Imperfeitos
9 Capítulo 9
Eu acordo o mais cedo possível, para ir ter com Claire. Prometi — lhe que a levava na obra hoje, só espero que ela ainda queira ir, depois do que eu fiz. Passei a noite toda a pensar nela. Ainda não acredito no que vi ontem. Será que ela e Rogers estão juntos? Será que ela sente alguma coisa por ele? Será que deixou de gostar de mim? Essas perguntas não saem da minha cabeça. Eu preciso de respostas!
Eu saio do carro, ando até a porta do carro e toco a campainha. Espero que ela esteja em casa. E sozinha! Ela pode ter dormido com Rogers! Aqui ou na casa dele. Espero que seja apenas um exagero meu! Que eles não tenham dormido juntos.
Ela abre a porta. Está despenteada, de pijama, com os pés descalços, e por mais incrível que pareça ela está bonita. Se calhar eu vim cedo demais. Será que está com ele?
— George! Olá.
— Eu posso entrar?
— Claro. — Ela me deixa entrar, e fecha a porta.
— Nós tínhamos combinado...
— Ah sim! Eu tinha esquecido! Eu vou tomar um banho rápido, me espera aqui!
— Claro. — Ela corre para o quarto. Eu sou um bom menino, por isso, vou ficar aqui. Não posso estragar o plano. Tenho de segui — lo sem saltar nenhuma etapa.
Eu sento no sofá, esperando. Estou feliz por ela não ter dormido com Rogers. Só espero que ela ainda esteja solteira, porque se ela estiver com Frank Rogers, só vai complicar as coisas ainda mais.
O telefone chama e eu atendo, sem saber quem é.
— Alô!
— Oi coelhinho, como tu estás? — O dia que a minha mãe me chamar de George, por 24 horas, eu vou oferecer a minha colecção de relógios à Philippe.
— Mãe, eu estou bem, e a senhora?
— Melhor impossível! Me sinto como uma adolescente!
— É bom saber. E o que está fazendo a senhora tão feliz? — Por favor, não diga Roy Peterson!
— O meu filho, e claro, Roy!- Claro. Tinha de ser. Espera aí! Se Roy não está aqui, significa que dormiu com a minha mãe? Isso não pode ser! Não! Não! Não!
— A senhora dormiu com Roy? — Pergunto desesperado.
— George! Que pergunta!
— A senhora nunca dormiu com Roy?
— George! Isso é pergunta que se faça a sua mãe?
— Eu só queria saber!
— Eu sou uma mulher muito reservada, acabei de conhecer ele! Espero que isso responda a tua pergunta. Nunca mais me pergunte uma coisa dessas. — Felizmente não.
— Desculpa, mãe. Não volta a acontecer!
— Assim espero!
— Roy ainda está em Nova Iorque?
— Não! Ele vai ficar em Springfield por duas semanas. — Ainda bem.
— Eu vejo. A senhora está no trabalho?
— Estou a caminho.
— Tudo bem. Te amo mãe.
— Eu também te amo, filho. Adeus. — Ela desliga. Eu coloco o telefone na mesa de centro.
Claire volta para a sala depois de uma hora, eu acho. Vestida de calça jeans, blusa com mangas compridas, botas, cabelo em um rabo de cavalo e seus óculos nerds. Ela está incrível. Eu me levanto.
— Eu vou só preparar uma sanduíche para levar, estou com muita fome!
— Faça o que quiser!
— Obrigada. Eu não demoro nada. — Ela vai para a cozinha. Eu pego no meu telefone e coloco no bolso. Claire volta depois de cinco minutos com a sanduíche num saco de papel.
— Vamos?
— Claro. — Ela abre a porta, nós saímos e ela trinca com a chave. Andamos até ao carro, subimos, e fechamos as portas. Nós colocamos o cinto de segurança, ligo o motor, e começo a conduzir. Claire come a sua sanduíche.
— Como foi a tua saída com Frank Rogers, ontem?
— Foi normal. — Ela fala com a comida na boca. Normal? Ele ter beijado ela foi normal?
— Não aconteceu nada de interessante entre vocês?
— Não! Nadinha.
— Então vocês não são namorados?
— Não! — Ela dá mais uma mordida na sanduíche. Ainda bem que não.
— Eu pensei que tivesse acontecido alguma coisa entre vocês, mas me enganei, não é? — Porquê ela não diz que ele a beijou? Porque não quer me machucar, ou por outra razão?
— Não aconteceu nada, George!
— Está bem.
— Porquê tu perguntas?
— Apenas quis saber.
— Só isso?
— E mil razões que tu sabes porquê.
— Como está Rose? — Ela está a evitar a conversa.
— Está ótima. — Ela dá mais uma mordida na sanduíche. — Como vai o teu trabalho?
— Muito bem!
— Como tu conheceste Frank Rogers?
— No museu da história natural. Nós nos vimos, ele disse que queria ser meu amigo, eu não podia negar! E não sei como, mais tarde, ele descobriu tudo sobre mim. Morada, local de trabalho, número de telefone, data de nascimento, essas coisas.
