Imperatriz do Leste
29 Vigésimo oitavo capítulo
Notas iniciais

O último mês foi marcado pelas preparações para a chegada dos nossos visitantes, escolhendo soldados que poderiam se passar por servos e espionar nossos convidados, alertando para possíveis armadilhas que eles poderiam estar planejando contra o Leste, mas tinha esperanças de que tal recurso nem chegaria a ser usado.
Além disso, recebi o consentimento do rei do Sul para a dispensa honrosa de Tadeu, autorizando-o a ser o próximo General do Leste, parabenizando-o por ter conquistado tamanho reconhecimento em seu reino natal. A outra grande notícia, veio após o médico real reexaminar Gael e constatar que seu grave machucado havia cicatrizado adequadamente, mas apesar de está liberado ele solicitou que meu noivo voltasse a sua rotina aos poucos e com cautela, pois seu corpo ainda estava recuperando a energia que utilizou durante o processo de recuperação.
Saber que Gael estava finamente recuperado, depois de toda a angústia que passamos era um verdadeiro balsamo, mas a sua recuperação me deixava dividida. Por um lado, estava feliz por saber que ele estava bem, mas por outro sua recuperação era o sinal de que sua permanecia no meu reino havia terminado, mas ele prometeu que só voltaria para o Sul quando tivesse certeza de que estava segura assim como meus súditos.
Um gesto de cuidado e amor, do qual seria eternamente grata.
Assim que obteve a liberação do médico real, Gael me pediu para que reuníssemos toda a população do reino no pátio principal, pois gostaria de agradecê-los pelas incontáveis lanternas lançadas e pelas preces feitas em prol da sua recuperação, o gesto do futuro consorte deixou meu povo ainda mais encantado, deixando meu coração tranquilo por saber que havia feito a escolha certa em permitir que ele se aproximasse de mim, conhecendo minhas fragilidades e temores, ofertando-me um sentimento tão puro e verdadeiro do qual jamais pensei que encontraria em alguém.
— Já que o rei consorte está recuperado, o reino é se preparar para a cerimônia de união da casa do Leste com o Sul? — um dos súditos questionou do meio da multidão após o término do discurso de Gael.
— Me casar com a rainha Virgínia é tudo que mais desejo nesse mundo, senhor, mas infelizmente ainda não posso me unir a vossa majestade. Como todos sabem, perdi meu pai a quatro meses, minha casa e o meu reino natal ficaram de luto por um ano, impedindo-nos de participar de qualquer tipo de celebração festiva em respeito a sua memória. — Gael esclareceu sem desviar os olhos das pessoas em sua frente, logo todos retiraram qualquer tipo de adorno que usavam na cabeça inclinando-se, enquanto colocavam a mão direita em forma de punho do lado esquerdo do peito, demonstrando seu respeito diante da perda de seu futuro soberano.
Um gesto que emocionou todos os presentes, especialmente a família real do Sul e Hortência agradeceu entre lágrimas pelo respeito prestado pela memória do seu amado marido.
Daquele dia em diante, Gael deixou de ser visto por todos como um contrato indesejado, um arranjo com propósitos cruéis para me prejudicar e deixar meu trono no controle do falecido General do Leste, para se tornar o noivo da rainha do Leste. Seu futuro consorte, pai do tão esperado herdeiro do trono e de todos os súditos do Leste.
— Vossa majestade, está pronta. — Agnes disse sorrindo me tirando das minhas lembranças e sorri agradecida para minha dama de companhia, levantado do local em que estava sentada para me ver diante do espelho que havia em meu cômodo de vestir.
Para a recepção da comitiva do Norte, escolhi usar um vestido que já possuía no tom verde escuro, cor do meu reino, evitando fazer gastos desnecessários enquanto as financeiras ainda estavam se recuperando.
Além do tecido verde escuro, meu traje possuía como forro o tecido da cor da minha pele dando o feito de leve transparência, destacando os inúmeros cristais bordados ao longo de todo o vestido no formato do símbolo da minha casa. Como tiara, optei por uma feita de ouro em formatos de folhas de louro unidas, um presente do meu noivo enviado pela manhã, já meus cabelos escuros estavam soltos ostentando ondas volumosas, destacando meus olhos verdes e meu vestido da mesma cor.

