Imperador de Areia
12 Capítulo 12 - De volta ao lar
Notas iniciais
—Imperador, acho que já podemos voltar. –disse o general entrando na tenda de Gaara.
—Tem razão. O território foi tomado, os saques divididos e nosso amigo, imperador de Konoha, já não vai mais precisar de nós.
—Assim que o senhor estiver em condições, nós...
—Não, partiremos ao amanhecer, já estou ótimo.
—Entendo que queira voltar pra casa, mas a sua ferida...
—Está discutindo uma ordem minha?
O velho general se calou, se ele queria ir embora, então que fossem, assim poderia descansar antes. Ele bateu continência para o imperador e saiu, deixando o ruivo sozinho.
Gaara aproveitou que o general dava a ordem pra irem se deitar, afim de acordarem cedo para partirem, e então também foi para sua cama.
O corpo do ruivo estava um pouco trêmulo, o suar da febre de dias atrás ainda brotava levemente em sua testa, e o corte entre a barriga e seu peito tinha dificuldades em se curar, porque não havia mais ervas medicinais e devido a todo o esforço das batalhas os pontos não conseguiam o manter fechado.
Ele ficou de olhos abertos, olhado pro teto da tenda e pensando como aquilo tudo estava sendo difícil, mas que logo estaria em casa. Há mais de um mês ele estava naquele deserto traiçoeiro, com a morte nunca antes tão perto de si, e agora só queria voltar e cumprir sua promessa a Ino.
—Ino...
A palavra saiu doce de sua boca, melodiosa e ele se lembrou dos olhos intensos, vivos e reluzentes, pra depois se perder na lembrança das batalhas daquela guerra.
Por causa da tempestade a viagem teve que ser adiada e o reforço prestado por Suna fez muita falta. As tropas, suas aliadas, estavam decadentes, faltavam suprimentos, os homens estavam famintos, e muitos haviam morrido, não podiam avançar, mas não tinham como recuar, de modo que assim que Gaara e seu bom exército chegou, tiveram que assumir tudo por ali e dar um jeito de recuperar o tempo perdido.
Lutaram por uma semana, dia e noite, precisavam saquear algumas vilas inimigas e conseguir provisões, e afastar um pouco o inimigo. Foram dias muito exaustivos, mas alcançaram seu objetivo, então puderam se programar melhor para o que viria a seguir.
Montaram um acampamento, organizaram os mantimentos e puderam descansar por alguns dias. Os homens feridos de seu exército, assim como do outro acabaram se recuperando e depois foram administrando as batalhas.
Na última, que ocorrera há três dias, a coisa acabou dando um pouco errado. Gaara comandava a última invasão, seguia com um grupo de homens seus e um pouco dos aliados, era uma tomada de rotina, coisa simples, o general estava com o comandante de Konara em outro território vizinho, onde havia mais interesse, e tudo corria bem, até que Gaara teve um pressentimento estranho, seus instintos diziam que ele deveria sair em retirada e dar aquilo por encerrado, mas não queria deixar passar nada, aquela vila era conhecida pelos maus tratos a mulheres e crianças e ele odiava isso, por isso iria tirar tudo dali.
Enquanto galopava entre seus homens desmontados, o ruivo ouviu um grito atrás de si, quando se virou, uma espada fina e veloz veio em sua direção, acertando seu externo, posicionado entre o fim das costelas e começo da barriga.
Nunca Gaara poderia dizer o que acontecera depois daquilo ali, suas lembranças eram confusas, só sentira o baque de seu corpo contra o chão, e pra sua sorte caíra de costas, e a espada saiu de si, da forma que entrou, sem atingir nenhum órgão, estava zonzo, meio perdido, sentia uma dor forte e via sua mão suja de sangue.
Pensou que teria medo da morte, que sentiria arrependimento, que iria mudar tão próximo a morte, mas não, ele continuou o mesmo e por isso o ódio tomou conta dele, em um ato desesperado pela fúria, e sem saber como ou de que forma, ele tomou a espada, e não se lembrava de mais nada, depois estava deitado em sua tenda, com pontos no tórax sabendo que mesmo ferido, ele ainda conseguira matar cinco homens que estavam entocados e haviam o pego naquele momento.
Depois ele ainda teve que tomar conta de certa burocracia como imperador, evitar que seu exercito fosse passado pra trás no que haviam arrecadado nas batalhas, por isso, não fez repouso, sentia dor, e não estava se recuperando como deveria, porque como já dito, as situações eram precárias.
—Só quero ir pra casa... –ele disse com um suspiro, fechando os olhos.
Sem saber se adormecera ou se estivera desmaiado pelo ferimento e pela dor, Gaara foi acordado pelo barulho de seus homens levantando acampamento, e preparando a partida dele, com o sol começando a querer manchar o céu com a luz da aurora.
Ele se sentou na cama e levou a mão ao machucado, este sangrava bastante, abriu a camisa e viu que dois pontos haviam estourado de novo.
—Maravilha, vou ter que ser costurado de novo.
