Imperatriz do Leste
41 Quadragésimo capítulo
Notas iniciais

— Vossa majestade imperial, está radiante. — Agnes apontou deixando meu robe em cima da cadeira que ficava na área de banho, enquanto desfrutava do meu banho relaxante.
Permitir que meu marido deixasse meus aposentos depois de termos passado a noite juntos, foi praticamente a coisa mais difícil que já tinha feito na vida. Era como se todo o meu ser clamasse por Gael a cada instante, o que não era tão ruim assim porque sempre amei a companhia dele ainda mais agora que havia me tornado sua esposa realmente.
Mas era ciente de que precisávamos descansar e nos refazer, depois de termos ficado a noite toda em claro trocando carinhos apaixonados, antes de consumarmos nosso casamento inúmeras vezes na mesma noite e na manhã do dia seguinte.
Diante do seu cansaço visível, sugeri a contra gosto que meu marido voltasse para seus aposentos para que descansasse um pouco, enquanto ficava aos cuidados de minhas damas de companhia, antes de encontrá-lo mais tarde em seu quarto.
— Devo supor, que a primeira noite com o imperador consorte foi satisfatória? — Agnes questionou me trazendo de volta ao presente e sorri maliciosa.
— Muito mais do que satisfatória, Agnes. — disse mergulhada na minha banheira, sorrindo como uma boba alegre, como jamais fui na vida.
— Isso quer dizer...— minha dama de companhia disse especulativa, enquanto se sentava em um banco perto da banheira, esperando pelo que iria lhe dizer a seguir.
— Isso quer dizer que o imperador consorte, me fez muito feliz...Ele foi extremamente carinhoso, gentil e paciente comigo — segredei sorrindo apaixonada para minha dama de companhia que sorriu feliz por mim. — Nunca pensei que pudesse me apaixonar ainda mais por Gael, mas aconteceu e estou em êxtase com isso.
— Fico tão feliz em saber que os dois se entenderam tão bem como marido e mulher, assim como se entendiam antes de se casarem — ela disse feliz e sorri concordando. — Pela forma que os dois relutaram em se separar horas atrás, creio que seja prudente começar a providenciar o enxoval do herdeiro do trono.
— Agnes. — repreendi com doçura minha dama de companhia que sorriu amorosa.
— Não me venha com Agnes, imperatriz Virgínia, sei que não passou esse tempo todo a sós com o imperador consorte apenas conversando — segredou me fazendo corar enquanto sorria com doçura. — Do jeito que meus soberanos se amam, muito em breve serão abençoados com um herdeiro.
— Agnes, você sabe que por ser filha do meu pai, existe a possibilidade de não conseguir gerar um filho de Gael, por mais que deseje isso.
— Sei disso, minha senhora, mas tenho pedido aos deuses desde que se apaixonou por meu sobrinho, que permitam que minha soberana seja agraciada com a dadiva de ter filhos. Depois de tudo que passaram, merecem ter mais essa alegria na vida de vocês.
— Que os deuses a escutem e possam realizar o seu pedido, Agnes. — desejei olhando em seus olhos azuis claros iguais ao do meu marido, desfrutando do meu banho sorrindo sozinha ao lembrar dos momentos que partilhei com Gael.
Demorei um pouco no meu banho, aproveitando a água morna para relaxar meu corpo enquanto minhas damas arrumavam meus aposentos, deixando-o pronto para que o usasse novamente.
— E a família real do Sul? Sentiu nossa falta durante as refeições? — questionei preocupada sentada em frente ao espelho enquanto Agnes fazia uma trança por meu cabelo, evitando assim que ele amanhecesse embaraçado como hoje.
— Creio que sim, majestade imperial, mas não comentaram a ausência dos soberanos. — explicou concentrada no que fazia.
— Ótimo. Providenciou as atividades que solicitei, para a distração da família real do Sul enquanto não estivermos ao seu lado?
— Sim, minha imperatriz. Todos se divertiram muito durante o passeio pelos jardins do palácio, finalizamos a tarde com um belo piquenique.
— Que bom que eles estejam se divertindo na nossa ausência, providencie carruagens para levarem-nos até a biblioteca imperial, tenho certeza de que irão adorar ver o local onde o falecido rei consorte Marco estudou para se tornar um dos nossos eruditos. — sugeri e ela sorriu emocionada com a minha ideia.
— Farei isso, vossa majestade imperial — assegurou sorrindo — Devo contar com a presença dos imperadores no passeio de amanhã para a biblioteca imperial? — questionou me olhando com curiosidade e suspirei pensativa, sabia o quanto meu marido adoraria participar desse momento ao lado da sua família, mas ainda não me sentia pronta para sair do nosso pequeno casulo de amor para enfrentar o mundo e os compromissos diários que me esperavam, os quais me manteriam grande parte do tempo longe de Gael.