— Obrigada, Agnes. Vocês fizeram um excelente trabalho. — elogiei minhas damas desviando minha atenção do espelho, para vê-las sorrindo felizes por meu reconhecimento. — Bem, está na hora, não posso deixar nossos convidados esperando.
Caminhei em direção a saída dos meus aposentos, encontrando os seis guardas designados pelo novo General do Leste para fazer minha segurança pessoal durante a estadia da comitiva do Norte, os cumprimentei antes de seguirmos em direção ao salão de refeições onde o jantar de recepção havia sido preparado para os nossos visitantes.
Assim que me aproximei da entrada sorri ao ver que meu noivo já estava a minha espera, para que pudéssemos entrar juntos na recepção assegurando que nosso compromisso continuava tão solido quanto antes.
— Vossa majestade. — Gael disse formal fazendo uma reverência, sendo acompanhado por Henrik e Tadeu.
— A vontade, Principe Gael e os demais também. — autorizei e eles ajeitaram a postura, em seguida meu noivo me ofereceu seu braço conduzindo-me em direção a porta do salão guardada pelos novos recrutas do reino.
— Se me permiti dizer, minha rainha, está deslumbrante, digna de usar o título de imperatriz. — Gael sussurrou evitando ser ouvido pelo séquito que nos seguia e sorri diante do seu comentário.
— Agradeço os elogios, meu príncipe, mas precisa parar de ficar me mandando joias sem um motivo aparente ou as pessoas começaram a pensar que está tentando comprar meu afeto com elas. — apontei e Gael sorriu discretamente.
— Como se algumas joias fossem capazes de comprar o seu afeto, majestade — brincou e sorri concordando. — Além do mais, as joias que lhe dei não foram sem motivo, são um presente em comemoração a uma data muito importante para nós.
— Que seria?
— Essa semana fez quatro meses que confessamos o que sentíamos pelo outro — ele segredou e apertei seu braço com mais força, recordando também que fazia quatro meses que ele havia recebido o golpe quase fatal no meu lugar, tal lembrança me fez parar de caminhar sentindo meu coração se apertar e Gael acariciou a mão que apertava seu braço com força. — Está tudo bem, isso tudo já passou e estou aqui com você.
— Eu sei, mas não posso evitar pensar que por muito pouco você não estaria comigo agora. — sussurrei com a voz embargada e ele balançou a cabeça concordando.
— Sim, mas seu amor por mim e meu amor por você me trouxe de volta, então não vamos mais sofrer por dores do passado ou não conseguiremos viver o presente muito menos o futuro, os quais prometem ser repletos de felicidade. Pode fazer isso por mim? — pediu me olhando com seus olhos azuis claro, repletos de amor e carinho.
— Posso. — assegurei fazendo-o rir de forma maliciosa, me deixando confusa com sua atitude.
— Que bom, porque além dessa semana ser o aniversário da nossa primeira declaração de amor, hoje também faz quatro meses que você me beijou pela primeira vez — segredou e o olhei surpresa por ele lembrar o dia exato desses momentos. — Como não podemos comemorar tal ocasião com um beijo sem sermos surpreendidos por minha mãe ou qualquer outra pessoa, tive que me contentar em lhe presentar com joias das quais acredito que minha amada noiva tenha gostado. Afinal, não deixou de usar nenhuma das joias que lhe enviei aos cuidados de sua dama de companhia.
— Que mulher não gosta de ganhar joias?! — disse dando de ombros fazendo-o rir, enquanto voltávamos a caminhar — Mas ainda prefiro seus beijos. — segredei evitando ser ouvida por nossos acompanhantes fazendo Gael sorrir concordando diante do meu comentário, enquanto parávamos em frente a porta do salão de refeições esperando sermos anunciados pelo mestre de cerimônias do local assim que as portas foram abertas.
— Senhores, peço que fiquem de pé para receberem vossa majestade, rainha Virgínia, a fúria da tempestade, da casa real do Leste, acompanhada por seu noivo, o príncipe Gael, a fúria da noite, da casa real do Sul, General do exército do Sul. — o mestre de cerimônias anunciou em alto e bom som, atraindo a atenção de todos para a entrada antes de caminharmos com elegância e altivez para o interior do salão.
