Imperador de Areia
13 Capítulo 13 - Seus lábios
Notas iniciais
Haviam se passado três dias depois da chegada de Gaara, três dias de muita agonia para sua esposa e sua irmã, dias em que ele viveu entre os sonhos e a realidade, sem que ele pudesse distinguir cada um desses, mas enfim ele parecia melhor.
Temari havia dado um pouco de seu próprio sangue ao irmão, levando adiante que apenas um filho de sangue puro e real poderia assumir o clã, sangue de seu pai com a mulher que ele havia escolhido, e assim ele continuaria sendo o imperador.
Antes de apagar, o ruivo jurava que a esta hora estaria morto, havia sentido seu sangue se esvair de seu corpo, uma tontura profunda e tanta dor que achou que enlouqueceria, mas pelo visto, ou ele não havia morrido, ou a morte era bem mais parecida com sua vida do que ele pensava. Por outro lado, ele poderia sim estar morto e vivendo num inferno, sua vida era isso mesmo, no entanto, ele podia ver em alguns fleshs os belos olhos de Ino e com certeza eles não estaria diante dele no inferno.
Ele respirou fundo, queria logo decidir onde estava e como estava, pra isso, juntou toda sua força conseguindo despertar, para alegria e alivio das demais pessoas a sua volta.
—Ai, minha nossa... –disse Ino com um sorriso.
—Até que enfim. –disse Temari apertando um pouco mais a mão do irmão, mas com a expressão séria de costume.
Ele encarou as duas, sentiu o perfume de seu quarto, impregnado pelo aroma de flores que sua esposa tinha, junto ao seu próprio cheiro fresco, meio amadeirado, depois viu as cores, sentiu o calor insuportável de sua terra, o céu azul escaldante pela janela, e as duas mulheres de sua vida ao seu lado, então teve certeza, ainda estava vivo e pelo visto, sem sequelas.
—O que eu perdi de bom? –ele perguntou com a voz ainda rouca e meio falha pelos longos dias quieto e sem usá-la.
—Como se sente? –perguntou Ino se ajoelhando ao lado da cama.
—Meio perdido, mas vivo.
—Isso é muito bom, assim eu mesma posso matá-lo. Eu não posso me ausentar de uma batalha que você apronta isso? -Temari demonstrava raiva.
—Primeiro, veja lá como fala mocinha, ainda sou o imperador, segundo, isso seria inevitável. Agora dá pra me por sentado? –ele tentava fazer força pra erguer o corpo, encontrando certa dificuldade.
Temari o ajudou, e depois ele movimentou as mãos, agora limpas, sem seu sangue, os braços, as pernas, o pescoço, como se checasse cada articulação e seu funcionamento.
—E então, tudo no lugar? –indagou Temari meio sínica.
—Quase. –ele levou a mão ao ferimento, estava com o tórax enfaixado por bandagens, mas ainda sim sentiu os pontos fortes no local. –Quais foram os danos? –ele quis saber.
—Está tudo bem, conseguimos acabar com a infecção e agora começa a cicatrizar, não houve danos internos, mas Temari teve de doar um pouco de sangue pra você.
Os dois irmãos se olharam cúmplices, Ino não entendeu, mas pareciam que se comunicavam em silêncio.
—E o exército?
—Se divertiu muito com a festa, o general cuidou das divisões de bens e pagamentos, agora estão todos dando os últimos retoques na reconstrução da cidade e descansando da batalha. –informou Temari.
Gaara ficou satisfeito, as coisas continuavam a caminhar na sua ausência e sentia que tinha feito um bom trabalho treinando todos.
—Todos estão preocupados com você e sua recuperação. –disse Ino dengosa, ele teve uma vontade imensa de sorrir, ela era linda, e estava ali ao seu lado, como nunca pensou que seria com uma esposa, mas ele se conteve.
—Temari, é melhor informar que vaso ruim não quebra mesmo, depois cuide das minhas papeladas, tenho obrigações pendentes.
