Imperador de Areia
21 Capítulo 21 - Boas surpresas
Notas iniciais
Gaara voltou pro quarto e foi ao banheiro escovar os dentes depois do jantar, deixando Ino em seu quarto, ela disse que tinha algo a lhe mostrar depois.
Quando ele saiu do banheiro, a loira estava com uma expressão de desconforto, meio encolhida na cama, não parecia muito bem.
—O que houve? –ele indagou preocupado, se pondo ao lado dela.
—Só um pouco de dor, logo passa.
—Dor onde? Não está se sentindo bem? Eu posso mandar chamar...
Ela segurou a mão dele, o fazendo se calar, e o encarou ficando um pouco rubra.
—Não é nada, só uma cólica chata. Aqueles dias sabe...?
Ele não entendeu de imediato, ficou meio perdido tentando ligar cólica com “aqueles dias”, até que por fim a ficha caiu.
—Quer dizer que não está... Grávida? –ele tinha um timbre que ela não reconheceu.
—Não, não estou. –ela disse surpresa pela pergunta, não tinha como tinha?
Ela se deu conta da preocupação dele, aquele dia em que ele a tomara a força, poderia ter gerado um fruto, mas não era o caso, ela tinha certeza.
Ele a abraçou com carinho, se sentia bem por dentro, finalmente a aflição de ter um fruto de seu ódio havia terminado, e ele havia jurado pra si mesmo que jamais faria tal coisa de novo, e nem poderia, estava certo de que tinha um sentimento bom por ela, não queria que ele morresse dentro de si.
—Mas então, o que queria me mostrar? –ele perguntou por fim.
—Ah, sim, vem comigo.
Ela o puxou pela mão e o encaminhou até o porão, onde ele a prendeu uma vez, algo que parecia ter acontecido bem distante dali, eles já não se sentiam as mesmas pessoas. O lugar estava limpo, arejado e várias coisas restauradas, objetos sobre uma estante trabalhada e várias outras coisas, principalmente da mãe dele, que há muito haviam sido esquecidas.
—Espero que não se importe, mas fiquei com dó de perder tantas coisas bonitas para esse pó. –ela disse sorrindo.
Gaara estava admirado, as lembranças viam a tona muito forte, muito vivas, e ele parou diante de um manequim com um vestido antigo de linho branco e azul claro, com detalhes de renda pela saia. Ele tocou a peça com cuidado, seus olhos ficaram vidrados naquilo, e depois ele engoliu a seco.
—O que foi?
—Tentei encontrar esse vestido quando minha mãe morreu, mas não consegui, estava atordoado, esqueci que ela tinha várias coisas trancafiadas neste lugar, ela queria ser enterrada com ele, de acordo com Temari, mas é bom que esteja aqui, me lembro da primeira vez que a vi usando ele, ela estava linda numa festa aqui no palácio, foi uma das poucas vezes em que a vi sorrir ao lado de meu pai. –ele disse com tristeza na voz.
—Não queria que te causasse tristeza, eu queria...
—Não, não estou triste, só estou meio estranho por dentro. Adoro a lembrança do sorriso dela, e adoro me lembrar dela através das coisas que ela tinha. Você foi maravilhosa me trazendo tudo isso de volta. –ele acariciou o rosto dela, se colocando de frente a ela, mas estancou ao ver algo preso a parede sobre o ombro dela.
—O que houve? -ela indagou se virando pra onde ele olhava.
Ele passou por ela e pegou o cabo de uma espada. A bainha era toda de ouro, ornamentada com ramos de folhas entalhados nela, o cabo era de rubi, gradeado com um trabalho de fios medianos de ouro, e na base da espada, o brasão Sabaku.
Gaara tirou a espada da bainha, e o brilho dela fez sua mão tremer, enquanto sua garganta secava. A lamina era de uma liga dura e resistente de ouro, titânio e cobre, coberta por ouro, nas bordas do metal marcas feitas a fogo, em formato de uma fênix pequena.
—Isso estava aqui também? –a voz dele custou a sair.
—Sim. Nunca vi uma espada tão bela. –ela disse sorrindo gentil.
—Sabe essas marcas bem no canto da lamina? –ele viu ela abanar a cabeça. –É pra cada vila que já foi invadida pelo clã e completamente dizimada.
—O que? –ela perdeu o sorriso e deixou o queixo cair.
—Essa espada foi de meu avô, depois de meu pai, e ele fez as marcas, e foi com essa espada que ele matou minha mãe e eu o matei.
Ino tremeu da cabeça aos pés.
—Eu não sabia, me perdoe, eu não sabia...
—Não havia como saber. -ele disse ainda hipnotizado pelo brilho da lâmina.