Enquanto caminhávamos em direção aos nossos lugares, os presentes acompanhavam com os olhos cada passo que dávamos nos cumprimentando com reverências educadas, antes de ocupar meu lugar a cabeceira da mesa enquanto Gael ficava a minha direita, já o chefe da câmara dos lordes ficava a minha esquerda e o General do Leste, ocupava o lugar ao seu lado.
Mas havia um par de olhos escuros em si que me chamou a atenção, por tentar ocultar seus sentimentos. Podia reconhecer a quilômetros de distância a inveja, ganância e o desejo de poder estampados no semblante daquele homem, porque cresci vendo tais emoções nos olhos do falecido General do Leste, o qual descobri recentemente ser meu tio bastardo.
— Rainha Virgínia e príncipe Gael, gostaria de apresentá-los a comitiva do Norte liderada por Lorde Tarcisio, que administra o local atualmente — o chefe da câmara dos lordes disse indicando nossos visitantes sentados do ao seu lado — Lorde Tarcisio, está é a nossa monarca vigente e seu futuro consorte. — esclareceu aos nossos convidados.
— É um prazer recebê-los em meu reino, lorde Tarcisio e seus companheiros de viagem, espero que estejam bem acomodados na ala que separei para os senhores, achei que se sentiriam mais à vontade desse modo. — disse sorrindo educadamente usando meu tom diplomático, enquanto analisava nossos convidados, especialmente seu líder.
— O prazer é nosso, vossa majestade. Não se preocupe, pois a ala destinada à nossa comitiva é perfeita assim como os servos designados para nos servir, todos são prestativos e excelentes no que fazem. — elogiou sorrindo como se soubesse de algum segredo, mas estava ciente que apesar dos meus cuidados um homem como lorde Tarciso acabaria descobrindo meus infiltrados.
— Fico feliz em ouvir isso. Soube que sua família administra o Norte a muito tempo, certo? — questionei tentando sondá-lo para confirmar minhas informações, enquanto os servos começavam a servir o jantar.
— Sim, vossa majestade, minha família administra o Norte em nome do Leste desde a época do falecido General — disse tentando disfarçar o tom de tristeza na voz ao mencionar meu grande inimigo — Soube que ele era na verdadeiro vosso tio, irmão bastado do falecido rei, e mesmo assim a rainha fez questão de lhe dar um enterro com todas as honrarias dignas de um príncipe da casa real do Leste, uma atitude muito digna de sua parte em respeito aos anos de dedicação realizados por seu antigo comandante. — disse educado fazendo os nobres da câmara do Leste olharem entre si, voltando sua atenção para mim enquanto estreitava os meus olhos.
Todos sabiam que não suportava ouvir qualquer tipo de menção do homem que fez da minha vida um verdadeiro tormento durante anos e não satisfeito ainda atentou contra a vida do meu futuro consorte, quase me tirando a oportunidade de ser finalmente feliz nessa vida, mas não poderia perder a calma agora e colocar a unificação do reino em risco, por isso respirei fundo tentando me acalmar e senti uma mão quente envolver a minha por debaixo da mesa apertando-a de leve, como se desejasse me tranquilizar de alguma forma.
— Não vejo minha atitude como respeito ao serviço prestado por ele, todos sabem sobre os feitos terríveis que o falecido General do Leste fez contra mim e todos do meu reino, com o único intuito de ser reconhecido como membro da família real que tanto o renegou, então eu lhe dei isso, o reconhecimento que lhe foi negado, mas nem ele e muito menos seus descendentes terão o respeito e admiração do nosso povo ou entrarão no livro dos membros da casa real do Leste, porque sua linhagem está marcada como aquela que conspirou e executou seu próprio sangue.— assegurei séria tomando um gole do meu vinho, sem desviar os olhos de Lorde Tarciso que me encarava de forma severa, como se estivesse decidido se pulava a mesa para me atacar.
— Espero que tenham feito uma boa viagem, lorde Tarcisio, afinal, as estradas do Norte essa época do ano estão cobertas de neve. — Gael disse simpático tentando amenizar o clima que ficou tenso de repente, após minhas palavras.
