Imperador de Areia
18 Capítulo 18 - Quem Sou
Notas iniciais
Gaara voltou pra casa e não encontrou Ino, então perguntou por ela e lhe disseram que ela estava cuidando do jardim.
Ele se esquecera completamente que ela tinha dito que cuidaria daquele lugar, então foi ver como estava o local e como ela estava.
A loira estava com uma saia azul escura, uma blusa branca e sapatilhas pretas, seus cabelos presos em um rabo de cavalo e a franja caída sobre o rosto, enquanto cuidadosamente cortava as folhas secas de um arbusto pequeno e verdejante.
O jardim estava reconstruído por inteiro, as gramíneas tomavam conta de uma grande parte da terra entre o palácio e os estábulos, as mudas de flores novas estavam começando a florescer, enquanto algumas ainda eram preparadas, não teve como ele afastar da mente a imagem de sua mãe andando por ali com eles, Gaara e seus irmão, enquanto contava histórias de contos de fada.
Ele se recostou em uma arvore e ficou olhando pra ela, que aprecia um anjo sobrevoando o lugar e enchendo-o de vida, mas o olhar dele nã0 demorou ser notado, ela se virou e o encarou, mesmo com uma rápida olhada ela pode perceber o quanto ele estava diferente, seus olhos estavam menos nebulosos, mais verdes, seu semblante sem expressão não estava duro, e sim relaxado, e ela ficou olhando pra ele por algum tempo.
Gaara era com certeza um homem lindo. Seus cabelos de vermelho forte, seus olhos verdes, seus ombros largos, seus músculos trabalhados, suas mãos fortes, sua altura imponente, tudo fazia um belo conjunto, ainda mais quando se tornava delicado como no café daquela manhã. Ino não podia negar, ele era um homem que fazia as mulheres suspirar, e era seu de alguma forma.
A loira pensou em como ele a possuíra, agora que a raiva tinha passado, se perguntou como seria se ele não tivesse abusado dela, se tivesse sido consensual, gentil, como o primeiro beijo de sua vida, mas afastou os pensamentos ao vê-lo se aproximar.
Ela ainda estava ajoelhada, olhando pra cima, esperando o que ele diria, mas ele não disse nada, apenas estendeu a mão pra ela, que ficou em dúvida, então ele sorriu de leve, um sorriso novo, e insistiu pra que ela aceitasse o gesto, e assim ela acabou fazendo, como dizer não aquele sorriso raro e inacreditavelmente lindo?
Ele a guiou pra dentro de casa e foi pro quarto dela, a sentando na cama, observando com cuidado a figura a sua frente. Seus pés estavam descalços, ela deixou as sapatilhas sujas na porta do lugar, antes de entrarem, suas mãos ainda tinham manchas de terra e seu cabelo estava ainda em seu rosto, então de vagar até ela e colocou o cabelo pra trás da orelha, deixando que a face doce e angelical dela ficasse a mostra, depois se ajoelhou na frente dela e lhe segurou as mãos mesmo sujas.
—Tenho uma coisa pra te contar, isso vai mudar as coisas pra sempre, ou você terá pena de mim ou me odiara, não gosto de nenhuma das duas coisas, no entanto, você precisa e merece saber. O que vou contar vai ser longo, tente não me interromper, ou não vou conseguir terminar, entendeu?
Ela apenas balançou a cabeça, as mãos dele estavam um pouco trêmulas nas suas, e seu olhar muito prezo ao dela, assim ela esperou ele contar o que tinha pra dizer.
—Temari é minha irmã mais velha, mas não é a única, depois dela, nasceu Kankuro, meu irmão do meio. Todos achavam que ele seria o imperador, mas ele odiava as batalhas, odiava esse mundo e mais ainda, descobrira que odiava as mulheres que eram apresentadas como suas futuras esposas, porque não sentia nenhum desejo ou atração por elas. Isso deixou meu pai doente de raiva, por isso me pegou desde cedo pra treinar e ser o novo imperador.
“Minha mãe não gostava da ideia, eu era o caçula, tinha apenas cinco anos quando tomaram essa decisão, eu nem sabia a diferença entre direita e esquerda, quanto mais empunhar uma espada, por isso meus treinamentos foram muito rigorosos. Acho que jamais apanhei e me feri tanto quanto durante os três anos que se passaram de treinamentos.”
