Implacável

25 Capítulo 25


Notas iniciais
Aos Leitores,
Eu agradeço o apoio que vocês me deram depois do que aconteceu. Eu não sei bem o que houve, mas eu acabei entrando em um período muito de longo de hiato criativo, e não conseguia escrever de jeito nenhum. Tinha escrito esse capítulo 4 vezes e ainda sim estou insegura de postá-lo. E eu acabei entrando em semana de provas, então eu tinha que priorizar algumas coisas.
De qualquer modo, mil perdões pela demora, eu estou aqui agora, me esforçando muito por essa história. Não tenho previsão para o próximo, mas espero postá-lo, o mais tardar, em 10 ou 15 dias ou menos! :D
Mais uma vez agradeço o apoio e a linda recomendação que recebi da Sabaku No Kay.

31 de novembro, sábado, 19h32

Campeden Grove, 1032

Londres, UK

A casa em Kensington jamais esteve tão animada nos últimos anos. Garçons andavam de um lado a outro, servindo champanhe e canapés, enquanto na cozinha o jantar era cuidadosamente preparado. O salão de visitas e o salão de música haviam sido organizados para receber os 60 convidados do jantar de noivado de Ino e Gaara, que só se realizara por muita insistência de Temari.

Para a festa, a família de Gaara – não muito grande – havia se reunido quase toda. Kankurou e Matsuri vieram dos EUA, mas não trouxeram as crianças. Temari e Shikamaru tinham chegado de Istambul alguns dias antes, para agilizar alguns aspectos de sua mudança para Londres. Sasori e Deidara vieram de Israel. E do Nepal viera Chiyo, a avó dos irmãos Sabaku.

Era uma senhora muito curiosa, que adorava contar histórias que sempre prendiam a atenção de todos, inclusive dos netos, que já as tinham ouvido milhões de vezes. Seu marido, Sabaku no Fuyuki, gostava de viajar o mundo inteiro, atrás de novas ideias em que investir, e sempre arrastava a esposa com ele. Com o tempo, Chiyo pegara gosto pela coisa, e mesmo depois da morte do marido não deixou de andar o mundo inteiro.

Ino jamais pensou que se sentiria tão feliz em um só dia, ainda que os problemas que a rodeassem fossem graves.

Há poucas noites, tivera uma conversa com Gaara em que ele lhe revelou que Evelyn estava viva. No começo, ficou apreensiva e com raiva; passou dois dias sem vê-lo, estando-os sozinha em seu apartamento, comendo sorvete e vendo novelas, quando não estava no trabalho. Depois, percebeu que era tolice; Gaara a amava e havia demonstrado isso muitas vezes – do jeito dele, mas ainda sim o havia feito -, não fazia sentido brigar por causa disso. Afinal, a defunta estava vida e não havia muito que fazer. Não seria ela a pessoa que iria dar cabo de vez da “falecida”.

Ino sabia que Gaara estava se esforçando para regularizar a situação civil dele, e isso podia levar tempo. Mas ela queria ficar com ele, casada ou não. E quando o encontrou novamente para lhe pedir desculpas por sua atitude infantil, lhe dissera:

– Se preocupe comigo, pois é de mim que você nunca vai se livrar. Casada ou não!

Ainda havia problemas menores, seus, com os quais não queria atormentar Gaara. Recentemente vinha vendo Connor com mais frequência, andando nos arredores da galeria, ou mesmo da floricultura dos seus pais. Ele sempre agia como se estivesse passando por ali por acaso – quase sempre fingia nem dar-se conta da presença de Ino -, mas Londres era uma cidade grande demais para acasos tão frequentes como aquele. Ao que sabia, Connor não trabalhava nem morava ali perto.

Tentou ignorar aquilo para se preocupar com sua menstruação atrasada por dois meses. Não que fosse algo extremamente incomum, mas a preocupação de Ino estava no fato de que menos três meses antes tinha feito um tratamento com amoxilcilina¹, logo que Gaara tinha voltado de uma viagem de quase duas semanas — em que suas únicas companhias foram Nero e a falta que sentia do noivo. A recepção fora um fim de semana tórrido em que nenhum dos dois sequer pensou em preservativo durante os dias que passaram trancados no apartamento de Greenwich.