— Sim, vossa alteza, mas estamos acostumados ao clima frio dessa época. Afinal, não somos chamados de filhos da neve sem motivo — lorde Tarcisio zombou risonho, assim que se recuperou das minhas palavras, fazendo seus homens rirem diante do seu comentário — Pelo jeito, o príncipe do Sul conhece o clima do Norte muito bem.
— De fato, fiz uma parte do meu treinamento militar na divisa do Sul com o Norte. — explicou atraindo a atenção de todos os convidados.
— Interessante, deve ter sido insuportável para um filho do fogo, o frio gélido das montanhas do Norte — apontou sem desviar os olhos de Gael enquanto o analisava. — Tão interessante quanto ver um filho do Sul, sem ostentar o típico vermelho e dourado de seu reino em suas vestimentas.
— Não são as cores vermelho e dourado que identificam um filho do Sul, mas sim sua honra, força e lealdade em nunca quebrar seus votos ou promessas — destacou severo fazendo lorde Tarcisio estreitar os olhos — Além do mais, o exército do Sul é invencível por um motivo, com certeza não será um friozinho à toa que nos intimidará. — zombou risonho no mesmo tom de voz que lorde Tarciso, sendo acompanhado por todos os nobres do Leste.
— De fato, alteza — Lorde Tarciso constatou fingindo uma falsa cortesia enquanto se dirigi a Gael. — Fico feliz em ver que se recuperou depois de tudo que passou, as noticiais que chegavam até o Norte era de que o futuro consorte da rainha do Leste não sobreviveria. É impressionante vê-lo tão bem, nem parece que esteve entre a vida e a morte, deve ser verdade o que os súditos dizem de que o príncipe do Sul é favorecido pelos deuses.
— Agradeço as preocupações, lorde Tarciso, mas minha recuperação se deve aos cuidados da rainha Virgínia, da minha mãe, do médico do real e das inúmeras lanternas que os súditos do Leste e do Sul acenderam em prol da minha recuperação. — Gael assegurou fazendo nosso convidado sorrir educadamente.
— Pelo que vejo, o príncipe do Sul não é só adorado em seu reino natal, mas também no reino do Leste. — lorde Tarciso destacou e sorri educadamente, disposta a acabar de vez com suas provocações.
— Sim, lorde Tarciso, o príncipe Gael é admirado por onde passa, ele inspira inúmeras pessoas não só no meu reino e no seu como em outros também, para além do seu título de nascença vossa alteza, é respeitado como o grande comandante do exército do Sul. Assegurando que fiz a escolha certa, ao manter nosso compromisso de anos ao em vez de trocá-lo por algo incerto mediante a pressões externas. — declarei séria sustentando os olhos escuros de lorde Tarciso que sorriu frio, mas podia ver que ele não estava nem um pouco feliz com a minha resposta.
— De fato, minha rainha, um soberano não pode se curvar as pressões externas — concordou assim que conseguiu recuperar a compostura — Mas a momentos que é preciso fazer sacrifícios em prol de um bem maior, não acha? — questionou devagar e estreitei os olhos querendo entender onde ele chegaria com isso.
— Depende dos riscos e dos resultados, pois não é todo sacrifício que merece ser feito, porque no fim ele pode ser muito pior do que sofrer as consequências de não tê-los feito. — declarei e ele sorriu concordando levantando sua taça de vinho em minha direção, indicando que faria um brinde em meu favor.
— Gostaria de oferecer um brinde a nossa anfitriã, a rainha Virgínia — lorde Tarcísio pediu chamando a atenção de todos, enquanto se levantava de sua cadeira para que pudesse ser visto — Que os deuses continuem abençoando seu reinando, multiplicando seus anos de vida lhe dando sabedoria, para que possa conduzir o futuro império do Leste por longos anos de paz e prosperidade. — desejou sorrindo falsamente e agradeci com um aceno de cabeça, enquanto os demais convidados imitavam seu gesto.
Após o jantar fiz questão de me despedir de todos os convidados ao lado de Gael, antes de solicitar que a comitiva do Norte, o General do Leste e o chefe da câmara dos lordes, fossem a sala do trono, pois tinha algo muito importante para conversar com eles.
