Imperador de Areia
33 Capítulo 33 - Redescobrindo o passado
Notas iniciais
—Gaara... –disse Temari com a voz tremula. –Tenho uma noticia...
O irmão ergueu os olhos para loira parada a porta de seu quarto enquanto ele terminava de vestir a camisa, e algo no olhar dela fez seu coração parar. Ino!
—O que foi Temari?
—Ino fugiu.
—Ela o que? –ele não terminou de abotoar a camisa e foi correndo escada a baixo, em direção ao porão, mas nem sinal da loira.
—Como ela conseguiu sair?
—Eu não sei, não faço nenhuma idéia.
O ruivo bufava, mas desta vez não era ódio, era medo, Ino não conseguiria sair do deserto, poderia ter se perdido pra sempre, como pudera ser tão imbecil a ponto de não prever que algo assim iria acontecer? Ela não era burra e todos eram capazes de fazer vista grossa a ela.
—Ela não levou nada? –ele indagou indo à sala.
—Laica não está nos estábulos, mas o filhote ficou. –disse Shikamaru adentrando o aposento.
—Onde será que aquela inconseqüente se meteu?
—Em algum lugar que seu ódio não possa lhe fazer mal. –disse Kankuro se aproximando, descendo as escadas.
—Isso é tudo culpa sua, aposto que foi você que a colocou perdida por ai nesse deserto terrível, seu cretino, idiota. –o ruivo avançou contra Kankuro, o segurando pela gola da blusa.
Shikmaru se colocou no meio, tentando tirar as mãos sanguinárias do imperador de cima do irmão.
—Culpa minha? Você foi capaz de destruir tudo o que aquela menina sentia por você e a troco de que? Eu não sei como ela fez pra fugir, eu não conseguiria ajudá-la com a sua obsessão maluca, mas se quer saber, nenhum destino é pior pra ela do que ficar com você.
—Isso porque você a quer pra você, não é seu idiota?
—Tá maluco Gaara? Eu nunca olharia pra ela diferente do que olho pra Temari, pelo amor de Deus. –os dois se engalfinhavam e Shikamaru não conseguia contê-los sozinhos.
—Parem já com isso. –disse Temari pondo a espada no meio deles, os assustando e fazendo Shikamaru conseguir separá-los. –Olhem só pra vocês. Vocês são irmãos, sempre confiaram um no outro, agora estão brigando por uma garota que precisa de ajuda e estamos aqui perdendo tempo?
Gaara estava ofegante, assim como o seu irmão, mas Kankuro ainda conseguiu dizer:
—Não acredito que brigou com ela por ciúmes de mim, eu nem gosto de mulheres Gaara, você sabe disso, caralho. –ele disse com raiva.
—O que fazia no quarto dela então? Eu vi você saindo de lá.
—Ela estava passando mal Gaara, a Temari não estava em casa, a Hinata estava dormindo e não poderia ajudá-la, então pediu ajuda pra mim.
—Ela tinha a mim, sempre teve, nunca deixei ela passar por nada sem cuidar dela e...
—Ela estava com medo de você, seu imbecil, e com razão, passou tanto tempo a ferindo que ela ficou com medo das suas reações, e quando ela foi te pedir ajuda, quando foi falar com você, você bateu nela, a trancou naquele porão, achando que pode comandar a vida dela como se ela fosse a culpada pelos os seus erros.
—Ino perdeu a razão quando falou da nossa mãe, ela sabe que inventando coisas e falando dela eu perco a cabeça e...
—Quando você vai entender que nossa mãe não é santa Gaara? –falou Temari. A essa altura os três irmãos estavam aos berros.
—Você sempre amou nossa mãe e sempre foi o mais ligado a ela Gaara, mas a Tama está certa, você venera uma imagem que não existe.
—Não existe? Será que só eu lembro o que ela passou nessa casa? Será que só eu lembro o quanto ela teve de ser forte e suportar tudo? Será que...
—Será que só você não percebe o quanto ela era fraca? Ino agüentou tudo o que ela agüentou e como foi que a loira reagiu? Ela lutou Gaara, ela foi uma heroína de verdade, ao contrário da nossa mãe, que sempre se manteve de cabeça baixa e sob as ordens de nosso pai. –disse Temari.