Ele se levantou, caminhando com dificuldade e foi até um jarro com água, jogando sobre sua cabeça, a água fria o ajudou a acabar de despertar, depois pegou uma folha de erva anestésica que chegava ao seu fim, e começou a mastigá-la, mandando chamar o responsável pelos curativos.
—Kyumi, acho bom fazer um trabalho decente desta vez. –disse o ruivo abrindo a camisa manchada de sangue.
—Eu tento meu senhor, mas é difícil cuidar disto aqui. A viagem pode piorar tudo.
—Piorar eu vou se não sair deste inferno! Faça o que tem de fazer, lá no Oasis eu dou um jeito de melhorar isso.
—Meu senhor, isso vai doer.
—Mais que das outras vezes?
—Eu acredito que sim, está infeccionado.
—Já me viu reclamar de dor?
—Não senhor.
—Então ande logo com isso, ou será insuportável viajar com esse calor que está prometendo.
Kyumi ficou receoso, nunca havia visto um ferimento como aquele no imperador, não sabia se era uma boa idéia obedecer aquela ordem, mas ele não tinha escolhas, então suturou a ferida de novo, enquanto Gaara apenas fez uma careta no terceiro ponto.
—Não vai segurar por muito tempo se não dermos um jeito de acelerar a cicatrização.
—Há muitas ervas no Oasis, só temos que ir embora.
Gaara respirava pesadamente e falava tentando manter a voz, mas nunca em sua vida toda sentirá tanta dor, com certeza o ferimento era muito sério dessa vez.
Todos ajeitaram as coisas e montaram seus cavalos, seria uma longa viagem a Suna e seu Oasis milagroso, por isso pediram que um dos cavaleiros fosse a frente e anunciasse a volta do exército, precisavam tranqüilizar a populações inocente, eles estavam voltando pra casa.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Ino viu um cavaleiro chegar em disparada ao Oasis, com certeza, pelo estilo de animal e pelas cores da cela aquele era um membro da vila, um membro do exército, o que encheu o coração de Ino de dúvidas, deveria ficar feliz ou esperar o pior?
Ela correu até a porta do palácio e o cavaleiro desmontou a sua frente, lhe fazendo uma mesura.
—Trago uma mensagem do imperador. O exército está a caminho da volta, me mandaram vir a frente a avisar nossa aldeia.
—Oh, graças a Deus. –ela respirou aliviada, o imperador estava vivo e voltaria para casa. –Quanto tempo eles devem demorar?
—Os deixei há um dia, provavelmente ao anoitecer estarão aqui.
—Isso é ótimo, agora pode ir.
O homem sorriu de canto e se despediu, precisava de um descanso depois uma viagem tão longa e tão rápida, sem paradas.
Ino não podia controlar a felicidade que sentia, então saltitava pela casa, e quando entrou na cozinha trombou com Shikamaru.
—Minha nossa, que felicidade é essa?
—Me desculpe Nara, mas estou mesmo feliz, Gaara está voltando, acabei de receber sua mensagem.
—Isso é mesmo ótimo, que bom que o imperador vem pra casa.
—Você realmente o admira, não é?
—Todos aqui o admiram, ele é um homem muito corajoso, aliás, é o homem mais corajoso e valente que eu já tive o prazer de conhecer.
—Creio que todos vão gostar da noticia... –ela disse pensativa.
—Oras se vão.
—Então tive uma idéia. –ela disse explodindo em sorrisos e Shikamaru ficou impressionado com o brilho surreal que explodiu nos olhos dela.
—Nossa, parece que foi uma excelente idéia...
—A vila está toda reconstruída, voltando a florescer, os homens estarão de volta muito em breve e eu acho que devemos comemorar isso em grande estilo.
—Claro que deveríamos, mas o que sugere?
—Uma festa.
—O que?
—Sim, uma festa, com tudo o que todos tem direito, comida, bebida, musica, seria perfeito, não acha?
—Acho que nunca tivemos uma festa por aqui, e que aposto que não haveria muito tempo para prepará-la.
—Há dúzias de mulheres e crianças aqui que eu sei que adorariam ajudar, e todos ficariam muito contentes.
—Isso, é verdade mais...
—Mas nada, séria esplêndido. –ela bateu as mãos em felicitação, mas perdeu o sorriso ao ver que o Nara lhe encarava com cuidado. –O que foi? Acha que não daria certo? Que Gaara não aprovaria?
—Por incrível que pareça, eu acho que seria uma idéia esplêndida. –ele sorriu de forma tranqüila. –Duvido que o imperador se importe.
—Então vou começar já a arrumar tudo. –ela voltou a sorrir e a caminhar alegremente.
Nunca na vida Shikamaru viu uma festa ser preparada tão rápido, em pouco tempo, o centro da vila estava todo enfeitado, comidas sendo preparadas, toneis de bebidas trazidos dos armazéns, e todo mundo super empolgado com aquilo.
O Oasis parecia mais bonito, mais vivo e todos estavam super empolgados. As crianças se divertiam e se preparavam, as mulheres se banhavam e se perfumavam, todos pareciam tão resplandecentes quanto Ino.