“Todas as noites eu me deitava e chorava, chorava até sentir minha mãe me por em seu colo e me dizer que tudo ficaria bem, até que eu dormisse. Eu só tinha oito anos nisso, ainda queria o colo da minha mãe, mas meu pai queria um assassino, foi ai que me deu o primeiro homem pra matar. Era um homem comum, como qualquer outro da aldeia, seu único erro fora nascer na aldeia que a intolerância de meu pai reinava, e por um simples porque, meu pai decidiu que ele deveria morrer. Esse homem foi jogado aos meus pés de joelhos, eu se quer tinha tamanho pra alcançar seu pescoço, se ele ficasse de pé, e meu pai se virou pra mim e disse assim: Mate-o.”
“Fiquei em choque, tinha medo, tinha receio, estava perdido, aflito, não queria fazer aquilo, não era capaz de fazê-lo, mas meu pai não aceitaria um não, meu pai não perderia o único que poderia ser seu herdeiro, então segurou minha mãe pelos cabelos e lhe deu um tapa na cara, arrancando sangue de sua boca, continuei estático, incapaz de prosseguir com aquilo, então ele bateu nela de novo, foi a vez do nariz dela jorrar aquele liquido odioso, eu comecei a sentir raiva de meu pai, queria que ele parasse, queria que nunca fizesse minha mãe sofrer, no entanto, querer não é poder. Temari me disse que ele só pararia se eu fizesse o que ele mandara, e ela estava certa, ele sorriu de canto pra mim, um sorriso podre, que me deu nojo, sem escolha ele saiu vitorioso, levei a espada ao pescoço do homem e o cortei sem pestanejar.”
Ele fez uma pausa, fechou os olhos e engoliu a seco, era duro de mais rememorar aquela história e dizê-la em voz alta era ainda pior, mas ele estava decidido, iria até o fim por ela, por sua esposa que devia saber quem ele era de fato.
—Depois disso, o ódio de meu pai só fez aumentar por Kankuro e Temari, dizia que eram as desgraças de nossa família; eles não eram nada mais que duas crianças, mas já eram tratados como adultos fracassados e odiados. Minha irmã sempre teve sangue quente, não aceitava aquela condição que meu pai impunha, ser submissa, destratada, isso era o cumulo pra ela, por isso treinava sozinha ou com o Nara e se tornou uma ótima lutadora, e quando pela primeira vez a vi empunhar uma espada, senti que eu jamais seria como ela.
“Meu pai descobriu que Temari lutava, descobriu que eu apoiava e minha mãe nos acobertava, então deu uma surra em todos nós. Eu tive o braço quebrado, Temari uma perna e minha mãe duas costelas e um corte na testa. Naquele dia, Kankuro se revoltou, brigou com meu pai, mas não o deixou encostar nele, meu pai sempre o destratara, sempre nos machucava e humilhava, e Kankuro sempre odiou o aço frio em sua mão em forma de espada, mesmo assim era filho do senhor da guerra e por isso sabia como manejar aquela arma, deixando meu pai no chão, com a espada em seus pescoço, meu irmão não teve coragem de terminar, Temari também jamais o faria, e eu nem pensava na possibilidade, e por isso meu irmão foi expulso de casa assim que baixou a arma, e sumiu, até hoje não tenho noticias dele.”
“Nossa família, se é que se pode chamar assim, só ficou ainda mais destruída, minha mãe acabou adoecendo e nunca melhorava, eu ficava preocupado, enquanto ela sempre tinha um sorriso gentil pra me acalmar, mas no estado em que ela estava e com Temari sem poder fazer nada contra meu pai, eu fui a minha primeira guerra, eu tinha só dez anos, ainda me lembro bem de cada rosto dos vinte e dois homens que matei lá, da voz do meu pai me despertando ódio, um ódio crescente que não parou de esvair.”
“No meu aniversario de onze anos fui torturado durante o dia e a noite toda, e não derramei uma lágrima se quer, só agora entendo que era quilo que meu pai queria. Talvez se eu tivesse chorado e gritado, se tivesse sido fraco, eu não teria esse destino. Depois daquele dia, nunca mais sorri, nem se quer pra minha mãe, que ficou ainda pior, e dias depois que ele contou pra mim e as mulheres de nossa casa sobre o contrato de casamento que havia selado anos antes com a família Yamanaka.”
“Bom, foi ai que eu pensei que nada mais me surpreenderia vindo de meu pai, mas eu estava errado. Era meu aniversário doze anos, minha mãe havia me dado essa corrente e eu estava muito feliz, não conseguia sorrir, mas estava feliz por dentro, me sentia bem, Temari também estava contente, algo havia se passado entre ela e minha mãe que nunca haviam sido muito ligadas, isso incomodava meu pai, então tinha planos pra acabar com a paz.”