—Sim, senhor. –ela respondeu como a capitã do imperador.
Temari ainda deu mais uma boa olhada no irmão, que a encarou mais sereno e depois saiu, para cumprir suas ordens.
—Vou mandar preparar uma refeição especial pra você. –disse Ino sorrindo e se erguendo, mas a mão dele a segurou.
Os olhos deles se encontraram e ele a puxou de vagar, fazendo ela se sentar na cama, ao seu lado.
—Não vai fazer diferença o almoço se atrasar um pouco, eu tenho que fazer uma coisa antes. –ele disse segurando o rosto dela.
Ino ficou um pouco vermelha, vendo o rosto dele se aproximar do seu, mas não se afastou, pelo contrario, chegou um pouco mais perto, afim de evitar que ele fizesse esforço pra se mover de mais na cama.
Gaara não aguentou mais, sorriu com o jeito dela, e ela sorriu de felicidade por vê-lo sorrir pra ela, aquilo era muito raro, muito mesmo, então ele selou seus lábios nos dela e eles se beijaram como se fosse a primeira e última vez de suas vidas.
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—Como seu irmão está? -indagou Shikamaru.
—Está bem, Ino é dura, mantém ele na linha, por incrível que pareça. Nunca o vi se alimentar tão bem e estar tão tranquilo.
—Isso é ótimo, e melhor ainda ver que eles estão cada vez mais próximos.
—Sim, é sim.
A loira se calou, tinha o olhar duro, meio frio, encarando o par de olhos castanhos escuros a sua frente, mas por dentro ela sentia o coração disparado, como sempre acontecia na presença dele.
Só que agora era questão de honra, já havia se humilhado perante ele depois da tempestade, havia o beijado dando sua alma a ele, ainda assim, quando seus lábios se separaram, ele a encarou e disse que nunca mais fariam aquilo, ele a tinha esquecido, então ela deveria fazer o mesmo.
—Vai precisar de ajuda? –ele indagou apontando pras duas caixas de documentos que ela tinha nas mãos.
—Não, só vou deixar isso no escritório, Gaara está trabalhando mesmo na cama, então separou essas coisas, mas eu sei o caminho até o escritório.
—Sei que você sabe, mas não custa nada te ajudar. –disse o Nara segurando uma das caixas e sorrindo tranquilo em seguida.
Ela ia reclamar, mas não o fez, sempre discutia, sempre o enfrentava, sempre lutava contra os machismos e achismos da aldeia e dele, estava cansada, e agora não deveria se importar com que ele pensava dela, aliás, nunca deveria ter se importado.
Eles foram ao escritório e deixaram os documentos, ela saiu trancou a porta e colocou a chave no bolso da calça.
—Tenho que ir, preciso entregar algumas cartas a serem enviadas.
—Vou preparar seu cavalo.
Ele nunca havia arrumado o cavalo dela, nem ao menos uma vez, ela se encarregava disso, mas agora ela não disse nada, ele era o serviçal encarregado, então que fizesse o seu trabalho, afinal, ela era membro do exercito e mais, era agora uma importante membro e como todos os outros ele tinha de servi-la, mesmo que ela preferisse o ter do seu lado, e não abaixo de si.
Eles foram para fora e ele se certificou da cela e afins, depois levou animal pra ela.
—Está aqui, Srta. Sabaku.
Ela pensou em agradecer, mas ninguém o fazia por ali, eram esnobes mesmo, ainda mais com o jovem serviçal dos estábulos, então se ele esquecera que ela o amou um dia, se ele se arrependia daquela beijo de tentativa de se reconciliar, não era ela que insistiria em um sentimento perdido, por isso fez como ele sempre dissera que teria de ser, se colocou como a princesa Sabaku e apenas montou, sem olhar pra ele, arrumando as rédeas nas mãos.
—Eu menti pra você. –ele disse olhando pra cima, no rosto dela.
—O que disse? –ela olhou pra ele sem saber se entendera bem.
—Eu disse que menti pra você.