— E tu achas isso normal?
— Eu desconfiava dele, mas afinal de contas, ele é uma boa pessoa.
— Deve ser mesmo. — Digo com raiva.
— Estamos quase a chegar?
— Sim, estamos.- Eu olho para ela por um segundo. Será que ela sente alguma coisa pelo idiota do Rogers? Ou será que é imaginação minha?
Nós chegamos na obra. Eu desço do carro primeiro, dou a volta e abro a porta para Claire. Nós andamos até Patrick, que conversa com um dos pedreiros.
— Bom dia, Patrick.
— George, tudo bem?
— Perfeitamente. Esta é Claire, uma amiga minha, Claire, Patrick Olson, engenheiro civil.
— Muito prazer, senhorita.
— Digo o mesmo, senhor Olson. — Eles apertam as mãos.
— Como estão a correr as coisas por aqui?
— Muito bem! Já fizemos a instalação da terraplenagem,
da água e da energia elétrica como pode ver, o muro, a construção dos alicerces e alvenaria, falta a construção do telhado.
— Que bom!
— Mais alguma coisa?
— Não!
— Se me dão licença, eu vou falar com o pedreiro. — Ele volta para o homem, com quem estava a falar. Eu tiro dois capacetes e entrego um para Claire.
— Para proteger a cabeça! A zona de obras, é um local muito perigoso. — Ela coloca o capacete.
— Aposto que é. Quanto tempo demorou a fazer a planta desta casa? Ela é enorme!
— Um mês.
— E é muito tempo, ou pouco tempo?
— Depende sempre. Antes temos de ter informações sobre o terreno, saber como o dono da casa quer que ela fique, depois criamos a planta.
— É bastante fácil.
— Eu não diria fácil. Cada um vê da sua maneira.
— Tu gostas do que fazes?
— Claro que sim. Na verdade, não me imagino a fazer outra coisa, nessa vida. Eu sou apaixonado pela minha profissão. E tudo graças ao meu pai. Ele sempre me apoiou e me disse que não desistisse.
-Desculpa a pergunta. Como ele morreu?
— Acidente de viação. — Digo triste.
— Eu lamento imenso.
— Ele sempre me dizia " dá o teu melhor, mas ainda assim, espere sempre o pior". Eu admirava muito ele. Era um pai excelente!
— E tu és um filho excelente! De certeza que se ele estivesse vivo, teria muito orgulho em ti, assim como a tua mãe tem. Ela fala tão bem de ti!
— Eu sei. Ela exagera as coisas.
— Mas tudo que ela me disse, sobre ti, é verdade.
— Talvez.
— Tu não te sentes digno do orgulho da tua mãe?
— Às vezes sim, às vezes acho que não sou um bom filho, ás vezes eu fico com dúvidas.
— Tu és uma ótima pessoa. Devias ter orgulho em ti mesmo. Eu tenho! — Eu sorrio amplamente. Ela acabou de dizer que tem orgulho de mim! Meu coração dispara. Eu não acredito no que acabei de ouvir. Eu olho para ela e seus olhos brilham.
— Tu tens orgulho em mim?
— Sim! Eu tenho. — Ela sorri. — Porquê a surpresa?
— É só que, eu não estou habituado que outras pessoas, me digam coisas dessas. Nunca nenhuma namorada minha, me perguntou sobre o trabalho, a minha relação com a minha mãe, nem nunca que tinha orgulho em mim.
— Nunca? Elas eram umas idiotas. — Ela ri.
— Talvez. Tu és tão diferente, Claire. — Nós nos olhamos profundamente, como se podêssemos ver por se trás dos olhos um do outro. Ela desvia o olhar e esconde o seu rosto.
— Há quanto tempo estão a trabalhar nesta obra?
— Há quarenta e oito dias.
— Ah! — É tudo que ela pode dizer. Eu só quero saber se ela mentiu para mim, sobre ela e Rogers.
— Ele te beijou, não é? — Ela levanta o rosto e endireita os óculos.
— Onde tu tiraste uma coisa dessas, George? — Ela endireita os óculos outra vez.
— Sim, ou não?
— Sim. Foi ele quem me beijou! — Eu sabia!
— Ele te obrigou?
— Ele simplesmente me roubou um beijo. Só isso.
— E tu estás zangada com ele?
— George, porquê tantas perguntas?
— Apenas me responda!
— Um pouco. — Eu sorrio.
— Do que é que tu estás a rir?
— Eu lembrei da primeira vez que nos beijamos. — Ela cora. É óbvio que ainda está apaixonada por mim!
— Correção, tu me beijaste!
— Não! Nós nos beijamos!
— Foste tu!
— Não! Fomos nós, na primeira vez, fomos nós na segunda, fomos nós na terceira e na quarta vez. Na quinta vez, eu confesso, sim que fui eu.
— Tudo bem. Se tu dizes.
