

– Minha mãe sempre me disse para nunca confiar em um homem que saiba dançar. Ainda bem que você não dança bem. – Ino sorriu, ironizando a modéstia de Gaara ao dizer que não dançava bem.

– E meu pai me alertou sobre mulheres com sorriso bonito. Elas sempre conseguem o que querem. – Gaara comentou morno, fazendo Ino rir.

– Somente mulheres com sorriso bonito conseguem dissuadir a personalidade de homens carrancudos, rígidos e inflexíveis.

– Bem colocado, senhorita Yamanaka.

Ainda que não quisesse, Gaara sentia que cada vez mais se envolvia na ardilosa teia de encantamento que Ino inconscientemente tecia a sua volta. Gaara, que gostaria de descobrir aonde uma mulher como Ino lhe levaria, estava descobrindo que esse local seria o próprio inferno se ele continuasse se deixando envolver tão rapidamente.



– Foi uma noite agitada. – Gaara suspirou assim que saíram do carro. Ajudou Ino a descer e juntos entraram na silenciosa casa.



Gaara ainda ficou algum tempo na sala depois que Ino subiu para o quarto. Serviu-se de uma xícara de chá com algumas gotas de uísque enquanto olhava calmamente para a vista noturna de Mônaco-Ville.

Mônaco era um dos lugares favoritos de Evelyn. Sempre que tinham uma discussão mais séria, ela não era capaz de enfrentar o problema, fugia. Para um lugar agitado, como Ibiza, Cancun ou Mônaco, onde ela podia esquecer os problemas. E quando voltava, fingia que nada tinha acontecido.

Evelyn era assim, desde o segundo que a conhecera até o momento de sua morte. Inconstante, atrevida e despreocupada. Exatamente o oposto de Gaara, e talvez tenha sido isso que o tenha feito ficar encantado por ela. Mas ao mesmo tempo em que Evelyn tinha esse espírito livre, era uma mulher fútil, superficial e egoísta. Não por intenção, mas ela crescera pensando que poderia ter o mundo aos seus pés, e assim seguiu até o fim de seus dias.

– Gaara? – Ino o chamou do alto das escadas. Ela caminhou lentamente em sua direção, vestida em um short doll preto – bastante adequado – e se sentou na poltrona ao lado de Gaara. – Estou sem sono, posso ficar aqui com você?

– Eu já estava subindo, Ino. – Gaara pousou sua xícara já vazia no braço da poltrona e olhou Ino com curiosidade. Por mais que a semelhança que aquela moça tinha com Evelyn fosse inegável, Gaara enxergava a diferença entre elas.

Ino também era atrevida, inconstante e despreocupada, mas tinha boas intenções em seu coração. Preocupava-se com seus amigos – prova disso era o fato dela ter aceitado o acordo absurdo – e se importava com sua família. Do mesmo modo que não fazia nada especial para agradá-lo; ao contrário, Ino parecia estar sempre tramando para colocar Gaara em uma saia justa, e não tinha papas na língua.

– Você parece distante nos últimos dias. – Ino comentou de forma branda. Aproveitou que estavam no escuro para falar, pois se conseguisse ver o olhar de Gaara, nunca teria coragem. – Tem alguma coisa te incomodando? Alguma coisa que eu fiz?

– Não é nada importante, Ino. Você não fez nada errado, não se preocupe. – Gaara suspirou cansado e continuou. – Vou a Lisboa, amanhã pela manhã. Volto no fim do dia, mas se você quiser ir comigo...

– Você vai ficar envolvido o dia todo em reuniões, então não quero atrapalhar. Quem sabe eu não aproveito para dar uma passada no salão? – sorriu jocosa. – Aquela estilista que veio aqui ontem sugeriu um dia de beleza, e pra falar a verdade, eu estou mesmo precisando ser mimada e cuidada. Quem sabe eu até corte meu cabelo. O que ia achar dele curto?

Gaara não resistiu rir da colocação de Ino. Os cabelos loiros iam até metade das costas da garota, e pareciam ter luz própria, ainda mais depois de terem tomado o sol de Marselha.

– Não corte seus cabelos. São muito bonitos. Bem, eu vou me recolher. – Gaara se levantou e seguiu em direção às escadas. – Boa noite, Ino.



Assim que acordou, Ino se arrumou para sair. Baki lhe informou que Gaara tinha saído muito cedo, e já estava em Lisboa. Mesmo que estivesse cansada, ela se obrigou a cumprir a promessa que fizera a si mesma na noite anterior: ir ao salão. Seu cabelo precisava de uma hidratação com urgência.



