Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
18 Capítulo 18
O som abafado de botas pesadas contra a pedra e o choque de placas de aço ritmavam o pátio inferior do Palácio das Areias. Não havia multidões ou cavalgadas barulhentas. Apenas a elite da Guarda de Ferro e os comandantes do Deserto posicionavam-se para a marcha. A missão do Flanco Leste exigia discrição e impacto.
Eu estava de pé perto da grande escadaria, tentando disfarçar o suor frio nas palmas das minhas mãos antes de puxar e ajustar as luvas de couro. O sol já reluzia sob o manto azulado celeste. Vestia a calça branca de combate, botas pretas de cano alto e a túnica azul-escuro do Norte — um uniforme leve, mas no qual eu ainda me sentia uma estranha. A adaga de minério translúcido pesava na minha cintura não apenas como um metal, mas como um lembrete esmagador do pacto que fizera. Meu peito subia e descia num ritmo descontrolado; eu nunca tinha estado em uma batalha real antes. Eu me sentia desconfortável. Não sabia lutar, e não tinha qualquer informação sobre a históriaque me ajudasse. Sem atalhos.
Kakashi aproximou-se a passos calmos, ajeitando a braçadeira do seu uniforme. O seu único olho visível percorreu meu traje, notando a rigidez involuntária nos meus ombros antes de focar em Sasuke e Gaara.
— As forças da vanguarda estão posicionadas — disse Kakashi, a sua voz baixa mantendo a habitual serenidade. — Entraremos no Desfiladeiro Leste em duas horas e iniciaremos a pressão tática. Mantenham o avanço pelo Vale dos Cristais rápido. Não conseguiremos segurar a atenção de Sasori por tempo indeterminado se ele notar a ausência de vocês.
— Mantenha a linha firme e não estenda a formação além do necessário, Kakashi — instruiu Sasuke, a sua voz grave e imperativa soando com a autoridade de um imperador.
Apesar da postura impecável e da túnica do Norte que ele sustentava sem curvar a espinha, o calor sufocante do deserto era um suplício velado para quem nascera sob as geadas do Norte. Um olhar atento veria a leve névoa fria que emanava imperceptivelmente da gola de Sasuke, o esforço silencioso de suas habilidades apenas para regular a própria temperatura e manter a postura de que aquele forno de areia não o afetava.
— Tratar com marionetes e truques de Sasori naquele terreno já seria incômodo — comentou Shikamaru —, mas simular a presença do Imperador no meio da fumaça vai exigir precisão. Tratem de não se atrasar.
Kakashi virou-se levemente na minha direção, percebendo o modo como minhas mãos tremiam sutilmente sobre a bainha.
— Mantenha a cabeça fria, senhorita Haruno — disse o Comandante. — Nos encontramos do outro lado.
— Obrigada... fiquem em segurança — murmurei, a voz travando um pouco na garganta antes de concordar com a cabeça.
Kakashi e Shikamaru deram meia-volta, sumindo com o contingente em direção ao portão Leste.
Gaara deu dois passos à frente, parando na beira da grande plataforma de arenito que se debruçava sobre a vastidão das dunas de terracota.
Atravessar aquele oceano de areia a pé levaria tempo demais — um luxo do qual não dispúnhamos. O Regente das Areias ergueu a mão direita, fechando os dedos num gesto firme.
Um zumbido grave e subterrâneo reverberou do fundo da terra.
Diante dos meus olhos, a areia dourada ao redor da borda começou a se agitar. Sob o comando de Gaara, a massa densa ergueu-se em torvelinhos concentrados e moldou-se na forma de três plataformas ovais de areia compactada, flutuando a meio metro do solo, sustentadas por correntes contínuas de vento seco. O atrito desaparecia; o deserto deixava de ser uma barreira e virava o nosso próprio caminho.
— O Vale dos Cristais fica a duas léguas a oeste — explicou Gaara, a sua voz serena cortando o sibilar da brisa. — As plataformas nos conduzirão pelas cristas das dunas em alta velocidade sem deixar rastros profundos para os batedores da Akatsuki.
