Implacável

34 Capítulo34


Notas iniciais
Então, leitores, saudades? Claro que sim, depois da finalização do último capítulo... O que me contam de bom desse tempo que estivemos separados? Eu me mudei, comi mais que posso me lembrar e estudei mais que podia processar, mas tudo pelo fim do semestre! Esse capítulo me pareceu legal. Gostei de escrevê-lo, em partes, e vocês vão conhecer um pouco mais das causas do desgosto familiar entre Yashamaru e Gaara. Aproveitem sem moderação e quanto aos comentários, é naquele esquema... assim que o semestre terminar, respondo todos!

05 de abril, domingo, 02h27

Cromwell Road, 162-174

Cromwell Hospital

South Kensington, Londres

Gaara mais assemelhava-se a um tigre enjaulado que a um comum futuro-pai, nervoso pelo nascimento do filho. Fazia 20 minutos que tinham separado Ino dele, levando-a para uma das salas privadas de emergência. Temari tinha aparecido ali com Deidara e Sasori, e nenhum dos dois parecia mais calmo que Gaara, embora tentassem tranquiliza-lo.

– Você devia se acalmar um pouco. Logo os médicos devem vir com notícias, e se te chamarem para vê-la, tem que estar tranquilo. – Sasori lhe falou mais baixo. Com ar cansado, Gaara se sentou em uma das cadeiras da sala de espera e suspirou pesadamente.

– Essas malditas cadeiras são tão desconfortáveis que parecem ser feitas com o propósito de te deixar ainda mais ansioso. – Deidara comentou mal-humorado, levantando-se de supetão. – Eu vou pegar um café. A noite parece que vai ser bem longa.

Deidara não errara quando deduziu que a noite seria uma das mais longas. O Dr Pritchard chegou em seguida, cumprimentou Gaara e apressou-se em direção à emergência. Após isso, levou pelo menos uma hora para que os médicos aparecessem e chamassem Gaara. Quando o fizeram, ele não demorou a acompanhá-los até um quarto com pelo menos sete profissionais. Assim que aproximou-se, as enfermeiras abriram espaço para que ele pudesse alcançar Ino; tão pequena e diminuta, pálida e coberta por fios que monitoravam sua condição.

– Gaara... – ela ofegou assim que Gaara segurou sua mão.

– Eu estou aqui, carinho. – beijou-a no alto da cabeça.

– Eu não quero ficar sozinha de novo. Por favor...

– Não se preocupe, querida, eu estou aqui.

– Sr Sabaku, sua esposa está com sofrimento fetal. Precisamos fazer uma cesariana de urgência. – apesar da situação, o Dr Pritchard falou com extrema calma.

– Não está muito cedo? – o olhar do médico deixou claro que aquela poderia ser a única chance. Tentando manter uma expressão calma, Gaara virou-se para Ino e a beijou calidamente. – Escute, você é forte, carinho. Logo terá nosso bebê nos braços, e com mais de doze horas de parto poupadas.

– John... Nosso bebê pode se chamar John...? – ela ofegou.

– É um nome muito bonito, carinho. Daqui a pouco você terá John nos seus braços e poderá mimá-lo a vontade. – sussurrou, beijando as mãos de Ino brandamente.

– Você vai ficar comigo, não vai? – Ino olhou para o velho médico, cansada e esperançosa, mas ele negou. – Por favor...

– Seu caso é delicado, querida. – o Dr Pritchard respondeu paciente. – Precisamos de mobilidade para cuidar de você. Gaara estará no outro lado da parede; são uns poucos metros.

– Vai dar tudo certo, Ino. – Gaara sussurrou pouco antes de transferirem-na para uma maca e a levarem para o centro cirúrgico. – Vai dar tudo certo. – ele repetiu para si mesmo.

(...)

O tempo parecia estático. Quando Gaara pensou que horas haviam se passado, era só a impressão; na verdade não fazia nem um quarto de hora que tinha deixado Ino. Inoichi e Margareth chegaram em seguida. Aflita pela filha, a mãe foi sentar-se para rezar silenciosamente, e por solidariedade Temari a acompanhou.

Deidara tomava seu terceiro café quando passou por eles uma mulher grávida e ofegante numa cadeira de rodas, acompanhada do nervoso marido e um menino loiro e miúdo. A parturiente foi levada para a sala de partos enquanto o marido, derrotado, foi sentar-se em uma das cadeiras próximas a Inoichi, Deidara e Gaara.

– Aqui, amigo. – Deidara ofereceu ao homem o café intocado que ele segurava. – Você parece estar precisando.

