Imperfeitos
16 Capítulo 16
Eu saio de casa e fico parado no meu carro, sem saber o que devo fazer. Ando às voltas, girando o meu carro, parando, caminho até a porta de casa, depois volto para trás.
Não sei se volto lá para dentro, ou se vou embora. Minha cabeça vai explodir de tanta confusão. Claire sai de casa também, e fica parada a olhar para mim. Eu me aproximo dela.
— Eu posso te levar para casa? — Pergunto. Não sei porquê o fiz, a levaria ainda que dissesse que não.
— Tudo bem. — Eu a acompanho até o meu carro, abro a porta para ela e ela entra. Em seguida fecho a porta e entro também no carro. Eu sinto o seu olhar em mim, mas não olho para ela. Apenas ligo o carro e conduzo.
— George, tu estás com raiva de mim? — Olho para ela por um segundo, depois volto a olhar para a estrada.
— Claro que não Claire! Eu estou com raiva de mim, não de ti.
— Lamento que as coisas não tenham funcionado entre nós.
— Eu também lamento. — Tu nem imaginas o quanto lamento.
— Eu quero que tu sejas muito feliz. — Ela gagueja. Eu não entendo como isso foi acontecer. Num dia estávamos felizes e no outro está tudo acabado entre nós. O que se passou afinal de contas?
— Eu também quero que tu sejas muito feliz, Claire. — Mas gostava que eu fosse a pessoa que a faria feliz. Nós ficamos calados o caminho todo. Já não há mais nada para dizer. Acabou.
Chegamos e desçemos do carro. Eu ando até Claire. Ela apenas olha para mim, não diz nada, não faz nada. Eu me aproximo mais dela. O espaço entre nós é muito curto. O vento sopra os seus cabelos castanhos brilhantes, tapando a sua cara. Seu rosto fica pálido, seus olhos vermelhos, e a íris mais azuis. Ela cruza os braços por causa do frio, e fica tremendo. Não sei se é por minha causa, ou por causa do frio.
— Claire, posso pedir uma coisa? — Olho para ela profundamente, como se estivesse a ler os seus pensamentos.
— Sim. — Sua resposta me deixa aliviado.
— Tu não vais negar?
— Não. Prometo que não.
— Eu posso te dar um beijo de despedida? — Ela fica calada por quinze segundos. Depois responde finalmente.
— Claro. — Ela deixa de olhar para mím.
Eu coloco o seu rosto entre as minhas mãos, e esfrego os nossos narizes. Olho para seus olhos e ela os fecha em seguida. Sua respiração fica mais complexa. Eu beijo a sua testa, o seu nariz, o seu queixo e depois a sua boca. A sua doce boca. Ela coloca as mãos na minha cintura. Nos beijamos sem sentido nenhum. Consigo sentir ela gemendo, e me levando para o seu lado obscuro. Nosso beijo é quente, é além do que eu devia pedir. Eu não quero que isso termine. Se eu pudesse, levava ela imediatamente para dentro de casa, e aí, só Deus saberia o que ia acontecer! Mas eu pedi apenas um beijo.
Não quero parar! Não consigo parar. Não quero que Claire deixe de ser parte da minha vida. Eu quero ela comigo. De repente, meu coração dói, e ainda assim continuo com o beijo. Quem disse que o beijo cura a dor, mentiu de certeza! Beijando ela, minha dor só aumenta. Só de pensar no que vou perder, me faz ficar ainda pior. Minha doce Claire! Minha doce Claire, já não será minha. Porquê o mundo é tão cruel? Porquê teve de tirar Claire de mim? Porquê isso tinha de acontecer? Sinto as suas lágrimas caindo até sua boca, e ela geme. Suas mãos sobem para os meus bíceps, e me segura com muita força. Eu paro, mas com muita relutância. Olho para seus olhos, suas lágrimas não param de cair, parecem cascatas.
— Eu sempre vou te amar, Claire. — Limpo as suas lágrimas.
— Eu também. — Eu abraço ela muito forte. Agora sim, posso dizer que tivemos uma despedida coerente. Eu beijo o seu cabelo, e a abraço ainda mais apertado.
— Não te esqueças de mim. — Eu a largo e volto para o carro, com o coração partido, sem olhar para trás.
