Implacável
23 Capítulo 23
Notas iniciais
E agradeço a Lua no Sabaku pela linda recomendação!
31 de outubro, sexta-feira
19h02, Londres, UK
– Ino, para! – ele gritou a medida que Ino lhe jogava outro sapato com violência e caminhava em sua direção com passos largos e duros.
– QUER QUE EU PARE? – ela o olhou com ódio enquanto tentava desferir vários golpes, dos quais ele desviava facilmente. – AH, MAS EU VOU PARAR. ASSIM QUE EU TE EXPULSAR DO PLANO MATERIAL, SABAKU NO GAARA! E FIQUE PARADO PRA QUE EU POSSA TE MATAR!
Os olhos de Gaara se reviraram e ele perdeu a paciência. Com movimentos rápidos, segurou os pulsos de Ino e a imobilizou; girando-a e trazendo-a para seu peito. Ela ainda se sacudiu violentamente tentando se soltar, mas Gaara a sujeitava com firmeza e depois de alguns minutos Ino desistiu.
– Me solta! – ela grunhiu irada.
– Vai ficar calma? – sussurrou em seu ouvido, fazendo-a arrepiar involuntariamente.
– Depois que eu te esganar, sim.
– Então eu não vou soltar. – Gaara deu de ombros e a arrastou consigo para cama.
Sem cuidado algum, Ino foi jogada no colchão macio da cama king size e antes que pudesse sequer se sentar, Gaara a sujeitou com seu próprio corpo sobre o dela. Sentou sobre os quadris delgados de Ino e ajeitou melhor a toalha em volta da sua cintura antes de voltar a segurá-la pelos pulsos contra a cama.
– Assim que você dormir eu vou colocar veneno na sua comida e ácido de bateria no maldito uísque! – Ino grasnou.
– Eu posso fazer isso a noite toda, mulher. – ele deu de ombros e inclinou-se para morder Ino no queixo. Ela tentou com todas as forças ficar firme, mas seu corpo a traiu no mesmo segundo em que Gaara a mordeu levemente no pescoço e sua boca deixou escapar um leve ofegar. – Você não pode estar com tanta raiva.
– Eu estou fumegando, Gaara. – exclamou. – Me solta, é sério!
Cansado, Gaara saiu de cima de Ino, mas não soltou-lhe os pulsos, sujeitando-os somente com uma das mãos enquanto a outra passava displicentemente pelo cabelo ruivo.
– O que está errado? – ele perguntou lentamente.
– Você não está me perguntando isso, está? – Ino bufou. Seu rosto começava a enrubescer e esquentar, não por constrangimento, mas por irritação. – Quer me soltar?!
– Você está com raiva, e eu não sei do que é capaz...
– Gaara!
– Se tentar me matar de novo, já sabe. – Gaara disse soltando-a lentamente; e a medida que fez isso, Ino se afastou, deslizando para a cabeceira da cama, onde se encostou. – Solta. Agora podemos conversar!
– Há uma semana você me largou naquele restaurante, sozinha! Não atendeu o telefone e eu só soube dois dias depois que você tinha viajado! E PORQUE BAKI TEVE O MÍNIMO DE CONSIDERAÇÃO QUE VOCÊ DEVERIA TER TIDO PARA ME CONTAR! – Ino suspirou por um ou dois minutos, em uma breve pausa para se acalmar. E quando continuou, seu tom de voz era mais brando. – O que, diabos, está acontecendo, Gaara? Eu quase morri de preocupação!
– Foi uma questão da empresa. – ele deu de ombros. – Eu achei que voltaria no mesmo dia, mas demorou mais que eu previ. E tive problemas com o celular...
– Não minta, Gaara! Eu sei bem que você gosta mais desse celular que de mim. – fez um muxoxo. – Aonde você foi?
– Ino...!
– Eu não estou bancando a possessiva, Gaara. – ela suspirou e desviou seus olhos para a janela. – Mas eu não vou bancar a noiva troféu que nunca fala nada e nem se importa se seu noivo viaja por uma semana sem dar nenhuma notícia.
Gaara se levantou da cama com uma expressão cansada. Foi até o cofre no closet e de lá tirou algumas caixas de joias, que pareciam bem antigas. Colocou-as sobre o recaimer e uma delas abriu para que Ino pudesse ver a linda e delicada gargantilha de brilhantes, muito semelhante a que Gaara dera para ela na Itália.
