Implacável
37 Capítulo 37
Notas iniciais
UBUNTU (s.ms); em xhosa/zulu: “sou o que sou graças ao que somos todos nós”
03 de Agosto, quinta-feira, 06h43
Queensberry Place, 7053
South Kensington, Londres
Ino esticou o braço na cama, para encontrá-la fria e vazia. Soltou um suspiro leve antes de se mover com ligeira dificuldade e se levantar. Puxou um roupão felpudo e saiu arrastando os chinelos em direção ao quarto de Johnny, onde certamente Gaara estaria.
Encontrou-o de pé ao lado do berço, com o bebê nos braços, cochilando enquanto tomava uma mamadeira. Tranquilamente, Ino aproximou-se do marido e o abraçou pelas costas, ficando na ponta dos pés para apoiar o queixo no ombro dele.
– Você não dormiu?
– Não consegui. – Gaara respondeu. – Estava preocupado.
– Já te disse, vai acabar enrugado de preocupação. – ela o beijou na nuca. – Ele se sente seguro com você. Nós dois nos sentimos seguros com você, sabia?
– Não devia. – o olhar lateral que Gaara lançou a Ino foi quase culpado. – Eu falhei em protege-los.
– Você não é nosso segurança, Gaara. É meu marido e pai de Johnny. Não é desse tipo de proteção que eu falo. Nos sentimos seguros com você porque amamos você. É desse tipo de segurança que eu falo. Daquela que um filho sente por um pai...
– Touya nunca me fez sentir segurança. – o tom calmo e pensativo que ele usou, chamou a atenção de Ino. – Meu pai nunca esteve realmente conosco. Nunca passou essa segurança que você diz. Se eu tivesse que me lembrar dos momentos em que senti isso, todos eles seriam com meu tio. Durante muito tempo, Yashamaru foi a única pessoa na qual confiei, apesar de termos nos distanciado. Deve ser por isso que não pude permitir que ele fosse acusado do que fez... Você acha que eu estou errado?
– Sangue é mais denso que água, querido. – Ino sussurrou. – Ele vai gritar mais alto, não importa as circunstâncias. Mais que isso, Yashamaru foi como um pai para vocês até a morte de sua mãe. Isso não se esquece. E pensar em Moira tendo que enfrentar as acusações de um marido criminoso... Não importa o que possam dizer, o que aconteceu naquela cabana só interessa a nós.
Gaara suspirou duas vezes antes de virar-se para Ino e a puxar para seu abraço.
– Você tem alguma ideia de quanto eu te amo?
(...)
Moira sentiu seu estômago contrair pela segunda vez naquela hora. Aquela manhã estava sendo mais desgastante que os últimos dias. E por mais que Temari tivesse a delicadeza de permanecer segurando sua mão e apoiando-a todo tempo, ela sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. Na verdade, ficaria bastante agradecida por isso; ao menos, se desmaiasse, poderia dormir um pouco.
– Vamos nos sentar um pouco, Moira. – Temari lhe disse gentilmente. – Você deve estar cansada.
– Ainda há muitas pessoas para receber. Não quero ser indelicada. – a voz de Moira não passava de um fio. A pobre mulher estava arrasada e abatida.
– Eles vão entender. – a expressão marmórea que Gaara levava no rosto quando entrou, por um breve momento, fez Moira lembrar-se do marido morto. Bem a tempo ela deixou-se amparar por Gaara e Kankurou, que a conduziram para um assento próximo.
– Aqui, querida. – Temari lhe ofereceu um copo d’água trazido por uma copeira. – Beba bastante e respire devagar, vai aliviar a tontura.
– Você devia se cuidar mais, está grávida. – a repreensão de Gaara quase fez Moira desabar em prantos. Nunca tinha notado o quanto eles eram parecidos. O que antes seria tão insignificante, agora tomava grande importância para ela.
– Vou avisar para iniciarem os ritos. – Kankurou afagou a mão de Moira suavemente. – Estamos aqui com você, Moira. Não se preocupe, logo tudo vai acabar.
– Vocês são tão gentis. – ela falou sem forças. – Nem mesmo possuem a obrigação e...