Ele voltou a espada pra bainha e sentindo a fúria, a jogou contra a parede, vendo ela cair intacta no chão do outro lado.
—Eu vou tirá-la daqui, eu...
—Psiu. –ele fez ela se calar com um sussurro.
—Não vou te castigar Ino.
—Mas deveria. Eu sinto muito.
—Deixe disso. Já disse, não havia como você saber, e depois, não dou a mínima mais pra isso, quero deixar tudo pra trás e enterrado, de verdade.
Ela ficou muito triste, queria fazer uma surpresa pra ele, queria agradá-lo, trazer um pouco de sua mãe, sua família e as coisas boas dela, deixando o pai dele fora daquilo, mas ao invés disso levou pras mãos dele a arma que lhe trouxera todo tormento.
Gaara percebeu o olhar de Ino e por pior que se sentisse por dentro ao pegar naquela arma de novo, seu coração palpitou, não queria que ela sofresse o que ele sofreu, que sentisse amargura e remorcio, e não deveria sentir, ela só tentara lhe agradar.
Ele segurou a mão dela e a tirou dali, a levando pro quarto dela.
—Já disse, esqueça isso.
—Sou uma otária, não devia ter remexido em nada.
—Olhe pra mim Ino. –ele disse imperativo.
Ela olhou, mais envergonhada e com receio, então uma onda esmeralda correu pra dentro de si e a invadiu sem permissão.
—Não diga isso nunca mais, está me entendendo? Você é uma pessoa maravilhosa, sabe se impor quando precisa, então não se rebaixe assim.
—Me perdoa?
—Não tem que pedir perdão por nada, mas se te ajuda a melhorar, está perdoada.
Ele acariciou o rosto dela e se ajoelhou a sua frente, lhe beijando com cuidado os lábios macios e saborosos.
Ino sentiu seu coração disparar, ele era o mesmo homem que havia a prendido contra ele em sua cama? Que havia batido em sua face? Não poderia ser.
Gaara estava muito diferente, apesar de seu jeito meio distante, e a beijava cada vez de forma mais intensa e deliciosa, o que deixava ela assustada com os pensamentos que intrometiam sua cabeça.
Sem se dar conta, ela havia posto a mão na nuca dele, e feito ele a beijar mais profundamente, e ele gostou daquilo, mas ficou inseguro, ela não sabia o que aquilo poderia acarretar, sabia?
Quanto mais sentia o gosto da boca dele, mais queria prová-lo, e por isso se beijaram um longo tempo, e ele se colocou ao lado dela, lhe prendendo a cintura, e mordendo seu lábio inferior.
—Você é deliciosa, sabia?
Ela sorriu sem graça, e deixou ele a beijar mais uma vez.
—Não sei descrever o que estou sentindo agora.
—O que me importa é se você sente, não precisa dar nomes.–ele sorriu de canto.
—Adoro quando você sorri. -ela disse contente, mas baixo, tentando entender seus pensamentos e sentimentos.
—Deixa de ser boba, eu nem sei sorrir.
—Não só sabe como também fica lindo. –ela sorriu um pouco vermelha, mas dessa vez disse pra que ele realmente a ouvisse, ela estava gostando do que sentia.
Ele não pôde evitar, por mais que tenha tentado, sorriu e a beijou de novo.
—Dormi aqui comigo hoje? –ela pediu delicada.
—Está bem.
—Mas Gaara, nada que passe desses beijos vai acontecer. –ela ainda se sentia meio insegura e o estado em que estava não ajudava.
—Não pedi nada mais do que isso.
—Pedir? Eu achei...
—Nunca mais a tomarei a força, eu juro. Nunca quebro uma promessa minha.
—Eu acredito. –ela sorriu e lhe acariciou o rosto, o beijando em seguida.
Sim ela acreditava nele, acredita que estava diferente, e seu coração disparou, enquanto seus olhos se enchiam de um brilho resplandecente novamente, ele era surpreendentemente adorável.
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—Acabei de olhar a Laica, ela realmente está grávida, a cria deve estar com uns três pra quatro meses, já, já vamos poder senti-lo. –disse Gaara a Ino.
—Vai ser um belo potro, espero que saia tudo bem pra Laica.
—Não se preocupe, já tomei as devidas precauções pra que ela esteja confortável.
Eles foram interrompidos por Temari, que adentrou o castelo.
—Gaara, precisamos conversar.
—O que foi agora? Sempre que vem sem avisar, tem uma má noticia.
—Só quero acertar aquela conversa que tivemos há uma semana.
—Tamari, não vou tirar o Nara do exército por um capricho seu, já tomei minha decisão há muito tempo.
—Eu já disse, se ele ficar, eu vou sair.
—Não vai não, se sair terá de se casar com alguém que eu escolher, então não vai sair.