A noite despontava no horizonte, o céu se enegrecia, as estrelas despontavam e a musica animava o lugar, enquanto a cavalaria do exército era refletida nos tons escuros do crepúsculo.
Gaara vinha entre seus homens, estava exausto, não suportava mais tanta dor, mas ouviu de longe a musica e as risadas vindos do Oasis, enquanto os seus homens se encaravam.
—O que está havendo? –indagou o general.
—Isso parece som de festa. –disse um outro rapaz com deboche, rindo de si mesmo.
Ao se aproximarem mais um pouco, viram tudo iluminado, panos coloridos e bandeirinhas enfeitando todo o lugar, pessoas animas conversando e rindo, e então viram que era realmente uma festa.
—Só existe uma pessoa capaz disso... –disse Gaara com satisfação.
—A imperatriz? –indagaram todos surpresos.
Gaara não respondeu, apenas continuou o galope, mas aos poucos foi ficando mais pra trás no grupo, enquanto eles chegavam a entrada da cidade.
Todos receberem o exercito com felicitações e alegrias, eles iam deixando os cavalos no estábulo, aos cuidados do Nara, e depois eram recebidos por suas famílias, que lhes enchiam de mimos, e tudo estava perfeito, no entanto Ino estava preocupada, onde estava Gaara?
Ela olhava no meio de toda aquela gente e nada do robusto imperador, até que desorientada ela olhou pro lados, depois pra cima, como se quisesse rezar e o viu na sacada do palácio, encarando ela, então ela sorriu muito feliz e ele adorou aquilo, e sem esperar mais ela correu pra dentro, indo pra sacada, mas ele não estava mais lá.
Pensou que estivesse maluca, que a vontade de por os olhos nele estava lhe pregando uma peça, mas então viu a luz de seu quarto acesa, e foi até lá, Gaara estava de pé, na sacada, encarando Shikamaru arrumar os cavalos.
—Gaara. –ela disse muito feliz e correu até ele.
Ele por sua vez se virou pra ela e adorou ouvir aquela voz, sentir aquele cheiro e a ter por perto mais uma vez.
—Você voltou.
—Eu disse que voltaria.
—Eu senti tanto a sua falta. –ela o abraçou forte, e ele soltou um grito abafado, rangendo os dentes, e afastando um pouco.
Ela arregalou os olhos e olhou pra ele, sem entender, preocupada, então viu ele com a mão no centro de seu tórax e a camisa dele toda ensangüentada.
—O que aconteceu?
Ele queria tranqüilizá-la, queria esquecer a dor, mas não podia, seu corpo não lhe obedecia mais.
—Pelo amor de Deus Gaara, o que houve? –ela perguntou desesperada, levando a mão junto a dele, sentindo o sangue quente jorrar pela camisa.
—Foi só um ferimento... –a voz dele saiu fraca de mais, assim como estava seu corpo.
Ino viu o corpo dele ficar um pouco mole, e então a mão dele segurou o batente da porta da sacada.
—Você tem que se sentar. –ela o apoiou nela e o levou até a cama, ele se sentou e depois deixou o corpo cair cansado sobre o edredom, se deitando. Ela encarou o corpo dele e depois correu até a sacada. –Shikamru. –ela gritou e viu o moreno erguer os olhos. –Preciso de ajuda de pressa, chame o curandeiro.
—O que houve?
—Só faça o que estou pedindo.
O Nara fechou a baia que arrumava e saiu correndo, então ela voltou pro lado de Gaara, que mantinha uma das mãos na barriga.
—Vai ficar tudo bem, você já terá ajuda.
—Estou perdendo muito sangue. Aperte aqui, assim. –ele levou a mão dela até a ferida e mostrou como ela deveria fazer, pressionando o local. –Tente pegar alguma coisa, o lençol, por exemplo, e continue apertando. –a voz dele saia bem fraca e espaçada.
—Minha nossa, minha nossa... Por favor, Gaara, agüente firme, você não pode ter voltado pra morrer. –os olhos dela ficaram marejados, e ela os apertou fechados.
Ela abriu os olhos ao sentir ele lhe tocar o rosto, quando abriu os olhos não pode acreditar, ele sorria pra ela de um jeito tranquilo, sereno, enquanto encarava seus olhos.
—Precisava voltar, eu prometi, e não me permitiria morrer sem olhar pra você mais uma vez ao menos.
—Não fale assim, você não vai morrer.
—Talvez sim, talvez não. Mas não importa, você está mais linda do que nunca. Fez um bom trabalho com a festa. –a voz começava a falhar e a saliva ficava mais expeça.
—Gaara não morra, você não pode me deixar. –ela pediu com as lágrimas lhe correndo pelo rosto, mas ele pareceu não ouvir, porque fechou os olhos e não se moveu mais.
Ela gritou seu nome, o sacudiu, mas ele estava imóvel e seu coração cada vez mais fraco, se ele não havia morrido, também não tinha mais cem por cento de vida, ele estava perdendo uma parte sua.
Fale com o autor