Imperfeitos
13 Capítulo 13
Eu corro em direção à Claire. Ela continua imóvel, e está machucada. Eu ajoelho perto dela. Está cheia de ferimentos nas mãos e no rosto, estou assustado. Eu tenho medo que esteja morta. Eu não quero que ela morra! Eu não quero que ela esteja morta! Isso não pode acontecer! Isso não pode acontecer. Minha Claire não pode morrer! Eu não posso deixar ela morrer.
— Claire, por favor, fala comigo. Claire! Claire, não me deixa! Por favor não me deixa. — Eu começo a chorar, e a rezar silenciosamente para que ela esteja bem, para que ela sobreviva. Eu não posso perdê — la! — Claire, não... por favor!
Ela não responde, não acorda, não dá nenhum sinal de vida. Os carros buzinam, para que eu saia da estrada, pessoas se aproximam, mas eu não saio. Eu não quero sair daqui. Eu só quero que Claire sobreviva, que fique comigo, sempre.
Porquê Andrea fez uma coisa dessas? Porquê? Eu só quero entender. Eu levanto, e me apercebo que preciso salvar Claire. Eu tenho de levá — la para o hospital, imediatamente.
— CHAMEM UMA AMBULÂNCIA! Por favor!
Um homem moreno, alto e magro, vem a correr até nós. — Eu sou médico. Afastem — se!
— Ajude ela, por favor!- Imploro.
— Preciso ver os sinais vitais. — Ele ajoelha até Claire. — Chamem a ambulância!
— Então? — Pergunto preocupado.
— Ela está pálida e inconsciente. Como aconteceu o acidente?
— Ela foi atropelada, a minutos atrás.
— Tu és algum parente? — Ele pressiona levemente com a ponta dos dedos no pulso de Claire.
— Eu sou o namorado dela.
— Quantos anos ela tem?- Ele continua com os dedos em seu pulso.
— 27.
— Ela tem alguma doença, hábitos, sei lá, toma algum remédio?
— Não! — Ele tira os dedos do pulso de Claire, e a observa atentamente.
— Não há ferimentos graves. — Ele tira uma lanterninha do bolso, e ilumina nos olhos de Claire. — As pupilas se dilatam.
— Ela vai ficar bem?
— Sim.
— O que é que eu faço?
— Não coloque ela ao colo, apenas segure a sua cabeça. — Eu faço o que ele diz.
A ambulância chega num piscar de olhos. Eles descem do carro e correm para o corpo de Claire. Eles a levantam com cuidado, e a levam para dentro do carro da ambulância.
Philippe sai da corte, e vem até mim. Eu olho em volta e todos olham para mim. Eu não quero saber! Não me importo! Só quero que Claire acorde e esteja comigo.
— O que houve George?
— Claire. Depois falamos. Eu preciso ir. Claire precisa de mim! — Eu sigo os socorristas, e também entro no carro. Eu rezo durante o caminho todo, para que Claire sobreviva. Eu não posso deixar ela morrer. Não posso!
Eu estou a espera há uma hora. Eu só quero saber se Claire está bem, apenas isso. É frustrante, estar aqui e não saber de nada, não ter notícias nenhuma sobre o estado dela. Estou completamente desnorteado, e sem forças. As minhas lágrimas se esgotaram.
Philippe volta com uma garrafa de água e me entrega.
— Toma, George.
— Não, obrigado.
— Tudo bem.
— Foi ela! — Digo.
— O quê?
— Foi Andrea. Ela atropelou Claire.
— Sério? O carro era de Andrea?
— Eu reconhecia aquele carro em qualquer lugar!
— Ela fez de propósito, devias denunciá — la! — Eu não quero saber de Andrea nesse momento.
— Ela não pode morrer, Philippe! — Eu limpo as minhas lágrimas. Se ela sobreviver, eu prometo que vou tentar! Eu vou tentar aceitar o que ela tem para oferecer. Se ela quiser casar e ter filhos, eu vou aceitar! Eu prometo que vou aceitar!
— Tenha calma, George!
— Eu não consigo. — Eu sento no banco do hospital. Philippe põe a sua mão no meu ombro, me consolando.
Meu telefone vibra me assustando. Eu tiro do bolso. É Andrea. Eu levanto, tento controlar a minha raiva e a minha dor, e atendo.
— Andrea!
— Olá, George, querido!
— Eu sei que foste tu!
— Fui eu, o quê? — Ela finge ignorância.
— Tu atropelaste Claire!
— Eu não sei do que é que tu estás a falar! Eu não saí de casa o dia todo.
— Eu vi! Eu vi o teu carro, Andrea! Não minta mais.
— Eu não sou a única pessoa de Manhattan que tem um Porche.
— Mas és a única que tem um Porche com aquela matricula. Quando tu disseste que Claire iria desaparecer, tu querias dizer que irias matá — la?