– Obrigado. – o homem aceitou ligeiramente trêmulo. – Sua esposa também...

– Minha irmã. Aquele é o pai. – gesticulou para Gaara discretamente. O ruivo estava encerrado em si mesmo, e dificilmente seria solidário naquela hora; embora levasse uma expressão de calma espartana.

– Ele parece calmo. É nosso segundo filho, e eu não consigo deixar de ficar ansioso. Teremos uma menina. – deu de ombros e bebericou o café. – Já sabem o sexo?

– Um menino. – Inoichi respondeu, olhando para o genro com reservas. – Ele já teve sua cota de preocupação da noite. Na verdade, todos nós tivemos...

– Nenhum parto é fácil, mas no fim toda preocupação se vai quando olhamos aqueles rostinhos gorduchos e rosados. – o homem riu consigo mesmo e afagou os cabelos do filho.

Inoichi se sentou ao lado de Gaara e bateu em sem ombro, num gesto de conforto. O ruivo mal se moveu; estava morto de preocupação, ainda que soubesse que Ino era uma mulher forte. Se tinha alguém que poderia trazer seu filho ao mundo, forte e saudável, era Ino.

– Minha filha é forte, Gaara. Quando nos dermos conta, estaremos correndo atrás de um garotinho sapeca e atrevido como a mãe.

– Sei disso, mas isso não me deixa menos preocupado. – ele riu sem qualquer humor. – Eu pareço meio patético, não?

Inoichi deu outras duas batidinhas em seu ombro e os dois voltaram a mergulhar no mais calmo silêncio. Deidara ainda engajou uma conversa com o outro pai, enquanto Temari e Margareth esperavam silenciosamente; todos estavam mais calmos. Tinham a certeza de que tudo daria certo.

Temari quase cochilava e Deidara falava baixo com Sasori ao telefone quando o Dr Pritchard veio até a sala de espera, com uma expressão cansada, porém satisfeita.

– Parabéns, Sr Sabaku. Você tem um belo menino. Ele pesa 3,250 kg e já está sendo cuidado pelas enfermeiras. Apesar do susto, Ino está passando bem. Vai passar alguns dias sentindo o desconforto da sutura, um pouco frágil, mas ela vai se recuperar bem. O bebê deve ficar alguns dias na incubadora, mas isso não impedirá que Ino o amamente e que ele receba os mimos dos avós e dos tios. – o velho médico sorriu. – Então, quem será o primeiro a conhecê-lo? Imagino que você terá a honra, papai?

Desconcertado, Gaara assentiu e seguiu o médico para a área reservada. Duas enfermeiras monitoravam o pequeno pacote na incubadora. Gaara hesitou em se aproximar, mas quando o fez, aquele se tornou o momento mais bonito em sua vida. Aquela coisinha diminuta com uns poucos fios ruivos na cabeça era seu filho e de Ino. Uma das enfermeiras fez sinal para que ele se aproximasse, e ao chegar mais perto ela tirou o bebezinho do leito e o ofereceu aos braços do pai.

– O senhor tem um lindo filho, Sr Sabaku. – ela comentou quando o ajudava a ajeitar o recém-nascido nos desajeitados braços de Gaara.

Foi o momento mais intenso em sua vida. Gaara jamais tinha sentido tanto amor e tanta vontade de proteger algo como estava sentindo por seu filho. Os pequenos olhos se abriram, como se sentisse a presença de seu papai, e ali ele viu os espertos olhos de Ino, embora fossem verde-pálidos como os seus. Aqueles traços pequenos e delicados no rostinho rosado o encheram de alegria e imediatamente Gaara passou a compreender com mais clareza o sentido de incondicional.

– E minha esposa? – perguntou a enfermeira quando, a contragosto, teve de devolver seu filho à incubadora novamente. – Já posso vê-la?

– Não, senhor. Ela ainda está sedada e passará algumas horas na sala de recuperação, mas antes que amanheça ela deve ser transferida para o quarto, e o senhor estará com ela quando acordar.

Gaara assentiu e voltou-se para a sala de espera, mais feliz do que poderia se lembrar.

(...)

Ino mexeu-se desconfortavelmente na cama, sentindo dores em seu baixo ventre com o movimento. A luz da manhã incidia na janela e a incomodava ligeiramente; sua cabeça estava pesada e ela se sentia zonza. Abriu os olhos com os sussurros brandos de Gaara chamando-a, e sorriu quase que imediatamente ao ver seu marido.

– Como me saí? Nosso bebê...

– É perfeito. A coisa mais bonita que já vi! – ele comentou em júbilo.

– Você o viu? E como ele é? Com quem se parece?