“Ele preparou uma batalha pra que eu fosse com ele, mas minha mãe não quis deixar, eles discutiram feio, e ele a trancafiou naquele mesmo sótão que você esteve, deixou ela lá por hora a fio, enquanto eu e Temari pensávamos num jeito de levar alguma coisa pra ela comer, porque ela geralmente ficava lá semanas, sem qualquer contato com o mundo, mas ouvimos outra briga, desta vez no cômodo que minha mãe estava, corremos e vimos meu pai brigando com outro homem, enquanto minha mãe chorava sem parar.”
“Ainda hoje eu não sei exatamente como as coisas aconteceram, eu estava assustado e tudo foi muito rápido, não sei se pensei em alguma coisa, só sei que o ódio estava ali, a espreita, e foi assim que vi a briga se desenrolar. Aquele home foi posto pra fora, meu pai ficou louco de raiva, expulsou eu e minha irmã de dentro do sótão, e trancou a porta, colocando um móvel na frente desta. Não podíamos abrir a porta, não conseguiríamos entrar pela janela, e só ouvíamos os gritos e o choro de nossa mãe, o que me deixou aflito e com o ódio aceso.”
“Esperamos por horas até que ele saísse de lá, e quando saiu, corremos até minha mãe, ele voltou com a sua espada nas mãos e sorriu em escárnio pra nós, ergueu a arma e disse que mataria a todos nós, poria um fim aquela família que só lhe dera desgraças, e num ímpeto eu fui contra ele, agindo como um tolo, porque nunca o acertaria daquela forma, ele bloqueou o golpe, me jogou no chão e pegou minha mãe a levantando e colocando a espada em seu pescoço. É a última imagem que tenho dela, toda suja de sangue, com hematomas pelo corpo, as lágrimas lavando sua face, a expressão de medo crescente, a mesma cena que vi se repetir em você naquela cama.”
Ele estava quase sem voz a essa altura, a imagem nítida de sua mãe estava parada bem a sua frente, assim como anos atrás, com seu pai atrás dela com espada reluzindo pelo pouco sol que entrava pela janela.
Ino colocou a mão no rosto dele e o encarou de seu jeito amável, gentil, como se ele não precisasse mais dizer, mas ele queria dizer, queria dividir aquela dor, queria por um fim aquele segredo que o corroía por dentro.
—Acho que perdi a consciência por algum tempo, eu via, mas não entendia, não sentia, não reagia, foi só Temari que conseguiu se mover, ela tentou impedi-lo, mas não conseguiu, ele deu-lhe um tapa no rosto e ela caiu, depois ele não esperou mais, sorriu de canto e cortou a garganta de minha mãe. Nunca mais na vida vi tanto sangue.
“Os olhos dela ainda estava abertos, os mesmo olhos que acalentavam, estavam apagados e amedrontados pra sempre, enquanto seu corpo caia inerte no chão, e junto com ela foi-se qualquer vestígio humano meu. Acabou-se o remórcio, o amor, o carinho, a dúvida, o medo, eu perdi qualquer sentimento, bom, qualquer um diferente de ódio.”
“Eu simplesmente esqueci que ele era meu pai e comecei a brigar com ele, estava cego de ódio, assim como fiquei naquela tarde no meu quarto, e por isso não importava a dor, os machucados, eu só conseguia ver o assassino da única pessoa boa do mundo, a única capaz de me amar.”
“Depois de um bom tempo nos engalfinhando, peguei a espada da minha irmã, então lutei como esgrima com meu pai, naquele momento eu já queria matá-lo, ele me ensinara o gosto e o prazer do sangue e eu queria ver ele sangrar como fizera com minha mãe, e foi com essa ideias que lutei e ele o mesmo. Não sei dizer como foi essa luta, não consigo me lembrar de cada detalhe, eu apenas lutei, e consegui derrubá-lo, coloquei a espada em seu peito, e fui enfiando bem de vagar, vendo ele tentar conter a dor.”
“Sou sim um homem de areia, havia me tornado isso exatamente naquele momento, porque senti prazer com cada grito que ele tentava conter em vão. Eu gostei, como gostei de ter feito aquilo. Ia aprofundando a espada e com a outra mão sobre o peito dele, sentia o sangue que manchava sua camisa. Era quente, era forte, era delicioso o ver jorrar.”
“Eu pensei que tudo acabaria ali, mas antes de morrer acabou me contando que tinha feito várias ameaças ao Nara em relação a minha irmã e em breve aquela semente iria brotar, disse que aquele sempre fora o plano, eu iria matá-lo como prova de ser o próximo na linha de sucessão, assumiria o reinado e com ele toda a carga de obrigações. Com certeza ele disse mais coisas, eu estava absorto apenas naquele sentimento que me tomava, não prestei toda atenção que deveria, mas no fim ele sorriu de sua forma sínica, repugnante e vitoriosa pra disparar que um dia eu seria exatamente como ele.”