— Não gostei nenhum pouco da forma que lorde Tarciso olhava para você, parecia que ele estava olhando para um prêmio do qual não se conformava em ter perdido. — Gael segredou enquanto andávamos de braços dados em direção a sala do trono, após o jantar de recepção do Norte sob a vigilância dos meus guardas, já que havia dispensado a companhia de nossos servos pessoais e dos familiares do meu noivo, por se tratar de um assunto sigiloso.
— Na visão dele e de todos do Norte, foi realmente o que aconteceu.
— Você não é um prêmio, Virgínia. Você é uma pessoa maravilhosa, protetora e geniosa, que merece ser amada por suas qualidades e defeitos, não somente por seu título de nascença. — disse seguro e senti meus olhos ficarem marejados com as suas palavras, porque sabia que outro não pensaria da mesma forma que ele.
— É por isso que amo, você. Porque é o único que me vê além do título de rainha, que tem coragem de me dizer o que todos querem mais temem por causa do meu poder.
— Enquanto mantiver a corda da forca longe do meu pescoço, vou continuar lhe dizendo o que ninguém tem coragem de dizer. — segredou brincando e sorri concordando, enquanto nos aproximávamos da porta da sala do trono que foi aberta por seus guardas, nos dando livre passagem para o seu interior.
Gael me conduziu até os degraus que davam acesso aos tronos reais, parando perto do primeiro degrau para que pudesse seguir sozinha a partir dali, já que ele só poderia subir os degraus comigo após nosso casamento e a sua coroação diante de todos.
— Não gostaria de experimentar seu trono, rei consorte Gael? — questionei e Gael sorriu surpreso por meu convite.
— Por mais tentador que seja seu convite, vossa majestade, tenho que recusar porque não desejo que pensem que estou desrespeitando a memória dos consortes passados, assumindo um lugar que não é meu por direito.
— Entendo seu ponto, príncipe do Sul, mas não seria desrespeito algum com a memória dos consortes passados assumir o seu lugar de direito, já que o coroei um dia antes do meu aniversário e vossa alteza, apareceu diante de todos na minha festa usando a coroa do falecido rei. Em tese, o príncipe é o rei consorte do Leste, lembra-se? — questionei encarando seus olhos azuis cristalinos e Gael sorriu concordando.
— Sim, minha rainha, mas asseguro que posso esperar mais um pouco para assumir o meu lugar de direito, não vamos despertar o ódio gratuito do povo acelerando as coisas. — pediu e suspirei resignada, sabendo que ele tinha toda a razão novamente.
— Creio que acabará assumindo o papel de meu conselheiro, evitando que tome atitudes impensáveis durante meu reinado.
— Se for para o bem de vossa majestade e do reino, farei o meu melhor para lhe dar bons conselhos — destacou sincero e logo um sorriso travesso surgiu em seu rosto — Mas espero sinceramente, que minha esposa não fique tão ajuizada assim, porque amo sua impulsividade. — segredou em voz baixa me fazendo rir diante do seu comentário, enquanto olhava ao redor para confirmar que os guardas haviam fechado a porta da sala nos deixando a sós.
Com minha mão livre puxei Gael pelo casaco preto de seis botões que ele usava para mais perto de mim, fazendo-o sorrir surpreso antes de meus lábios envolverem os seus em um beijo apaixonado e saudoso, interrompido pelo som de alguém batendo na porta.
— Pelos deuses, será que não posso ter um minuto a sós com o meu consorte?! — me queixei séria assim que interrompemos nosso beijo, devido a batida na porta e Gael sorriu amoroso para mim acariciando minha bochecha direita com seu polegar.
— Compartilho da mesma frustação, querida, mas não se preocupe teremos todo o tempo do mundo para ficarmos a sós. Mas agora, minha esposa precisa garantir a unificação do reino e a segurança de todo o povo do Leste.
— Sim, se não fizer isso tenho certeza que lorde Tarciso se voltará contra nós. Não quero que nosso reino, seja destruído por guerras civis ou que nossos filhos e netos herdem um conflito do qual não foram os causadores. — disse séria e Gael concordou beijando minha testa com carinho e nos afastarmos, antes de subir os degraus que davam acesso aos tronos reais ocupando meu lugar de direito, autorizando a entrada de quem estava batendo enquanto meu noivo se posicionava do lado direito do último degrau, indicando sua proximidade com a coroa por ser meu noivo e futuro consorte do Leste.
