Imperfect Utopia
17 O predador vive, a presa não.
Meu rosto não demonstrava vergonha nem arrependimento, e meus pensamentos não eram de culpa. Maria me olhava, intacta. Ela pegou uma cadeira escolar bem velha que estava em uns escombros de madeira e coisas velhas. Ela a colocou no chão e sentou-se ao meu lado. Ela fez tudo isso em silêncio, e seus olhos não demonstravam raiva, e sim preocupação.
-- Eu nem sei muito bem como começar... – falou. – Mas... Eu quero saber por que você fez isso com a gente?
Fiquei em silêncio. E ela não gostou dessa atitude.
-- Se você não falar nada eu vou reconsiderar a oferta de John para lhe torturarmos.
-- O.K... Mas eu mereço. Pode me torturar se quiser.
--... Eu não vou fazer isso. Só quero saber o porquê disso tudo.
Hesitei um pouco, mas logo comecei a falar:
-- A minha vida sempre foi uma mentira...
-- Por que você diz isso?
-- Desde cedo eu fui obrigado a idolatrar o governo.
-- E por que não se rebelou?
-- Foi por causa do amante da minha mãe...
-- Amante?!
-- Sim... Vou te contar a história: quando eu era criança meu pai viva trabalhando, às vezes ele mal voltava para casa no mesmo dia. E isso irritava muito minha mãe. Ela não queria ficar sozinha em casa o dia inteiro, então ela começou a ter uma relação com um homem... Esse homem era guarda do prefeito, e isso naturalmente o fez ser muito rígido. Eu não gostava dele, mas ele me batia, me maltratava, e dizia que se eu não o obedecesse ele iria me matar.
“Aos meus nove anos de idade, ele começou a ficar mais tempo com a minha mãe. Às vezes meu pai chegava e noite e encontrava os dois se beijando. Eles discutiam, mas meu pai sempre perdia, afinal ele nunca foi um homem forte... Pelo contrário, ele era fraco. Eu tinha vergonha de dizer que ele era meu pai... Então eu comecei a admirar o amante da minha mãe ao invés do meu pai. Ele viu potencial em mim.
“‘Ei, garotinho, você quer aprender algo legal? Eu posso te ensinar a ser forte. Você não será mais a presa. Você será um predador.’ Ele dizia. Então eu aceitei a oferta, e comecei a trabalhar para o sistema, que como você sabe, controla todos os ministérios do país, incluindo as leis...”
Maria me deu um tapa na cara com uma força que eu nunca pensei que uma garota teria. Seus olhos estavam brilhantes, como quem está prestes a chorar.
-- IDIOTA! O único fraco aqui é você! – ela me segurou pela gola do meu uniforme. -- Seu pai se esforçava para te dar comida, um lugar para viver, e você simplesmente o traiu!!!
-- Eu tinha os meus motivos! Meu pai era um fraco, ele não tinha como sustentar minha mãe e nem a mim, nós morávamos em um barraco mal construído!!
Maria chorava. E isso me fez me arrepender de ter lhe contado essa história; ela estava indignada. Mas já que eu tinha começado, era preciso terminar, então continuei, mesmo ela estando chorando:
-- O sistema foi bom comigo, ele me acolheu, e me ensinou a ser forte...
-- Você só se tornou um ESTÚPIDO!
Eu cansei desses xingamentos, então, arremessei o corpo de Maria contra a parede, ela caiu ao lado dos escombros e continuava a chorar, por alguma razão...
--... Então eu comecei a ser treinado. Eles me treinaram para ser um espião, ou nauclero, que em latim significa “armador”, aquele que arma a estratégia. Eu era imbatível. Tudo estava ótimo até vocês aparecerem!
-- “Vocês”...?
-- Sim, os rebeldes, os idiotas que tentam infringir a lei... Vocês são uma pedra no meu sapato. Sempre foram. Então eles me mandaram para cá, para acabar com esse joguinho de vocês...
-- “Eles”? De quem você está falando?
-- Dos mandantes é claro, eu nuca os vi, mas aprendi desde cedo que eles são os chefões e que ninguém pode questioná-los. Você acha que sua vida foi tão pior do que a minha?! Eu fui treinado de forma exaustante, fui torturado, passei fome e frio. E então? Responda-me! Você acha que sua vida foi pior do que a minha!? – gritei. Mary estava sentada no chão, mas já havia parado de chorar.
-- Meus pais foram assassinados na minha frente... Meu irmão era cadeirante e foi deixado em um alojamento sozinho, pelos meus pais antes de morrerem... Todos morreram... Mas eu sobrevivi... A minha vida toda eu me senti culpada pela morte deles, mas hoje eu percebi que existe uma forma de vingá-los...
Fiquei em silêncio, mas ainda estava com raiva dela. A capitã continuou:
-- Essa forma que eu encontrei de vingá-los... É o motivo pelo qual formei a frente rebelde... Matar Sthephanie.
-- Não me diga que...
-- Sim... – Mary deu um leve sorriso. – Ela matou os meus pais, agora eu posso retribuir o favor.
Sthephanie, uma assassina? Minha cabeça estava um pouco confusa, mas ainda assim eu sabia: a vida de Maria foi mais sofrida do que a minha. " Retribuir o favor", eu nunca pensei que essa frase pudesse ser tão macabra.
Fale com o autor