– Eu estava na Itália. Fui pegar algumas das joias da minha mãe a pedido de Temari. São um presente de casamento que ela quis te dar. Demorei porque tive problemas com a documentação de algumas. Era da minha bisavó e alguns papéis se perderam com o tempo. Não liguei porque... – as faces de Gaara enrubesceram discretamente e ele coçou a nuca. – Era para ter sido uma surpresa.
– Gaara, isso é...
– Era da mãe do meu avô. Foi um presente que o meu bisavô deu para ela no aniversário de 50 anos de casamento deles. Minha família não era rica nessa época, e meu avô contava que o pai dele trabalhou durante muito tempo, juntando dinheiro para dar uma joia dessa para a esposa. As joias que eu te dei na Itália, foram desenhadas com base nessas daqui.
Os olhos de Ino se encheram de lágrimas, e ela lutou para não derramá-las. Enxugou o canto de um dos olhos antes de saltar da cama e abraçar Gaara. Seus pés, doloridos e com bolhas por causa dos sapatos, protestam, mas Ino pouco se importou. Queria abraçá-lo e encher seu noivo de beijos, depois se preocuparia com seus pés.
(...)
Depois de aproveitar um banho quente, Ino se dedicou a tratar das bolhas em seus pés. A base de seus dedos estava tomada por dolorosas bolhas, e em alguns pontos seus pés estavam na carne viva; os band-aids que tinha pegado com Hannah no almoço pareciam não ter feito seu trabalho com eficiência.
Para tratar dos ferimentos, colocou um pouco de água quente no fundo da banheira, o suficiente para lhe cobrir os pés, e ali jogou sal grosso e essência de eucalipto que tinha conseguido com uma das empregadas. Ino teve de se segurar nas bordas da banheira para não dar uma cambalhota assim que a água salgada atingiu seus pés.
– Ino, eu trouxe seu jantar. – Gaara gritou. Deixou sobre a cama um bandeja com salmão grelhado com alcaparras e uma tigela de missô e seguiu para o banheiro. – Depois que comer podemos ir para a casa dos seus pais. Eles ligaram mais cedo e... Minha nossa! O que aconteceu com seus pés? – ele assobiou com a visão das bolhas através da água turva.
– Sapatos novos. Eu estava atrasada e nem vi que tinha pegado um par de sapatos que eu não tinha usado nem para amaciar. Estavam novinhos! – Ino gemeu. – Vá embora, você não precisa ver isso.
Gaara apenas recuou novamente para o quarto e deixou que Ino terminasse seu escalda pés em paz. Foram longos minutos para aliviar um pouco da pressão que sentia nos pés, e assim que terminou, gemeu ao ver o longo trajeto que faria até a cama.
– Me deixe ajudar. – Gaara estava parado na porta, observando-a clinicamente terminar na banheira.
Logo que Ino secou os pés com a toalha mais macia que tinha encontrado, aceitou que Gaara a carregasse nos braços para a cama. Ele deslizou a bandeja com o jantar para ela assim que a acomodou entre as almofadas. Enquanto Ino se concentrou em beliscar sua comida, Gaara pegou um pequeno pote com uma pomada a base de agrião e azeite de oliva, band-aids e se dedicou a tratar dos machucados nos pés dela.
– Vai ajudar a melhorar, acredite. – ele disse quando Ino resmungou um “ai”.
– Como sabe? Parece estar piorando tudo! – balbuciou.
– Eu jogava futebol em Oxford. Frequentemente, os tênis me causavam bolhas e eu só conseguia andar no dia seguinte porque usava isso. É uma pomada para bolhas e machucados do gênero.
– Quantas universidades frequentou, depois de Oxford? – Ino o olhou curiosa.
– Duas. Istambul e Universidade Carolina de Praga.
– Públicas?
– Meus pais pagaram ótimas escolas particulares para mim, então quando larguei Oxford, foi porque queria tomar as rédeas do que ia fazer da vida. – respondeu enquanto colocava o último band-aid. – Pronto. Você vai ficar fora de circulação por uma noite, mas vai viver.
– Meu herói. – Ino o puxou para um rápido beijo antes de voltar a comer seu salmão. — Sabe, é sexta, e você passou tantos dias fora...
Gaara, que lavava suas mãos no banheiro e se livrava das embalagens dos curativos, passou a ouvir com atenção o que Ino pretendia. Largou a toalha em que secou as mãos sobre o mármore da pia e foi para cama, onde se acomodou ao lado da noiva.
– Eu estava pensando se não podíamos fazer alguma coisa. Em casa mesmo.