— Viemos como solicitou, vossa majestade. — o chefe da câmara dos lordes explicou parando no meio do salão a minha frente, fazendo uma reverência assim como os demais enquanto os guardas do interior da sala do trono ocupavam seus lugares, prontos para protegerem sua rainha e o futuro rei consorte.
— Agradeço por terem atendido meu pedido, especialmente o senhor, lorde Tarciso que deve estar querendo descansar depois de uma longa viagem, mas lhe asseguro que o assunto é realmente sério. — expliquei e ele balançou a cabeça concordando.
— De fato, vossa majestade, mas se solicitou minha presença é porque deve ser um assunto de extrema importância e jamais negaria um pedido da minha rainha. — lorde Tarciso disse fazendo o “minha rainha” soar de uma maneira intima demais, quase como se estivesse me cortejando e estreitei os olhos para ele, enquanto via de longe os ombros de Gael assumirem uma postura rígida, indicando seu desconforto perante a intimidade forçada do nosso visitante.
— Por acaso está tentando forçar um cortejo, lorde Tarciso? — questionei severa e ele fingiu uma surpresa que me deixou ainda mais furiosa.
— Longe de mim, vossa majestade.
— Acho bom, porque não vou admitir que me constranja dessa forma, levantando suspeitas sobre uma relação de proximidade que não temos ou que desrespeite meu noivo, menosprezando sua importância e respeito que todos desse reino tem por ele. Por muito menos, mandei homens para a forca, imagine o que não faria com um sujeitinho como você que quer colocar minha honra em dúvida na frente do meu futuro consorte. — disse severa sem desviar os olhos dele, deixando claro que estava pensando nas punições que poderia submetê-lo e logo o temido lorde caiu de joelhos na minha frente, implorando por perdão em meio as lágrimas.
— Pare de implorar perdão, por algo que fez sabendo que era errado e se levante imediatamente do chão — disse severa e ordenei que o General do Leste o levantasse do chão, para que pudesse olhar nos olhos de lorde Tarciso, enquanto me levantava do meu trono e caminhava em sua direção — Acha que não sei o que fez? Acha que irei perdoar o homem que obedeceu durante anos, as ordens diretas do falecido General do Leste? Que submeteu meu povo a escravidão, tortura, fome e miséria, com a finalidade de explorar as riquezas existentes no Norte? — questionei parando em sua frente vendo o espanto tomar conta do seu rosto e sorri vitoriosa — Eu sei das minas de diamante e ouro nas montanhas de gelo, as mesmas que você ocultou da lista de bens da coroa a mando do falecido General do Leste, recebendo um generoso suborno em troca.
— Eu jamais fiz algo assim, majestade, nem sabia que existia minas de diamante e ouro no Norte.
— Já chega de mentiras, lorde Tarciso. Assim que soube que o Norte fazia parte do meu reino, mandei homens da minha confiança investigarem o local, eles me relataram tudo o que viram nos meses que ficaram por lá. Você e seus companheiros, os mesmos que o acompanharam até aqui, roubaram terras para que pudessem explorar livremente sem o meu consentimento as riquezas do reino. Depois da morte do General e o atentado contra a vida do meu noivo, achou que seria perfeito terminar o serviço que seu parceiro de negócios sujos começou eliminando o futuro consorte do Leste, enquanto ele lutava para sobreviver depois do ataque, deixando assim o caminho livre para que pudesse utilizar sua influência para me pressionar a aceitá-lo como consorte no lugar do príncipe do Sul. Porque assim, você teria total domínio sobre o reino e suas riquezas. Estou errada? — questionei severa sem desviar dos seus olhos e ele sorriu sem humor, como se não tivesse acabado de cair no chão em prantos implorando por meu perdão.
— Não, vossa majestade. É contra todas as leis naturais, uma mulher assumir o trono de um reino, esse lugar é meu e não seu por direito. — ele disse convicto e sorri sabendo muito bem do que ele falava, enquanto todos ao meu redor ficavam confusos.