Ino pensava nisso quando se afastou um pouco da festa para tomar um pouco de ar após sentir-se levemente tonta. Estava sentada em um dos bancos do jardim quando ouviu os passos leves de Chiyo se aproximando.

– Posso lhe acompanhar, querida? – a senhora perguntou gentilmente. – Este banco é feito para pessoas grandes como meu neto Gaara, como nós duas como pequenas, suponho que seja suficiente.

– Claro! – Ino puxou a saia do vestido azul que usava e deu espaço para Chio, que se sentou após um suspiro aliviado.

Ela era uma mulher pequena e magra, menor que Ino, talvez pela idade, mas não deixava de ser menos elegante ou altiva. Usava um vestido coral, e o cabelo, que um dia fora de um cobre forte e agora não passava de um ruivo pálido com fios esbranquiçados, estavam presos em um elegante coque e enfeitados por um único grampo de brilhantes na lateral direita muito semelhando ao que usava no lado esquerdo do cabelo.

– Não tivemos tempo de nos conhecer direito, querida. Mas eu conversei bastante com seus pais e, se você tiver metade de cada um deles como a genética diz que tem, algo me diz que vamos nos dar bem. – Chiyo comentou bem-humorada.

– Eu espero que sim, Sra Sabaku. – Ino respondeu ligeiramente aliviada. – Eu amo o seu neto, e seria muito ruim se não nos déssemos bem.

– É, seria... Para começar, você nem estaria aqui. – o tom de voz da senhora saiu seco. – Desta vez eu não seria tão displicente em permitir que Gaara se casasse com outra Evelyn. Confesso que o fato de vocês serem tão parecidas fisicamente me incomodou por um segundo, mas você não tem aquele olhar ambicioso e calculado que ela tinha. Você parece ser uma boa pessoa, e eu nunca me engano.

Ino ficou em silêncio, digerindo as palavras de Chiyo. E a senhora viu aquilo como um incentivo para continuar.

– Quando Temari me falou sobre você, eu confesso que fiquei com receio de que Gaara estivesse se iludindo novamente, mas então eu notei que minha neta gostava de você; que Temari te considerava uma amiga, e ao que parecia isso era recíproco. E só Deus e Shikamaru sabem como minha neta é uma pessoa que você amará ou odiará, sendo a segunda opção mais provável.

– Temari não é fácil. É teimosa, turrona e quando está nervosa, então... – Ino riu. – Mas acho que somos um pouco parecidas. Talvez seja por isso que nos damos bem.

– Pode ser. – Chiyo deu de ombros e se pôs a olhar o jardim de forma nostálgica. – Eu sinto essa necessidade de cuidar dos meus netos. Depois de perder um neto e enterrar um filho... Pais não deviam enterrar os filhos, não é natural...

– Sinto muito. Se a senhora quiser conversar...

– Acho que como vamos ser da mesma família, você merece saber. – ela sorriu. – Tive dois filhos, Tokizane, o mais velho, e Touya. Meu marido morreu quando Tokizane tinha apenas sete anos, eu não quis me casar de novo, então criei meus filhos, praticamente, sozinha. Fiz um trabalho bom, admito. Criei homens de fibra e caráter que se casaram com mulheres maravilhosas que me deram netos dos quais morro de orgulho.

Ino sorriu docemente pelo modo carinhoso com que Chiyo falava dos netos.

– Nadeshiko, esposa de Tokizane, tinha a saúde frágil, mas um gênio de aço. E quando colocou na cabeça de que queria um filho foi impossível convencê-la a esperar mais. – Chiyo riu baixinho, quase consigo mesma. – Karurua engravidou logo depois e as duas estavam muito entusiasmadas para a chegada dos bebês. Mas Nadeshiko não suportou o parto, e acabou falecendo. Tokizane teve que cuidar sozinho do bebê, e mesmo com a nossa ajuda foi difícil. Mas aquele menino cresceu forte e saudável; a cópia da mãe, mas tinha os olhos do pai...