— Vou informar Gael sobre o passeio de amanhã, se ele decidir ir avisarei, mas organize tudo contando com a nossa presença, porque tenho quase certeza de que meu marido irá.
— Claro, majestade imperial. Mas se me permiti dizer, minha senhora, não parece contente com a remota ideia de ficar o dia todo longe dos seus aposentos. — ela disse perspicaz e suspirei concordando.
— Você tem toda a razão, Agnes — admiti sincera — Sei o quanto meu marido adorará conhecer o local em que seu pai passou grande parte da vida, mas não queria dividi-lo com mais ninguém por enquanto. Por sorte, tive a presença de espírito de pedir uma semana para me afastar da administração do império, para auxiliar meu marido em sua adaptação ao novo título. Agora, estou preocupada de que não conseguirei me concentrar nas minhas funções como soberana após meu casamento, porque tudo que mais desejo agora é voltar para os braços do meu consorte.
— Isso é natural, minha senhora, os dois se amam muito e são recém-casados. E quando há amor em uma união, os noivos só desejam passar cada minuto ao lado de quem amam. Apenas, desfrute da companhia do seu consorte de forma plena, permita-se ser feliz e esquecer as preocupações nos braços do seu marido, deixe as preocupações com o império para quando chegar a hora — aconselhou e concordou, antes de vê-la sorrir maliciosa — Porque além do mais, meus soberanos podem se ocupar com outros passatempos... — sugeriu maliciosa me fazendo rir.
— Você tem toda a razão, Agnes. A única preocupação que terei essa semana, será em ser feliz e esquecer as preocupações nos braços do seu marido. — decretei fazendo-a sorrir com a minha atitude, terminando de fazer a minha trança
— A imperatriz está pronta — disse afastando-se de mim, permitindo que pudesse admirar o seu trabalho no espelho — Assim que encontrar com o imperador consorte novamente, irei agradecê-lo por escovar primorosamente o cabelo da imperatriz, mas se meu soberano continuar fazendo meu trabalho tão bem correrei o risco de perder meu posto. — confessou fingindo preocupação e sorri negando.
— Não se preocupe, Agnes, seu posto jamais estará em risco, mesmo que meu marido continue escovando meus cabelos. — assegurei fazendo-a sorrir resignada, ciente de que seu sobrinho assumiria a tarefa de desembaraçar meus cabelos.
— Agnes, pode se recolher e peça que as outras damas também o façam. Não precisarei dos seus serviços por hoje, passarei a noite nos aposentos do meu marido hoje e se formos visitar a biblioteca imperial, pedirei que Henrik a avise.
— Claro, minha senhora. Boa noite. — ela disse gentil fazendo uma reverência enquanto me levantava da cadeira em frente ao espelho, caminhando em direção a saída do cômodo reservado para a minha higiene pessoal na companhia de Agnes.
Me despedi das minhas damas de companhia, antes de utilizar a passagem que ligava meus aposentos aos do meu consorte, adentrando na sala de estar que havia no local encontrando Henrik arrumando algumas almofadas dispostas no sofá em frente à mesa de centro.
— Imperatriz Virgínia. — disse fazendo uma reverência assim como os demais servos presentes nos aposentos do meu marido.
— Fiquem à vontade, por favor — pedi desobrigando-os de fazerem reverências olhando por todo o cômodo em busca do meu marido, antes de voltar a minha atenção para Henrik. — Onde Gael está, Henrik?
— O imperador consorte ainda está em seus aposentos particulares descansando, minha senhora. — explicou e balancei a cabeça concordando. — Vossa majestade imperial, deseja que acorde o soberano?
— Não Henrik, deixe-o descansar — disse e ele balançou a cabeça concordando. — Henrik, provavelmente amanhã iremos passear na biblioteca imperial, mas ainda questionarei ao meu marido se deseja ir, mesmo assim providencie um traje para seu soberano usar e o nosso café da manhã. Qualquer dúvida, pode se dirigir a Agnes.
— Como desejar, imperatriz.
— Bem, se já terminaram seus afazeres podem se recolher, o imperador consorte não precisará mais dos seus serviços por hoje. — ordenei e todos fizeram uma reverência, deixando os aposentos do meu marido em silêncio enquanto me dirigia para a porta a minha frente, que dava acesso ao quarto em que Gael estava.