—Para, você não sabe o que diz, você...
—Gaara, deixa de ser burro garoto, você não consegue entender nada do que lhe dizemos, nada. Mamãe era uma pessoa de bom coração, mas era fraca sim, era só uma mulher manipulável, por mais que doa admitir. Aquele cretino fez muito mal a ela, mas quando ela fez algo pra impedir? Se ela fosse só um pouquinho a verdadeira imperatriz que Ino é, ela jamais deixaria a gente passar o que passamos. Mamãe teve escolhas Gaara, poderia ter fugido como Ino fez, mas ela preferiu ficar e ser a vítima.
—Para! Para! Não é verdade, não é.
—Você se apegou a ela por medo, mas nunca conseguiu ver as coisas como elas realmente são. Nosso pai era sim um demônio, mas nossa mãe estava longe de ser uma mártir. Não se iluda mais, não tente pensar que Ino deveria ser como ela, porque se assim fosse você jamais conseguiria fazer você ser humano de novo, e apenas Ino pode fazer isso por você.
—Você magoou a única pessoa que te amou de verdade além de mim e da Tema.
—Minha mãe...
—Sua mãe nunca amou ninguém Gaara, ela não sabia o que era isso. -Kankuro dizia ressentido.
—Mentira.
—Mentira? Olhe bem pro nosso passado e diga, qual o ato de amor verdadeiro que ela teve por nós? Tudo o que ela fez e disse pra você era pra proteger a própria pele, sabia que enquanto ela fosse a sua protegida estaria viva Gaara, por isso papai sempre te ameaçou usando ela, sabia que ela preferia implorar pra que você realizasse a vontade dele a ter a vida ameaçada, enquanto o que Ino fez? Preferiu a própria morte a te fazer mal. -Disse Temari.
Gaara estava zonzo, aquilo tudo doía de mais, estava se sentindo perdido, estava começando a acreditar nos irmãos, mas não poderia acreditar, não poderia ter vivido uma mentira pela vida toda.
—Ino precisa de você, mas se for pra continuar sendo assim, é melhor deixar ela em paz. –disse Kankuro firme.
Gaara sentiu as pernas bambas e subiu pro seu quarto, se jogou na cama e ficou pensando em tudo, estava sentindo o coração esmigalhado, o corpo tremulo, tudo estava confuso e ele estava com medo, só podia pensar em Ino, imaginar como ela estaria, então soube que ela não se perderia no deserto, ela era a senhora dele, como ele era o seu senhor, Ino iria pra casa, e poderia ir atrás dela, mas lhe causar mais sofrimento?
Ele sabia de todo mal que fizera a ela, mas agora que estava longe, agora que não tinha mais posse e nem domínio sobre ela, sentia o quanto tudo aquele período de sua vida tinha sido insano, o quanto a ferira e ela tentou mudá-lo, tentou ser a esposa dele de verdade, mas ele não permitiu, seu ódio e orgulho foram mais forte, mais forte que todo o amor que ela despejava por ele, e ele não fora capaz de amá-la...
Ele era um ser frio, feito de areia, incapaz de amar alguém, certo? Certo. Então porque se sentia tão sozinho e despedaçado sem ela por perto? Porque sentia que uma parte de si tinha morrido? Aquela sensação era nova, nunca se sentira meio vivo, seu ódio lhe preenchia por completo, mas sem ela...
Ficou deitado até o entardecer, quando resolveu tomar um banho, precisava lavar a alma, mesmo que fosse impossível, agora se sentia ainda mais imundo, com o sangue dela manchando seu ser.
Tomou banho, na água gelada como sempre, e foi se vestir, entrou no closet, o perfume dela ali instalado, o aperto no coração e os olhos queimando, eram lágrimas? Ele engoliu cada uma delas e segurou a camisola roxa que ela usara na noite que haviam dormido juntos, a cheirou e deixou a seda percorrer seu rosto, macia como sua pele, perfumada como seu corpo, suave como sua presença, então sentiu saudades de lhe tocar, de lhe beijar, saudade de ser bom pra ela, saudade de ter alguém que acreditava em si.
