A LUZ DO SOL INVADIU MEUS OLHOS, FAZENDO-ME ACORDAR. Estiquei os braços e as pernas na cama macia, tentando afugentar o sono que teimava em fazer minhas pálpebras pesarem uma tonelada. Quando enfim me levantei, tirando os cobertores da cama a fim de arrumá-la, o que vi me deixou completamente em pânico.

– Mãe! – gritei, ficando cada vez mais desesperada. Aquilo nunca havia acontecido antes. – Mãe! Venha aqui, por favor!

– Valentina, por que todo esse estardalhaço tão cedo? – minha mãe perguntou ao mesmo tempo em que abria a porta, com uma expressão séria no rosto, o avental que vestia por cima do vestido rodado e florido cor-de-rosa manchado com uma enorme bola marrom que parecia ser feita de chocolate. – O que aconteceu? – Ela parou, emudecida. Apenas mirava fixamente o horripilante contraste que uma pequena mancha vermelha fazia em meio aos lençóis brancos.

– Mãe, eu juro, não fiz nada! Quando acordei isto já estava aí... Apareceu do nada! – Tentei me explicar; sabia que tinha feito algo de errado. E eu não podia me dar ao luxo de levar mais uma bronca dela. Digamos que eu não era uma criança muito comportada. Ela apenas movia seus olhos atônitos da mancha para mim, e vice-versa. À medida que o tempo passava e minha mãe não emitia qualquer ruído, a preocupação me dominava cada vez mais. Desta vez eu havia feito algo realmente muito grave.

Mas então, algo mudou. Vi em seu rosto antes inexpressivo um sorriso tímido. Que foi se alargando cada vez mais, até o ponto em que ela começou a rir e levar as mãos aos olhos para enxugar as lágrimas. Talvez ela estivesse em choque; havia lido em algum lugar que nem sempre esse sentimento se manifesta da maneira mais convencional. Eu começava a temer pela sua sanidade.

– George! George! Venha até o quarto de Valentina! – ela berrava, eufórica – Aconteceu algo maravilhoso!

– O que pode ser tão maravilhoso? – meu pai indagou, observando o quarto, abrindo a boca como um peixe morto ao fitar a mancha nas cobertas. Após alguns minutos de silêncio – meu e dele, pois minha mãe não parava de chorar e rir ao mesmo tempo em que me encarava com um brilho estranho no olhar –, ele veio em minha direção, agachando-se até ficar na minha altura. Ele sorria de um jeito estranho, com o mesmo olhar que minha mãe dispensava a mim. Colocou as mãos grandes e pesadas sobre meus pequenos ombros e depois de um longo suspiro, disse:

– Ah, Valentina... Você já não é mais a minha garotinha – ele anunciou pesaroso. Eu ficava cada vez mais confusa. Como assim não seria mais sua garotinha? Deixaria de ser sua filha? Nunca mais os veria – meu pai, minha mãe e Rebecca?

– Não esperava que este dia chegasse tão cedo – ele continuou. – Agora, tudo será diferente minha querida. – ele disse, deixando-me ainda mais apavorada. Do que diabos eles estavam falando afinal? Deduzi, pelo estranho comportamento de meus pais, que algo realmente muito importante acontecera. Mas para mim, não passava de um pouco de sangue no colchão. O que não era nem um pouco tranquilizante no fim das contas. Eu havia sangrado durante a noite sem nenhum motivo aparente; o que acabou por me deixar irritada. Eu poderia estar gravemente doente e eles nem sequer me perguntaram como eu estava me sentindo.

Porém, minha raiva devido à negligência deles poderia esperar para outra hora. A curiosidade me consumia. Por que eles estavam tão estranhos?

– Como assim tudo será diferente? – indaguei, em um tom calmo e até um pouco sério, o que era anormal para mim. Papai e mamãe trocaram olhares preocupados. Acho que aquela não era a reação que eles esperavam.

Minha mãe veio em minha direção, sentando-se na beirada da cama, afastada o máximo que o pequeno espaço permitia da mancha vermelha bem no centro dos lençóis. Fez uma leve pressão em meus ombros para que eu me abaixasse, sentando-me ao seu lado. Respirou fundo uma vez e falou:

– Lembra quando sua irmã Rebecca foi estudar naquele... – Ela hesitou, sem saber ao certo quais palavras escolher – ...colégio especial, há dois anos? – questionou. Apenas balancei a cabeça positivamente. – Então... – ela prosseguiu. Meu coração batia enlouquecidamente, tamanha era a expectativa pelas suas próximas palavras.

– Então? – incentivei. Estava louca para saber qual era o veredicto.

– É lá que você irá estudar a partir de amanhã – minha mãe anunciou, sem mais delongas.

– Vai gostar muito de lá, Val! – meu pai falou confiante, abrindo um sorriso que horas atrás teria me feito sorrir em resposta. Não sabia nem se ainda conseguiria ao menos falar depois de uma surpresa tão grande e repentina.

– Eu nunca mais vou ver vocês? – consegui balbuciar depois de longos e silenciosos cinco minutos.

– Claro que vai meu amor! – mamãe me tranquilizou – Apenas não vamos nos ver todos os dias, mas nunca iremos perder o contato. – Somente abaixei meu olhar na direção de meu pai, que estava de cócoras ao lado da cama, fitando-me com um sorriso acolhedor no rosto. Minha mãe passava as mãos por meus cabelos, desfazendo os inúmeros nós formados durante meu sono. Todos os seus gestos pareciam irritantemente tranquilizantes. Como se quisessem dizer “vai ficar tudo bem”.

Isso só fazia crescer minha apreensão. Se eles estavam me acalmando, tinha que haver algum motivo para tanto. Um motivo que eu preferia não descobrir.

– Valentina, querida, não precisa ficar com medo – ela disse com carinho. – Você verá. É um lugar maravilhoso.