Imperium Lan - A Queda de Um Império
3 Olly e o velho
O relógio dava as cinco horas da madruga. Não lhe apetecia nada sair da cama. Era velha e suja mas era bem quentinha e àquela hora do dia fazia muito frio lá fora. Arrastou-se pelo chão até à velha casa de banho, de azulejos verdes e amarelos, algo que o gosto de Olly reprovou. Tomou um longo banho de água a ferver e voltou-se a arrastar para a cama, onde estava a sua roupa à espera. Vestiu umas calças cremes e uma blusa branca. Não podia arriscar sair com o uniforme de rebelde, embora toda a colónia os apoiasse, mas havia sempre pequenos pássaros à escuta e prontos a informar certas autoridades.
Eram perto das sete horas e o trânsito já estava infernal e como era costume a maior parte dos estabelecimentos já estavam abertos e Olly aproveitou para comprar o pequeno almoço. Sentou-se num velho banco de jardim a comer pão de azeitonas com leite de ovelha, muito apreciado pelos colonos. Ainda estava atordoado pelo sonho da noite passada. Não acreditava em espiritos nem coisas sobrenaturais mas aquilo deixara-o a pensar. Seria apenas o seu amor a falar? O seu subconsciente? Não encontrava outra explicação. Queria acreditar que ela não passava de um sonho, mas algo no seu interior dizia-lhe que aquilo era verdade. Seria a esperança? Mas que esperança podia haver? O Império destruiu tudo e todos com a sua arma de destruição massissa. Mas ele sobreviveu, afinal sempre podia haver esperança.
— Posso?
—O que? –A sua linha de pensamento foi corta.
—O que o que? Posso?
—Suponho que sim…
—Oh obrigado. As minhas pernas já não são o que são. A idade é como aquelas máquinas modernas dos ginásios, a cada aniversário metem mais peso em cima, se é que me entende. Ah que belo dia que está hoje, até que se está bem.
—Verdade, nem parece que houve um ataque anteontem.
—Não pode deixar de reparar que o cavaleiro é… bem um pouco diferente, se é que me entende. – disse o velho piscando-lhe o olho. A sua face parecia um tronco de alfarrubeira, todo contorcido e recorvado formando algo que era muito dificil de ver durante um longo periodo de tempo. – Em tempos também fui um desses. Em tempos… Oh que saudades tenho, mas depois vi que já estava velho demais e a vontade de morrer em combate não era muita. Muitos chamaram-me de traidor, mas eu não me importei, há outras maneiras de fazer esse trabalho que não directamente, se é que me entende. Sabe, ao longo da vida a gente vai se apercebendo do que é realmente importante e o que não é, foi o que me aconteceu e acho que aqui na colónia até não se vive muito mal. É verdade que não estamos tão evoluidos como a metrópole mas o lado bom de estar pouco desenvolvido é o maior contacto com a natureza, sim sempre amei a natureza. Uma nação que não tem contaco com a natureza não dura muito, perde as suas raizes e a sua história, se é que me entende. –O velho esticou os braços sobre a cabeça, espreguiçando-se. – Bem não me queria alongar muito. Fui informado por um amigo que vôce estava cá, o caro Gerge, e andei a segui-lo desde que chegou ontem. Tive sorte em encontra-lo logo na estalagem, os deuses foram bons comigo, não precisei de procurar muito. Bem o que eu lhe queria dizer era, tenho num certo sitio uma certa velha nave que sei que lhe daria jeito. Ofereço-lha.
—Calma, calma senhor. Já me perdi. Como me encontrou nesta cidade tão grande? Como sei que posso confiar em si? Como conheçe o Gerge?
—Oh o Gerge? Digamos que trabalhei com ele, se é que me entende. Tive um pressentimento que estaria ali, sempre fui bom com essa treta de pressentimentos e coisas do outro mundo. Para não falar que depois de uma vida de serviço ainda sei como nós, eu e você e os outros pensamos, e conheço a cidade suficientemente bem para saber onde procurar. Se pode confiar em mim? Acredita, eu sou um dos seus. – disse-lhe mostrando discretamente uma tatuagem no braço com o simbolo rebelde, uma águia com uma serpente no bico.
—Onde está então essa nave? E porque a hei de a querer?
—Oh rapaz, não se faça de esquesito! Os teus pais não te ensinaram que não se recusam presentes? Vai ver que lhe vai fazer falta. Anda. –disse o velho levantando-se. – Já agora chamo-me Jon. Prazer.
—Olly, prazer.
A nave estava num velho celeiro nos arredores da cidade. Jon era dono de uma herdade e possuia uma casa e um enorme celeiro vermelho. O vellho, puxando um velho e enorme pano branco levantou uma enorme nuvem de pó e palha. Não era muito grande, mas era maior do que a nave rebelde de Olly. Tinha espaço suficiente para três pessoas. As suas asas eram longas e apontavam em bico para a traseira vermelha da nave. A frente, vermelha e branca, era pontiaguda e achatada e combinava na perfeição com o estilo da nave.
—Tem combustivel?
—O suficiente para dar umas quantas voltas a Aucy, se é que me entende.
—Porque me está a oferece-la? O que ganha com isso?
