Corria nas largas planícies de Taiga, lado a lado com os enormes bisontes de malcheiroso grosso pêlo castanho. Estava cansado e deitou-se sob um árvore perdida na planície. O vento fresco do Verão taigano brincava suavemente por entre a erva alta e fazia-a mover-se como se fosse um verdadeiro mar. Olhava o céu azul puro e pensava em Mimi. Como seria quando envelhecessem? Nos últimos dias tinham crescido tantas perguntas dentro de si. E se alguém dia chegasse à vida de Mimi um rapaz melhor que ele? E se aquilo fosse só um sonho? Se assim fosse, queria sonhar para sempre, não queria sair daquele paraíso. Tudo lhe parecia perfeito.

-Maximus, acorda. Acorda já! Depois da aula quero falar contigo, não tens prestado atenção nenhuma nestes últimos dias.

-Desculpe professor.

-As desculpas não se pedem, evitam-se.

Depois da campainha do liceu ter tocado e os corredores terem-se enchido pela mocidade do Império, o professor deu-lhe um longo sermão. Disse-lhe o que acontece quando se tiram notas baixas, o que o futuro deseja a esses alunos. Falou-lhe sobre ser um dos melhores alunos do liceu e sobre como não podia descer do pódio por andar distraído com os seus anos de adolescente, de como a vida e o futuro era muito mais importante que isso. O jovem sentia que o professor estava a exagerar. Se tivessem tido aquela conversa um mês antes podia concordar, mas naquele momento sentia que havia muito mais para sentir e viver do que pensava e do que o professor lhe fazia ver. Quem será que tinha razão, perguntou-se distanciando-se da conversa. Estava no seu mundo uma vez mais. Seria verdade que se não tivesse vintes a tudo acabaria com um péssimo trabalho e viveria na miséria para o resto da vida? Seria verdade que apenas que quem tem boas notas vai longe na vida? Surgiam à memória várias personagens históricas que tinham alcançado prestigio e que no entanto tinham falhado na escola. Seria possível?

-Toma atenção, Maximus! Estou a falar sobre estares distraído e tu estás distraído!

-Perdão.

-Se volta a acontecer enviou uma nota aos teus pais.

-Posso sair?

-Vá, vai lá. Bom fim de semana.

Foi encontrar-se com Mimi na sala dos cacifos, na entrada da escola. A jovem estava pacientemente sentada à sua espera num dos bancos. Quando o viu ficou radiante de alegria e sorriu largamente como Maximus gostava. O seu sorriso era um dos mais belos do universo, acreditava. Saltou do banco e foi correr para os seus braços gritando-lhe um alegre “finalmente”.

-O professor Augustus ficou a dar-me um raspanete, estava a ver que não se calava.

-Ei! Não te podes distrair tanto ou quem te dá um raspanete sou eu. – disse tentando ficar séria, mas a vontade de sorrir era mais forte. Enfiou o seu braço pelo braço do namorado e saíram calmamente escola fora. Àquela hora já tudo estava vazio e apenas restavam alguns professores trabalhando.

-Maximus, este fim de semana queres ir a algum lado?

-Tenho que estudar para os exames finais. Já começaste a estudar?

-Já, há muito tempo. Estou a pensar entrar em medicina na Universidade Imperial. Gostava tanto de ser médica. Estava também a pensar em fazer voluntariado nas colónias.

-Estás a pensar em ajudar os rebeldes?

-Não, é voluntariado médico. Vamos para uma pequena vila ou aldeia nas colónias e ajudamos os médicos. Tenho lido sobre isso e as condições lá são piores. Muitas das doenças que foram erradicadas cá ainda persistem lá. É triste como um Império tão grande consegue ter tantos contrastes.

-Já pareces uma rebelde a falar…

-Porra Maximus, cala-te com isso dos rebeldes. Pelos Deuses, já aborrece.

-Prontos. Então como funciona esse voluntariado?

-Vamos para uma das colónias durante os meses de verão e ajudamos os médicos e ao mesmo tempo recebemos formação, isso ajudar-me-á na universidade.

-Parece interessante.

Chegou a hora de se despedirem, a partir dali seguiam caminho diferentes. Maximus seguia em frente rua acima e Mimi virava à esquerda rua abaixo. Despediram-se com um apertado abraço e um longo beijo.