— Ele beija melhor que eu? — Ela acende os olhos, e endireita os óculos. Fica de boca aberta, de certeza, não acreditando no que acabei de perguntar.
— O quê? — Ela pergunta mortificada.
— Eu perguntei, se gostaste mais do meu beijo ou de Frank Rogers? — Ela endireita os óculos, olha ao redor, para reparar se estão a nos ouvir, ou não. Volta a olhar para mim e endireita os óculos novamente.
— Não me perguntes uma coisa dessas!
— Por favor, me responda!
— Tu queres mesmo saber?
— Sim!
— Do teu! — Ela diz tão baixinho, que por sorte eu oiço.
— O quê? — Finjo não ter percebido.
— Do teu! — Ela diz ainda mais baixinho.
— O quê?
— TU BEIJAS MELHOR QUE ELE! — Ela grita. Eu sorrio. Todos olham para nós. Claire esconde o seu rosto com as mãos. Eu me aproximo mais dela, e coloco a mão no seu ombro.
— É muito bom saber. — Estou satisfeito com a resposta.
— Que vergonha! Olha só o que tu me fizeste dizer! Todos ouviram! — Eu tiro as suas mãos de seu rosto e as seguro.
— Não me interessa se eles ouviram ou não. Eu ouvi!
— Á mim, me interessa!
— Tu não tens de te preocupar com o que eles pensam, ou deixam de pensar.
— É difícil, mas eu vou tentar. Mas não vou conseguir olhar para a cara deles.
— Eles vão esquecer daqui a uns minutos, não te preocupes!
— Como é que tu não te importas com o que as pessoas dizem sobre ti?
— Porque, se eu me importasse, não teria chegado até aqui. As pessoas são cruéis, e muitas das vezes, dizem coisas que não são verdadeiras, simplesmente para nos prejudicar. E se nós formos fracos, caímos.
— Nunca pensei dessa maneira. Tu tens toda a razão.
— Eu tenho sempre razão! Eu estou com fome, tu queres me acompanhar a um café aqui perto?
— Tudo bem, vamos. — Nós tiramos os capacetes, e andamos de mãos dadas até ao carro, sem ela perceber.
Chegamos no café, e ocupamos uma mesa. A empregada de mesa vem até nós imediatamente.
— Bom dia, o que é que os senhores vão querer?
— Claire o que é que tu queres?
— Chá verde, bem quente.
— Eu vou querer um café bem forte, e croissant. — Ela aponta no caderno.
— Com licença. — Ela sai das nossas vistas.
— Qual é o teu filme preferido? — Ela pergunta.
— São vários, se tivesse que escolher um seria difícil.
— Não! Não seria. Qual é o filme que não te cansas de ver?
— Os miseráveis.
— Eu choro sempre que vejo esse filme, é bastante bom.
— E tu? Qual é o teu?
— A menina que roubava livros.
— Eu nem vou perguntar qual é o teu livro preferido.
— A culpa é das estrelas.
— Há tanta coisa que eu não sei sobre ti, que Frank deve saber.
— Ele não sabe, as minhas preferências, o nome do meu primeiro animal de estimação, os meus sonhos, e muitas outras coisas mais.
— Mas sabe o essencial. Eu não sei.
— Eu nasci em Nova Iorque, aos 14 de Agosto, meu pai se chama Roy Peterson, minha mãe, Natasha Peterson, sou filha única, licenciada em Direito privado, na Universidade de Nova Iorque, e acho que é tudo que tu tens de saber sobre mim. Feliz?
— Eu quero saber mais.
— Meu primeiro animal de estimação foi um coelho. Se chamava Lulú, gosto de rolo de carne, e detesto peixe. Feliz?
— Ainda não. Os teus sonhos?
— Um deles é conhecer París, a cidade do amor. Deve ser um lugar fantástico!
— É um lugar maravilhoso.
— Tu já estiveste lá?
— Duas vezes!
— Que bom para ti. — A empregada de mesa, traz os nossos pedidos, e os coloca na mesa.
— É! — Eu gostaria tanto de levar ela a París.
— E tu?
— Eu, o quê?
— Quero saber sobre ti também.
— Tudo bem. Eu também nasci em Nova Iorque, aos 7 de Dezembro, nunca tive um animal de estimação, adoro salmão, e acho que já atingi o meu auge.
— Como assim?
— Já realizei todos os meus sonhos.
— Eu duvido muito. Tu tens um sonho que ainda não realizaste. Ao realizarmos um, aparecem outros. É assim que funciona com todo o mundo.
— Eu não sei.
— Eu sei que mais cedo vais descobrir!- Como ela consegue fazer com que os problemas desapareçam como por magia? Fazer com que eu me sinta bem e feliz? Se tornar no centro do meu meu mundo?
Eu olho para fora. O céu fica acinzentado, as pessoas andando, correndo para fugir da chuva, e eu aqui totalmente relaxado. Elaborando um plano qualquer na minha cabeça, para recuperar a mulher que está a minha frente, bebendo o seu chá amorosamente.
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