Imperfeitas
5 Capítulo 4: Surpresa
Notas iniciais
A PALAVRA “DESCANSO” PERDERA O SIGNIFICADO PARA MIM.
Passou-se uma semana desde a fatídica conversa. Interrogatório, para ser mais exata. Além do tal treinamento imposto por Nora – que até então não havia nos dito por que tínhamos que fazê-lo –, Mary e eu também ajudávamos nas tarefas da comunidade. Acordávamos todos os dias às cinco da manhã, para passar o restante do dia limpando, ajudando o pessoal que cuidava das refeições, ensinando às crianças, auxiliando sempre que algum problema surgia, e ainda correndo, levantando pesos e socando sacos de areia suspensos no teto. Era o que fazíamos naquele exato momento.
– Batam mais forte, suas molengas! Acham que isto aqui é brincadeira? – gritou nossa treinadora e algoz, Molly.
– Não podemos parar só por dez minutinhos? – perguntei, exausta, apoiando minhas mãos em meus joelhos, a respiração saindo em arquejos.
– Claro que não – disse Molly, dando uma risada desdenhosa em seguida. – Vocês mal estão sobrevivendo. – Abriu um sorrisinho cruel, que foi se transformando em uma expressão de puro desprezo. – Francamente, sinto-me envergonhada de ser sua treinadora. Nunca vi garotas mais fracas! – falou, parecendo sentir um prazer genuíno em nos humilhar.
– Já que somos tão ruins assim, por que não vem aqui e faz o trabalho sujo, hein? – Mary explodiu, botando para fora toda a raiva reprimida durante os dias que se passaram. Socou com força o saco de areia, fazendo-me pular de susto.
– Como disse? – Molly questionou, arqueando levemente a sobrancelha direita, desafiando Mary a confrontá-la.
– Não se faça de surda – Mary falou, indo em direção à voluptuosa mulher de cabelos castanho-avermelhados e olhos âmbar a sua frente e parando a cerca de um metro de distância, com as mãos apoiadas nos quadris em uma pose desafiadora. As duas se encaravam com uma fúria contida.
– Devia medir suas palavras, Mary – a mulher advertiu, austera. – E é melhor começar logo. – Andou até perto da minha amiga, que a encarava com o maxilar trincado. Os punhos estavam cerrados tão fortemente que os nós de seus dedos estavam brancos. – Se não, quem não irá sequer falar mais uma única palavra é aquela sua amiguinha... qual é mesmo o nome dela? – Afastou-se, sorrindo maldosamente. As duas estavam separadas por centímetros.
Eu assistia a tudo paralisada de preocupação. O curto período que passei ali havia sido suficiente para me fazer perceber que não era uma ideia muito sensata brincar com aquelas pessoas. Infelizmente, Mary não possuía o menor senso de autopreservação.
– Não ouse falar de Victoria – ela sibilou ameaçadoramente.
– Não ouse você me desacatar novamente – Molly respondeu, com um quê de superioridade na voz. – Quero que me pague duzentas flexões. Agora! – ela ordenou, aos berros. Então, voltou-se para mim. – Que está fazendo aí parada? Ande logo, duzentas flexões!
Obedeci prontamente.
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– Não aguento mais isso! Honestamente, o Centro parece bem melhor agora – Mary reclamou, jogando-se de uma vez no meio da cama.
– Você não sabe o que diz – afirmei, rindo. Soou mais como um choramingo.
Estava esgotada, todos os meus músculos doíam. Não era um costume meu praticar exercícios que exigissem tanto esforço; no Centro, era uma das nossas tarefas diárias praticar exercícios. Correr durante uma hora na esteira, ir às aulas de pilates e hidroginástica. Não podíamos fazer musculação. Um corpo com músculos definidos em uma mulher, mesmo que levemente, não era muito apropriado, diziam.
Lamentando por meu destino não ter me proporcionado um bom condicionamento físico, empurrei o corpo de Mary para o lado, a fim de me deitar também, e me joguei ao seu lado na cama. Estiquei as costas no colchão – que era duro como uma pedra, nem um pouco confortável. Mas, após uma semana ali, executando tarefas exaustivas durante o dia inteiro, era melhor do que nada.