— Eu não fiz nada. Eu estou totalmente inocente! Quando eu disse que ela iria desaparecer das nossas vidas, eu quis dizer que ela iria te deixar!
— Isso não faz sentido nenhum, Andrea!
— Ela está morta? — Eu desligo o telefone, e volto a sentar. Não quero mais ouvir a sua voz. Estou farto de tudo isso.
— Tu tens a certeza de que foi Andrea?
— Sim! Eu tenho a certeza absoluta disso.
— Quem diria que ela seria capaz de uma coisa dessas!
— Não existe fúria maior no inferno do que a de uma mulher rejeitada!
— Pois é!
— Eu preciso ligar para minha mãe.
Eu tiro o meu telefone do bolso e disco 1. Parece que hoje, ela vai saber sobre a minha relação com Claire. O telefone chama e minha mãe atende ao segundo toque.
— Oi filhote!
— Mãe, Claire está no hospital. — Digo de imediato. Eu não quero dar mais voltas.
— O quê?
— Ela foi atropelada, e não sei o que vai acontecer.
— George, céus! Eu vou já para aí. — Ela desliga. Mais cedo ou mais tarde ela iria saber.
Estou ansioso, com dores de cabeça, stressado, preocupado, trepidante, e curioso.Philippe acabou de sair, me deixando sozinho. Rose chega no hospital, e vem me abraçar. Eu realmente precisava desse abraço.
— Eu tenho medo mãe. — Ela me larga e olha para mim chocada.
— O que se passa?
— Eu já disse. Claire foi atropelada.
— Tu estavas com ela?
— Sim! Nós almoçamos juntos, e depois deixei ela no trabalho, mas quando ela atravessava a estrada, foi atropelada. — Eu digo com muita mágoa, me lembrando daquela imagem horrível.
— Vocês almoçaram juntos?! Eu pensei que tu não gostavas de Claire!
— Eu preciso dizer uma coisa, mãe. — É agora.
— Diga! — Ela cruza os braços.
— Eu e Claire... — Eu paro e olho para o chão. — ... nós nos amamos muito.
— Porquê tu não me disseste George?
— Tu estavas tão feliz com Roy, e Roy com a senhora, que eu e Claire decidimos nos separar.
— Separar?
— No sábado, antes do jantar, eu pedi Claire em namoro, e ela aceitou. Nós terminamos porque a senhora e o pai dela estavam juntos.
— Eu não fazia ideia.
— Mas nessa semana, nós passamos tanto tempo juntos, que acabamos por reatar.
— George, tu podias me ter dito. Tu gostas assim tanto de Claire?
— Eu amo ela, mãe. Eu amo tanto, que quero casar e ter filhos com ela. — Eu prometi que o faria se Claire sobreviver.
— Oh George! — Ela começa a chorar. — Eu fico feliz que tu tenhas mudado de ideias.
— Não chore, mãe, por favor!
— Eu não acredito que Claire conseguiu fazer o meu filho mudar de ideias.
— Eu faria qualquer coisa por ela, mãe. — Ela sorri e limpa as lágrimas.
— Vamos rezar para que ela esteja bem.
— Sim. Eu quero que ela fique bem.
O doutor caminha em direção a nós, me deixando ainda mais trepidante e ansioso. Será que Claire está bem? Será que ela vai poder voltar para casa? Eu espero que sim. Ele pára a nossa frente, e olha para mim.
— Então, doutor?
— Tenho boa e má notícia.
— Primeiro a boa por favor!
— A boa noticia, é que o acidente não afectou os seus sentidos. Se ela acordar, terá a mesma vida que sempre teve. Isto claro, se não houver stress pós — traumático.
— Se ela acordar?
— Essa é a má notícia. Ela continua em coma, e não posso determinar quando, ou se irá acordar. — Eu não acredito que isso está a acontecer comigo.
— E nós podemos vê-la, doutor? — Minha mãe pergunta.
— São parentes?
— Eu sou o namorado. Por favor, me deixe vê-la. Nós somos o mais próximo de um parente, para ela, porque ela está completamente sozinha em Nova Iorque.
— Tudo bem. Venham comigo!
— Eu vou ligar para Roy! — Eu olho para minha mãe, enquanto ela tira o telefone da bolsa.
— Mãe, eu não sei se é uma boa ideia.
— George, ele precisa saber! Se eu estivesse no lugar dele, também iria querer que me dissessem.
— Tudo bem. Vamos doutor.
Depois de lavar as mãos, eu entro no quarto onde Claire está internada. Eu vejo ela na cama, pálida, e com o corpo sem força. Eu ando até ela e seguro a sua mão. Há tubos fixados em seu rosto e em seu corpo. Está deitada em uma cama com aparelhos ligados a fios, e respira pelo ventilador mecânico.