—Do que está falando?
—Eu não te esqueci Temari, eu jamais poderia, mas disse aquilo pra te afastar de mim, e parece que deu certo.
—Se parece e é o que você quer então... –ela deu de ombros. –Mas por que está dizendo que mentiu?
—Porque não consegui dormir se quer mais uma misera noite depois daquele dia.
Ela pensou em um milhão de coisas ao mesmo tempo, mas percebeu no olhar dele que ele não queria mais ouvir e nem dizer nada, ele só tinha que dizer aquilo, isso a fez se perguntar como um homem inteligente e esperto como ele não conseguia ver que só a fazia sofrer mais com aquilo?
Ele não a queria, não queria o sentimento dela, então porque não conseguia dormir, porque jamais a esqueceria?
Há alguns anos ele disse que era para o bem de ambos, que não deveriam mais manter aquele amor, aquela paixão, e ela bem sabia que pra ele os mundos em que viviam eram opostos, só que ela sabia e ela sentia que não era assim.
Ela não era a princesa de Suna, era apenas membro do exército, uma renegada pelo pai, o que a punha em situação pior que a dele, que sempre fora amado até a morte de seus pais.
Muito se falava sobre o clã dos Sabaku, sempre a chamaram de muitos nomes, com o tempo passaram a respeitar e reconhecer a força dela, pois era tão implacável e guerreira quanto seu irmão, no entanto, ela sabia o que realmente sentia, como realmente era por dentro, uma alma tão sofrida e dolorida que jamais fariam ideia, assim não podia aceitar que o único que a conhecia por inteiro não via tudo isso.
Sem ter mais o que dizer, ela chamou o animal bem por baixo das costelas e saiu galopando pela cidade e se afastando dele, não conseguia mais conviver com ele e ser inabalável ao mesmo tempo, enquanto Shikamaru respirou fundo, o perfume marcante dela, lembrando sua personalidade, ainda pairava no ar.
Ele aproveitou aquele último instante e depois que passou, voltou para os estábulos, alimentou os cavalos e foi para seus aposentos aos arredores do palácio, entrou em seu quarto e enfiou a mão no bolso da calça, tirando dele uma foto dobrada e já surrada.
Por muito tempo ele ficou observando a imagem da loira, da princesa de Suna, da rainha de seu coração, uma foto antiga, quando eram apenas adolescentes, uma foto roubada das coisas dela na mudança pra sua casa e saída do palácio, a única lembrança que ele tinha dos dias vividos ao lado dela.
Ele voltou no tempo, era um novembro quente como sempre, ele, Temari e Gaara galopavam pelas redondezas do Oasis, e apostavam uma corrida. O ruivo já era imperador e a loira já tinha suas ambições no exército, e aquela corrida iria decidir se ela entraria pras batalhas, já o moreno, apenas acompanhava e se divertia ao lado de seus senhores.
Gaara tinha quinze anos de idade, Temari dezenove e Shikamaru dezoito, nasceu meses depois da princesa, e andavam muito juntos.
Com aquele tempo, o Nara percebeu o quanto Temari havia mudado desde que ele se entendia por gente, com aquela idade, no auge de sua transformação em mulher, ela era linda, cabelos sedosos, corpo escultural, habilidosa com uma espada, e tinha uma língua afiada e ferina que sempre o deixou meio irritado, uma mulher não devia ser daquele modo, mas ao mesmo tempo o deixava fascinado, ela era muito intrigante, fazendo dos seus sentimentos algo muito problemático.
Depois da corrida, ficou decidido que ela poderia lutar, Gaara cedera a ela, e depois sumiu no palácio com suas obrigações, Temari estava muito feliz e não tinha ninguém com quem compartilhar aquilo, então pediu ao moreno que fosse com ela comemorar, eles só não sabiam como.
Depois de pensarem bastante, resolveram ir a um outro Oasis meio perdido que pertencia a Suna, mas ficava afastado dali, era um lugar pequeno, com um lago fundo que costumavam nadar. Foi uma viagem relativamente comprida e bem cansativa, o sol estava a pico e quando chegaram lá estavam mortos de cansaço.