– Eu mesma não sinto a menor falta das aulas de Ciências Matrimoniais – confessei, como se ela já não soubesse disso e partilhasse da mesma opinião.
– Ok, ok, o Centro é realmente horrível – ela se rendeu, e nós duas rimos. Era a única forma de suportar tudo aquilo. Após longos cinco minutos de completo silêncio, perguntei baixinho:
– Acha que ainda há tempo de salvar a Vicky?
– Claro que há. – Ela vacilou um pouco. Não estava tão confiante assim.
– Eu sinto muito. – Suspirei. – Eu deveria ter...
– Cale a boca, Val – Mary me interrompeu bruscamente. – Você não deveria nada. Poderia ter acontecido com você. Poderia ter acontecido comigo – disse, tentando parecer inabalada. Porém, eu sabia que se ela tivesse a opção de estar no lugar de Victoria, ela iria sem pestanejar.
– Não precisa ser forte o tempo todo, sabia? – falei.
Ela apenas ficou calada, mirando o teto fixamente; pelo visto, não queria persistir naquele assunto. Mary odiava parecer fraca.
– Boa noite – eu disse somente.
– Boa noite – repetiu ela, num sussurro quase inaudível, virando-se de costas para mim.
Após mais ou menos meia hora, ouvi seus soluços. Estava chorando.
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Acordei ofegante, erguendo meu corpo na cama e sentando-me num átimo. Minha respiração saía rápida e irregular, o suor fazendo com que meu cabelo grudasse em meu pescoço e o choro turvando minha visão. Olhei para o lado. Mary ressonava tranquilamente, os membros esparramados no colchão.
Suspirei, tentando me acalmar. Tinha sido só um sonho ruim.
Que pode ter se tornado realidade, meu lado pessimista se manifestou.
Cale a boca, cale a boca, ordenei a mim mesma.
– Foi só um sonho, está tudo bem – menti, sussurrando para a parede do minúsculo quarto.
Na verdade, não tinha sido apenas um sonho inofensivo. Eu tentava em vão bloquear as imagens perturbadoras que vinham incessantemente em minha cabeça, mas nada adiantava. Havia experimentado cantarolar baixinho uma música de refrão grudento e irritante cujo nome eu nem lembrava mais, e até, recitado em minha mente a receita de uma torta com nozes que minha avó me ensinara, seguindo a tradição da família. Nada funcionou.
Ainda me recordava vividamente de cada detalhe do sonho...
Eu estava de volta ao lugar que mais odiava no mundo.
Estava no Centro.
Os corredores se encontravam anormalmente vazios e silenciosos, o piso e as paredes imaculadamente brancas, que antes transmitiam uma sensação de limpeza e requinte, agora pareciam refletir o imenso vazio do recinto. Comecei a ficar nervosa; aquilo estava quieto demais.
Não demorou muito até que um grito congelante e desesperado ecoasse pelo local, fazendo minha pele se arrepiar instantaneamente. Comecei a caminhar, um pouco hesitante, em direção à porta que dava acesso a Ala 13, no final do corredor ladeado por muitos dormitórios. Era como se eu soubesse exatamente onde estava a mulher que gritara segundos antes, e algo me impelisse a encontrá-la.
Os gritos se tornaram cada vez mais estrangulados assim que abri as portas duplas, fazendo-me entrar em pânico, iniciando uma corrida desenfreada na direção do som. Alguém estava – muito provavelmente – sendo torturada, e com essa súbita percepção, movimentei minhas pernas mais depressa.
Dobrei uma esquina à direita, e depois outra à esquerda, sempre acompanhada pelos gritos da mulher. Eu chorava, o que só tornava tudo aquilo mais desolador. Eu nem conhecia aquela mulher. Por que estava tão angustiada?
Interrompi meus passos assim que me dei conta de que estava em uma área estranha do Centro. Nunca tinha sido levada até ali. Eu me encontrava em outro corredor, mas este não era totalmente branco como o resto do prédio. As paredes eram acinzentadas e sem nenhuma decoração, e no final do caminho, somente uma porta de ferro lacrada com trancas e cadeados, aparentemente muito pesada e resistente. Uma pequena abertura tapada com vidro temperado oferecia uma limitada visão do interior do que existia por trás do portal.
