Implacável
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Contar os dias já não fazia sentido para Ino. Estava esgotada, física e mentalmente e não fazia a menor ideia se sairia daquela situação. A janela era pequena demais para escapar, e mesmo se conseguisse sair dali, dificilmente teria forças para chegar muito longe. E seu bebê estava ali também. Em hipótese alguma o abandonaria ali para fugir.
Connor aparecia algumas vezes no dia e lhe trazia Jonny para que fosse amamentado. Mas logo o levava de volta e Ino só voltava a vê-lo na próxima vez que ia alimentá-lo. Outra pessoa cuidava do restante. Nas demais horas do dia, a única coisa que tinha para fazer era ser atormentada por Connor e rezar para que seu filho estivesse bem. Pensar em seu filho sem a mãe quase lhe ameaçava a serenidade, mas logo tudo aquilo transformava-se logo numa fúria estoica.
Ser atormentada por Connor era desgastante. Algumas vezes ele passava longos minutos olhando-a em silêncio; outras vezes ele a torturava e lhe causava sério dano. As lágrimas de Ino tinham por fim esgotado naqueles dias.
– Mas nunca no rosto. — ele dizia com ar doente. — Nunca nesse bonito rosto...
(...)
Gaara sentou-se lentamente na cadeira do seu escritório e olhou com atenção para os papéis que o investigador lhe apresentava. Uma ira irracional tomou conta dele, e imediatamente Gaara se levantou em direção ao armário do escritório.
– Baki! — a voz dele ressoou como um trovão, fazendo com que o investigador se encolhesse ligeiramente. No mesmo instante, o turco apareceu na porta do escritório, calmo e sereno, enquanto Gaara preocupava-se em abrir o cofre onde ele guardava quatro pistolas. — Reúna mais dois seguranças e se preparem para sair imediatamente.
– Sim, senhor. Me permite perguntar seus motivos?
– Encontramos Ino!
– Por esse motivo não seria prudente alertar à polícia?
– As informações que recebemos foram de um dos sequestradores: Connor Davies. Ele alertou que se houvesse envolvimento com a polícia, mataria Ino e o bebê. — respondeu o investigador.
– Eu prefiro assim. Vou poder enfiar uma bala na cabeça daquele desgraçado o quanto antes. — Gaara rosnou. Do cofre ele tirou uma maleta prateada onde estavam as quatro pistolas Colt; sendo uma delas semiautomática, enfiou-a no cinto da calça.
Imediatamente, Baki estava pronto e Aoi o acompanhava. Os três passaram pela sala como se fugissem do próprio demônio, mas não escaparam das perguntas de Margareth, que vinha da cozinha acompanhada por Inoichi – mais amparada que acompanhada.
– Onde vão em um momento desses? – seus olhos brilhavam com a angústia, até localizarem as armas na cintura de Baki. O desespero se tornou surpresa e alívio na mulher. – Vocês a encontraram...
– Margareth... – Gaara aproximou-se da sogra e lhe tomou as mãos com carinho. – Eu vou buscar Ino, mas não posso me arriscar com o envolvimento da polícia. Preciso que faça algo por mim e por Ino, certo?
A determinação transbordava dos olhos de Gaara e Margareth fez apenas assentir.
(...)
– Cadela! – Connor rosnou quando desferiu um forte golpe contra Ino. Assim que a porta do imundo quarto se abrira, ela tentou escapar por ali, causando a raiva do seu algoz. Embora tivesse sido forte e violento, o golpe não tirou os pés de Ino do chão, então ela correu novamente para a porta, tentando furar o bloqueio de Connor e ir atrás de seu filho, que ela ouvia chorar a bastante tempo.
Mas Connor a agarrou pela cintura e a jogou sentada no chão. O tornozelo de Ino torceu. Assim que ele se aproximou, com agilidade e ignorando as dores das surras em seu corpo, ela se ergueu e desferiu uma forte cotovelada na traqueia de Connor, assim como Gaara lhe ensinara uma vez. Enquanto ele estava distraído com a dor do golpe, Ino correu o mais rápido e pôde. A cabana era pequena então não havia muito onde procurar. Encontrou seu pequeno bebê no quarto ao lado... nos braços de Evelyn.
– Me dê o meu filho, vadia! – Ino rosnou, aproximando-se sem hesitar da mulher, que retrocedia com a expressão surpresa.
– Não é seu filho. Não mais... Agora Alain será meu e de Gaara. Quando ele chegar, vamos embora juntos... Eu, Gaara e Alain.