Maximus levou o resto da viagem a pensar sobre os rebeldes. Talvez Mimi tivesse razão, talvez os rebeldes tivessem as suas razões, talvez todos tivessem as suas razões, se afinal os deuses as tinham, quanto mais os comuns mortais. Mas se tinham as suas razões quais seriam? Teriam razão no que diziam? Quando chegou a casa subiu para o quarto onde se pôs a pesquisar no computador. Pesquisou sobre as colónias, sobre os rebeldes, sobre as condições de vida nas colónias e ficou surpreendido com o que descobriu. Nas colónias ainda havia surtos de cólera, peste e outras doenças há muito erradicadas na metrópole, Mimi tinha razão no que dizia acerca disso. Não tinham muitos dos produtos disponíveis na capital, não tinham produtos de luxo e em muitas das aldeias e vilas não havia electricidade nem água potável. As coisas eram muito mais caras e difíceis de comprar. Por outro lado estavam mais perto da natureza, consumiam produtos naturais e conviviam mais pelas maneiras tradicionais, como pessoa a pessoas ou por carta, do que através das tecnologias. Talvez os rebeldes sempre tivessem razões para se revoltarem, mas não podiam simplesmente agir daquela maneira. Maximus acreditava que havia outras maneiras de verem as suas reivindicações asseguradas. Estava decido a tornar-se alguém e melhorar o Império, e ao mesmo tempo mostrar que os rebeldes não podiam entrar em guerra com o Império. Tendo concluído a investigação, desdeu para comer e foi estudar, para depois se deitar.

-Acorda, filho, acorda!

Pelo quarto escuro ecoavam as sirenes de guerra, os gritos dos pais, as luzes brancas dos holofotes das armas antiaéreas. O rapaz soube logo que estavam sob ataque. Os rebeldes ripostaram em força o ataque da semana passada. Correram escadas a baixo ouvindo o silvar das bombas a cair, o disparar das metralhadoras, dos canhões. Correram rua abaixo em pijama. Não sentiam o gelado frio da noite, apenas sentiam o medo e a adrenalina que corria no sangue. Ao fundo da rua ficava o abrigo de guerra, todos os quarteirões tinham um. O Império gostava de se preparar para todas as ocasiões. Muitos dos vizinhos já lá estavam. Os pais abraçavam os filhos, os maridos as esposas, os avôs os netos. Ouvia-se o cair das bombas e as fortes explosões que faziam tremer tudo. Os olhos castanhos claros de Maximus procuravam freneticamente Mimi, mas não a encontravam em lado nenhum.

-Pai, onde está ela? Ela não está aqui, vou à procura dela.

-Tu não vais a lado nenhum, Maximus. Já viste como as coisas estão lá fora?

A cidade ardia violentamente. Chamas com mais de trinta metros rasgavam os céus. Bombas caiam como se fossem gotas de água num dia chuvoso. O som era ensurdecedor, uma mistura de explosões, de finos e agudos silvares de bombas, de sirenes de guerra, de disparos de armas, de aviões e naves. O Império lutava o melhor que podia contra os cruéis rebeldes que ceifavam vidas inocentes em retaliação, Maximus estava impaciente. No abrigo continuavam a entrar vizinhos, homens e mulheres com crianças, velhos e novos, mas nenhum deles era Mimi ou a sua família.

-Pai, porque ela ainda não chegou?

-Não sei filho, não penses nisso agora. Tenta pensar noutras coisas.

Mas Maximus não conseguiam pensar noutras coisas, não conseguia esquecer aquilo. Dentro de si crescia um enorme medo, uma ansiedade que ardia e lhe queimava o coração. Pela cabeça corriam-lhe mil e um pensamentos à velocidade da luz. Estava morto de medo, estava paralisado pelo medo de na manhã seguinte encontrar o amor da sua vida deitado sem vida no chão frio da cidade. Tentou pensar numa pradaria verde e distante, sob um céu azul, mas depressa encontrou Mimi no sonho. Tentou pensar num floresta distante, mas também aí encontrou Mimi. Ainda tinha esperança, sim, tinha que se agarrar a essa esperança. A noite foi longa, pareceu-lhe uma eternidade. O abrigo era pequeno demais para tanta gente. Estavam todos sentados no chão, apertados como sardinhas numa lata. Tudo tremia violentamente a cada explosão e os candeeiros bailavam sincronizados pendendo primeiro para a direita e depois para a esquerda. Ouviam-se choros de bebés, mas tirando isso e as explosões o silêncio reinava. Estavam todos mortos de medo, Maximus percebeu. Até os adultos tinham tanto medo como ele.

