Implacável
35 Capítulo 35
Notas iniciais
17 de julho, terça-feira, 17h49
Queensberry Place, 7053
South Kensington, Londres
Ino suspirou de frustração ao olhar para o filho dormindo tão tranquilamente sobre o peito de Gaara, que cochilava também com um braço sobre bebê. Uma atitude protetora que ela consideraria lindo, se uma centelha de cansaço não a perturbasse: Johnny tinha estado inquieto durante o dia todo, mas quando Gaara chegou, foi como mágica; o bebê tinha parado de choramingar e começou a sorrir para o pai, como se estivesse esperando-o o dia inteiro.
Os dois deitavam-se no futon do terraço, sob o sol do fim da tarde de verão. Aquilo havia se tornando quase um hábito desde que Johnny tinha idade o suficiente para que Gaara não tivesse mais receio de quebrá-lo.
– Comigo, só choro e manha, mas quando o pai chega, só sorrisos e tranquilidade. – Ino resmungou quando sua mãe se aproximou para colocar um fino cobertor sobre genro e neto para protegê-los da brisa.
– Johnny sente saudades do pai, por isso fica manhoso. Quando você voltar ao trabalho, é de você que ele vai sentir saudades. Afinal, Gaara não pode amamentá-lo, querida. – Margareth sorriu docemente para a filha. – Venha, vamos tomar um chá e aproveitar a folga que eles nos dão.
As duas sentaram-se na cozinha e aproveitaram uma perfumada xícara de chá por um par de minutos, até serem interrompidas pelo toque do interfone. A expressão de Pakura se estranhou ao atender, como se fosse realmente surpreendente a visita de quem quer que fosse. Ino e Margareth confirmaram a estranheza da governanta ao se depararem com Yashamaru e Moira na porta.
Realmente, ela esperava a esposa do tio de seu marido mais cedo ou mais tarde – apesar de avoada, a estima que a mulher tinha por Ino era sincera -, mas nunca imaginaria Yashamaru a acompanhando. Não era segredo que o tio não se dava bem com Gaara, e Ino até arriscava dizer que eles não se gostavam nem um pouco.
– Ino! – Moira a abraçou entusiasmada quando entraram no apartamento. – Eu quis vir te visitar mais cedo, mas Yashamaru insistiu que devíamos deixar que John tivesse um pouco mais de idade e que você se recuperasse do parto.
– Minha irmã teve três filhos, minha cara. – o homem deu de ombros diante o olhar curioso de Ino. – Estive com ela em cada um dos nascimentos, e sei quanto uma cesárea pode ser desgastante.
Mentalmente, Ino e Margareth captaram a mensagem implícita nas palavras de Yashamaru: o pai de Gaara não viu nenhum dos nascimentos dos filhos.
– Bom, entrem. – Ino falou com calma. Todos se acomodaram na sala íntima, enquanto Margareth saiu para buscar o chá e chamar Gaara. – Gaara está com Johnny no terraço.
– Trouxemos um presente. – Moira estendeu a Ino uma sacola. Dentro havia uma bonita roupinha de bebê, na cor azul com o brasão da família Sabaku bordado. – Encomendei um número maior, pois crianças crescem tão rápido...
– Pois essa logo ficará perdida. Johnny é um rapazinho bem grande. – respondeu com orgulho. – O médico ficou surpreso com o desenvolvimento dele.
– Isso é algo muito bom. Um herdeiro como John deverá crescer forte e saudável, pelo bem da gigante Suna. – Yashamaru comentou lacônico.
– Antes de ser herdeiro, Johnny é só uma criança, tio. – a voz grave e profunda de Gaara ressoou no interior de Ino. Ele estava aborrecido pela visita de Yashamaru, e tinha sérias dificuldades em dissimular seus sentimentos. Se aproximou de Ino com uma expressão fechada e Johnny ainda sonolento nos braços.