—Está enganado, prefiro me tornar uma esposa a continuar a lutar com ele e se insistir nisso, se realmente fizer isso comigo, eu prefiro nunca mais ser chamada de sua irmã.
Gaara jamais vira os olhos de Temari tão tristes, aquilo realmente estava fazendo mal a ela, e ele não sabia como fazer ela entender que só fazia aquilo pelo bem e pelo amor a ela.
—Posso falar com ela um segundo? –pediu Ino gentil.
—Sem ofensas cunhada, prefiro resolver isso de uma vez com meu irmão.
—Não vou tomar muito seu tempo Temari, e prometo que depois disso seu irmão fará tua vontade, não é Gaara?
Ele olhou pra ela sem entender, meio perdido, só ele tomava suas decisões, e ela cochichou pra que confiasse nela, com coisa que isso era fácil, não confiava nem em si mesmo, confiaria o destino da irmã a uma completa desconhecida, sim, porque Ino não entendia muito bem o que significava a aposição de Temari em sua vida, seu clã e seu exército.
—Por favor. -ela pediu gentil.
Ele acabou cedendo, aquele brilho que voltara aos olhos dela sempre o deixava meio mole.
Gaara subiu pro quarto e as duas foram para o jardim. Havia um banco de pedra que a loira mais nova pedira pra instalar lá, e então as duas se sentaram.
—Seja lá o que tenha a me dizer, saiba que não vai mudar o que já decidi.
—Não quero mudar nada, só quero te fazer uma pergunta, qual o problema em amar o Nara?
—Eu não...
—Eu já vi vocês discutindo Temari, seu irmão me contou algumas coisas, então não minta pra mim, só estou tentando entender.
Temari suspirou, jamais havia falado de seus sentimentos a alguém, não como teria de falar pra poder explicar a resposta que Ino queria, e isso era bem problemático.
—Ele não me ama mais Ino. Nós nos beijamos pela primeira vez e eu soube que jamais o esqueceria, por isso, um ano depois eu me entreguei a ele. Quero dizer...
—Vocês passaram uma noite juntos.
—Isso mesmo, mas no dia seguinte... Meu Deus, foi o pior dia da minha vida. Acordei sozinha sobre o feno do estábulo, onde havíamos transado, o local ainda tinha meu sangue virginal, e eu achei que nada no mundo poderia me destruir, então ele chegou e disse que tudo estava terminado entre nós, que fora um erro e que agora que já tinha provado de mim, não queria mais nada.
—Acha que ele realmente agiria assim por vontade própria, sem um motivo coativo?
—Eu achava que não, mas todos esses anos, todas as tentativas de me aproximar, foi tudo em vão, e ele pisou em mim. Não quero agora o ver pisar na vida que eu tenho e devo a ele por ter me salvo na última batalha.
—Não acha que ele a salvou porque não pode perdê-la?
—Não faz isso comigo Ino, eu já aceitei que o perdi. –os olhos dela se encheram de lágrimas. –Se é que um dia eu o tive de verdade.
—Se ele deixar o exército Temari, ele voltara a ser um reles serviçal do seu irmão, acha que ele realmente merece isso?
—Eu acho que ele merece meu lugar, tem competência pra isso, e por isso estou fazendo tudo isso, quero me afastar, me prender a outra pessoa e deixar ele reinar, quem sabe assim nos afastamos de vez e eu deixo de pensar nele.
Nesse momento Shikamaru passava pelos estábulos e se aproximou das duas, ainda morava nos fundos do palácio.
—Bom dia moças. –disse o moreno, mas ficou intrigado ao ver Temari esconder o rosto que parecia diferente.
—Bom dia Nara. –disse Ino sorrindo.
—Querem cavalgar, posso ajeitar os cavalos?
—Há um novo garoto fazendo isso Shikamaru. –disse Ino sorrindo.
—Eu sei, mas velhos hábitos não mudam. –ele sorriu tranquilo.
—Assim como destruir a vida de moças apaixonadas? –disse Ino ainda sorrindo, mas deixando ele perdido.
—O que?
—Soube que andou causando destruição em alguns corações. –ela disse tentando ser divertida, olhando Temari que estava de cabeça baixa e de cabeça baixa ficou.
—Bom, andaram exagerando isso ai, não é? –ele disse encarando o topo da cabeça de sua loira, ele estava ficando preocupado com os modos dela.
—Não, a fonte é muito confiável. –Ino sorriu mais.
—Espera, o que está acontecendo? O que disse a ela? –ele falou sério, dirigindo a pergunta a Temari, que percebeu e levantou os olhos marejados, mas meio raivosos agora, ele não era ninguém pra falar com ela daquele jeito.
