Notas iniciais
Sejam bem vindos, ao nosso décimo capítulo. Espero que gostem da história e continuem acompanhando. Boa leitura a todos.

Mesmo ouvindo a canção de ninar de Agnes meu sono estava agitado, povoado por lembranças difusas de quando era criança misturadas aos acontecimentos de horas atrás, mas uma lembrança em particular se destacou no meio de todas me fazendo revivê-la com nitidez.

O General jamais permitiu outras crianças pelo castelo, elas só eram admitidas quando acompanhavam seus pais durante alguma visita, mas logo eram gentilmente confinadas na cozinha entretidos com guloseimas para que a herdeira do trono não se misturasse com qualquer criança que estivesse abaixo do seu título, especialmente os filhos dos servos. Mas tudo mudou em uma bela manhã de verão, quando tinha sete anos e fui até a cozinha do castelo na companhia de Agnes, sendo surpreendida pela presença de um garoto um pouco mais velho do que eu lanchando na companhia de um adulto.

Jamais iria esquecer a forma como o garotinho sorriu para mim, fazendo seus olhos azuis cristalinos brilharem como um pedaço do céu sem nuvens, deixando seu doce de lado para vir até mim convidando-me para brincar, pois se sentia entediado no meio de tantos adultos. Temerosa, olhei para Agnes, pedindo permissão para poder brincar e ela concordou, antes do garotinho segurar minha mão e corrermos em direção ao jardim seguidos de perto por minha dama de companhia e pelo homem desconhecido da cozinha.

Pela primeira vez na vida me senti uma criança de verdade, correndo entre as flores do jardim na companhia do meu novo amigo, antes de lhe dizer todos os nomes que havia dado as flores e pássaros que havia no local, fazendo-o rir e me corrigir alegando que esses não eram os nomes verdadeiros deles. Logo nossa brincadeira de falar o nome das flores foi interrompida por um homem desconhecido, para quem o garotinho correu feliz e o pegou nos braços lhe dando um beijo em sua testa, antes de colocá-lo no chão e meu amigo segurar em sua mão levando-o em minha direção para apresentá-lo como seu pai.

O pai do meu amigo fez questão de brincar um pouco conosco, enquanto Agnes e o acompanhante do meu amigo sorriam felizes diante das nossas brincadeiras com o senhor que possuía os mesmos olhos azuis cristalinos e os cabelos claros do filho. Depois de um tempo, ele nos informou que precisavam voltar para casa hoje e ouvir isso fez meus olhos se encherem de lágrimas, ao pensar na possibilidade de perder o único amigo que tinha.

— Por favor, senhor, não o leve...Ele é o meu único amigo... — implorei chorando para o homem em minha frente que me olhou com doçura, se ajoelhando na minha frente para que pudesse olhar seus olhos cristalinos enquanto seu filho segurava a minha mão em meio próprias as lágrimas.

— Sei disso, minha querida, me dói ter que separá-los agora, mas prometo que ele voltará para você quando mais precisar, basta ter um pouco de paciência. — assegurou amoroso para mim e meu amigo olhou para o pai com lágrimas nos olhos.

— Pai, não podemos ajudá-la?! Minha amiguinha não é feliz aqui, ela nem pode brincar com outros crianças e sei que todos da nossa casa iriam adorá-la.

— Eu sei, meu amor, mas não podemos. Sua amiguinha precisa ficar aqui, mas prometo que farei de tudo para ajudá-la a ser feliz. Só lhe peço paciência e fé, minha criança, para suportar as tempestades e confie sempre em sua dama de companhia, ela é capaz de tudo por você. — o pai do meu amiguinho assegurou sem uma sombra de dúvida no olhar e balancei a cabeça concordando.

— Sei disso, senhor, Agnes é como uma segunda mãe para mim — assegurei suave desviando os olhos do homem em minha frente, para olhar Agnes que sorria de forma amorosa para mim.

— Fico feliz em ouvir isso, minha criança. Agora filho, se despeça da sua amiga porque temos um longo caminho de volta para casa. — pediu carinhoso e balançamos a cabeça concordando, antes do meu amiguinho virar para me ver com lágrimas nos olhos.

Sem dizer uma palavra, ele soltou minha mão e retirou o cordão que usava em seu pescoço com o pingente de uma estrela brilhante de oito pontas, colocando-o em mim enquanto lágrimas caiam dos meus olhos diante da nossa despedida.