Vestiu um macacão crepe vermelho sem mangas e de comprimento longo; pegou uma bolsa bege que tinha comprado há alguns dias, e nela enfiou o cartão de crédito que Gaara tinha lhe dado no início da viagem, seus documentos, seu celular e algum dinheiro em espécie. Saiu com Baki ainda comendo uma rosquinha que Sofia tinha lhe preparado, e caminharam juntos até o centro de estética.

No estabelecimento, assim que os funcionários descobriram que ela estava em Mônaco com Sabaku no Gaara, Ino foi tratada como uma rainha e submetida a todos os tratamentos estéticos existentes no local. Passou boa parte do dia indo de uma sala a outra. Spa, massagem corporal e facial, manicure e pedicure foram só o início. Na hora do almoço, antes que Ino pudesse pedir uma pausa para comer, uma copeira surgiu com seu almoço. O salmão não estava tão bom quanto o que Sofia fazia, mas ainda sim Ino comeu com vontade.

Quando foi encaminhada para o hair stylist, ela temeu encontrar alguém que quisesse lhe tosar o cabelo sem piedade. Mas acabou com Franco: um italiano pequeno, moreno, gay e muito entusiasmado.

– Querida, seu cabelo é simplesmente di-vi-no! – ele comentava enquanto lavava o cabelo de Ino. – Não deixe mais o açougueiro com quem você cortou seu cabelo da última vez tocar em mais um fio sequer dessa sua cabeça linda! Hm, que tal pintar? Um vermelho poderoso...

– Franco, corte só as pontas, por favor. E uma hidratação. – Ino suplicou.

– Vou colocar camadas nessa maravilha dos deuses, hidratar e avivar a cor. Querida seu cabelo vai brilhar mais que o sol, e quanto aquele ruivo gostosão estiver enlouquecido com você na cama, ele nem vai precisar acender a luz para olhar para esse seu corpinho de ninfa! – Franco batia palmas como uma garota de quinze anos animadíssima.

Foram quase duas horas de mimos e paparicos em seu cabelo que Ino aceitou de bom grado, pois quando Franco tinha terminado, ela nunca tinha se sentido tão bem. A franja frontal não caía mais nos olhos, estava com um comprimento elegante, assim como o restante do cabelo. As camadas pareceram harmonizar mais com o rosto de Ino, e a cor dourada dele estava tão viva e destacando o leve bronzeado que sua pele tinha adquirido em Marselha.

Saiu daquele centro de estética se sentindo muito mais confiante do que jamais fora. E caminhou para casa quase cantando com os passarinhos. Mal falou com Sofia, que preparava o jantar na cozinha, e foi para seu quarto como um furacão, quase desmontando na cama.

Ino trocou o macacão crepe por uma de suas camisetas – roubada de seu irmão mais velho – com uma estampa de super-herói, e se jogou na cama para uma siesta antes do jantar. Foi um par de horas de sono tranquilo e leve, sem sonhos e muito bem aproveitados. E quando acordou, ouvia no andar de baixo o som de um carro chegando.

Saltou da cama e do jeito que estava desceu as escadas feito um furacão, dando de cara com Gaara entrando em casa. Ele tinha uma aparência cansada e a expressão irritada, mas seus olhos se arregalaram ao ver Ino.

Ainda que vestida em uma camisa muito maior que ela, Ino parecia uma pequena fada. A pele leitosa estava com uma aparência tão aveludada, que ele teve de conter o impulso de caminhar até ela e tocar-lhe o rosto. O cabelo estava diferente, com bonitas camadas, e parecia ter luz própria.

– Boa noite, Gaara. – Ino dispara.

– Vejo que você foi mesmo ao salão. – ele comentou devagar, ainda estava tentando controlar seus instintos. – Ficou muito... bonito.

Ino sorriu devagar, e se aproximou um pouco mais dele. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas, em um movimento rápido, Gaara desviou dela, indo para o escritório enquanto murmurava algo sobre fazer uma ligação.

Baki tentava disfarçar sua surpresa ao ver a atitude do patrão, mas não conseguiu. Apenas dirigiu um olhar quase satisfeito para Ino e foi para a cozinha. A moça percebia que Gaara estava diferente desde que saíra de Londres. Não tinha deixado seu jeito sério e reservado, mas parecia mais calmo, sereno.

Estava sentindo que, ao poucos, conseguia ultrapassar as barreiras que Gaara tinha erguido ao seu redor. Era uma questão de paciência, e agora ela tinha uma pequena noção de seu papel durante os meses que passaria ao lado daquele homem.