Johnny chorava cada vez mais, como se pressentisse o perigo que corria com aquela mulher. Isso inflamou Ino ainda mais. Com um movimento ágil, pegou Johnny dos braços de Evelyn, aninhando-o em seu peito para que ele se acalmasse, mas quando virou-se para sair do quarto, deu de cara com um revólver apontado para seu bebê.
– Devolva essa maldita criança para Evelyn, Ino. – Connor avisou com a ira transbordando de seus olhos. – Ou eu mato vocês dois aqui mesmo.
– Você vai me matar de qualquer jeito... – ela disse cansada.
– Talvez, mas não agora. Antes eu vou te fazer pagar pelo golpe. Agora entregue a criança.
Com as mãos trêmulas, Ino deixou que Evelyn pegasse Johnny. O bebê mal tinha saído de seus braços quando ela foi atingida na têmpora pela coronha do revólver. Seu corpo caiu sem sentidos no chão; aos poucos o choro de seu filho não passava de um pálido som que logo deixou de ser registrado por Ino.
(...)
Aoi parou o carro perto da estrada que levaria a cabana de caça onde supostamente estaria Ino e Johnny. A entrada para o caminho da propriedade estava quase oculta pelas folhas, o que indicava que ninguém tivesse passado ali nas últimas semanas. Mas havia o caminho pelo parque de caça, mais deserto e provável.
Assim que se aproximaram da cabana, deixaram o carro há pouco mais de cem metros e aguardaram alguma movimentação antes de saírem. A tarde estava perto de se pôr, e de dentro da velha casa vinha uma fraca luz.
– Aguarde um momento, senhor. – Baki falou com tranquilidade, ao ver que seu patrão parecia extremamente nervoso com aquela situação. – Eles sabem que estamos aqui, mas esse é território deles, não vamos nos arriscar desnecessariamente.
A expressão de Gaara endureceu ainda mais, e seu maxilar se contraiu, mas foi seu coração que foi aos seus pés quando da casa saiu Connor arrastando Ino consigo. Ela mal se podia manter em pé, e com violência ele a segurou pelos cabelos para empurrá-la para o chão; todo o tempo sob a mira de uma arma.
– Majestade Sabaku! – Connor gritou, divertindo-se ás custas do sofrimento de Ino. Ela nem mesmo teve forças para levantar-se e encarar Gaara com dignidade. Apenas permaneceu no chão, encolhida e indefesa, ouvindo os passos duros de seu marido se aproximando.
– Onde está meu filho? – Gaara perguntou seco.
– Cada coisa a seu tempo. – ele respondeu despreocupado. – Matemos sua querida esposa primeiro.
Pela primeira vez, Ino ergueu o rosto para olhar Gaara. Algo nos olhos dele lhe deu a certeza de que tudo sairia bem, desde que ela pudesse se aproximar o suficiente, ele lhe disse movendo os lábios sutilmente, assim como lhe dando a rápida visão do que ele levava na cintura.
Com o pouco de força que lhe restava, Ino se levantou, olhou Connor e sorriu com desdém.
– Pode me matar, se quiser, mas não vai me privar de falar uma última vez com o pai do meu filho.
– Será uma cena tocante. – zombou Connor. – Apenas diga a ele que se livre da pistola que ele leva na cintura.
Com passos vacilantes, Ino aproximou-se de Gaara, que jogou a pistola Colt no chão antes que ela o abraçasse. Com os braços trêmulos, ela envolveu a cintura de Gaara e ele lhe segurou os quadris delicadamente.
– Desculpe a demora, carinho. Mas agora as coisas vão se acertar. – Gaara lhe sussurrou, ainda observando a aproximação de Connor. – Cuide dele. Como eu te ensinei... segure com firmeza.
No instante em que Connor segurou o braço de Ino para puxá-la para si, ela soltou a cintura de Gaara, trazendo consigo a pistola que ele levava atrás. Não houve tempo para hesitar ou pensar uma segunda vez. Um único disparo bem no rosto e o corpo de Connor caiu pesadamente, levando Ino consigo para a confusão de miolos e sangue que se espalhou.
Gaara a segurou para que não caísse, mas deixou-a imediatamente sob os cuidados de Baki, tirando dela a arma para correr para o interior da cabana atrás de Johnny. Ao entrar, deparou-se com filho nos braços de Evelyn, dormindo placidamente e sem ter sequer noção do que acontecia do lado de fora.
– Já que você está aqui, imagino que o tiro que ouvi foi dado em Connor. – Evelyn comentou com insana tranquilidade enquanto ninava Johnny. – Por sorte não acordou Alain... Mas me diga, onde você o acertou?