— Não precisa chorar, amiguinha, não importa quanto tempo passe, prometo voltar e continuaremos a brincar de onde paramos. Para selar o que prometo, vou deixar meu cordão para que não se sinta sozinha. Ele está comigo desde que nasci, quando sentir minha falta é só segurá-lo e olhar para as estrelas da noite, que estarei fazendo o mesmo. Tudo bem? — questionou com a voz chorosa e o olhei preocupada.

— E se você se esquecer do que prometeu? — questionei apavorada com a ideia de nunca mais vê-lo, por ter se esquecido de mim com o passar dos anos.

— Não precisa ficar triste, amiguinha, os filhos do Sul sempre cumprem suas promessas, não importa em qual situação eles estejam...Uma promessa, sempre será uma promessa e sempre será honrada — meu amiguinho jurou solene, me olhando com seus olhos azuis celestes vermelhos devido as lágrimas que caiam deles. — Confia em mim?

— Sim, confio — disse sorrindo suave e para confortá-lo durante minha ausência, retirei o broche em forma de carvalho da minha mãe que usava, símbolo da casa real da Leste, entregando-o para que também tivesse algo que o fizesse se lembrar de mim, assim como eu teria — Isso é para ajudá-lo a se lembrar da sua promessa.

— Obrigado e não se preocupe, porque jamais esquecerei minha promessa e vou cuidar muito bem do seu broche — assegurou suave e concordei abraçando-o como se não quisesse mais soltá-lo, mas tivemos que nos separamos a contragosto mantendo nossas mãos unidas — Eu me chamo, Gael.

— E eu me chamo, Virgínia — sussurrei para ele que sorriu suave me dando um último abraço, antes de soltar a minha mão e segurar a do seu pai, caminhando para longe de mim.

Me sentei assustada na cama, atordoada com o que tinha sonhado e tudo fez sentindo para mim naquele momento.

A sensação que tive quando vi o General do Sul pela primeira vez, como se o conhecesse a muito tempo... Assim como tive a mesma impressão, quando olhei seu secretário.

Sua alegria e fascínio quando entrei no salão de jantar, como se esperasse por isso durante anos...Seu sorriso triste ao revelar, que uma parte sua esperava que o reconhecesse... A forma carinhosa que olhou para o cordão que usava, desde o dia que o ganhei do meu amiguinho de infância.

— Vossa majestade, a senhora teve um pesadelo? — Agnes questionou preocupada se aproximando de mim enquanto lágrimas caiam dos meus olhos, ao ver a preocupação estampada em seus olhos azuis idênticos ao do seu sobrinho, o General do Sul.

Aqueles olhos azuis cristalinos, iguais a um céu sem nuvens... Eram os mesmos olhos do meu amiguinho de infância.

— Pelos deuses, é ele... — sussurrei percebendo a verdade escondida dentro de mim por tanto tempo — Como pude ser tão cega?! Quando a verdade estava diante dos meus olhos esse tempo todo?! — me questionei incrédula por não ter notado a semelhança entre o menino do meu passado e homem de agora.

— Vossa majestade, lembrou de quando conheceu Gael, não é verdade? — Agnes questionou maternal se sentando em minha cama e concordei entre lágrimas.

— Como pode não me lembrar dele, Agnes?! Quando prometi que jamais o esqueceria. — sussurrei com dor ao lembrar da forma como o tratei horas atrás, por isso havia tristeza em seu olhar.

— A senhora era apenas uma criança, na verdade os dois eram. É compreensivo, que não lembrasse de algo que aconteceu a tanto tempo. — me reconfortou maternal e balancei a cabeça negando, segurando suas mãos nas minhas enquanto olhava em seus olhos claros.

— Preciso falar com Gael agora, Agnes. — pedi a ela que me olhou surpresa dado o avançado da hora.

— Compreendo, vossa majestade, mas não acha melhor conversarem amanhã?! A essa hora o príncipe, já deve estar dormindo. — me aconselhou e neguei decidida.

— Não Agnes, preciso falar com ele agora, tenho certeza que ele deve estar acordado a uma hora dessas, por favor, imploro que manda chamá-lo. — pedi desesperada e ela concordou soltando minhas mãos e caminhando em direção a porta, abrindo-a e solicitando para os guardas que estavam ali que chamassem seu General.