– Tipo um programa caseiro? – ele apoiou-se em um dos cotovelos e passou a observá-la melhor. Assim que Ino acabou de comer, ele tirou a bandeja da cama e a deixou no aparador que ficava no corredor; um empregado viria buscar.
– Mais ou menos. Você passou tanto tempo fora.
– E você vai deixar Nero sozinho?
– É mesmo! – murmurou. – Você podia...
– Buscá-lo, e você fica aqui no fim de semana. Baki pode te levar para o trabalho na segunda.
– Ou eu posso ir agora mesmo para casa. – Ino disse jocosa. Inclinando-se lentamente na direção de Gaara para beijá-lo. – Amanhã eu penso em alguma coisa, porque hoje eu tenho algo mais interessante para me ocupar.
Gaara puxou Ino para cima de si e arrastava lenta e suavemente os dedos ao longo de sua espinha enquanto se beijavam; passando pela pele alva e logo chegando no cetim branco da camisola que ela usava.
– Eu senti falta disso. Do seu toque, quero dizer. – Ino sussurrou de forma macia e morna, aconchegando-se no peito de Gaara.
Ela ergueu o rosto e passou a olhar atentamente a medalha de são Jorge, que ele sempre levava no peito, e o anel de noivado que lhe dera em sua formatura. Gaara não demorou a retirá-lo de sua corrente e colocá-lo novamente do anular direito de Ino: uma delicada peça de ouro branco com um diamante esculpido tradicionalmente e pequenos brilhantes de cada lado.
– Na primeira noite eu achei que tinha perdido, mas depois imaginei que estivesse com ele. – ela o afagou levemente na nuca. – Você me deu três meses, mas ainda não mexi uma palha para o nosso casamento.
– Deveria contratar alguém que possa te ajudar. Uma profissional, já que Temari só deve voltar perto da cerimônia e Tenten está ocupada com o próprio casamento.
– Temari vai voltar mesmo para Londres?
– Sim, Temari achou que Londres seria um lugar mais tranquilo para Ella.
– E aonde eles vão morar?
– Devem comprar um apartamento ou uma casa. Não sei bem. – Gaara ajeitou-se melhor para olhar a expressão de Ino, e ali viu que ela pensava em alguma coisa. – O que está se passando aí?
– Bom, eu pensei que ela podia morar aqui, em Kensington. – Ino murmurou.
– Minha irmã é ótima para se conviver, na medida do possível. Mas eu acharia bom um pouco de privacidade; vamos estar recém-casados.
– Eu pensei também que podíamos nos mudar. – arriscou. Há dias Ino vinha pensando na possibilidade de viverem em outro lugar. Entendia que Gaara era muito apegado a casa em que crescera, mas para ela, viver ali seria complicado.
– Você não gosta daqui? – Gaara perguntou devagar.
– Não é isso. Essa casa é linda, e... Foi aqui que nos conhecemos, mas... – suspirou. – É difícil viver em uma casa onde a presença da sua falecida esposa é tão forte.
– Como assim?! – olhou-a confuso.
– Eu não sei, mas algo aqui me incomoda, me oprime. – Ino fez uma leve pausa antes de continuar com a voz mansa. – Só pense na possibilidade. Uma casa menor, ou um apartamento, quem sabe, mas que seja só nosso.
Gaara ficou em silêncio por alguns momentos, pensando na possibilidade que Ino tinha colocado. Apertou-a um pouco mais em seus braços e a beijou no alto da cabeça.
– Prometo que vou pensar. Enquanto isso, vamos dar um passo de cada vez. Vou pedir que Sadie lhe passe o número da promotora que organiza os eventos da empresa. Agora vamos dormir um pouco; você parece cansada.
– Hum, eu estava pensando eu outra coisa. – Ino moveu-se de modo felino sobre Gaara, acariciando-lhe o peito e beijando seu pescoço.
– Amanhã, querida. Você realmente precisa de um descanso essa noite.
– Ah, só porque eu estou mesmo precisando de uma boa noite de sono. Mas amanhã eu não vou te dar descanso. – riu, erguendo-se levemente para beijar Gaara nos lábios pouco antes dele apagar as luzes do quarto.
(...)
Era perto do fim da tarde, e enquanto Gaara tinha saído com Baki para ir ao apartamento de Ino e levar Nero ao pet shop, ela tinha ficado na casa em Kensington para receber a visita da organizadora de eventos que Sadie, a secretária de Yashamaru, tinha indicado.