– Trouxe o chá. – a presença leve de Margareth aliviou a tensão no ambiente, e por uma questão de cortesia, Gaara tratou o tio com menos hostilidade.
Johnny parecia embevecido com as brincadeiras que Moira lhe fazia. A mulher tinha muito jeito com crianças e, em meio a brincadeira, soltou que morria de vontade de ter ao menos cinco filhos, causando um leve revirar de olhos de Yashamaru.
– Ela mal consegue manter uma planta viva. – ele resmungou.
– Plantas e bebês são coisas completamente diferentes, querido. – Moira retorquiu e voltou a brincar com Johnny.
– Soube que volta ao trabalho amanhã, Ino. Está nervosa?
– Um pouco. É difícil ficar longe deles depois de nos acostumar a tê-los conosco a cada momento do dia.
– Você tem sorte de ter sua mãe perto para lhe ajudar.
– Tenho mesmo. Ao menos por um tempo não vou precisar lidar com a preocupação de achar uma boa babá. E também há Pakura, que é sempre tão atenciosa...
Durante algum tempo, a conversa fluiu tranquilamente. Johnny aproveitou os mimos de Moira enquanto pôde. Após declinarem uma educada oferta de Ino para que ficassem para o jantar, o casal foi embora quando se aproximava as vinte horas. Depois de cuidar de uma fralda suja e amamentar, Ino deixou o filho aos cuidados da mãe e seguiu para seu quarto, onde Gaara estava encerrado em si mesmo enquanto olhava pela janela.
– Você foi grosseiro esta tarde. – comentou branda. – Yashamaru e Moira foram educados em vir, e você os tratou de forma rude. Nem tanto Moira, mas seu tio...
– Eu já havia dito que não o queria perto do nosso filho. – Gaara rosnou, mal humorado.
– Não era como se eu pudesse expulsá-lo da nossa casa. Gaara, seja sensato! Ele é o irmão da sua mãe; o seu tio! Sangue é mais forte que água.
– Não fale como se soubesse de alguma coisa, Ino! – a voz de Gaara saiu fria e cortante, como seu olhar. Aquilo machucou, mas ela preferiu não retrucar. Respirou profundamente por uma ou duas vezes e voltou-se para a porta do quarto.
– Você tem razão, eu não sei de coisa alguma.
Ela saiu, deixando Gaara sozinho. O ruivo ainda tentou ir atrás dela, mas Ino se encerrou no quarto que Margareth ocupava algumas vezes, e ele preferiu não perturbá-la por enquanto. Planejava conversar quando fossem dormir.
Mas ela não voltou para a cama naquela noite. Dormiu no quarto com a mãe e pela manhã Gaara só a viu quando ela entrou no quarto para se arrumar para o trabalho. Silenciosamente, Pakura apareceu na porta e sorriu com solenidade.
– Senhor e senhora, gostariam de algo especial para o desjejum? Quem sabe algo para levar, senhora.
– Alguma coisa doce, Pakura. Separe um pouco de iogurte também, por favor. – Ino respondeu.
Tão silenciosa como veio, Pakura se foi, e restou somente o olhar cansado de Gaara sobre Ino. Ele tinha a gravata ainda frouxa, processo interrompido pela chagada da esposa. Ela se direcionou ao banheiro, deixando-o sem oportunidade para iniciar um pedido de desculpas. Mas quando Ino saiu do banho, Gaara aguardava-a sentado no recamier, sério e com ar grave.
– Você está muito chateada comigo. – ele comentou devagar.
– Não propriamente com você, com sua atitude. – respondeu com ar vago enquanto vestia uma meia-calça bege. – Não vou tolerar sua falta de tato quando o assunto é seu tio. Não o fiz quando namorávamos e não o farei casada.
– Não quero que faça. Pensei a respeito e já é hora de acertar essa situação com meu tio. Não quero voltar a me aborrecer e acabar tratando a mãe do meu filho de forma rude novamente.