Alguns minutos depois que solicitei sua presença, o General do Sul adentrou o quarto com o rosto repleto de preocupação em companhia de Henrik, assim que o vi a nevoa que me impedia de reconhecê-lo havia sumido, deixando em seu lugar o choque e a culpa por não tê-lo reconhecido de imediato.

Ele podia ter crescido e deixado as feições infantis para trás, mas o olhar gentil e o sorriso acolhedor dos quais me lembrava ainda estavam ali, fazendo com que reconhecesse de imediato o meu amiguinho de infância, que havia me dado tanto nas poucas horas que passamos juntos brincando no jardim do castelo.

— Vim assim que me chamou, aconteceu alguma coisa, vossa majestade? — questionou preocupado se aproximando da cama em que estava sentada, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas por vê-lo na minha frente cumprindo assim o juramento que havia me feito anos atrás.

— Porque não me contou quem era desde o início, Gael? Por que não me disse, que era o garotinho que me deu de presente o cordão que uso até hoje? — questionei sem desviar dos seus olhos e ele respirou fundo, como se estivesse reunindo forças para mais uma conversa difícil que teríamos nessa noite.

— Porque achei que se lembraria de mim, sem que precisasse lhe dizer quem era. Apesar de Henrik me alerta que isso poderia não acontecer, afinal, éramos duas crianças na época quando nos conhecemos... Além do mais, você é três anos mais nova do que eu, era natural que não se lembrasse de um fato que aconteceu anos atrás, mas fiquei feliz em ver que continua usando o presente que lhe dei, porque era a prova de que mesmo não me reconhecendo você não havia se esquecido de mim, assim como eu não me esqueci de você. — Gael revelou olhando nos meus olhos e sorriu suave ao ver o colar em meu pescoço.

—Mesmo assim, deveria ter me contado quem era. — apontei séria e ele balançou a cabeça concordando.

— Depois de tudo o que lhe contei hoje, achei melhor deixá-la absorver tudo que ouviu, antes de lhe contar que já nos conhecíamos. Não queria que ficasse ainda mais abalada, depois da conversa difícil que tivemos.

— Não sou tão frágil quanto aparento, Gael. Asseguro que já passei por coisas piores, não seria uma conversa difícil que me deixaria abalada por muito tempo. — assegurei sem desviar dos seus olhos azuis e ele sorriu triste concordando.

— Está certa. Me perdoe, se dei a entender de que a acho frágil não foi minha intenção — se desculpou educadamente, respirando fundo em seguida — Mas você teria acreditado em mim, se lhe contasse toda a verdade, Virgínia? Naquele momento, creio que não. Agora estou curioso, o que a fez se lembrar de mim? — questionou e respirei fundo, enxugando minhas lágrimas antes de lhe contar tudo, desde a impressão que tinha de conhecê-lo de algum lugar até o sonho que tive horas atrás.

— Então, foi dessa maneira que nos conhecemos? — questionei sem desviar dos seus olhos azuis esperando por sua resposta.

— Sim, foi dessa forma que nos conhecemos, mas você se lembra do presente que me deu quando nos despedimos? Se o vê-lo novamente, conseguirá reconhecê-lo depois de tanto tempo? — questionou olhando nos meus olhos e balancei a cabeça concordando, porque jamais esqueceria do broche que foi da minha mãe.

— Henrik, pode trazê-lo, por favor. — Gael pediu ao seu secretário sem desviar os olhos dos meus e vi Henrik deixando o local para cumprir as ordens do seu senhor, voltando minutos depois com uma pequena caixa de prata nas mãos, entregando-a ao príncipe do Sul.

Com cuidado, Gael segurou a minha mão direita virando sua palma para cima depositando a pequena caixa em minha mão, incentivando-me a abri-la. Respirei fundo, tomando coragem para ver aquele objeto novamente, abrindo a pequena caixa de prata com cuidado revelando um lindo e delicado broche de bronze e esmeraldas no formato de uma árvore de carvalho que pertenceu a minha mãe, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas ao reconhecer a joia que sempre a via usando.

— Foi o broche que lhe dei quando éramos crianças, desde então nunca mais o vi entre as joias que herdei da minha mãe... — sussurrei perdida em pensamentos sem desviar os olhos da peça que julguei ter sido enterrada com a minha mãe, já que nunca mais a vi desde criança.

— Sim, desde então não me separado dele. Ele esteve comigo em todas as viagens que fiz, para estudar fora do meu reino e nos campos de batalha, nunca saio de casa sem tê-lo comigo. — segredou para mim e desviei os olhos da joia para vê-lo.

