Imperador de Areia
38 Capítulo 38 - Recompensa
Notas iniciais
Gaara parou no dia que seu pai matava sua mãe, aquela cena terrível que se repetiu inúmeras vezes em seus sonhos estava ali, diante dele de novo, e era terrível como todas as outras vezes.
—Eu não iria matá-la, eu a amava com toda minha alma, a amava desde o primeiro momento que a vi e jamais poderia por fim a vida dela, mas então fiquei cego pelo ódio, ela havia me traído, eu sabia, eu sentia que esse era o plano dela, mas não acreditava que ela seria capaz de concretizá-lo, porque ela me amava também.
—Que amor era esse? Você era um monstro, ela uma louca, vocês...
—Quando me casei Gaara, sua mãe era o ser mais dócil do planeta, mas era também a mais interesseira. Ela queria dinheiro, riquezas, poder, e eu tinha um belo exército, a família Sabaku sempre fora guerreira, sempre conseguira poder e eu usei isso pra chamar a atenção dela, mas nunca era o suficiente pra ela. Se a culpo? Não, ela foi corrompida pela família dela, ela também tem sua história, mas o que importa era que eu fui criando o habito de beber, e acabei doente, doente de verdade, como você ficou quando Ino chegou. Sua mãe não cuidou de mim, ela me deixou lá, ela estava mais ocupada em preparar um banquete. Eu naquele dia comecei a nutrir um o ódio que deixei de herança pra você, e ele só foi crescendo, até que bati nela pela primeira vez, foi a melhor sensação em muito tempo, achei que ela fosse ficar brava, mas não, ela sentiu medo e eu adorei aquele poder, pela primeira vez eu a comandava, eu não era tolo por amá-la.
—Foi a mesma sensação que tive quando bati na Ino pela primeira vez....
—Sim, o ódio nos deixa crentes nesse poder e assim batia nela cada vez que precisava dessa sensação, e assim fui matando o amor dela por mim. O problema piorou quando tivemos nossos filhos. Temari uma mulher, Kankuro homossexual, me restava apenas você. Queria alguém que não fosse pisado e nem corrompido e descobri em seu jeito, no seu olhar, o mesmo que eu via quando me olhava no espelho, eu também podia fazer você sentir ódio.
—Usou minha mãe pra provocar o mesmo em mim.
—Bom, mais ou menos. Ela me disse, assim que descobriu que estava grávida de você, que não queria ter outro filho, não queria outro descendente meu, eu pensei na hipótese, mas se ela não queria eu faria o contrário, e por isso insisti que você nascesse, ela descobriu que você era o mais carinhoso dos três com ela, o que acreditava nela acima de qualquer outra coisa, então se apegou a você, vi que eu tinha errado no castigo, então iria te destruir por isso, decide isso quando você tinha nove anos, por isso aquele presente de aniversário.
—Sempre fui só um objeto nas mãos de vocês.
—Era sim, mas sabe qual era o problema? Cada vez que olhava pra Temari eu via aquela determinação viva, via aquele coração valente, cada vez que olhava pra Kankuro via um ser alegre, desafiador, e cada vez que olhava pra você eu via sabedoria e bondade e isso me matava, eu devia usar e manipular vocês, mas eu os amava. Cada vez que bati, que ameacei, que usei, eu me sentia péssimo, me doía de mais, era pior pra mim do que pra vocês, passei a me auto-flagelar muitas vezes pra poder esquecer o que fazia a vocês. Eu me arrependia de cada ato, mas estava disposto a fazer tudo e qualquer coisa afim de fazer o que eu achava que era correto e o correto era fazer de vocês guerreiros incansáveis e insensíveis.
—Nós queríamos tanto ter um pai que gostasse de nós, mas você só fazia nos odiar.
—Não, eu não os odiava, nem por um segundo, nem a vocês e nem a sua mãe, por isso nunca me casei de novo, eu só conseguia estar com uma mulher.
—Você poderia ter nos amado ao invés de nos odiar, poderia ter tido a gente por perto ao invés de nos afastar, poderia...
—Sim, eu poderia várias coisas, poderia ter feito tudo diferente, mas eu não fiz. Escolhi o caminho errado e os perdi.
Eles foram levados pela brisa e pela fumaça novamente e voltaram ao lugar vazio e branco.
—Entende Gaara? Eu nunca quis os ferir.
—Mas o fez, eu não entendo, porque nunca mudou?