“Um dia, a casa de Tokizane foi invadida. Pareceu um assalto, mas não levaram muita coisa de valor. Meu filho foi morto e meu neto levado. Gaara nem era nascido, e Kankurou era muito novo para se lembrar, tinha apenas dois anos. Temari foi quem mais conviveu com o primo, mas tinha só quatro anos, era nova demais para entender. De todo modo, foi muito doloroso e ninguém tocou mais naquele assunto depois que a polícia parou de procurar.”

Os olhos de Chiyo estavam marejados, mas ela rapidamente se recompôs e tratou de sorrir.

– É um dia alegre, não deveria estar te enchendo com essas histórias de velha.

– Não. Sinta-se a vontade para me contar qualquer coisa. – carinhosamente, Ino segurou as mãos enrugadas de Chiyo. – Logo seremos da mesma família, e é para isso que a família serve.

– Você é mesmo um doce, querida, e é capaz de deixar qualquer um confortável.– Chiyo mexeu na bolsa por alguns instantes e de lá tirou uma foto antiga, já bem gasta. – Veja, é o meu netinho, quando tinha quatro anos.

Ino pegou a foto que Chiyo lhe mostrou e se surpreendeu com um menino pequeno, de cabelos ruivos e olhos amendoados, muito semelhantes aos de...

– Sasori...?

– Sim, é o nome do meu neto. – a senhora disse devagar. – O que foi querida? Até parece que viu um fantasma.

– Foi, só uma coisa que me ocorreu, mas é bobagem... É uma foto bonita. – disse devolvendo a foto.

– Aí estão vocês! – a voz altiva de Temari sobressaltou as duas. Chiyo se apressou em guardar a foto, para ir ter com a neta.

– Não se pode ter um minuto de paz?! Depois vocês reclamam porque eu passo tanto tempo em templos e Spas para relaxar.

– Não seja resmungona, vovó! Pare de monopolizar Ino, porque o jantar já vai ser servido. A senhora não estava toda impaciente para comer?

– Não fale como se eu fosse uma morta-de-fome, menina! – retrucou. – Eu não tive tempo para uma refeição decente hoje!

– Eu não sei vocês, mas eu realmente estou com fome. – Ino comentou divertida. – O cheiro que vem da cozinha está me fazendo ter visões...

– Muito bem, querida! – Chiyo foi rápida em dar o braço a Ino e passar na frente de Temari. – Uma mulher com apetite atrai mais os homens que qualquer uma que conte calorias.

– Contando calorias ou cheia de apetite, Ino só tem que atrair a mim, vovó. – a voz grave de Gaara atraiu a atenção das mulheres. Ele estava parado na porta do jardim, esperando Temari voltar com Ino, mas desistiu de entrar no salão de banquetes com a noiva para fazê-lo com a avó. A atitude arrancou suspiros maravilhados de todas as mulheres no salão, enquanto Ino apenas sorriu, alegre por ter a sorte de ser amada por um homem como aquele.

(...)

Gaara estava deitado com as costas no colchão. Não vestia nada mais que a boxer que colocara na noite anterior após a festa. Esticou o braço para puxar Ino para si, mas alcançou tão somente o colchão. Sentou-se ainda sonolento e olho o quarto a procura de sua noiva, mas não encontrou nada além do vestido azul que ela usara na noite anterior e os sapatos jogados no carpete. As joias – as que ele trouxera da Itália para ela – estavam cuidadosamente postas na caixa aberta sobre uma das poltronas de frente a lareira. Do banheiro não vinha nenhum som, e seu lado da cama estava perfeitamente arrumado, o que indicava que ela não tinha dormido ali.

– Se ela dormiu na sala de música com aquele gato pulguento de novo... – Gaara praguejou irritado enquanto vestia uma calça de abrigo.

Era cedo, nem passava das sete, e provavelmente nenhum dos empregados ou seus irmãos estariam acordados àquela hora. O jantar terminou depois de meia noite, e todos só foram se recolher depois das duas da manhã. Por isso, Gaara nem se preocupou em vestir algo além das calças – só não desceu só com a boxer por não ter esse costume.