— Você jamais esqueceu de mim, não é verdade?

— Não. Depois que voltei para casa, implorei para que meus pais me enviassem de volta para você ou que a trouxessem para me visitar, mas eles sempre alegavam que não era tão fácil assim realizar o meu desejo e acabei adoecendo meses depois. — segredou e o olhei surpresa com a sua revelação.

— Na verdade, meu senhor, foi acometido por uma febre que alastrou o reino anos atrás e que ceifou a vida de muitos filhos do Sul, poucos conseguiram sobreviver aquele episódio. — Henrik segredou perdido em pensamentos, enquanto Gael balançava a cabeça concordando.

— Meus pais, ficaram desesperados assim como todo o reino, eles temiam que eu não resistisse a febre que me consumia. Os melhores médicos, sacerdotes e curandeiros foram chamados para o palácio, mas nenhum deles foi capaz de me ajudar. — revelou com o olhar perdido, como se estivesse revivendo aquele momento.

— E como conseguiu sobreviver a doença? — questionei aflita de preocupação fazendo-o piscar, saindo de suas memórias e voltando ao presente.

— Foi você — revelou e o olhei em choque sem acreditar no que havia acabado de ouvir — Em meio ao desespero de estar perdendo seu filho caçula, meu pai colocou o seu broche em minha mão e me lembrou da promessa que havia lhe feito. Ele passou o dia inteiro ao meu lado, segurando o seu broche em minha mão, sussurrando que você estava me esperando e não podia quebrar a minha promessa...No cair da noite, a febre havia passado e comecei a me recuperar da doença. Assim que estava melhor, meus pais me chamaram até o gabinete da rainha e me explicaram tudo que planejaram para proteger o reino do Leste e sua monarca, me questionando em seguida se estava disposto a ajudar minha amiga nessa tarefa e assegurei que faria de tudo para que ela pudesse ser feliz novamente. Desde então, toda educação que tive foi em prol de ajudá-la no futuro a restabelecer o seu poder e expulsar o General do Leste de vez do seu reino. — explicou e o olhei sem saber o que dizer, ao saber que havia se dedicado tanto para cumprir o juramento feito anos atrás.

— Então, todas as cartas que o General recebia informando-o que o meu noivo, o rei do Sul, ainda não poderia se casar porque estava estudando fora ou no alistamento militar, eram...— sussurrei ligando os pontos e ele concordou com a cabeça.

— Eram noticiais sobre mim. Sempre fiz questão de informá-lo sobre meus passos, para que em troca pudesse saber sobre você, mas tinha ciência que tudo que ele relatava nas cartas era o que desejava ouvir. Por isso, quando assumi a patente de General do Sul, fiz questão de selecionar os melhores homens e mulheres do meu exército e enviá-los ao Leste, ajudando minha tia a protegê-la... Especialmente depois que ela me relatou o seu envolvimento com a célula rebelde da região e que havia criado a identidade de uma guerreira chamada Fúria da tempestade, para poder enfrentar as ordens do General do Leste sem se comprometer... Um fato que me trouxe preocupação, me deixando sem dormir durante dias temendo que algo lhe acontecesse... Especialmente, depois que soube do interesse do Capitão dos rebeldes por você.— segredou e olhei feio para Agnes que pediu desculpas com o olhar.

— Agnes, nós duas teremos uma longa conversa sobre o fato de revelar meus segredos para o seu sobrinho, do qual nem sabia que existia — disse séria olhando para a minha dama de companhia, antes de voltar a minha atenção para Gael que pedia explicações com o olhar sobre minhas ações — Não me olhe assim, como se lhe devesse algum tipo de explicação...Além do mais, jamais alimentei os sentimentos de Drake ou de qualquer outro. — destaquei séria e ele balançou a cabeça concordando.

— E nem estou exigindo qualquer explicação, Virgínia, tecnicamente somos casados apenas no papel e você é livre para se apaixonar por quem quiser — assegurou e sorri sem humor deixando-o confusão.

— Com todos os problemas que tenho, acha mesmo que quero mais esse na minha vida?! Não, obrigada. — disse categórica fazendo nossos servos rirem e os olhei feio, antes de disfarçarem suas risadas com uma crise de tosse.

— Peço, que não fique chateada com a minha tia, Virgínia, ela só estava preocupada com você assim como eu fiquei ao saber desse fato.