Ele deixou a peça de lado e começou a mexer em algumas coisas da loira, tudo era muito vazio sem ela, mas guardava um pedacinho de si em cada objeto, até que encontrou um baú dourado por trás de uma gaveta, ele mesmo já guardara coisas naquele compartimento, mas se esquecera dele depois que ela se mudou pra lá. A maioria das coisas dela estava no outro quarto, enquanto outras continuavam ali, ela era a imperatriz, havia acumulado muitas coisas de valor, mas aquele baú não parecia dela, ela tinha coisas singelas e não um baú revestido de ouro com rubis na trava, e ele teve certeza de que não era dela ao ver uma grande fênix gravada sobre a tampa, com o brasão Sabaku ao centro, no entanto, jamais vira aquele objeto antes.
Destravou o baú e o abriu, dentro havia um caderno antigo, a capa de couro marrom com letras douradas gravando o nome de sua mãe, o que fez seu coração gelar, Ino lhe falara sobre um diário, poderia ser este?
Ele abriu o caderno e era a letra de sua mãe, um lírio rosa dentro, a flor favorita dela, sim, só poderia ser de sua mãe. Gaara ficou receoso, não queria ler aquilo, mas não poderia deixar de fazê-lo, tinha que descobrir a verdade, tinha de saber enfim se todos tinham razão e ele sempre fora muito cego, mesmo que custasse todo seu ser.
Ele se sentou no chão do closet revestido de carpete e encostou as costas largas na parede gélida, e abriu o caderno em uma parte aleatória e leu em voz alta:
—Mais uma vez ele me tomou a força, será que isso nunca vai ter fim? Porque temos que continuar esse teatro? Ele diz que gosta de sentir poder, mas é errado o querer também? Eu já amei esse homem, eu já o desejei por inteiro, porque continuar a fingir? Não sei mais o que dizer as crianças, Gaara fica triste, mas ele ainda é jovem pra entender, um dia verá que seu pai só gosta de jogar.
O ruivo ficou aturdido e passou mais algumas paginas, e continuou a ler:
—Hoje ele voltou de viagem, mais uma guerra, está muito ferido, bem feito pra ele, adoraria que ele morresse logo, que me deixasse em paz, só assim eu me sentiria bem. Quisera eu ter coragem de por fim a vida dele, um monstro assim não merece viver. Logo ele vai beber de novo e vai me bater, vai me castigar por odiá-lo, eu já não ligo mais, prefiro apanhar, assim todos ficam do meu lado e logo alguém fará o serviço que eu não posso fazer.
Jamais Ino desejou a morte de Gaara, por mais que ele merecesse, achou que com sua mãe era o mesmo, mas estava muito enganado, estava assustado, quem era sua mãe afinal?
—Estou farta desse martírio, mas ninguém parece se importar, a não ser Frederick, eu sei que ele me ama, tenho que deixar assim continuar, pra isso vou ter que embebedar aquele imperador irritante de novo, mais uns tapas e Frederick vai estar a minha mercê, terei todos os presentes que tanto mereço, mais agüentar outra sova é difícil, não sei como os meninos vão reagir, Kankuro está desconfiado, ele me viu conversar com Frederick, pode por tudo a perder.
—Temari é tão irritante, devia ficar longe do Nara de uma vez, ela se contenta com muito pouco, tenho que tomar alguma providencia e manter essa menina longe. –ele adiantou mais algumas paginas, a cada linha ficava mais chocado. –Talvez se eu sugerir algo ao meu “marido” ele possa fazer alguma coisa, não posso chegar na velhice dependendo de um limpador de cavalos, se bem que Gaara fará tudo o que eu mandar, ele está cada dia mais vulnerável, o treinamento pra imperador não é fácil, mas ao menos não será um molenga como os irmãos.
Ele foi mais para o fim do diário.
—Frederick vem me ver hoje, meu marido está de viagem, devo me entregar a ele hoje, ou nada poderei fazer depois. Não posso fugir como ele quer, mas não será difícil convencê-lo do que eu quero, ele já não vive sem mim. –ele passou mais uma pagina ou duas. –Não foi difícil me deitar com Frederick, ele é diferente, me tratou com carinho e não foi ruim, mas às vezes acho que meu marido é bem mais homem, vou sentir falta dele quando Gaara o matar por mim, falta bem pouco e depois farei de Frederick o novo imperador, e poderei banir essa raça desdenhosa dos Sabakus. Amanhã, bolarei o plano com meu amante, ele virá antes da chegada de meu marido, as crianças estarão em casa e se tudo sair como o planejado, deixarei Gaara com raiva, como seu pai o ensinou que deve sentir pra agir, e então tudo estará em seu lugar...
