Imperador de Areia
37 Capítulo 37 - Pai
Notas iniciais
Gaara estava cavalgando pelo Oasis, sentia a brisa bater em seu rosto, quente como sempre, mas ele estava muito feliz. As últimas casas recebiam os retoques finais, os projetos se concretizavam, e as mudanças eram cada vez mais aparentes.
Kankuro e Hinata estavam com a escola aberta, ele tomava conta dos maiores e Hinata dos mais novos, Gaara estava fazendo questão que todos apreendessem a ler, escrever, fazer cálculos e nunca mais serem passados para trás.
Shikamaru cuidava de um sistema de arrecadação e distribuição de água para a irrigação, o solo estava cada vez mais fértil e a areia ia cedendo espaço a novos tipos plantações. Naruto ajudava na organização das atividades, ficou responsável pelo comércio, e juntava dinheiro pra melhorar a sua vida e a de Hinata.
Suna ainda tinha um exército forte, não guerreavam como antes, mas eram organizados e prestavam serviços as demais vilas, e as batalhas que apareciam, eles iam e venciam, como sempre fora, mas agora o comando era mais de Temari que de Gaara, ele confiara a tarefa inteiramente a ela, apesar de ela mesmo ter se afastado dos campos pela gravidez, ainda assim ela gerenciava tudo com mão de ferro.
Ino estava de oito meses, Gaara a achava cada dia mais linda, mais inspiradora e mais feliz, o que pra si significava felicidade também. Os dois nunca mais brigaram, quando discutiam, seria sobre a cor dos lençóis do bebê, ou se teriam carne ou frango no jantar, o que sempre terminava em um beijo apaixonado e quente que deixava a ambos sem fôlego.
Enquanto cavalgava, ele só sentia orgulho de tudo, se sentia muito bem, e aprendeu que nenhuma tirania persiste, porque não é com ódio que se governa, que se aproxima, que se sente, e sim com amor, o amor que descobriu ser capaz de sentir e não ser mais fraco por isso.
Apesar de aparentemente tudo estar bem, Gaara sabia que não era bem assim, as mudanças cobram seu preço, e quem faz escolhas, faz também renúncias.
Havia uma suspeita de conspiração dentro da vila, alguns estrangeiros queriam ali se instalar, Gaara ofereceu outra parte de seu império, nas proximidades do Oasis, como a sua vila de comércio mais forte, onde Sheiky e Laica haviam concebido seu filhote, mas eles tomaram aquilo como desrespeito, e resolveram se vingar, armando um plano na surdina.
Naquela noite, Gaara tinha uma reunião no centro da vila, lá eles se reunião e discutiam as tomadas de decisão em conjunto, o ruivo decidira que ouvir seu povo e os ter por perto os fazia mais produtivos e tornava a vida das pessoas melhor.
Todos seus amigos e aliados, Temari, Shikamaru, Naruto e e Kankuro estavam em outras funções, assim ele tinha de ir sozinho, normalmente eles o ajudavam a comandar as coisas e já começavam os planos para cada área de desenvolvimento da cidade, mas se tinha de ir sem eles tudo bem, ainda era imperador e gostava disso.
Antes de sair de casa, Ino foi se despedir.
—Tem certeza de que não quer que eu vá?
—Não precisa, você pode descansar.
—Se eu descansar mais vou virar uma múmia paralitica, estou cansada de ficar quieta.
—Bom, se quer tanto vir, então venha.
—Ainda acho que deveria mandar outra pessoa, você já resolveu ir separando seus poderes para poder organizar melhor as coisas, se for será o velho imperador.
—Nunca mais serei o velho imperador, sou um novo imperador, e de qualquer forma, é bom para verem que as coisas estão diferentes, e não há mais ninguém que possa ir.
—Não sei, não gosto muito disso, alguma coisa parece errada.
—Não seja boba Ino, o que pode haver de errado nessa reunião?
Ela não disse mais nada, apenas se arrumou e foi junto com Gaara.
A reunião foi tranquila, algumas coisas foram decididas, novas leias foram passadas e tudo parecia que seria perfeito, mas se Gaara não tivesse tão tranquilo, se ainda guardasse apenas um pouco de seus instintos que pensou não precisar mais, teria percebido uma movimentação estranha, logo não teria sido atacado de surpresa, mas como estava distraído uma espada lhe atravessou o peito.
Ele caiu e Ino se virou para ele, vendo o sangue jorrar no mesmo instante.
Alguns guerreiros estavam por lá, um deles tomou a espada e conseguiu pegar o que desferiu o golpe, outro pegou os dois comparsas, mas isso passou despercebido a Ino, ela só fazia chorar, desesperada pedindo ajuda.
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Um lugar vazio, todo branco, era isso que via. Não havia nada, não havia ninguém, só aquele vazio branco e iluminado. Olhou a sua volta, parecia que aquilo era infinito, olhou para si, mas parecia que não se via, era um corpo infantil.
—Você já foi uma criança pura...
Aquela voz... Poderia conhecer aquela voz em qualquer lugar do mundo.
—Gaara, você acredita que já foi puro, não é?
—Onde você está? –Gaara perguntou olhando em volta.
—Ainda quer me ver? –ele sentiu aquele sorriso desdenhoso.
Ele ficou quieto, pensando, jamais quis pôr os olhos nele de novo, mas o que estava acontecendo? Onde estava? Tinha várias perguntas e ele parecia ser o único por ali.
