Imperador de Areia
32 Capítulo 32 - Spes
Notas iniciais
Ino ficou parada no porão, mas não chorava mais, estava muito irritada, com muita raiva e louca pra poder por fim aquela tortura que estava sofrendo há quase um ano.
A loira colocou a mão sobre o ventre e respirou fundo.
“Ele não vai lhe fazer mal, eu juro pela minha vida. Vou te deixar longe das mãos e das ideias malucas desse tirano, canalha!”
Ela olhou em volta e viu que não havia janelas como no sótão, o lugar era grande, ocupava toda a base do palácio e não havia nada por ali, absolutamente nada, mas teria de haver uma forma de escapar, não ficaria mais sob o mesmo teto que Gaara e nem deixaria ele saber sobre o filho, não iria deixar aquela maldição da família Sabaku cair sobre ele, apesar de Temari e Kankuro terem lhe salvo a vida do filho.
Sem saber por quanto tempo ficou pensando e tentando imaginar uma saída, Ino viu Hinata descer as escadas com uma bandeja na mão e com passos leves.
—Hina!
—Vou ter que voltar rápido, só vim a pedido da Temari lhe trazer isso, Gaara está uma fera, ela está o distraindo, mas você não pode ficar sem comer.
—Hinata, me escuta, eu não preciso de comida, preciso é sair daqui, vocês tem que me ajudar.
—O que? Não, isso é loucura.
—Loucura é deixar meu filho sob as vistas dele.
—Ino, eu não posso eu... –a morena deu dois passos pra trás.
—Hinata, por favor, eu não posso continuar aqui.
A morena viu o sangue seco no rosto da loira, sentia pena, sentia medo, sentia um misto de coisas, mas não sabia o que fazer.
—Por favor, Hina, por favor, não me deixe...
—Ele me mata se descobrir que te ajudei a fugir, eu não consigo. –disse a morena se afastando mais.
—Hinata eu só posso contar com vocês que estão do meu lado, eu não consigo sair daqui sozinha, e tenho que...
— Não Ino, eu não consigo. –disse Hinata deixando algumas lágrimas caírem e saiu dali correndo.
Ino suspirou, Hinata com certeza não conseguiria lhe ajudar, e até tinha de compreender, Gaara passaria por cima dela como uma tempestade enfurecida e não sobraria nem vestígios da pequena, mas tinha que conseguir escapar, e com certeza os irmãos de Gaara não iriam conseguir a tirar de lá, ele ficaria muito vigilante em relação a eles, e Shikmaru então... Teria de dar seu jeito, conseguir escapar sozinha, mesmo sem saber como o faria.
Mais tarde, ela havia comido um pouco, empurrando goela a baixo, porque sabia que seu filho precisava, do contrario não conseguira comer, mas ouviu barulho na porta, então deu um jeito de esconder a bandeja atrás de um pilar de madeira que sustentava o teto do lugar, em um canto mais escuro e ficou perto das escadas.
Ela suspirou de alivio ao ver Kankuro.
—Como você está?
—Como acha que estou?
—Gaara saiu, mas tem quatro guardas da confiança dele pela casa, não posso te tirar daqui.
—Eu já imaginava que ele faria algo assim... –ela suspirou cansada.
—Não se preocupe, vamos falar com ele, só dê algum tempo pra ele recobrar o juízo.
—Ele nunca vai conseguir isso, ele só enxerga aquele ódio maluco dele, jamais vai entender o quanto está sendo irracional e odioso, e enquanto ele continuar com a alma do pai dentro de si, nada vai mudar e eu acho que ele jamais vai se afastar disso.
—Talvez se ele soubesse do filho e...
—Não, nunca. Gaara jamais saberá que eu estou grávida, jamais.
—Ino você não...
—Chega de me dizerem não, chega de decidirem minha vida, chega de me tratarem como uma ninguém, eu vou fazer meu destino e não importa como, eu vou sair daqui.
Kankuro suspirou, jamais vira alguém tão segura de alguma coisa, pena que não conseguia acreditar nas palavras dela, Ino havia tido seu destino selado quando era apenas um pequeno bebê, sua vida nunca lhe pertencera de fato.
—Fique calma, tente permanecer assim, firme, isso vai ajudar as coisas passarem, assim que eu conseguir venho lhe ver de novo. –ele deu um beijo no rosto dela e saiu.
Quando o moreno fechou a porta, Ino reparou que ela tinha uma tranca especial, a porta só abria por fora se acionada assim, tinha que fazer uma leve pressão pra fechá-la e se Gaara a trancara ali, só ele teria a chave, mas como conseguiam ir vê-la?