– Ino o acertou na cabeça. – Gaara disse baixo. – Evelyn...
– Não comece, querido, ou vai acordar nosso bebê. – ela sorriu para o pequeno em seus braços. – Eu sabia que você viria por mim... Eu sempre soube...!
– Sim, Evelyn, eu vim por você. – ao contrário do que imaginava, a voz de Gaara saiu mais branda que seu estado de espírito; desse modo ele pôde se aproximar de Evelyn. – Vamos para casa, Evelyn. Apenas me entregue, Joh... Alain.
Os olhos da loira brilharam emocionados com a suposta aceitação de Gaara. Mas ela não entregou o bebê; virou-se para as sombras da porta e sorriu com orgulho.
– Eu lhe disse! Eu disse que ele amava a mim!
– Você disse, Evelyn. Agora entregue o bebê para Gaara. – a familiaridade da voz fez o sangue de Gaara correr gelado. Deus misericordioso, ele pensou quando viu o tio naquela cabana e, ao que tudo indicava, acomunado com Evelyn e Connor.
Como um cordeiro, Evelyn entregou o bebê a Gaara. Ouvir o clique da arma de Yashamaru, o fez apertar Johnny um pouco mais em seus braços.
– O jogo está quase no fim. – Yashamaru disse morno. – Mas antes que acabe, você precisa morrer.
O disparo fez Gaara encolher-se, mas não foi o seu corpo que caiu pesadamente no chão. Evelyn ainda estava viva quando uma abundante quantidade do sangue deixava seu corpo através do buraco em seu peito. Ela tentou falar, mas antes que pudesse, foi silenciada para sempre.
– Vim te dar a resposta que me pediu, sobrinho. – Yashamaru falou com tranquilidade. – Não. Não vamos trabalhar juntos.... você não me terá ao seu lado pelo mesmo motivo que proporcionei a Connor e Evelyn o acesso a você e a Ino. Eu esperava que eles matassem os dois, mas... algo mudou.
– Mudou? – Gaara sibilou. – O que mudou, tio? O ódio que você sente pelo passado diminuiu?
– Não... – o sorriso em seus lábios foi constrangido, quase culpado. – Ainda odeio seu pai e seus irmãos e todos que levam o sangue Sabaku. O que mudou, sobrinho, foi que eu me dei conta de algo.
– O que te fez vir aqui para dar cabo de mim com suas próprias mãos?
– Mesmo sabendo que os Sabaku foram responsáveis por tirar a vida de minha querida irmã... – ele olhou o sobrinho com o um sorriso suave, aproximando-se devagar. Yashamaru olhou o pequeno Johnny com suavidade e passou um braço nos ombros de Gaara, abraçando-o brandamente. – Mesmo você sendo tão parecido com seu odioso pai, Gaara, você é o meu preferido. Por isso eu o detesto tanto...
As palavras do tio o desarmaram. Sua mão soltou a arma que levava e Gaara encarou o tio com seriedade, ainda tão próximo a ele.
Eu sempre odiei chá preto...
O tio lhe dissera naquela tarde em que o perfume do chá de jasmim que ele costumava beber encheu o escritório de Gaara.
Karura era quem gostava de chá preto, enquanto eu sempre o abominei. “É seu chá preferido!”, ela dizia, “Por isso diz que o odeia tanto. Porque é o seu favorito!”.
A lembrança das palavras retumbava no profundo de Gaara.
– Cuide de Moira, ela espera um filho meu. – ele sussurrou antes de disparar contra o próprio peito.
Gaara teve de se encostar na parede para não cair. Lá fora, ouvia os sons da polícia e logo agentes entraram na cabana, com armas em riste e verificando cada canto. Depois de deixar uma policial levar Johnny para fora, Gaara finalmente teve coragem para aproximar-se do corpo do tio. Observou com atenção aquele rosto, tão semelhante ao de sua falecida mãe, e suspirou de forma cansada.
Ele estava sereno, de Gaara. As lembranças dos momentos desagradáveis com o tio se misturavam às de sua infância, onde Yashamaru era a única figura paterna sempre o pai ausentava-se pelo trabalho; na infância, o tio estivera sempre nos momentos mais importantes e mais alegres. Sentia que o tio lhe tinha com muitas reservas, mas nunca duvidou que tudo aquilo que ele fazia era por sua amada irmã; e aquilo era suficiente – e muito melhor que as migalhas de afeto que o pai ausente lhe dedicava.
– Quando foi que começamos a nos odiar tanto, tio? – ele perguntou, mesmo sabendo que Yashamaru estaria em silêncio para sempre.
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