– Somos sua família, Moira. – Gaara disse com seriedade. – É pra isso que serve a família.
(...)
5 anos mais tarde
– Johnny, sua mãe vai nos matar, rapazinho. – Gaara resmungou ao olhar a roupa do filho imunda de pudim de chocolate. Ele tinha sido arrumado para o casamento de Baki e Pakura com tanto cuidado por Ino e Margareth, que Gaara já podia sentir os saltos da esposa lhe esmagando a garganta quando visse aquela bagunça.
Gaara terminou de amarrar a gravata borboleta o mais rápido que podia e pegou o filho no colo para levá-lo para o quarto e deixar o menino impecável antes que Ino aparecesse. Mas sua sorte foi pouca. Ino saiu do quarto prendendo um brinco justo no instante em que Gaara e Johnny passavam.
– Meu bem, esses brincos combinam... O que aconteceu com você, meu filho? – Ino grasnou, olhando a mancha de pudim de chocolate no traje formal.
– Sujou de pudim, mamãe! – Johnny sorria para o pai, tornando-o o evidente culpado.
– Ah é? E quem teve a brilhante ideia de te dar pudim de chocolate? – os olhos de Ino foram direto para Gaara.
O menino riu em resposta, assim como Gaara encolheu os ombros. Ino desistiu da reclamação que iniciaria e mandou o filho ir atrás da avó para que ela o limpasse. Enquanto isso, arrastou Gaara consigo para o quarto.
– Ele me pediu com aquela mesma expressão que você usa quando quer conseguir alguma coisa de mim. – Gaara tentou se defender. – E Elise está indo pelo mesmo caminho, como se já não bastasse ser tão parecida com você.
– Nossos filhos vão montar em você, querido. – Ino o segurou pelas lapelas, puxando-o delicadamente para si. – Vão te tirar até mesmo as calças e você não reclamará nem um pouco.
– A única que me tirará as calças será você, querida. – ele lhe roubou um beijo. – Antes que me esqueça, Moira mandou um e-mail. Pipa está crescendo rápido, essa semana quebrou um braço quando subia uma árvore.
A filha de Yashamaru e Moira tinha nascido sete meses depois da morte do pai. Pipa tinha sido apadrinhada por Gaara e Ino, e ambos tinham um enorme prazer em acompanhar o crescimento da menininha de cabelos loiros e olhos acinzentados como os do pai. Moira tinha se mudado com a filha para uma casa de campo em York, e passou a viver mais reservadamente, sustentando-se dos rendimentos dos investimentos herdados de Yashamaru e das ações da Suna Enterprises, presentes de Gaara para Pipa.
– Isso só prova o quanto é saudável e esperta. – Ino riu com delicadeza. – Só espero ter esse tipo de prova com relação a Johnny e Elise só daqui alguns anos.
– Johnny não precisa quebrar um braço para mostrar que é saudável e esperto. Lembra o que ele fez com bolo de aniversário de Elise neste ano?
No episódio, o menino tinha encontrado o bolo do aniversário de dois anos da irmã. Achando a decoração feia, desenhou no glacê com os dedos e, não satisfeito, comeu uma boa parte do doce. Quando Gaara o encontrou, apesar de aparentar não poder comer mais nenhum pedaço, Johnny tentava enfiar goela abaixo um pouco mais do glacê.
– Não subestime nossos filhos, carinho. Ah, sobre me deixar tirar suas calças... – o sorriso malicioso de Ino lhe deu um puxão no baixo ventre. – Vamos deixar para mais tarde. Temos um casamento para ir, e somos os padrinhos.
Assim como a possibilidade de um novo futuro se abria para Baki e Pakura, o mesmo ocorria com Gaara e Ino. Seus filhos cresceriam, tomariam caminhos diferentes daqueles que seus pais um dia desejaram. Talvez o casamento de Ino e Gaara não durasse até o dia em que envelheceriam e morressem juntos; talvez se deteriorasse com o tempo. Mas não importava, porque nenhum dos dois era capaz de viver sem dor. E aqueles dias já traziam a expectativa de anos mais felizes.
Fim
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