Segui em direção ao final do apertado corredor, pé ante pé, muito lentamente. Agora sim, eu estava com medo. Muito medo.
Os gritos haviam cessado. Será que a tal mulher havia morrido?
Obtive minha resposta quando olhei pela abertura de vidro.
A garota que outrora gritava estava imunda, vestida com uma camisola de hospital esfarrapada e suja com o que parecia ser sangue seco. Ela carregava arranhões e hematomas nos braços e pernas, que eram muito magros, tão frágeis que pareciam poder se partir como palitos de dente. Seu cabelo castanho achava-se sujo e desgrenhado, cheio de nós. Sua cabeça estava abaixada, seu corpo visivelmente debilitado encolhido no chão acolchoado do pequeno quarto, que não possuía sequer uma janela.
Então ela ergueu o rosto.
– Vocês me abandonaram aqui – Victoria sussurrou num fiapo de voz rouca, doente.
Ela não era nem remotamente parecida com a garota que fora capturada na fuga. Seus olhos castanhos, levemente repuxados nos cantos, estavam opacos e circundados por enormes olheiras, como se toda vida tivesse sido drenada deles.
Mas o pior de tudo não foi a imagem de seu olhar morto, e sim a grossa e asquerosa cicatriz que rodeava seu crânio, bem abaixo da linha do seu cabelo.
Chorei compulsivamente ao lembrar-me do término do sonho. Não podia suportar a ideia de aquilo ter realmente acontecido; era cruel demais, horrível demais.
Não podia suportar a ideia de ter perdido minha amiga para sempre.
Passei a mão no rosto, enxugando as lágrimas que escorriam por minhas bochechas. Concluí que precisava de ar fresco para organizar meus pensamentos e me tranquilizar. Levantei da cama devagar, tomando cuidado para não perturbar o sono de Mary. Quando saí, deparei-me com a total escuridão do corredor por onde havia andado com Daisy e Mary na semana anterior. Tateei às cegas pelas paredes, tentando em achar um interruptor. Quando enfim encontrei o botão, posicionei meu dedo indicador sobre ele, pronta para pressioná-lo. Porem, não o fiz.
Não estava sozinha.
Encolhi-me contra a parede instintivamente, com medo de ser descoberta. Assim que o som dos passos foi se tornando cada vez mais baixo, soltei o ar que nem percebi que prendia. Meu coração batia descompassado, em um ritmo furioso que me impossibilitava de escutar qualquer outro ruído. Tomei fôlego uma vez, e depois outra, tentando acalmar minha respiração e meus nervos pela segunda vez naquela noite. Os passos haviam parado completamente agora. Talvez tivesse sido só alguém procurando espairecer como eu, ou então algum rato que saíra de seu esconderijo. Suspirei aliviada; no entanto, ainda silenciosamente.
Quando ia dar meia volta para retornar ao meu quarto, o barulho dos passos recomeçou. Mas desta vez, era acompanhado por vozes exasperadas e outros barulhos estranhos.
Procurei, com algum esforço, descobrir de onde vinham as vozes me guiando pela direção de onde vinha o som. Por sorte, os desconhecidos derrubaram algo, o que acabou por tornar mais fácil a minha tarefa.
Com a mão deslizando pela parede – que era meu único meio de orientação –, caminhei muito lentamente até onde eles estavam, tomando cuidado para não emitir o menor ruído. Dobrei a esquerda em um corredor estreito cuja existência me era desconhecida até então, esbarrando em algumas caixas que estavam pelo caminho. Não pude deixar de notar a leve semelhança que aquela situação possuía com meu recente pesadelo, e estremeci.
Balancei a cabeça, para afugentar as lembranças. Aquela era uma área nova da Resistência para mim – àquela altura, achei que já estivesse familiarizada com o meu novo lar. No dia do interrogatório de Nora, a ansiedade me impediu de ver mais atentamente onde eu estava.
Meu peito deu um salto quando ouvi as vozes se tornarem mais altas; sinal de que eu não estava completamente perdida naquele breu. Assim que a distância entre mim e os desconhecidos diminuiu até que eu pudesse distinguir quem eles eram, parei, a boca aberta numa expressão que, se alguém pudesse ver, possivelmente diria que era de pura estupefação.
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