— Acha que pode ter mais direitos do que eu ao trono, por ser filho bastardo do falecido General do Leste?! — segredei encarando seus olhos que pareceram surpresos por minhas palavras — Você não tem direito algum ao meu trono, mesmo tendo o sangue da casa real do Leste correndo por suas veias. O trono do Leste é meu, porque sou a descendente direta e legitima da casa real do Leste, neta do falecido rei Samuel e filha do falecido rei Matias, descendo por parte de mãe da extinta casa real do Norte — revelei fazendo seus olhos se arregalarem diante do fato. — O que me faz ter mais direitos sobre o trono do que você, por ser a única descendente viva das duas casas que formaram o que hoje é o império do Leste.
— Sua vad... — lorde Tarciso começou a dizer furioso vindo para cima de mim, mas foi acertado por um soco no queixo que o derrubou no chão inconsciente ao meus pés, enquanto virava para ver Gael ao meu lado abrindo e fechando a mão direita, como se verificasse se havia ou não quebrado algum osso ao bater no homem desmaiado no chão.
— Não me olhe assim, minha rainha, sei que o médico real me recomendou voltar a minha rotina com cautela, mas não ia admitir que esse verme a insultasse na minha frente — ele se justificou e concordei, porque sabia que se Gael não batesse nele quem faria isso seria eu.
— General do Leste, leve meu priminho bastardo para a prisão assim como todos os membros da comitiva do Norte, o chefe da câmara dos lordes apresentará todas as provas dos crimes cometidos por Lorde Tarciso e seus associados, assim como os documentos que comprovam minha descendência do extinto reino do Norte. Amanhã, farei uma reunião com a câmara dos lordes e com todos os súditos, para informar os acontecimentos dessa noite iniciando assim a unificação do Leste e do Norte em um império.
— Sim, vossa majestade. — o General do Leste disse fazendo sinal para seus homens levantarem lorde Tarciso do chão, arrastando-o em direção a prisão sob a escolta dos meus dois homens de confiança, enquanto Gael me olhava de forma questionadora.
— Gostaria de perguntar alguma coisa, príncipe Gael? — questionei desviando minha atenção dos homens que se retiravam para ver meu noivo.
— Sim, majestade, gostaria de saber se ainda existe algum familiar vivo seu que deseje o trono a ponto de ser uma ameaça a sua segurança? — questionou com preocupação e neguei com a cabeça — Tem certeza? Afinal, lorde Tarciso pode ter seguido os passos do falecido pai e ter tido um bastardo.
— Tenho certeza, apurei com o próprio médico de lorde Tarciso que assegurou que seu senhor é estéril, devido a sequelas de uma doença de infância. Não existe a possibilidade dele ter deixado um bastardo para trás — assegurei e ele respirou aliviado — Se quiser desistir do nosso compromisso, príncipe Gael, essa é a sua oportunidade de não fazer parte da minha família disfuncional, sem qualquer tipo de punição por descumprir nosso acordo. — ofereci sincera mesmo que meu coração se apertasse, ao pensar que ele poderia reconsiderar se casar comigo.
— É uma oferta bastante generosa, vossa majestade, mas a declino. Amo demais minha rainha, para desistir do nosso compromisso por causa da sua família disfuncional. — segredou e sorri com carinho para ele diante da sua resposta, antes dele me oferecer seu braço novamente o qual aceitei.
— O que acha de darmos uma volta pelo jardim do castelo? Creio que precisamos de um pouco de ar puro depois de tudo que aconteceu, quem sabe assim minha amada princesa, me conte como conseguiu descobrir que é a única descendente do reino extinto do Norte. — ele ofereceu e concordei enquanto caminhávamos para fora da sala do trono sob a vigilância dos meus guardas.
E pela primeira vez, desde que meus pais haviam morrido tive uma noite de sono tranquila sem os pesadelos que sempre me acompanhavam desde aquele fatídico dia.
Naquele momento entendi que os pesadelos eram uma forma de manter minhas lembranças vivas, para que pudesse descobrir minhas origens no momento certo e poder utilizar essa informação com sabedoria livrando meu reino de mais um possível usurpador.
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