Eu me sinto culpado por tudo isso. Se eu tivesse aceitado os meus sentimentos por Claire no início, não teria namorado com Andrea, ela não estaria obcecada por mim, e Claire estaria em segurança. Mas eu estraguei tudo! Eu sempre estrago tudo!
— Claire, se tu estás a ouvir — me, por favor, volta para mim! Eu não aguento mais ficar sem ver o teu sorriso, os teus olhos lindos e azuis, ouvir a tua voz, tenho muitas saudades tuas!
Ela continua sem dar resposta alguma. Eu aperto a sua mão e choro. Eu não quero que ela fica aqui durante muito tempo. Ela tem de voltar para casa, voltar para mim, e eu vou cuidar melhor dela.
Andrea não vai escapar dessa. Ela vai se arrepender por ter posto Claire aqui. Ela vai se arrepender por nos causar esse sofrimento. Eu não sei quando tudo isto vai acabar. Porquê ela não se vingou de mim, em vez de Claire? Fui eu quem terminou tudo com ela, ela devia estar com raiva de mim, e não de Claire.
— Eu prometo que se tudo correr bem, eu vou tentar aceitar tudo que tu tens para me oferecer, Claire. Eu prometo! — Ela continua sem responder, nem aperta a minha mão nem nada. Eu tenho medo que ela não volte a acordar. Eu sento perto dela e continuo segurando a sua mão.
Minha mãe deve estar a ligar para Roy nesse exato momento, e dizer que Claire está em coma. Eu espero que ele não me culpe, e me afaste de Claire. Eu não sei se irei aguentar.
Eu adormeci durante duas horas, acho eu. Acordo e continuo a observar Claire. Eu quero estar aqui quando ela acordar! Eu tenho esperança! Ela irá acordar, e nós vamos voltar para casa, e ver um filme, e vamos esquecer tudo que aconteceu. E mais, Andrea vai presa.
A porta se abre, e eu vejo minha mãe, vindo em nossa direção, triste. Eu não digo nada. Ela olha para Claire atentamente, depois olha para mim, e se aproxima mais um pouco. Eu me levanto.
— George, eu acho que tu devias ir para casa, tomar um banho, comer qualquer coisa, e descansar. Tu pareces exausto!
— Mãe, eu não quero sair daqui.
— Eu fico com ela.
— Não precisa. A senhora falou com Roy?
— Sim! Ele virá para cá o mais rápido possível.
— A senhora vai terminar tudo com ele, não vai?
— Sim, George. Tu amas Claire, e eu quero que tu sejas feliz. Mulher como ela dificilmente aparece. E eu não gosto assim tanto de Roy!
— Menos mau. Tomara que ela acorde.
— Ela vai acordar não tarda querido. Agora vá para casa.
— Mãe, eu só saio desse hospital com Claire!
— George!
— Eu quero estar aqui quando Claire acordar, me deixe ficar, por favor!
— Tudo bem. Então, eu vou buscar roupas para tu te trocares aqui no hospital, e aproveito e trago comida também.
— Obrigado mãe.
— Eu volto num instante. — Ela sai do quarto. Eu volto a sentar e seguro a mão de Claire novamente. Minha linda Claire tem de acordar o mais rápido possível. Eu preciso dela comigo.
— Eu vou estar aqui até tu acordares, Claire. Eu não vou te deixar! — Eu beijo a sua mão, e depois apoio a minha cabeça na cama, esperando por ela.
Abro os olhos, e vejo Claire ainda em coma. Tive esperança que ela acordasse ainda hoje. A enfermeira termina de atender Claire e sai do quarto, enquanto Roy entra. Eu não faço ideia de que horas sejam.
Ele anda cabisbaixo, vindo em direção à Claire, com os olhos completamente vermelhos. Eu não digo nada, o observo. Eu entendo a dor que ele está a sentir. Ele só tem a Claire. Eu me levanto e fico na sua frente.
— Como isso aconteceu? — Ele pergunta de imediato, sua voz trémula.
— Ela foi atropelada. Eu lamento muito.
— Ela estava contigo?
— Sim. Nós tínhamos terminado de almoçar e eu a levei de volta para o trabalho, e foi quando a tragédia aconteceu.
— Me deixe sozinho com a minha filha. — Será que ele está furioso comigo.
— Tudo bem. — Eu saio do quarto, deixando ele sozinho com Claire, e vou até minha mãe. Ela se levanta e me abraça.
— Tu dormiste bem, filhote?
— Não tão bem.
— Não se preocupe, as coisas vão se resolver! — Ela me abraça ainda mais apertado. Porquê que eu sinto que tudo isso é culpa minha? Talvez, seja mesmo. Eu sou o único culpado por Claire estar aqui. Mas eu vou esperar por ela, nem que passem mais de cinco anos. Eu vou te esperar Claire Peterson!
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