— Imperatriz Virgínia? — ouvi Henrik me chamar em frente a porta segurando a maçaneta, voltando minha atenção para o homem atrás de mim.
— Sim, Henrik?
— Me desculpe questionar, vossa majestade imperial, mas pretende passar a noite no quarto do imperador consorte? — questionou me olhando com preocupação e estreitei os olhos, diante da sua pergunta.
— Creio que isso não seja do seu interesse, Henrik. — apontei severa por sua intromissão.
— Minha senhora tem razão, mas só perguntei por que queria avisá-la como, meu senhor, instruiu antes de adormecer.
— Do que está falando, Henrik? O que Gael o instruiu a fazer, assim que colocasse os pés nos seus aposentos?
— A imperatriz, se recorda que, meu senhor, não é apenas um príncipe, seu consorte passou anos treinando para se tornar o grande General do Sul, que fazia os inimigos tremerem só de ouvirem seu nome. — começou a explicar enquanto o olhava já sem paciência.
— Estou ciente de tudo isso, Henrik. Agora me diga, o que meu marido lhe ordenou fazer?
— O imperador consorte, pediu para orientá-la antes de adentrar ao seu quarto para acordá-lo primeiro sem ficar muito próximo do soberano, para que ele não a confunda com um possível inimigo e a ataque, devido ao torpor do sono. — explicou com o olhar de quem pedia desculpas, enquanto soltava a maçaneta olhando confusa para o homem em minha frente.
— Mas ele passou a noite toda comigo ontem...E uma parte da manhã de hoje... Eu dormi nos seus braços...E Gael, não deu o menor sinal de que poderia me machucar, pelo contrário...Meu marido, foi extremamente gentil e carinhoso comigo em todos os momentos em que dividimos o leito... — disse perdida em pensamentos, tentando entender o sentindo da instrução de Gael.
— E, o meu senhor, é assim, especialmente com a esposa que tanto ama — Henrik assegurou — Ele só pediu que a informasse, por precaução. Mesmo que um soldado tenha deixado seu posto, seus sentidos sempre estão em alerta de forma inconsciente porque fomos treinados para isso a vida toda. — explicou e respirei aliviada, diante da lógica apresentada pelo auxiliar do meu marido.
— Você tem razão, Henrik. Tadeu me disse certa vez, que os instintos de um soldado jamais os deixam, mesmo que não estejam mais em batalha — apontei e ele balançou a cabeça concordando — Bem, como devo acordar meu marido, então? — questionei e Henrik respirou aliviado, antes de começar a me instruir como Gael havia pedido.
Após as orientações Henrik deixou os aposentos de Gael, enquanto caminhei novamente em direção a porta que dava acesso ao quarto do meu marido, segurando a maçaneta e abrindo a porta repassando mentalmente cada passo que deveria fazer.
Assim que adentrei ao quarto, vi meu marido dormindo profundamente de barriga para cima no meio da cama, trajando apenas uma calça de algodão leve enquanto os lenções encontravam-se embolados aos seus pés, deixando claro que Gael dispensava seu uso mesmo as vésperas do início do inverno que chegaria na próxima semana.
Um verdadeiro filho do fogo, jamais teme o vento frio do inverno, pensei comigo mesma admirando meu marido dormir até que meus olhos pararam na fina cicatriz em seu abdômen, o lembrete silencioso do momento em que recebeu um golpe fatal para me proteger da fúria do meu inimigo, o falecido General do Leste.
Que não satisfeito em me destruir de inúmeras formas, tirando meus pais e tentando me fazer indigna do meu trono perante meus súditos, quase tirou a vida do único homem para quem entreguei meu coração sem reservas.
Olhei para o teto respirando fundo, tentando conter as lágrimas ao lembrar do desespero que senti durante todo o momento em que Gael lutava pela vida, após ser atacado pelo homem que mais tarde descobri ser meu tio bastardo.
Você precisa se acalmar Virgínia, está tudo bem. Deixe as dores do passado no passado, não as reviva em sua nova vida e sim aprenda com elas, pensei comigo mesma respirando fundo tentando espantar os pensamentos sombrios que ameaçavam tomar conta de mim.
Sabia que não seria fácil esquecer tudo o que havia passado, mas estava comprometida em superar cada dor, transformando-a em aprendizado para que pudesse seguir em frente, ainda mais agora que o meu futuro prometia ser muito mais feliz e tranquilo do que meu passado.
Respirei fundo várias vezes, até que meus pensamentos se acalmaram enquanto meus olhos voltavam para a cama onde meu consorte dormia sereno, sem dar indícios de que havia notado a minha presença em seus aposentos.