Não consigo comer, não consigo dormir, não consigo fazer nada. Meu mundo foi tirado de mim. Minha felicidade se foi embora. E quem a levou? Claire Peterson. Eu estou tão vulnerável nesse momento, que já não sei se alguma vez eu fui forte. Já não sei o que se passa, já não sei de mais nada. Eu não entendo porquê eu estou desse jeito. Eu já terminei com muitas mulheres e fiquei como se nada tivesse acontecido. Os meus relacionamentos sempre foram de dois, três, quatro e cinco meses. Nunca mais nunca menos. E quando terminei com elas foi indiferente para mim. Mas com Claire, foram apenas três dias, e é como se fosse uma vida inteira. Está a doer muito! Nunca ninguém terminou comigo, essa é a primeira vez, e é também a primeira vez que sinto essa dor horrível, que não quer desaparecer. Essa dor que me faz sentir que estou no inferno, que faz o meu coração sofrer, que faz minhas lágrimas cair, que faz minha cabeça ficar confusa, que me faz pensar em desistir de tudo.
Nunca chorei por uma mulher. Eu não entendo porquê que eu choro por causa de Claire. Nosso relacionamento não fez uma semana sequer. Como eu posso amá-la desse jeito. Como? Tenho tantas saudades dela. Imensas saudades. De que serviu, tudo que eu fiz para ficar com ela? Tudo que eu fiz. Eu apenas arruinei o relacionamento dos nossos pais. Não devia ter feito nada. Mas até agora, eu não consigo perceber como chegamos à essa conclusão. Porquê nós terminamos?
Levanto da cama, e vou para a varanda. Está muito frio. E agora? O que devo fazer? Procurar outra pessoa igual a Claire? Procurar alguém que seja perfeita? Devo seguir em frente? Eu não sei se vou conseguir ultrapassar isso. Tenho a certeza absoluta de que esquecer Claire não vai ser tarefa fácil. Ela me fez sentir, o que nenhuma outra mulher me faria sentir. Me ensinou a ver o mundo de uma perspectiva diferente. Eu quero ela na minha vida, não outra. Mas ela já não quer ficar comigo. É bem feito para mim! Eu estrago sempre tudo. Se eu tivesse sido mais sensato, Claire estaria aqui comigo nesse momento, conversando sobre qualquer assunto.
As estrelas são muitas no céu, e brilham com muita intensidade. O céu está demasiado lindo. Seria bom que tivesse Claire aqui do meu lado. Eu saio da varanda, e sento na cama. Não sei se vou conseguir dormir. Espero que amanhã o dia melhore. Que tudo esteja bem.
Levanto o mais cedo que posso, não porque tinha de ser, mas porque não consegui dormir a noite toda. Estou a caminho do trabalho, não muito disposto, mas estou. Ontem o dia foi péssimo, e só espero que hoje seja diferente. Desde que eu não me encontre com Claire, eu vou ficar bem. Mas como ela é amiga da minha mãe, serei obrigado a vê-la. Tenho de escolher entre evitar a casa da minha mãe para não ter de ver Claire, ou sofrer sempre que encontrar Claire na casa da minha mãe.
Estaciono o carro no parque de estacionamento, e saio. Preciso manter a postura, para que ninguém perceba o quão destroçado estou. Entro e me dirijo diretamente para o meu escritório. Não falo com ninguém, não olho para ninguém. Fecho a porta e sento. Abro o meu computador, e procuro os projectos que tenho que finalizar.
Sofia entra no meu escritório, e deixa a porta aberta. — Bom dia, senhor Renner. Vai querer alguma coisa? — Levanto o rosto e dou o meu olhar mais frio para ela.
— A porta está aberta, Sofia. — Digo com raiva. Preciso me acalmar. Não posso descontar a minha fúria, nos outros. Preciso me acalmar! — Não preciso de nada obrigado Sofia. Pode ir qualquer coisa eu chamo. — Digo docemente desta vez.
— Tudo bem, senhor. Com licença. — Quando ela está prestes a sair, minha mãe entra.
— Olá Sofia! — Ela a cumprimenta.
— Olá senhora Renner. — Sofia sorri para Rose, depois sai finalmente.
Minha mãe senta na cadeira a minha frente, e me olha com pena acho. Detesto que me olhem desse jeito. Preciso acabar já com isso.
— Filhote, tu estás bem?
— Sim, mãe. Não! Na verdade, eu não estou bem, mas vou ficar.
— As coisas vão se resolver e vocês vão voltar a ficar juntos. — Falar é tão fácil!
— Eu acho que não.
— George, quantas vezes, eu e o teu pai quando éramos jovens nos separamos? Foram muitas vezes, e sempre pensávamos que era definitivo, mas não. Nos casamos, tivemos você, e se não fosse por causa da sua teimosia, ele ainda estaria aqui.
— Mas o nosso caso é diferente, mãe.
— Eu ouvi a vossa conversa ontem não vou mentir. Eu acho que o motivo do vosso término, não foi tão sensato.
— Eu também acho que não, mas Claire já não quer alguém como eu. Ela se apercebeu que eu não tenho nada para lhe oferecer.
— Tu tens muito para lhe oferecer, George! Eu sei que tu amas muito Claire. Ela também deve saber, ela te ama e tu também deves saber disso.