—Porque sendo como eu era trilhava mais fácil o caminho ao meu objetivo. Ah Gaara, se pudesse sentir como eu sofria por tudo aquilo, como eu sentia por fazer sua mãe sofrer. Eu queria ser diferente, mas não tinha forças pra ir pelo caminho mais difícil. Enquanto me odiassem fariam o que eu mandava, por medo, se tentasse que me amassem, podia não conseguir e não fariam o que eu queria. Mas não sou de todo esse monstro. Fiz o contrato separando Temari e Shikamaru, mas o fiz sabendo que você o quebraria cedo ou trade. Os Hyuugas iriam te procurar ora ou outra pra isso, era o combinado, mas antes eu tinha que por eles a prova, Temari merecia ser feliz, ser amada, mas tinha de ser forte, ou não duraria nos campos de batalha e depois, sem o devido tempo, Shikmaru jamais se tornaria do exército, jamais se consagraria como o gênio que é e ela teria sempre duvidas se devia ou não ficar com ele porque pensaria na vida dos pais cada vez que eles brigassem, isso os enfraqueceria.
—Quer me convencer que tudo tinha um motivo pra ser?
—Te convencer não, não tem que acreditar em nada, mas eu não tenho motivos pra mentir e eu não o faria em um momento como esse, então sim, tudo o que fiz tinha um motivo. Pra você ver, Kankuro jamais assumiria quem ele era se ficasse na vila, ainda mais sendo tão conservadora. Se continuasse como o imperador de areia, nem você iria aceitá-lo, então ele também precisava se fortalecer, precisava se descobrir, e de tempo, pra que tudo estivesse pronto pra sua volta.
—Nunca pensou que seria mais fácil ter deixado tudo pronto? Ter mudado tudo ao invés de fazer eles mudarem?
—Você revolucionou tudo, eu apenas continuei o que meu pai deixou, e o que todos deixaram antes dele, agora você Gaara, você é o verdadeiro imperador da areia, você descobriu o modo certo de ser líder, de cuidar da família e uma maneira de não ter que ser temido.
—Eu só consegui isso graças a Ino.
—Isso, e chegamos ao motivo por ter me escolhido, você quer saber por que a escolhi pra você e eu respondo, porque eu sabia que ela seria a única capaz de mudar você quando chegasse a hora. Desde o primeiro momento que vi aquele pequeno ser nos braços da mãe dela, com aqueles olhos brilhantes, completamente profundos, e que não se retraiu a minha aproximação, eu soube que seria a garota certa. Ela não teria medo de você, o tocaria por dentro e quebraria sua carcaça de areia.
—Eu não sei se consigo aceitar tudo isso, todo o mal que sofremos por sua causa e por...
—Você não tem que mudar sua forma de pensar, eu fui sim um demônio, um completo e total monstro, mas Gaara, nunca deixei de amar vocês mesmo assim. Tudo o que fiz teve uma razão, meio torta é verdade, mas teve, e eu queria a proteção de vocês, queria a felicidade de vocês, e você não deve odiar sua mãe também, ela foi vitima dos pais, de mim e do sentimento humano de cobiça que às vezes não é possível controlar, e ela os ama, da forma torta dela, mas os ama, por isso ela ainda tentou lhes proteger, só não teve a mesma coragem da Ino.
—Ino... Meu filho...
—Os dois ficaram bem Gaara, mas não será um menino, será uma menina, sua única filha, e a próxima imperatriz de fato e direito de Suna.
—Quer dizer que...
—Sim, o fruto do amor será uma bela mulher, que fará justiça em nosso nome e limpara toda nossa linhagem. Uma bela garota que vai descobrir o amor cedo, mas vai demorar a se entregar a ele. Uma menina que vai fazer desse império o maior de todos os tempos e marcara o mundo com seu nome e de seus pais.
—Eu queria tanto vê-la, abraçá-la, beijá-la...
—Não é fácil se desprender, por isso agora vamos medir sua vida.
Eles foram arrastados pelo tempo e Gaara viu Ino deitada na cama, sua barriga grande, lendo um livro calmamente.
—Você deixou todo o império no caminho certo. Ino e Temari vão saber controlar tudo até que sua filha assuma, e será graças aquele projeto de lei que você deixou guardado no seu escritório e será achado daqui a um tempo, então problema império, resolvido, não há assuntos inacabados. Seus irmãos foram salvos graças a você. Temari será mãe de uma menina também e depois de um menino, um será comandante do nosso exército o outro será médico e fará o império prosperar mais. Kankuro vai ter um romance com Sai, ele vai adotar algumas crianças órfãs, então esse assunto também não tem pendências. Hianta e Naruto serão muito felizes, vão viver aqui até o fim de suas vidas, terão dois filhos, dois meninos, e vão ser muito importantes no comercio e nas invenções, o que resolve todo esse problema, e assim resta apenas...
—Ino...
—Sim Gaara, e sabe, você tem amado ela tanto, tem sido tão feliz, que não há mais nada que vá ser maior e melhor do que isso, e por tanto...
—Não há assuntos inacabados. –ele suspirou.