Com cuidado me aproximei da cama, parando a uma distância segura de um braço, como Henrik havia me orientado, e me abaixei permitindo que meu rosto ficasse visível na luz das velas, antes de chamar o nome do meu marido.
Na oitava vez chamando seu nome, percebi que as pálpebras de Gael tremeram de leve denunciando que ele estava acordando, em seguida sua mão direita foi parar embaixo do travesseiro ao seu lado e lembrei do dia que me deu a adaga que escondia naquele local.
— Gael? — chamei um pouco mais alto, torcendo para que reconhecesse minha voz.
Logo ele abriu os olhos voltando sua atenção para mim, piscando algumas vezes provavelmente adequando sua visão a claridade, antes de sorrir carinhoso para mim me fazendo respirar aliviada, por meu marido ter me reconhecido.
— Oi princesa — ele disse amoroso, antes de estender sua mão esquerda para mim. — Vem cá, deite-se comigo.
— Você está mesmo acordado? — questionei e ele sorriu concordando.
— Estou, amor.
— Espero que sim, porque não gostaria de saber que meu imperador consorte chamou uma serva para sua cama, porque a confundiu comigo devido ao torpor do sono. — apontei séria e ele suspirou se levantando da cama, caminhando descalço em minha direção sem tirar os olhos de mim parando em minha frente, estendendo suas mãos em minha direção.
Em silêncio segurei suas mãos, utilizando-as como auxílio para me levantar do chão, encarando o par de olhos azuis cristalinos na minha frente.
— Que tipo de marido seria, se não conseguisse reconhecer minha mulher? — questionou se inclinando em minha direção selando seus lábios com os meus, afastando-se muito antes do que gostaria.
— Você seria um péssimo marido. — segredei com minha testa encostada na sua e ele sorriu concordando.
— Obrigado, por seguir as instruções de Henrik. — agradeceu suave afastando-se de mim, para ver meu rosto.
— De nada — disse suave. — Eu que agradeço por ter pedido a Henrik para me avisar, mesmo sabendo que seria incapaz de me machucar.
— Não queria arriscar assustá-la ou pior...— Gael começou a dizer com preocupação e beijei seus lábios com carinho, tentando tranquilizá-lo.
— Você jamais me machucaria, tenho certeza disso. — assegurei assim que nos separamos e ele levantou as nossas mãos unidas, deixando-as na altura do rosto beijando em seguida o dorso das minhas mãos.
Com cuidado, Gael soltou as nossas mãos segurando a minha cintura, me puxando para mais perto enquanto minhas mãos paravam em seu peito.
— Senti saudades da minha esposa. — sussurrou se inclinando para beijar o meu lábios e sorri desviando o rosto, deixando-o surpreso com meu gesto.
— Então porque deixou sua esposa, aos cuidados das damas de companhia? — questionei curiosa e ele sorriu resignado.
— Culpado — declarou. — Mas em minha defesa, sabia que a minha esposa precisaria dos cuidados de suas damas e de um pouco de descanso, depois da nossa noite de núpcias.
— Só por isso, não ficarei brava com você. — segredei brincando e ele sorriu agradecido, inclinando-se novamente para me beijar e o correspondi, interrompendo o nosso beijo cedo demais, fazendo-o gemer em desagrado. — Apenas seja paciente, preciso dizer algo antes que me faça esquecer o que preciso falar.
— Essa é a ideia, amor — segredou amoroso e lhe pedi com olhar para que me escutasse, antes dele suspirar concordando. — Tudo bem, o que gostaria de me dizer?
— Amanhã sua família irá passear na biblioteca imperial do Leste, o local onde são formados os eruditos do reino, e gostaria de perguntar se você deseja ir com eles? — questionei olhando em seus olhos e ele ficou surpreso com o meu convite.
— Eu adoraria, amor. Seria maravilhoso, conhecer o lugar que meu pai passou grande parte da sua vida — disse emocionado. — Mas você se sentiria confortável em me acompanhar até a biblioteca imperial do Leste, quando acabamos de nos casar?
— Claro que sim, meu amor. Sei o quanto é importante para você conhecer o passado do seu pai, por isso não se preocupe porque será uma honra para mim acompanhá-los nesse passeio — assegurei fazendo-o sorrir feliz com as minhas palavras, antes de passar meus braços ao redor do seu pescoço puxando-o para mais perto de mim. — Além do mais, temos a vida toda pela frente para desfrutarmos da companhia do outro.
— Pra sempre, meu amor. — assegurou amoroso selando seus lábios com os meus, separando-se apenas para me pegar no colo levando-me em direção a cama, dando continuidade as nossas núpcias.
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