“Eu tentei ser diferente, tentei deixar tudo pra trás, mas esse povo estava desesperado, era uma tragédia, precisavam e queriam um líder, alguém da família ‘real’, não soube dizer não, assumi e tinha em mente ser alguém completamente diferente, mudar tudo o que ele tinha feito, por isso cedi a pressão da minha irmã pra ser uma dos meus soldados, então vieram as batalhas, as guerras, a injustiça, as mortes, com aquele modo da vida e com a culpa, acabei sendo como ele. Havia perdido meus sentimentos e meu coração naquele por do sol, na morte de minha mãe, no prazer de matar meu pai, e não consegui fugir a maldição que ele me predestinou.”
“Depois de velarmos o corpo da minha mãe, o curandeiro me disse que meu pai abusara dela naquela tarde, que ele havia desconfiado da traição dela, e perdido a cabeça. Ele a matara por ciúmes, pelo mal que fizera a ela por tanto tempo e não porque a odiava. Eu ainda penso que ele odiava sim, mas depois de tanto julgá-lo, me tornei a cópia perfeita dele, fiz com você tudo o que ele fez com minha mãe, agi como jamais pensei que agira, e no fim percebi que não posso acabar com meu lado humano, porque me arrependo por cada ato e cada gesto.”
“Eu sei que o que fiz todo esse tempo não tem perdão. Não consigo dormir uma noite se quer desde meus doze anos de idade, agora a coisa só piorou, a minha cabeça lateja dia e noite pela culpa, às vezes tenho vontade de arrancar ela fora pra que essa dor passe, vontade de acabar com minha vida, de que tudo acabe.”
“Quero que me desculpe, Ino, quero do fundo do meu coração, não por pena, não suporto que tenham pena de mim, e depois de saber tudo o que eu já fiz, acho que você vai passar a me odiar, mas ao menos você agora sabe de tudo, sabe quem eu sou, como eu sou e porque. Eu não acho que eu seja capaz de melhorar, não acho que eu tenha feito nada de bom pra você, mas eu adoraria ouvir que você me ama mais uma vez.”
Quando ele terminou, o silêncio tomou conta do quarto, ele não conseguia olhar pra ela, e sentia o peito latejar de dor, estava triste, estava ressentido, mas finalmente se livrara daquele fardo, finalmente sabiam que o ódio dele tinha fundamento e não era um sinal de nascença.
Ino ficou olhando pro marido quieta, até sua mente conseguir organizar as ideias, tinha muita coisa pra ser dita, mas era hora de escolher bem e pensar bem, nada de ser impulsiva.
—Quando eu era pequena tinham pena de mim, eu nunca aceitei isso, não sou alguém que gosta de tal sentimento, porque é triste, é repulsivo, porque eu sei me cuidar, sei dar conta de mim, não preciso de pena, e por isso não o sinto por você, quanto a ódio, eu não o odeio Gaara, por mais que tenha me machucado de várias, você ter me feito ser sua a força, eu não te odeio, e agora que sei de tudo isso, seria ainda mais incapaz de te odiar.
“Você é uma pessoa boa Gaara, por mais que você não acredite, e você cuidou de mim, se preocupou comigo e é nítido que está arrependido, só não me peça pra dizer que o amo agora, porque eu não conseguiria.”
—Não peço, não acho nem que isso seja capaz de acontecer, mas é muito bom saber que não me odeia, estou cansado do ódio, estou farto dos problemas que ele me causa, então me dê um tempo, até que ele se esvaia de vez do meu peito.
—Eu tenho toda a minha vida pra esperar e acho que você vai conseguir, até mesmo porque não vou a lugar nenhum, e vou te ajudar.
Ele encarou os olhos dela, não reluziam como antes, mas estavam menos opacos, então ele sorriu de leve, bem diferente do sorriso que tinha nas lembranças de seu pai, e teve uma vontade enorme de beijá-la, mas ficou com medo de se aproximar.
—Gaara... –ela disse depois de um bom tempo diante dele.
—O que? –ele disse prestativo.
—Pode me beijar, ao menos mais uma vez, como me beijou da primeira?
Ele se assustou com o pedido, mas era tudo o que ele mais queria, por isso se levantou e ela fez o mesmo, ele ainda encarou bem os olhos dela, pra se certificar de que era isso mesmo que ela queria, e então a beijou com calma, delicadeza e carinho, assim como da primeira vez, fazendo o coração dela disparar, aquele era o homem que ela amava, e estava de volta.
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