– É pequeno, parece que será muito parecido a mim, mas não deixaremos de tentar uma pequena-Ino. – Gaara sorriu e curvou-se para beijar o alto da cabeça de Ino. – Descanse agora, carinho. Logo você poderá conhecer nosso pequeno Johnny.

Ino murmurou mais alguma coisa antes de encostar-se confortavelmente nos travesseiros e se deixar levar pela leve sensação de entorpecimento que os remédios lhe proporcionavam. Dormiu tranquila por um par de horas, até um estranho sonho começar a lhe perturbar. Despertou sentindo-se estranha, com a pele úmida pelo suor e com a respiração alterada. Não dormiu o restante da manhã; e lhe importou. A enfermeira trouxera seu bebê para ela pudesse amamentá-lo e logo sua família apareceu.

Todos estavam encantados com o pequeno pacote nos braços de Ino. Ansiavam por mimá-lo e estraga-lo como era dever da família. Temari e Deidara disputaram as atenções do pequeno sob o olhar calmo e protetor de Gaara.

– Mamãe, você vai ficar comigo alguns dias, não vai? Não sei se nós três sobreviveremos ao início sem você. – Ino gracejou.

– Ora, querida, será uma alegria poder ficar 24 horas com meu netinho, que espero não ser o único. – Margareth olhou de modo atrevido para Deidara, que embalava Johnny em seus braços.

– Por enquanto, deixo para Ino a responsabilidade.

– Eu não me importo em fazê-los se Ino não se importar em tê-los. – Gaara deu de ombros de uma forma quase cômica.

– Eu prefiro negligenciar essa responsabilidade por pelo menos dois ou três anos. Estou exausta de ter que carregar aquele barrigão por meses a fio.

(...)

Do apartamento em Nothing Hill, Yashamaru olhava de modo pensativo para a janela. As recentes notícias o tinham deixado com o humor inapropriado. E ainda tinha Gaara.... O bebê tinha nascido. Depois de algumas dificuldades, tinha nascido uma criança saudável e forte. Ele sorriu ao pensar no assunto. Sorriu ao lembrar da irmã gêmea.

Karura era uma mulher cheia de vida, enérgica e com um futuro brilhante como pianista. Eram muito pobres, mesmo na época do início do sucesso da irmã. Yashamaru cuidava de Karura, como um protetor na ausência de seus pais. Acompanhava-a nos concertos, falava com organizadores de eventos, encorajava-a sempre... até que tudo aquilo deixou de ter importância.

Era para ser o primeiro recital de Karura para um público grande. Ela faria o solo de piano na orquestra Londrina. Pessoas importantes estariam ali, assistindo-a, e ela não decepcionou nem um pouco. Tocou lindamente.

Na plateia, estavam os irmãos Sabaku, figurões do petróleo. Não eram conhecidos por frequentar aquele tipo de lugar – eram figuras carimbadas nas festas e bebedeiras, mas certamente não eram comuns em concertos. O mais jovem, Touya, tinha se apressado em ir até os bastidores, encontrar a pianista que o atraíra tanto. No instante em que viu o olhar da irmã ao ser cumprimentada por alguém como Sabaku no Touya, soube que ela estava rendida a ele. Seu lugar deixaria de ser os palcos para se tornar a elegante Sra Sabaku.

Temari, a primogênita veio seis meses depois de se conhecerem – dois após o casamento. Kankurou também não tardou. Quatro anos depois, viera Gaara. A última gravidez quase a tinha matado, mas Gaara parecia ser o filho mais estimado de Karura e Touya; e o que Yashamaru mais tinha desprezado.

Após o nascimento de Gaara, Karura já não pertencia mais a si.

Deixara o piano para “talentos mais jovens e mais interessados”. Quanto mais aquelas crianças cresciam, mais sua irmã mudava e mais ele desprezava os filhos de Touya.

– Yashamaru. – Moira o chamou delicadamente da porta do escritório mergulhado na penumbra. – Venha para a cama, amor.

– Um instante...

Moira andou até ele devagar, aproximando-se com cautela do marido. Observou o copo de uísque intocado que ele segurava – Yashamaru tinha esse hábito, servir-se de uma dose de bebida mas não provar nem sequer um gole.

– No que está pensando? – ela perguntou suavemente.

– O filho de Gaara nasceu. – ele comentou lacônico. – Johnny. John Yamanaka-Sabaku, nasceu essa madrugada.

– Que notícia ótima! Devemos fazer uma visita a Ino em breve, então.

– Sim, querida. Devemos visitar Ino em breve... – Yashamaru soou distante.