A noite foi longa, ela dormia um sono agitado de sonhos espaçados e muito movimentado, e quando abriram a porta do porão deixando o sol entrar, acertando seu rosto, ela acordou assustada.
—Aqui está, seu café da manhã e um pouco de água.
—Obrigada Temari.
—Sinto muito Ino, adoraria te ajudar.
—Eu sei, Kankuro me disse sobre os guardas, mas Temari, como conseguem entrar aqui?
—Há uma copia da chave com um guarda de Gaara, ele acaba deixando a gente passar, graças ao seu feito quanto à menina no dia da tempestade, mas como todos temem o imperador, ninguém vai deixar você sair.
—Entendi... Temari, pode pedir pro Nara vir aqui? Só falta eu ver ele, seria o último de quem tenho que me despedir.
Ela não entendeu o que aquilo quis dizer, mas concordou, nada que fizesse a loira seria o suficiente pra lhe agradecer e se redimir por tudo o que houve naquele tempo.
Mais tarde Shikamaru foi ver Ino, e lhe trouxe algumas gominhas (círculos de elástico feito de borracha).
—O que é isso?
—Um presente. –ele sorriu de canto. –As paredes dessa casa tem ouvidos Ino, mas você é uma garota esperta, sabe a que horas a casa dorme.
Ela ficou olhando pra ele inquisitiva, mas ele não disse mais nada, apenas lhe acariciou o rosto e lhe beijou a cabeça.
—Seja livre. –ele saiu em seguida.
A loira ficou pensando por muito tempo, ficou imaginando o que Shikamaru queria que ela fizesse com aquilo e o que as palavras dele significavam, mas não conseguia ter nenhuma ideia, cansada se deitou no chão frio e ficou quieta, tentando por a cabeça pra funcionar.
Muito tempo se passou e ela não saiu do lugar, ficou imóvel, olhando pra escada, mirando a fechadura da porta e como o sol era delicioso lá fora.
Ela viu o trinco mexer e alguém empurrar a porta, quando ela viu Gaara no topo da escada seu corpo todo tremeu e ela se encolheu no chão.
O ruivo ficou parado no topo da escada por um bom tempo, a observava em silêncio, seu rosto sério, sem expressão, o olhar frio e distante, apenas sobre o corpo inerte dela, mas por dentro ele parecia um vulcão, com o sangue fervendo nas veias.
Ela nem picava, estava toda encolhida contra o chão frio e duro, a roupa constituída de uma bata vermelha larga, uma calça preta contornando as pernas dela e sapatilhas vermelhas, estava toda suja e amassada, os cabelos dela presos em um rabo de cavalo estavam meio caídos sobre seu rosto e os olhos dela mais apagados do que nunca, tudo isso fazia sua mão arder e doer ainda mais.
Gaara se arrependia do que havia feito, mais ainda sentia raiva quando pensava no que acontecera. Ino com Kankuro, depois lhe desafiando, falando sobre sua mãe... Ah como era terrível aquilo!
O coração dele sangrava muito, o remorcio existia, mas tudo parecia sem efeito a cada vez que ele via o modo como ela falava com ele e nas palavras que usava. Pensou no começo da conversa dela, nas ideias que lhe tomaram a cabeça naquele momento, o desespero terrível que imaginar ela o deixando lhe causava, se ouvisse que ela não mais o amava estaria morto de fato, então era melhor não deixar ela falar, era melhor a prender perto dele, se a perdesse... Não iria acontecer isso, tinha que tê-la do seu lado, em um sentimento de posse insano, ele reconhecia, mas uma posse que não poderia abdicar, porque sem ela perderia tudo o que já teve de bom na vida, mesmo que jamais voltasse a ter, porque estava sempre preso ao passado.
Ele engoliu a seco todo aquele sentimento egoísta e ingrato e depois deu as costas pra ela, voltando a abrir a porta, mas então ouviu um barulho, era ela que se erguia de vagar, ele encarava ela agora, sentia um frio na barriga, e ela se aproximava, degrau por degrau.
O coração dele palpitava dentro do peito, toda vez era a mesma coisa, mas ele se sentiu um lixo quando viu o belo rosto dela todo marcado tão de perto, jamais poderia se redimir diante dela, jamais apagaria todas as marcas que causara nela.
—Feliz? –ela indagou bem próximo dele.
—Ainda não. –ele não mentiu, mas não daria maiores explicações.
—O que falta agora? Me estuprar de novo? –ela disse ainda mais perto dele.
Ele não respondeu.
—O que foi, senhor imperador, onde está sua voz fria de comando que gosta de fazer os outros tremerem? –ela estava tão próxima, com o olhar tão frio que ele sentiu a respiração dela contra sua face e sua alma gelar sob aquele olhar profundo.