— Se ela soubesse, não teria terminado comigo.
— George, ela acabou de sair do hospital, deve estar ainda a processar o que está a se passar.
— Será? Eu não sei, mãe. Eu acho que acabou para sempre.
— Acredite em mim. Ainda há muita coisa por acontecer. Vocês vão voltar a estar juntos. Eu prometo!
— Mãe, a senhora não é nenhuma deusa, ou vidente, ou sei lá, para dizer isso com tanta convicção.
— Eu já passei nessa fase George. Acredite.
— Eu tenho a certeza de que acabou mãe.
— Tu queres que eu te dê um abraço? — Isso seria muito bom, para dizer a verdade. Eu me levanto e vou até ela, que também se levanta e me abraça. O que Claire está me fazendo sentir, não é nada justo!
— Nós estivemos juntos a pouco tempo, mas eu amo muito ela. Como se conhecesse ela há imenso tempo.
— Isso só tu podes explicar, George.
— Está a doer muito!
— Pode chorar a vontade, coelhinho.
— Eu não quero chorar. — Eu a largo e me recomponho.
— O que é que eu posso fazer por ti, coelhinho?
— A senhora já faz muito por mim. — Eu sorrio para ela. Minha mãe é tudo que eu tenho, eu devia agradecer por ela estar aqui, e aproveitar mais ela.
— Olha, se precisares de qualquer coisa, liga. Eu venho a correr.
— Eu sei mãe. — Ela estica os pés e beija a minha bochecha.
— Depois nos vemos!
— Até depois. — Ela sorri e sai do meu escritório.
Voltei a estar aqui sozinho. Depois da minha mãe ter dito que ela e meu pai já passaram por isso, me pergunto se ainda há esperança entre mim e Claire. Mas as coisas mudam. As pessoas mudam. Nós somos totalmente diferente. Não somos o John e a Rose! Somos o George e a Claire!
Faltam cinco minutos para a hora do almoço. Nesses dias estive tão ocupado pensando em Claire, que esqueci do aniversário da minha mãe. Eu ainda não comprei o seu presente, e ela faz anos neste sábado, o que significa que tenho quatro dias para comprar o presente para ela. Eu preciso de ajuda! E já sei quem pode me ajudar. Pego no meu telefone, e ligo para Rebecca. Não falo com ela desde o dia em que Claire tinha acordado do coma. Ela atende ao quarto toque.
— Oi George, que surpresa!
— Tudo bem, Rebecca?
— Maravilhosamente bem.
— Que bom para ti. Olha, eu preciso de ajuda.
— Em que é que eu te posso ajudar?
— Minha mãe faz anos neste sábado, como tu já deves saber, e eu preciso de ajuda para comprar o presente para ela.
— Tudo bem. Eu também iria ligar para ti mais tarde ou mais cedo. Eu tive pensando em fazer uma festa surpresa para Rose, o que é que tu achas?
— Eu acho que é boa ideia.
— Tu vais me ajudar?
— Claro que sim.
— Que bom!
— Amanhã podemos nos encontrar, e conversar sobre o assunto.
— Melhor na quinta. Terei folga.
— Tudo bem. Eu vou te buscar às dez então.
— Está bem. Adeus.
— Adeus. — Desligo e levanto.
Será que Claire está bem? Será que alguém tem cuidado dela? Se alguém estiver fazendo isso, que não seja Frank Rogers. Ele é um idiota! Eu não quero ele perto de Claire! Mas agora que eu já não sou o seu namorado, ela pode sair com quem quiser. Até com Rogers. Não quero que Claire fique com ele. Só de pensar que nesse momento ela possa estar nos braços de Rogers me faz estremecer. Claire não pode fazer isso comigo. Se ela ficar com aquele imbecil, será o fim para mim. Eu não sei o que vou fazer. Não consigo tirar ela dá minha cabeça.
Eu volto a sentar. E se a minha mãe estiver certa? E se Philippe estiver certo? E se eu estiver errado? E se eu não tivesse levado a nossa relação tão sério ao ponto de deixar que terminasse? E se eu não tivesse sido bom o suficiente para ela? E se eu demonstrar mais para ela? E se eu não desistir? Devo desistir? As coisas entre nós terminaram mesmo? Será que algo está errado? Devo ter deixado algo escapar? Devo ter cometido algum erro?
Agora a minha cabeça ficou confusa. Uma onda de esperança passa por mim. Talvez o que ela realmente precisa seja que eu não desista. Isso pode ser realmente um jogo. Eu preciso saber o que é que eu devo fazer para ter o meu prémio. Desistir ou continuar? Eu não sei se quero continuar. Mas uma das coisas que torna George Renner inigualável, é que, George Renner nunca desiste!
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