— Sei disso, por isso não vou ficar com raiva, mas não me peça para parar o que planejei durante anos. Preciso vingar a minha família e o meu reino, é meu dever tirar o General do Leste do poder. — disse decidida e ele suspirou com pesar, como se não gostasse nenhum pouco do que havia acabado de ouvir.

— Sei disso e não sabe o quanto lamento, não poder tirar essa ideia da sua cabeça.

— Nem que você me prometesse o mundo, Gael, deixaria minha vingança de lado. O General do Leste, precisa pagar por seus crimes, nem que seja a última coisa que faça nessa vida. — disse convicta e ele balançou a cabeça concordando.

— Pois bem, se é isso que deseja é o que faremos. Tenho um exército de prontidão a duas horas daqui, seguiremos suas ordens sem hesitar. — assegurou e respirei fundo, negando com a cabeça o que lhe deixou surpreso.

— Não posso pedir que lutem por mim, seria injusto e cruel da minha parte levá-los para a morte certa defendendo um reino que não é de vocês. — disse sincera e Gael segurou minha mão esquerda na sua, sem desviar seus olhos dos meus.

— Você é a minha princesa, Virgínia, e eu vou até o inferno para defendê-la assim como meus homens. — assegurou sem uma sombra de dúvidas em sua voz e lhe agradeci entre lágrimas, sendo abraçada por ele em seguida.

— Você pode ficar comigo essa noite, por favor. Tenho medo de quando acordar amanhã, perceba que tudo isso não passou de um sonho. — sussurrei em seu peito apavorada com a ideia de que tê-lo encontrado fosse fruto da minha imaginação.

— Eu fico com você — assegurou suave acariciando meus cabelos — E não precisa temer, porque nada disso é um sonho. Posso ter demorado, mas consegui encontrar meu caminho de volta para você e não irei me afastar nunca mais. — jurou suave beijando meus cabelos e lhe agradeci, antes de nos deitarmos na cama com a minha cabeça repousada em seu peito, recebendo carinho em meus cabelos até que adormeci de cansaço em seus braços.

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Abri os olhos, assim que comecei a escutar o som do canto dos pássaros vindo do jardim, pisquei algumas vezes tentando adequar minha visão percebendo que não estava no meu quarto, nervosa olhei ao redor e vi Agnes com a cabeça repousada no ombro de Henrik, ambos adormecidos no sofá. Mas minha atenção se concentrou na respiração suave que sentia em meus cabelos e na mão entrelaçada a minha, como se as duas houvessem sido feitas sob medida para a outra.

Respirei fundo, levantando meu rosto para confirmar que ele havia cumprido a promessa que me fez ontem, me fazendo sorrir por ver que Gael não havia me deixado sozinha, deixando claro que apesar dos anos ele ainda levava muito a sério suas promessas.

— Por seu sorriso, posso concluir que conseguiu descansar um pouco, depois de ter dormido tão tarde ontem. — Gael apontou exibindo um lindo sorriso nos lábios, fazendo seus olhos claros se iluminarem como duas estrelas no céu noturno.

— Sim, obrigada por ter ficado ao meu lado. — agradeci sincera, pois ao seu lado não me sentia mais tão sozinha e cercada por inimigos como sempre.

— De nada, sempre vou estar ao seu lado para o que precisar, nunca se esqueça disso — pediu sem desviar os olhos dos meus e concordei, antes dele olhar para os nossos acompanhantes adormecidos no sofá que havia no cômodo. — Espero que não tenha ficado chateada, por termos a companhia de tia Agnes e de Henrik, mas era isso ou deixá-la sozinha na cama depois que adormeceu e não quis quebrar a promessa que lhe fiz. — explicou suave acariciando meu cabelo com a mão livre enquanto me olhava nos olhos.

— Está tudo bem, não me importo com a presença deles, se foi a única condição para que pudesse ficar comigo — assegurei suave sem desviar dos seus olhos e ele se inclinou na minha direção beijando minha testa com carinho, afastando-se em seguida para me olhar de forma demorada. — Por que está me olhando dessa forma?

— Por nada, só queria ter certeza de que finalmente estou ao seu lado, depois de tanto tempo desejando que isso acontecesse. — segredou perdido em pensamentos, como se lembrasse de todos os anos em que ficamos separados.