—Percebo as suas suspeitas. Hoje em dia já não se pode confiar em ninguém, se é que me entende. A verdade é que não ganho nada a não ser a felicidade de ajudar um companheiro de profissão. Além de que foi um pedido do velho Gerge, e ambos nós concordamos que você, meu rapaz, vai longe.
—Como assim vou longe?
—Não faça tantas perguntas, rapaz. Ainda agora a procissão saiu do adro. Você ser alguém um dia. Confia em mim, sei reconhecer um talento quando o vejo, se é que me entende.
—Já agora, pode-me tartar por tu.
Olly passou suavemente as mãos pela nave. O metal era frio e soube-lhe bem ao toque. Olhava com respeito, era uma das primeiras naves dos rebeldes, uma reliquia, um simbolo de orgulho e de luta. Era da epóca em que os primeiros homens revoltaram-se e, com as próprias mãos, construiram as suas naves e armas e quase tudo o que a rebelião possuia hoje. Subiu, levantando-se num forte salto, e sentou-se num dos bancos de couro. Pôs as armas nos comandos e, como se a tivesse realmente a pilotar, moveu-os com pericia primeiro para a direita e depois para a esquerda. Estava em perfeito estado de conservação, não podia estar melhor de saúde.
—Que bela nave que tem, pensei que estivesse em pior estado.
—Não rapaz, eu cuido bem do que tenho. Então ficas com ela?
—Sim, fico.
—Ainda bem, fico contente saber. Finalmente esta velha máquina vai poder voar outravez. As minhas forças já não são o que eram, se é que me entendes. Mas o espirito continua a cantar forte cá dentro. Vem rapaz, vem que te mostro a casa e conto-te umas velhas histórias enquanto almoças. – O velho finalmente tinha alguém com quem partilhar as suas histórias depois de tantos anos sozinho. Abandonaram o enorme celeiro vermelho e entraram na velha casa amarela. A sala estava mobilada com o tipico estilo imperial do inicio de século. Viam-se tapeçarias das enormes pradarias de Taiga e pratos pintados de paisagens e terras distantes na metropole. Jon indicou o caminho para a mesa, uma mesa de madeira massissa. – Eu sei que o estilo é um bocado imperial demais, mas gosto tanto que não me consigo livrar dele. Bem rapaz, senta aí que vou buscar o estufado de borrego, são restos de ontem, espero que não te importes.
Falavam enquanto comiam. O velho tinha cerca de oitenta anos, nascera na metrópole e os pais foram um dos primeiros colonos daquele planeta. Juntou-se à rebelião aquando da chamada crise do açúcar, cerca de cinquenta anos antes, quando o governador da colónia foi demitido por decreto, o que aborreceu bastante os colonos e os levou a deixar de enviar açúcar para a metrópole. Lutara milhares de vezes e desempenhou importantes cargos dentro da rebelião. Foi responsável pela manutenção de naves, desenhou projectos, foi mesmo mão direita de alguns dos chefes. Desistiu quando esteve internado dois anos em coma, pensavam que já não iria acordar, foi um milagre. Olly ouvia com atenção a história e absorvia cada pedaço de informação. Ouvir aquela história deu-lhe uma nova energia para combater o Império, dava-lhe novas forças para levar a avante o sonho de um povo unido.
—Prontos essa foi a minha história. Já estou velho e não hei de durar mais, se é que me entendes. Foi bom passar este tempo contigo. Ah rapaz, era bom que viesses mais vezes.
—Também gostei de passar este tempo consigo, o almoço estava muito bom, você tem jeito para a cozinha.
—Ah se tenho, já a minha falecida mulher dizia isso. Vem cá, quero-te dar mais uma coisa. – o velho foi para a sala e, abrindo uma velha arca pesada e com gravuras de animais cravadas na madeira escura, tirou um coisa. Era um relógio de ouro envolto num velho pano.
—Toma é teu. Tinha sido do meu pai e do meu avô antes dele, agora é teu.
—Não posso aceitar, pertençe à sua familia.
—Já não tenho familia. Morreram todos. Nunca tive filhos nem sobrinhos e os meus primos vivem todos na capital, fazendo coisas de gente imperial e não querem saber desta pocilga a trinta anos luz de distância. Toma é teu.
Olly aceitou-o com cuidado. Pegava-lhe como se tratasse de uma reliquia. Com todo o cuidado do mundo abriu-o para ver um belissimo relógio numa das faces e na outra uma inscrição, “Tudo por aqueles que fazem tudo por nós.” Ficou vermelho como um tomate, fazendo toda a força do mundo para conter as lágrimas.
—Obrigado senhor, foi gentil da sua parte.
—Obrigado eu, passámos um grande dia. Agora vai fazer aquilo que fazes melhor, se é que me entendes.
Voltou a agradeceu ao velho e partiu. Guardou o relógio bem guardado no bolso bem fechado do casaco. Tinha passado um grande dia com aquele desconhecido. Não o podia conhecer muito bem mas considerava-o um grande homem, um verdadeiro homem. De certeza que iria guardar no coração aquelas memórias e aqueles momentos, para não falar que cuidaria da nave como se fosse a coisa mais preciosa na galáxia.
Ainda não esquecera o seu sonho com Garci e algo lhe dizia para voltar à vila. Não sabia o que ia encontrar, o que ia ver, mas queria voltar só para descansar o espírito inquieto, apenas para ter a certeza se era real ou não. Levou-se a viagem de regresso à vila pensando no sonho.
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