—Você é muito jovem, é verdade, mas Gaara, você apreendeu tudo o que tinha de apreender sobre a terra, agora tem que apenas se desprender dela.
Gaara ficou olhando pra Ino, ficou imaginando como devia ser difícil continuar daquela forma, sendo um fantasma que não podia ser visto e que jamais teria paz, e nem daria paz, e por mais difícil que fosse ir embora, seu pai tinha razão, ele havia amado e sido amado, havia sido bom e ruim, aprendido várias coisas, mas o mais importante, ele fizera algo que mudara tudo pra sempre em todas as áreas da sua vida.
—Eu tenho mesmo que escolher?
—Sim, deve escolher o resto de sua eternidade.
—Posso fazer só mais uma pergunta?
—Claro.
—Qual o nome que perdurara como de minha filha?
—Mira, ela se chamara Mira.
Gaara sorriu satisfeito, gostava daquele som, e havia ganho mais uma vez, sua filha teria o nome que escolhera ao por do sol com Ino, no dia que ela lhe contara da gravidez.
—Eu vou com você pai. Estou pronto. Elas merecem ser livres e terem paz, e depois, sei que Deus está olhando por elas.
—As ama a ponto de confiá-las a Deus e deixá-las livre?
—Sim, eu as amo.
O pai dele sorriu, desta vez não era em escárnio, era um sorriso lindo, aberto, ele estava relaxado, aprecia uma pessoa muito diferente.
—Sabia escolha meu filho amado.
E então tudo se apagou de novo.
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Suas mãos estavam à altura de seus olhos, sua boca estava seca, mas ele podia sentir o coração dentro do peito bater forte, olhou em volta, era o seu quarto, o quarto que dividia com sua esposa, não entendeu nada, achou que a esta altura estaria no inferno, deixando tudo pra trás por amor, mas então viu um lírio rosa sobre a cama, bem ao seu lado, e em sua mente uma voz ressoou:
—Você nos ensinou o verdadeiro amor, está é sua recompensa, seja feliz ao lado delas.
Ele sentiu uma brisa quente contra o rosto, como se lhe afagasse, e Gaara ficou ainda mais confuso, será que estava louco? Não, a flor não deixava mentir, a flor favorita de sua mãe era um sinal, então toda aquela experiência tinha sido verdadeira?
—Gaara... –ele foi tirando de seus devaneios ao ver Ino parada na porta de seu quarto.
—Ino!
Ele se levantou da cama e correu até ela, lhe abraçando forte.
—Ino, eu te amo, eu te amo muito.
—Eu também te amo. Me passou um susto terrível.
—Eu sei, não deve ter sido fácil me ver ensangüentado depois...
—Ham? Você só caiu e bateu a cabeça, disse que não podia dormir, mas você não me ouviu.
—Como? Eu não estava desmaiado?
—Estava, mas foi porque foi descer do palanque da reunião e caiu, batendo a cabeça, não se lembra?
Ele ficou confuso, será que tinha sido realmente apenas um sonho?
—Acho que estava sonhando. Sonhei que alguém havia me apunhalado com uma espada e eu me feri muito...
—Que horror. Se isso fosse verdade eu teria tido um ataque do coração, não poderia viver sem você.
Ele ficou quieto, abraçado a ela, e não soube dizer o que era real e o que era fantasia, apenas se deixou levar naquele abraço, enquanto segurava o lírio rosa.
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—É uma menina Gaara, uma linda e preciosa menina. –disse Temari depois de ter ajudado a cunhada no parto.
—Minha nossa, eu preciso vê-la. –ele foi correndo até o quarto.
Ino estava fraca, deitada sobre a cama, e segurava a pequena menina nos braços, olhando pra ela com um sorriso lindo no rosto, sendo amparada por sua mãe.
—Ela não é linda?
—Sim, ela é. Minha nossa, é tão pequena. –ele sorriu.
—Sim, nossa pequena e doce Mira.
—Deu a ela o nome que escolhi?
—Achei que seria o mais apropriado, afinal, será a sua descendente.
—Sim Ino, ela será a nova imperatriz da areia.
—Mais ela é uma menina...
—Exatamente. Ela foi concebida pra que fosse a mudança e a transformação deste lugar, então assim será em tudo. Mas até lá, teremos muito tempo pra ensiná-la a governar com amor.
Ino sorriu, nunca imaginou que pudesse ser tão feliz na vida, e então beijou seu marido, o único homem de sua vida, que lhe ensinou a sentir tudo, mas principalmente o amor.
Gaara também sorriu ao findar o beijo, aquela sua família, sua alegria, e apenas elas eram capazes de o tornar melhor. Daquele momento pra sempre, a linhagem Sabaku foi transformada e o antes imperador de areia, agora era um homem de amor sobre um deserto cheio de vida.
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