—Você nunca vai aprender a se manter no seu lugar, não é?
—Bom, meu lugar é do seu lado, ao que parece, estamos de lados opostos, a começar por essa porta. –ela bateu a mão na fechadura, ao lado do corpo dele, mas ele não olhou, apenas continuou olhando pra ela.
—Seria esse o seu lugar, se soubesse como se comportar nele. Agora fique ai e durma, quem sabe assim fica mais lúcida?
Ela não disse nada, ele fez sinal a se retirar, então ela deu um passo largo pra trás, ele abriu a porta e saiu, mas antes de trancá-la, Ino puxou um grampo do cabelo e prendeu a gominha que colocou na fechadura e segurou firme a maçaneta, e outro grampo colocou na fechadura.
Ela ouviu os paços dele se afastando, e a voz firme dizendo alguma coisa a outro homem que respondeu em voz grossa, mas não entendeu o que ele dizia.
Quando sentiu que ele já estaria bem longe, continuou a segurar a gominha, prendendo o grampo deste ao outro na fechadura e desceu as escadas correndo, pegou um grafo que haviam lhe trazido pra comer e subiu as escadas de novo.
A porta só fechava por fora, com o grampo na tranca, Gaara não conseguira girar a chave a ponto de trancar a porta, mas não percebera porque está girara em falso apenas no inicio do tambor, e com a gominha, tinha segurado a fechadura aberta, a pressão não iria fechar a porta de forma automática como estava sendo programada no momento. Com o garfo ela empurrou a lingueta do trinco e este se afastou, ela puxou a porta com força e esta cedeu, ficando entre aberta.
Ino olhou pela fresta agradecendo a Deus por ter Shikamaru e seu pai na vida, aprendera muitas coisas com o segundo e o primeiro havia lhe dado os instrumentos necessários.
Dois guardas estavam conversando um pouco a frente na porta, então ela encostou esta e ficou segurando, pra que pensassem que ela estava fechada e pela janela, que ela conseguiu ver dali, a noite começava a cair, logo todos estariam deitados e os guardas vulneráveis.
Ino jamais sentira que as horas haviam demorado tanto pra passar, ela estava aflita, nervosa, queria sair dali o quanto antes, mas teria de ter mais um pouco de paciência.
Tempos depois apenas um guarda ficou de vigia, mas este estava distraído com uma revista masculina e Ino deu graças pelos homens serem tão manipuláveis, então abriu apenas uma fresta da porta e saiu engatinhando, fechando-a em seguida, e se escondendo atrás de uma mesa, e ficou ali, esperando uma brecha.
O guarda deve ter se empolgado bastante, porque logo foi ao banheiro, a testa molhada de suor e os lábios se movendo em qualquer coisa sem nexo, ela aproveitou e foi ajoelhada até a cozinha, ali estava tudo sossegado, então ela passou pros estábulos. Olhou pra Laica, fazia um mês que ela havia dado a cria, depois do parto muito difícil, o potrinho dormindo calmo ao lado da mãe, já recuperado e saudável, ela se sentiu mal de pegar a égua, não sabia como ela estava de fato, mas Laica pareceu perceber, pois relinchou se pondo na frente dela que saia da baia.
—Não, psiu, fica quietinha, por favor. –ela acariciou o animal. –Eu tenho que ir Laica, mas você vai ficar bem com seu filhote.
A égua não concordava, mexia a cabeça e se aproximava dela, pondo a cabeça em seu ombro.
—Laica, por favor, eu não posso levar você e seu filhote.
Laica se mexeu de novo e se movimentava contra a baia de Sheiky ao lado da sua.
—Laica, eu... –a égua voltou a relinchar. –Está bem, está bem, você vem comigo. Sheiky vai cuidar do potrinho... –ela acariciou o pequeno animal e pensou em um nome pra ele. –Spes... É assim que vou chamá-lo. –ela sorriu.
Ino preparou Laica e foi puxando ela pelo arreio de vagar, caminhando lentamente, pelos fundos do palácio e pelo lado mais distante da vila, e foi saindo de vagar, quando estava aos portões do lugar ela pôs a mão sobre a barriga e montou a égua.
“Está na hora.”
Ela olhou pra trás, se lembrou de quando chegou ali, sendo carregada por Gaara, e depois olhou pro céu, viu a estrela guia que seu pai sempre lhe mostrava a noite e dizia que sempre a levaria pra casa e respirou fundo, estava na hora de deixar aquele terror pra trás.
Ela bateu os pés a baixo das costelas de Laica e a égua foi galopando contra o vento frio da noite do deserto, mas o coração de Ino estava tão quente de esperança que nada mais importava, e nada a impediria, pela primeira vez na vida se sentia livre.
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