Depois disso não havia mais nada, a data era da noite anterior ao fatídico acontecimento em que Gaara matara seu pai, mas pelo visto sua mãe errou, ela não fora poupada, ou então, seu pai descobriu seu plano, mas fosse lá como fosse, a mulher que amara e defendera a vida toda era uma farsa, uma farsa muito pior que seus irmãos acreditavam, todos eram manipulados ali, ora por seu pai, ora por sua mãe e ele queria saber quem era Frederick, com certeza ele já estava velho e devia achar que deixou sua mãe ser vítima de algo que ela planejara, mas acabou dando errado.
Ele baixou a cabeça e se lembrou das palavras de Ino em seu escritório, se lembrou como ficou ao ver a honra de sua mãe sendo difamada, e ele ficou em brasa de ódio, porque fora usada por todo mundo a vida toda, mas a única que fora sincera com ele havia sofrido a pior parte.
Impressionou-se por Ino não ter fugido antes, por ter sido tão corajosa, se impressionou por ela ter agüentado tanto e se sentiu ainda mais culpado por tudo, mas se era covarde pra agir daquela forma brutal, não poderia ser covarde pra recuperar parte de seus erros e agir de forma diferente.
Ele se levantou do chão, jogou o diário em um canto qualquer e pegou a chave na sua escrivaninha, indo até o antigo quarto de sua mãe, passando por seus irmãos, seu cunhado e sua segunda esposa, os quais o seguiram, seus olhos estavam reluzentes de uma forma bem diferente.
Gaara destrancou o quarto e pegou a foto da mãe com ele e os dois irmão, e a jogou no chão, quebrando o vidro em mil pedaços e depois pisou por cima.
—O que está fazendo? –indagou Temari assustada.
—Está na hora de por esse passado pra ser enterrado de fato, quero que tragam sacos de lixo e acendam a lareira do escritório.
—O que vai fazer Gaara? Não vá se arrepender de algo que...
—Não há mais nada do que eu possa me arrepender, já cometi todos os atos possíveis que poderia me arrepender, agora está na hora de começar a agir certo. Agora façam o que eu pedi.
Eles obedeceram e Gaara limpou o quarto. Colocou as roupas da mãe nos sacos de lixo, as jóias colocou em uma caixinha, as fotos nos sacos de lixo, os sapatos, e tudo mais o que tinha ali, desfez a cama, abriu as janelas, deixando o perfume dela ir embora e depois desceu com tudo e jogou no fogo com exceção das jóias, todos olharam os objetos queimarem, mas ele ainda não estava satisfeito, pegou o diário, o vestido que Ino arrumara no sótão e também jogou no fogo, depois pegou a espada de seu pai e as jóias de sua mãe.
—Vamos precisar de muito dinheiro pra vila que quero reconstruir, então vendam as jóias pra algum colecionador como sendo da imperatriz de Suna, vamos usar o nome dela pra fazer mais dinheiro, se era isso que ela queria é isso que terá; depois me tragam, já sei como vou usá-lo.
—E a espada? –indagou o Nara.
—Ela vai servir pra fazer justiça de agora em diante, vou lavá-la com sangue dos que merecem morrer, chega de sangue de inocentes.
—Está mesmo pronto pra isso?
—Não há mais ódio em mim Hinata, tudo está morto, e vai ser assim pro resto dos meus dias, mas eu ainda posso fazer a coisa certa e vou começar por você. Arrume suas coisas, temos uma viagem a fazer.
—Mais uma viagem?
—É, está na hora de fazer novas alianças e novas leis pra vila.
—Mas como eu...
—Não pergunte, apenas faça, prometo que depois disso você será livre.
Ela não disse mais nada, então ele viu as folhas do diário acabarem de queimar e respirou fundo, mais uma vez Ino tinha razão, mas agora ele sabia como ter uma vida própria, e mesmo que ela não fizesse mais parte dela, ele ainda podia fazer com que fosse produtiva.
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