— E cheguei perto da Virgínia que imaginava? — perguntei curiosa, afinal havíamos nos vistos apenas uma vez quando criança, nos reencontrando novamente depois de tanto tempo agora como adultos.

— Você é muito mais do que cheguei a imaginar, Virgínia. — declarou suave sem desviar os olhos dos meus e sorri emocionada em ouvir que havia lhe surpreendido.

— Espero não ter mudado tanto. — segredei e ele sorriu carinhoso.

— Apesar de tentar transparecer força e frieza, ainda consigo ver no fundo dos seus olhos minha doce amiguinha, que dava nomes estranhos para os habitantes do jardim do castelo. — disse implicando comigo e sorri envergonhada por lembrar disso.

— Em minha defesa, tinha sete anos, Gael — justifiquei fazendo-o rir enquanto respirava fundo, assumindo uma postura séria — Sobre não aparentar ser tão doce quanto antes, bem...Aprendi que se não fosse forte o suficiente, eu ou as pessoas com quem me importava se machucariam...Talvez, nem estivesse aqui agora, se tivesse agido diferente. — expliquei perdida em pensamentos, lembrando do quanto tive que ser forte e me impor para sobreviver, quando tudo que queria era me esconder de toda essa disputa pelo trono.

— Não estou julgando-a, Virgínia, você fez o que tinha de fazer para si proteger e as pessoas que lhe eram caras, foi extremamente corajosa por ter enfrentado tanta coisa tão nova. — assegurou acariciando meus cabelos e fechei os olhos, repetindo para mim mesma as palavras que ele havia acabado de falar.

— Estou tão cansada de me sentir sozinha, de sempre estar em alerta a todo o momento temendo ter inimigos pelos quatro cantos do castelo...Às vezes me pergunto se algum dia, conseguirei viver sem temer por minha segurança a cada segundo. — revelei perdida em pensamentos, tentando imaginar como séria viver de outra forma.

— Já lutou até aqui por isso, não desista agora que está tão perto de realizar seu desejo —insistiu e suspirei sabendo que não seria fácil, porque o General do Leste só desistiria do trono morte assim como eu — O que está lhe preocupando?

— O General do Leste, não irá desistir do meu trono e nem eu, essa disputa pode se arrastar por anos, mas sei que só terminará de vez quando um de nós morrer. — expliquei e ele respirou fundo, como se organiza-se seus pensamentos antes de falar.

— Estou ciente disso, mas não vim só oferecer meu apoio militar, mas uma segunda opção também. Se desejar, pode ir para o Sul comigo e viver como minha princesa, pois a documentação que meu pai e o General do Leste assinaram nos casou por procuração, ou como uma nobre em nossa corte tendo uma vida em paz, sem precisar temer ninguém. — ofereceu e comecei a imaginar como seria viver uma vida no Sul como princesa, fazendo meu coração ficar dividido entre aceitar o seu convite e lutar por minha coroa.

Todas as vezes em que pensava na disputa pelo trono, já havia aceitado que poderia não sobreviver em um embate com o usurpador, mas desde que meu povo ficasse em segurança e livre do seu opressor qualquer sacrifício valia a pena. Só que algo parecia ter mudado do dia para a noite.

Era como se a certeza que sempre possui dentro de mim de que estava fazendo o que era certo, ruísse de repente com a chegada de Gael, me fazendo renegar meu próprio sacrifício em prol do meu povo, perceber isso me deixou assustada. Porque jamais havia conhecido alguém, que me fez questionar minha escolha de anos atrás... Até agora.

Atordoada com o rumo dos meus pensamentos, soltei sua mão e me sentei na cama tentando entender de onde havia surgido esse sentimento divergente, que me fazia contestar tudo que havia planejado minunciosamente durante todos esses anos.

Não, eu não podia deixar isso me dominar e afetar a decisão que tomei a muito tempo atrás.

Precisava continuar seguindo meu plano, não seria essa dúvida desconhecida que acabaria com tudo que planejei e sacrifiquei até aqui.

E definitivamente, não seria a volta do meu amigo de infância que me faria jogar tudo para o alto, fechando os olhos para o sofrimento do meu povo em troca de uma vida confortável como princesa ou uma nobre no reino do Sul, pensei comigo mesma sabendo qual caminho tomar a partir de agora.

— Virgínia, está tudo bem? — Gael questionou se sentando na cama e o olhei séria, determinada em deixar claro o que acha da sua proposta.