—Oras, disse a verdade, seu canalha imbecil. –ela cuspiu as palavras.
—Não me diga que disse a ela sobre aquela noite...
—Faz diferença? –ela o interrompeu se levantando. –Nem sei por que estou aqui, tenho assuntos a tratar com Gaara.
—Não, espere, me diga, o que contou a ela.
—Que porra, eu já disse, a verdade, agora me solta. –ela tentou desvencilhar da mão que ele prendia seu braço, mas não conseguiu.
—Nada que puder contar será a verdade. –ele estava farto de mentir e omitir tudo dela. –A verdade é que eu recebi uma carta do general, deixada por seu pai. O desgraçado morreu, mas ameaças dele ainda ecoavam e estavam vivas, e na carta, que tinha uma copia pra ser entregue a Gaara, ele dizia que se você se casasse com qualquer um, que não fosse membro da guarda e de sua confiança, ele mandaria matá-la, há essa clausula em um contrato que ele firmou em uma aliança com uma vila vizinha. Como aceitei a condição, esse segredo permanece comigo, agora que o general está morto. –ele estava até sem fôlego, e ficou encarando a expressão dela, que ele não soube dizer do que era. –Eu menti sim, menti todo esse tempo, e não me arrependo, isso deixou você continuar viva, a lutar suas batalhas, e eu continuaria sofrendo longe de você, se seu irmão não tivesse me posto como membro do exército, que eu odeio, mas quero ficar por você.
—Se é assim, agora podem ficar juntos. –disse Ino alegre.
—Não é tão simples, na carta, o oficial do exercito deve ter linhagem guerreira pura, eu não tenho. –ele disse olhando pra Temari ainda. –Me perdoe por tudo o que te fiz, mas caramba, sua problemática, eu sou louco por você, e não posso mais te ver sofrer por algo que é minha culpa, eu nunca deveria ter te beijado naquele Oasis.
Ele a soltou e suspirou, parecia ainda mais tranquilo, relaxado, feliz, por isso mexeu os ombros leves e começou a caminhar, até que sentiu uma pedra lhe acertar as costas, deixando Ino assustada.
Temari jogou outra, dessa vez acertou o peito dele.
—Seu imbecil, isso não é uma decisão que poderia tomar sozinho. –ela largou as pedras e foi até ele, lhe acertando um soco contra o peito, que o desequilibrou. –Por que mentiu, porque me fez sofrer assim, porque continua querendo se afastar. –ela deu outro, mas dessa vez não o acertou, ele segurou o pulso dela. –Eu deveria saber, e por você. Deveria ter a dignidade de me contar tudo.
—E deixar você desesperada e sem raciocínio lógico em uma atitude impensada?
—Pelo menos seria uma atitude e não sua apatia. Pelo menos saberíamos que um de nós ama o outro de verdade, ao ponto de ariscar algo pra que fiquemos juntos.
Ele a prendeu fortemente pela cintura e lhe tomou os lábios com sofreguidão, não deixando ela escapar enquanto se debatia, até vê-la ceder em seus braços e poderem se beijar, enquanto ela deixava algumas lágrimas caírem.
—Diga qualquer coisa, menos que não te amo e que não seria capaz de nada por você. Eu só queria te proteger, garantir que continuaria bem e fazendo o que ama, não quero que seja uma renegada. –ele disse depois de findar o beijo, encostando a testa na dela e deixando algumas lágrimas correrem também por sua face.
—Poderíamos sumir daqui, eu não me importaria, desde que pudesse te chamar de meu, porque te ter tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe, é cruel.
Ele não disse nada, apenas continuou preso a ela, com suas testas coladas, enquanto choravam, ela com mais intensidade.
Ino suspirou e sentiu uma mão em seu ombro, ela olhou pra cima e viu Gaara, este olhou pra ela e depois pro casal a sua frente, os dois perceberam a presença majestosa do imperador e encararam-no, Gaara jogou um pergaminho que o Nara pegou no ar.
—O contrato de casamento da minha irmã.
—Gaara não posso fazer isso, a vida dela...
—Eu sei, não se preocupe mais com isso, tenho um novo negocio e consegui quebrar o acordo de meu pai. Basta assinar o contrato e minha irmã será sua.
Shikamaru e Temari se olharam meio atordoados, então Gaara continuou:
—Temos uma batalha em dois meses, então é melhor se apressarem.
Ele pegou a mão de Ino e foi saindo com ela, pra dentro do palácio.
—Como conseguiu quebrar esse acordo? -insistiu Shikamaru.
—Pagando um preço alto, mas vai valer a pena.
Ele abraçou Ino, entrando para o palácio e lá fora, Temari e Shikamaru se beijavam, sem medo de ser feliz.
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