Assim que as sirenes pararam de tocar, assim que se deixou de ouvir explosões e naves o rapaz foi um dos primeiros a sair porta fora. Correu rua abaixo, descalço e em pijama, para onde Mimi vivia. A rapariga e a família não chegaram a aparecer no abrigo e Maximus tinha a esperança que tivessem nalgum sitio perto de casa, nalguma cave, nalgum abrigo de alguém. Quando chegou ficou paralisado. O prédio onde vivia a rapariga estava reduzido a escombros. Cinco andares de apartamentos reduzidos a um monte de escombros. Maximus não se conseguia mexer, apenas sentia água a escorrer-lhe rosto como se estivesse no chuveiro. Percebeu que chorava, que num silêncio soluçante chorava. Se antes lhe passaram mil ideias pela cabeça, corriam agora milhões e biliões e triliões e infinitas ideias. Percebeu que perdera o amor da sua vida, não, talvez ainda houvesse esperança. Mas que esperança podia haver? Não havia mais nenhum abrigo, nenhum lugar onde Mimi se pudesse abrigar, a sua casa estava reduzida a escombros. Percebeu que estava sozinho, que tinha o coração sangrando com uma ferida aberta. Sentiu-se parvo, estúpido por ter acreditado que os rebeldes podiam ter razões. Os rebeldes não passavam da pior escumalha que já havia existido, eram sangrentos, cruéis, maldosos, eram criaturas sem coração. Sentia-se um retardado por ter pensado que era boa ideia lutar pelos direitos dos colonos, o que eles mereciam era serem chacinados. Como podiam ter feito o que fizeram? Como foram capazes de ceifar tantas vidas, é verdade que foi em retaliação, mas nem isso é uma desculpa razoável.

Não conseguiu aguentar e vomitou. As forças faltavam-lhe, caiu de joelhos e chorava como uma criança. Os olhos não paravam de olhar os escombros. Ainda tinha a esperança de a ver sair dali, mas ao mesmo tempo sabia que isso não ia acontecer. Gritava o seu nome mas como resposta apenas recebia o silêncio. “Juro que esmagarei todos os rebeldes” Gritou.

-Filho…- os pais chegaram tentando abraça-lo. Maximus recusou o abraço e, limpando as lágrimas, subiu a rua de volta a casa. Fazia dezoito anos dali a um mês e alistar-se-ia imediatamente no exército e daria o melhor de si para subir e subir e um dia fazer os rebeldes pagarem por o que lhe fizeram. – Filho!

— Deixa-o ir querida, ele agora precisa estar sozinho para por as ideias no sitio, não há nada que possamos fazer. Como disse o Imperador Aurelios, depois da guerra só nos resta enterrar os mortos e lutar pelos vivos.

A sua casa tinha escapado quase toda. Um bomba tinha caído no quintal fazendo uma enorme cratera onde cabia facilmente um homem e partiu as janelas com a explosão. Os detritos tinham-se incrustado nas paredes. Maximus subiu para o seu quarto onde se pôs a arrumar e a limpar. Tentava distrair a mente. Trabalhava para se distrair o melhor que podia. Com um pequena vassoura varria os vidros e a terra. Quando encontrou uma fotografia que tinha tirado junto com Mimi beijou-a e colocou-a bem onde a pudesse ver. Não se podia esquecer do seu objetivo, tinha que fazer os rebeldes pagar pelo que lhe fizeram. Iria deixar a escola mais cedo do que tinha planeado, assim que fizesse dezoito anos ia anular a matricula e alistar-se na Força. Pegou nos livros que tinha em cima da secretária e jogou-os no lixo. Foi à garagem buscar o saco de boxe do pai e pôs-se a treinar. Batia-lhe com toda a sua força. Com soco atrás de soco descarregava nele a sua raiva. Quando deu por si já estava a chorar novamente.

-Não te preocupes Mimi, eu vou fazer eles pagar pelo que te fizeram.