Ino estava encolhida em uma poltrona perto da janela da sala de musica lendo um romance de Nora Roberts quando Gaara e Nero passaram pela porta silenciosamente. Ele pegou o gato no colo antes de se encostar na parede e passar a observar Ino atentamente.
– Como foi a com tal organizadora? – Gaara perguntou enquanto afagava Nero entre as orelhas.
– Bom. – respondeu sem tirar os olhos do livro. – O nome dela é Sylvia Clarke, ela fez o casamento de dois duques e pelo menos três viscondes e ela disse que seu casamento será a altura da realeza.
– Você parece um pouco frustrada.
– Eu pareço? – suspirou. – Eu sei que toda garota sonha com um casamento lindo e tudo, mas... essa mulher parece disposta a armar um circo no “casamento de Sabaku no Gaara”.
– Bem, então onde está a revista com o vestido de noiva dos seus sonhos que você guarda desde os quinze anos? – Gaara gracejou, em um raro momento. Nero tinha ficado agitado, e assim que foi colocado no chão correu para a porta e sumiu casa adentro.
– Eu não estou brincando, Gaara! – Ino fechou o livro com força e desviou os olhos de Gaara; preferindo encarar a janela. – Ela trouxe milhões de propostas de decoração de catedrais! Catedrais!
Gaara se aproximou da poltrona e pediu o lugar a Ino, sentando-a em seu colo em seguida.
– Ela deve saber que minha família é ortodoxa, mas se quiser um casamento na igreja da sua família, teremos um.
– Não é esse o problema. – disse quase cansada. – Eu queria um casamento íntimo, e não o jubileu da rainha. Eu e meu pai faríamos os arranjos, minha mãe podia fazer velas perfumadas e você...
– E eu...? – Gaara perguntou morno.
– Você estaria lá, me esperando. – Ino deu um sorriso pequeno.
– Meu Deus, Gaara, você virou um pedófilo! – a familiar voz de sino de Karin soou na sala, e os dois se viraram surpresos para encarar a elegante Hozuki parada na porta. – Ela é só uma criança. Olha o jeito como ela fala! Não sei como isso aí consegue te excitar, querido.
Ino enfiou o rosto na curva do pescoço de Gaara, tentando esconder seu profundo constrangimento por Karin tê-la ouvido falar daquele jeito. Ele se ajeitou em seu assento, olhando a Hozuki com pouco humor, e fez o possível para que sua voz não soasse tãos eca e cortante.
– O que está fazendo aqui, Karin?
– Que educação. Aposto que não aprendeu isso com o anjo aí. – Karin disse com deboche e em seguida empertigou-se, ficando séria. – Precisamos conversar, Gaara.
– Karin, não podemos fazer isso outra hora?
– Eu não me abalaria da França se o assunto não fosse de extrema urgência e privado. – Olhou para Ino com frieza. – Esperando no escritório.
A ruiva saiu em seus saltos em direção a porta e no caminho topou com uma empregada que vinha trazer chá. Gaara levantou da poltrona e saiu em silêncio para o escritório. Quando entrou em seu escritório, quase partiu a porta quando a fechou. Karin estava parada perto da mesa de bebidas, e servia-se de uma generosa dose de uísque que ela bebeu em um só gole. Encheu seu copo novamente e preparou outra dose, sem gelo, que ofereceu para Gaara.
– Eu estou bem. – ele disse recusando a bebida.
– Pegue, você vai precisar. – Karin sentou-se em uma das cadeiras em frente a mesa e bebeu um gole de seu copo antes de continuar. – Eu não achei que Ino fosse estar aqui; na verdade, me surpreende que ainda estejam juntos.
– Vamos nos casar, Karin. É natural que ela fique bastante tempo aqui.
– Eu devia te dar parabéns pelo noivado. Pretendem se casar quando?
– Karin, como você disse, você não se abalou da França até aqui se o assunto não fosse de extrema urgência. E desejar votos de felicidade pelo meu noivado não me parece tão urgente assim. – Gaara disse seco, e se sentou na grande cadeira de couro marrom atrás da mesa do escritório.
– É que eu não tenho ideia de como dizer isso. – ela murmurou. – Eu quase não acredito e... Deus! Eu a vi com meus próprios olhos.
– Do que está falando, Karin? – ao olhar atentamente para Karin, Gaara viu que as mãos dela tremiam levemente e ela parecia pálida e abatida. – Quem você viu?
– Ela está viva, Gaara. – sussurrou. – Evelyn está viva.
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