Imediatamente eles pularam na água, brincavam como se fossem só duas crianças de cinco anos com um brinquedo novo, e se divertiram como tais, o problema era que seus hormônios não eram infantis, e os sentimentos também não, de modo que ele sentiu algo diferente quando viu ela com a roupa leve grudada ao seu corpo.
Shikamaru sabia de tudo sobre Temari, tudo mesmo. Seu aniversário, suas manias, suas músicas, seus hobys, seus desejos, seus sonhos, e ele admirava tudo nela, sentia algo engraçado dentro de si toda vez que estava perto dela, era como se perdesse o controle de seu corpo, porque suas mãos suavam, seu coração disparava, borboletas invadiam seu estomago e o desejo de tocá-la era crescente.
Ele se afastou dela, queria acabar com aquelas sensações, ou então entendê-las, mas ela parecia que não queria o deixar em paz, queria água de coco e pediu que ele ajudasse, e assim ele fez, conseguiu pegar um e depois, com um golpe só de espada ela conseguiu rachar parte da casca e então tomou o liquido o saboreando com vontade, deixando um pouco correr pelos cantos de seus lábios tão atrativos a ele, que observava a cena e quase explodia de desejo e de expectativa.
—Você quer? –ela indagou.
—Quero. –ele disse simplesmente, sentindo a garganta seca.
Ele tomou sobre o olhar atento dela.
—O que foi? –ele quis saber.
—Não é nada. –ela deu de ombros, mas ele viu que ela estava um pouco corada, era a primeira vez que ele a via daquela forma e não entendeu.
—Porque está vermelha então?
—Não estou nada. –ela disse brava, se levantando, mas ele não deixou ela ir longe.
—Está sim, eu estou vendo. –ele a prendia pela mão.
—Pois então estava tendo alucinações, deve ser o calor. –ela disse desviando o rosto do dele, pra que não se encarassem.
—Eu sei o que eu vi e não estou maluco. Porque ficou vermelha?
—Não enche Nara. –ela se desvencilhou dele, e saiu batendo os pés.
—Problemática. –ele abanou a cabeça.
—Eu não sou problemática, você que é. Porque ficou me encarando quando saímos da água?
—Não fiquei nada.
—Ficou sim.
—Não seja ridícula, garota. –ele ainda não tinha amor a sua vida.
—O que você disse? –ela perguntou irritada.
—Você agora é surda?
Ela avançou contra ele e o prendeu no chão, e ele percebeu a força e habilidade que ela tinha, e conseguiu o manter preso no chão.
—Repete o que disse agora, eu vou arrancar a sua língua.
—Nada mal pra uma garota, mas me deixe te contar uma coisa, eu trabalho nos estábulos, lido com cavalos com o dobro do meu tamanho e força, ainda sim os domo, acha mesmo que consegue me manter assim? –ele sorriu de canto.
—Paga pra ver.
Os dois rolaram pelo chão se engalfinhando, até que caíram lado a lado exaustos e um pouco esfolados pelo chão de ervas esverdeadas.
—Bruto.
—Insolente. –eles disseram se sentando e se encarando.
Suas respirações ainda estavam um pouco aceleradas, e seus olhares não se desvencilhavam, até que ele segurou o rosto dela, e ela fechou os olhos, ele entendeu que podia continuar e a beijou apaixonadamente, a beijou como se nunca mais o fosse fazer e ambos tiveram o primeiro beijo de suas vidas, com a certeza de que queriam que fosse só o primeiro de muitos pela eternidade.
Daquele dia em diante, Shikamaru sentiu aquelas sensações engraçadas e diferentes todas as vezes que estivera perto de Temari, queria a beijar daquela forma todos os dias, a cada segundo, mas sabia que era uma vontade impossível de ser realizada, de tal forma que só se lembrava daquele momento e se apegava a foto em suas mãos.
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