Gaara ficou sem jeito ao perceber que Ino não parava de se mover no quarto. Vestiu uma saia lápis preta e passou a andar de um lado a outro, pegando perfume, maquiagem, procurando uma blusa; sem se atentar ao que ele falava. Depois que ela trocou o sutiã duas vezes e finalmente decidiu por uma blusa de cetim cor marfim, Gaara resolveu se aproximar, segurando uma de suas mãos quando ela ia colocar fechar o zíper da saia.
– Eu tenho que... ir trabalhar. – sua voz saiu fraca, e ela parecia prestes a chorar.
– Johnny vai ficar bem. – ele falou, como se lesse seus pensamentos. – Você o verá na hora do almoço e sua mãe estará cuidando dele.
– Eu sei, mas...é difícil me separar dele. Acho que vou esperar algumas semanas antes de voltar ao trabalho.
– Você irá para o trabalho, Ino. – Gaara puxou-a para seus braços, abraçando-a com firmeza. – Porque se ficar mais uma semana, ela se tornará duas, três, um mês... até você deixar de fazer o que tanto gosta por não se sentir segura para deixar o seu filho.
– Mas você disse, uma vez, que eu poderia ficar algum tempo sem trabalhar para poder ficar com Johnny. Ao menos até ele ter idade e eu me sentir segura...
– Uma mãe nunca está segura para deixar um filho, Ino. – ele beijou o alto da cabeça de Ino e afastou-a para poder olhá-la melhor. Sorrindo torto, ele disse: – Mesmo que Johnny tenha, dezoito anos, ele nunca deixará de ser o seu bebê. Volte para o seu trabalho, e se depois de um tempo você tiver a certeza de que se dedicar ao nosso filho, em tempo integral, é o que te fará feliz, então largue seu emprego. Seu marido é rico...
– Sorte a minha. – Ino sorriu de modo jocoso e se deixou beijar.
(...)
Gaara organizou assinou o último documento e os entregou novamente a Bree. Olhou o relógio e constatou que faltava apenas dois minutos para as dezesseis horas. Tinha marcado com seu tio às dezesseis, e ele nunca se atrasava ou se adiantava; pontual como um relógio suíço. O ponteiro dos minutos mal chegara no 12, quando Bree ligou para avisar da chegada de Yashamaru.
O mais velho entrou na sala tranquilamente, com um ar solene e bastante sério. Silencioso, sentou-se em um dos sofás perto da janela e Gaara o acompanhou. Os dois se cumprimentaram de forma cortês e aguardaram Bree terminar de servir o chá para iniciarem a conversa.
– Eu sempre odiei chá preto. – ele bebeu um gole de seu chá, uma mistura especial de chá verde com jasmim, enquanto Gaara bebericava o tradicional Earl Grey, preparado bem forte. – Karura era quem gosta de chá preto, enquanto eu sempre o abominei. “É seu chá preferido!”, ela dizia, “Por isso diz que o odeia tanto. Porque é o seu favorito!”.
– Minha mãe tinha esse hábito: ver tudo de forma tão positiva. Talvez tenha sido isso que a tenha levado a se casar com meu pai e continuar amando-o mesmo quando ele a traía. – Gaara deu de ombros e bebeu mais um gole do chá.
– Seu pai destruiu minha irmã, pouco a pouco...
– E você odeia a mim e aos meus irmãos por carregarmos o sangue dele... Sinto muito, mas ache outra pessoa para odiar, também somos filhos da sua irmã e não é como se eu também tivesse muito apreço por você também.
– Você é igualzinho a seu pai: arrogante, pretensioso e prepotente. – Yashamaru riu sem humor e pousou sua xícara sobre a mesa para encarar o sobrinho. – Mas também é inteligente e, principalmente, racional; uma característica que certamente você não herdou da minha irmã.
– Não... Muito menos do meu pai, tio. Touya sempre foi muito irracional, assim como os Sabaku originais. Imagino que essa seja a única característica que compartilhamos.