—Ou prefere ver Ela. –ele disse dando ênfase a última palavra.
—Meu filho... –a voz mudou, era a voz acalentadora que sentira falta por muito tempo, mas agora parecia que era terrível.
—Mãe...
Ele ficou perdido, aquele branco, aquela luz, tudo parecia confuso.
—O que está havendo?
—Não se lembra da reunião, Gaara? –uma voz desconhecida e infantil se fez presente.
Ele forçou a mente, se lembrou dos olhos de Ino despejando lágrimas, ficou aflito. O seu corpo perdia sangue, seu peito doía, e ele pedia perdão por tudo o que fizera em seus pensamentos.
—Eu morri?
—Não exatamente. Você está em coma, mas nós viemos te buscar, agora escolha um de nós. –disseram as três vozes juntas.
Ele queria que os três aparecessem agora, tinha muitas perguntas, tinha várias dúvidas, os três pareciam ser importantes.
—Apenas um Gaara, então escolha bem.
Ele sentiu a cabeça rodar por alguns momentos, estava se sentindo zonzo, perdido, meio bobo, então caiu de joelhos e as palavras vieram de sua boca.
—Pai, eu quero que você venha.
Tudo se apagou, uma fumaça densa tomou conta de tudo, um redemoinho parecia se formar, e o vento o despenteava e o deixava cego, até que tudo se acalmou e voltou a ficar branco, apenas com resquícios da fumaça que se fizeram, e de diante de si estava a figura de seu pai.
—Aqui estou Gaara. Venho para te buscar, mas antes de partir, vamos rever sua vida e descobrir se ainda tem assuntos inacabados.
—Antes disso, tenho uma pergunta?
—Se puder, eu responderei.
—De quem era a terceira voz?
—Já não se lembra mais de quando era criança.
—Aquele era eu?
—Sim Gaara, aquele ERA você.
—Eu não entendo.
—Venha comigo, vamos fazer uma pequena viagem.
—Não quer me perguntar nada?
—Não há nada que eu não saiba sobre você.
—Nem mesmo por que te escolhi?
Ele deu seu sorriso de escárnio bem no canto dos lábios.
—Você já devia saber, jamais saí de sua vida, sei tudo sobre você.
Gaara então não viu mais nada, outra fumaça, outro redemoinho e tudo se perdeu, ele sentiu ser levado sem controle por uma corrente forte de vento, mas não sentia dor, medo, frio e nem nada, apenas era carregado ao acaso sem saber pra onde e como ia.
Ele achava que tinha os olhos abertos, mas não podia ver nada, tudo estava escuro, tudo estava apagado, ele queria ver, mas não podia, queria saber o que estava havendo, mas não conseguia e assim foi por um bom tempo, até que ele ficou de pé e abriu os olhos, vendo o jardim da mansão Sabaku, mas o jardim antigo, da época em que sua mãe cuidava dele e não era tão grandioso e vivo.
Ele olhou em volta, poucas tendas em volta do palácio, o estábulo bem menor, o cheiro de terra molhada e uma garoa fina como Gaara não costumava ver pelo deserto, só acontecia ali, naquele Oasis, e era um espetáculo muito bonito, o arco Iris parecia terminar bem acima deles, coisa rara de se ter.
—Foi aqui que você nasceu, nesse dia Gaara. –ele viu seu pai se aproximar dele, e então se deu conta que não era mais uma criança, era apenas ele, com seus belos vinte e três anos. –Vê aquela janela, sua mãe está dando à luz a você neste instante.
—E onde você está?
—Em uma guerra. Fui convocado dois dias antes, deixei sua mãe sozinha, dando à luz ao meu terceiro filho, rezando pra que fosse um menino.
—Desde quando você reza?
Ele sorriu de canto.
—Venha, quero lhe mostrar uma coisa.
Os dois caminharam passando pelo jardim e pararam nos estábulos, Temari e Shikamaru discutiam ali.
—Me solta sua fedelha.
—Se me chamar assim eu vou te bater.
Os dois se engalfinhavam, e mal falavam pela pouca idade que tinham.
—Fedelha e fedelha. –ele disse e começou a rir.
—Para de falar assim com ela. –Kankuro enrolava todas as palavras, era apenas um pouco mais que um bebê.
Os três discutiam e brigavam, a presença dos outros dois era imperceptível.
—Foi aqui que tudo começou Gaara, foi aqui que seu destino foi selado.
—Mas eu não entendo, eles são só crianças, eu estou ainda dentro da minha mãe, como pode?
—Você nasceu com um propósito, assim como seus irmãos, o problema é que você já nasceu em uma dor, a da sua mãe em me ver partir sem a promessa de volta, e por eu já ter programado como iria criá-lo.
—Já tinha programado como me tornaria seu monstro.
—Não Gaara, e é por isso que estamos aqui, você vai descobrir a verdade por trás de tudo, finalmente vai entender tudo.
—Mas eu já sei de tudo.
—Não, não sabe. Sabe por que nunca me casei de novo se queria tanto um herdeiro? Por que me tornei como eu fui? Sabe por que você se tornou o que você era?
—Eu pensei...
—Gaara, tudo está interligado e agora é sua hora de entender isso. Venha, essa viagem é sua...
Tudo ficou escuro de novo e ele foi levado, sem olhar para trás.
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