De supetão, abriu primeiro a porta da sala de música, mas nem Ino nem Nero estavam lá. Tentou o jardim e a estufa, que foram tentativas frustradas, finalizou na sala íntima, onde havia um gramofone integrado a um moderno sistema de som, livros e itens de maior estima e álbuns de fotos, junto a um conjunto estofado muito confortável e um par de poltronas. E Ino estava ali, debruçada sobre um antigo álbum de família de Gaara.

– Se está procurando fotos comprometedoras para o slide de casamento, tente o álbum de veludo negro. São as minhas fotos. – Gaara falou sonolento, enfiando-se com Ino na poltrona que ela antes ocupava com Nero adormecido no alto do encosto. – Esse gato pulguento vai acabar mal acostumado com você dormindo todas as noites com ele.

– Fala de você ou do felino? – Ino murmurou distraída.

Gaara apenas rolou os olhos e deslizou as mãos para o interior da camisola branca de Ino enquanto espiava o que ela tanto olhava.

– O que está fazendo?

– Você teve um primo, certo? Que desapareceu depois que invadiram a casa do seu tio...

– Eu nem era nascido. Conheço meu tio por fotos, não é como se eu fosse me debulhar em tristeza cada vez que me lembro disso. – ele deu de ombros. – Por que?

– Chiyo quem me contou sobre seu primo, e que ele se chamava Sasori. – Ino o olhou de esguelha.

– Sasori não é um nome comum, mas não existe só um no mundo.

– Olhe isso. – Ino mostrou uma foto que achou Sasori mais velho entre os álbuns. Gaara não ficou muito impressionado pelo garoto ruivo, afinal, os homens da sua família (a exceção de Kankurou, que tinha puxado ao avô materno) eram ruivos.

– E daí? É uma coincidência. – Em seguida, Ino lhe mostrou em seu celular uma foto de um menino inacreditavelmente parecido com a foto que ela tinha tirado do álbum, porém ligeiramente mais velho. – Quem é?

– Sasori. Essa é uma foto que usamos no slide de aniversário dele. – respondeu impaciente. – Quando ele foi adotado, com quatro anos, por um casal inglês que vivia em Israel, não tinha nenhum documento ou qualquer informação sobre sua família biológica. E as chances de saber de onde ele vinha acabaram quando a mãe adotiva dele morreu e o pai dele o expulsou de casa por ser homossexual.

– Está querendo dizer que Sasori, o seu cunhado, pode ser o Sasori, meu primo? – Gaara perguntou ainda descrente.

– Não parecem coincidências demais?

Gaara ficou em silêncio por alguns minutos. Desde que vira o ruivo pela primeira vez achou-o muito semelhante aos de sua família, mas levou isso como mera coincidência. Agora que Ino colocava as coisas daquela maneira...

– Não fale nada disso com Chiyo. – ele disse com rigidez enquanto juntava as fotos e as colocava no lugar. – Me deixa falar com Sasori, antes de qualquer coisa.

– Isso quer dizer que você acredita em mim?

– Isso quer dizer que eu vou falar com Sasori. – se levantou com os álbuns nas mãos para guarda-los na estante perto da janela. – Temos coisas mais urgentes para nos preocuparmos. Vovó passou 30 anos sem notícias do neto, 30 dias não farão muita diferença.

– Por falar em coisas mais urgentes... – Ino começou com o tom de voz incerto.

Gaara terminava de guardar os álbuns quando Ino se aproximou dele, com a expressão séria e ao mesmo tempo preocupada. Ela segurou em seus dedos antes de abraçá-lo devagar.

– Por favor, não brigue comigo, mas... eu acho que eu estou grávida.

¹Amoxicilina é um antibiótico a base de penicilina usado no tratamento de infecções bacterianas. Como a maioria dos antibióticos, ele pode cortar o efeito do anticoncepcional porque consegue diminuir a concentração de hormônios presentes na pílula (que circulam no sangue), tornando-a ineficaz.