– O que não nos torna afetos.
– Não estou atrás de afeição, carinho ou reconciliações, tio. Se conhece minha esposa sabe que essa é a área dela. – Gaara apoiou um tornozelo sobre o joelho e encostou no sofá de forma confortável. – Quero alguém que tenha tanta habilidade de ganhar dinheiro como eu tenho, e que almeje somente até o cargo abaixo do meu, porque sabe que meu posto não está ao seu alcance.
– E você pensou em mim? – questionou com cinismo.
– Não; Ino pensou. Além do mais, você sabe o que acontece quando tenta pegar mais do que pode... Você quis a petrolífera, então eu a engoli com o império da Suna. Contratar alguém ignorante a isso seria penoso e desgastante.
– Você o espantaria durante a entrevista de seleção, muito provavelmente. – Yashamaru disse lacônico. – Mas o que te faz acreditar que eu aceitaria sua oferta?
– Nada, como você disse, tio, é apenas uma oferta. Não sou prepotente o bastante para achar que controlo os pensamentos e vontades de todos ao meu redor. – o sorriso de Gaara saiu enigmático e pegou Yashamaru de surpresa. Certamente não esperava que aquele fosse o motivo da visita, mas certamente não aceitaria a oferta de seu sobrinho sem pensar bem no assunto.
– Não lhe recusarei de imediato. Vou pensar no assunto, e se achar que melhor seria declinar, não fique surpreso, Gaara.
(...)
Quando entrou em casa, sentiu que algo pesado rondava a atmosfera. Dois policiais estavam parados no meio da sala, anotando algo em um bloco de notas. Olhou para o sofá e reparou que Margareth estava aflita, com os olhos inchados e as mãos trêmulas enquanto tentava beber um copo d’água que Pakura oferecia. Gaara não estava preparado para o que viria a seguir.
– Sr Sabaku, somo os agentes... – ele sentiu uma intensa pressão no ouvido interno, que o impediu de escutar bem o que estava além de “sequestro; bebê; passeio no parque, sua esposa”. Gaara apenas se sentou devagar em uma poltrona.
– O carro da minha esposa tem rastreador. Já conseguiram encontrá-lo?
– Não levaram o carro. Apenas sua esposa e o bebê quando passeavam no parque. Segundo testemunhas, um 4x4 preto, sem placa com uma mulher ao volante.
A mente de Gaara foi bombardeada por lembranças do acidente que Ino sofrera, e o tal 4x4 que colidiu com o Chrysler. Ele nem ousou continuar dando vazão aos pensamentos que passavam por sua cabeça naquele momento. Apenas respirou profundamente e encarou os policiais com seriedade.
– Achem minha esposa. – ele disse.
(...)
Ino não fazia ideia de onde estava. O cheiro forte de mofo que vinha da cama a fez preferir ficar em pé ou sentar-se no chão ao invés de se aventurar no colchão cheio de traças. A ausência de janelas não a ajudaria a identificar onde estava. A única coisa que sabia era que estava longe da cidade – provavelmente em uma espécie de cabana da caça – e que seu filho estava ali também, pois podia ouvir seu leve choro uma ou duas vezes. O que Ino não sabia era se o fato de seu filho estar a apenas alguns metros de distância a acalmava ou a desesperava.
O ruído da porta chamou sua atenção, imediatamente ela preparou-se para enfrentar seu algoz com firmeza. Pela porta, Connor passou e logo a trancou atrás de si. Ele tinha uma expressão sádica e riu quando seus olhos se encontraram.
– Onde está meu filho? – ela questionou com o queixo erguido orgulhosamente. Jamais voltaria a sentir medo outra vez daquele homem. Se a vida de seu filho estivesse ameaçada, era Connor que deveria ter medo.
– Esqueça o pirralho. – ele riu de modo sombrio. – Agora, nós vamos nos divertir um pouco.
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