Sem hesitar, Gaara assumiu a posição sobre a primeira plataforma, que deslizou suavemente sob os seus pés.
Sasuke avançou em seguida, pisando com firmeza na segunda estrutura. O Imperador ajustou a postura, o manto escuro do Norte balançando com o vento, os seus olhos negros e analíticos varrendo o horizonte como se calculasse cada inclinação do terreno.
Dei o passo final e subi na terceira plataforma. No instante em que a sola das minhas botas tocou a areia moldada, o bracelete no meu pulso direito deu um leve pulso morno. Veios sutis de luz verde-esmeralda correram pela base da estrutura, estabilizando-a instantaneamente sob o meu corpo de um jeito quase intuitivo.
Com um único comando de Gaara, disparámos para a frente.
A sensação era avassaladora. Em vez de afundarmos na areia aquecida, cortávamos as dunas em altíssima velocidade, deslizando pelas cristas de terracota como se surfássemos num mar dourado. O vento do deserto chicoteava o meu rosto, soprando forte contra a túnica azul e bagunçando as mechas do meu cabelo rosa. A paisagem ao redor virava um borrão de luz, relevos e paredões de arenito que passavam rapidamente ao nosso lado.
A plataforma de Sasuke aproximou-se meio metro. Mesmo sob o ar tórrido que fazia suas têmporas queimarem por baixo do controle rígido de gelo, os olhos negros dele varreram minha postura encolhida.
— Você está pálida — disse Sasuke, cortando o barulho do vento. A pergunta velada veio carregada de severidade, mas seus olhos buscavam uma resposta real.
Pisquei, engolindo em seco e forçando meu corpo a estabilizar enquanto sustentava o olhar firme dele. A velocidade sob os ventos aquecidos era agradável. Por dentro, entretanto, meu coração parecia querer sair pela boca — a situação mais perigosa que eu enfrentara fora o ataque no Conselho do Norte. Ajeitei a mão sobre o cabo da adaga e dei um sorriso contido, deixando uma ponta de audácia escapar, não podia deixar que a minha hesitação atrapalhasse nossa missão.
— Preocupado com a minha palidez, Imperador? — provoquei, a minha voz saindo limpa contra o uivo do ar. — Achei que o calor do deserto estivesse ocupando toda a sua atenção...
Sasuke manteve o olhar cravado no meu por dois segundos inteiros, digerindo minha provocação. A névoa fria quase imperceptível ao redor do colar da sua túnica entregava o esforço dele para não demonstrar o quanto aquele calor o incomodava, mas a postura dele continuava inabalável.
— Preste atenção no terreno — retrucou ele, endurecendo o tom para disfarçar o incômodo com o calor. — Se vacilar quando pisarmos no vale, não espere que eu pare para te recolher. Mantenha a mão nessa lâmina e garanta que essa audácia dure até o primeiro confronto.
Assenti, ajustando a minha postura sobre a areia flutuante enquanto o desfiladeiro despontava no horizonte.
À nossa frente, a paisagem de dunas suaves começou a se rasgar numa fratura monumental na rocha do deserto. A areia ia gradualmente desaparecendo, cedendo espaço a um desfiladeiro cavernoso e profundo, onde formações de minério bruto e cristais translúcidos projetavam-se das paredes de arenito como espinhos gigantescos, refletindo a luz do sol em feixes afiados e azulados.
As plataformas de areia desaceleraram suavemente até estancarem na entrada do desfiladeiro, desfazendo-se em poeira comum assim que pisamos no solo de rocha e minério.
O silêncio do local era soturno, cortado apenas pelo som seco do vento nas formações translúcidas.
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O Vale dos Cristais não parecia uma formação natural da terra, mas sim uma ferida ancestral na rocha do deserto que havia cicatrizado em vidro e minério.
Era um desfiladeiro monumental e profundo, prensado entre dois penhascos verticais de arenito escuro. Das paredes e do leito de pedra, projetavam-se formações ciclópicas de cristais transparentes — estruturas pontiagudas, algumas da espessura de troncos de árvores seculares, subindo em ângulos oblíquos até quase se tocarem no topo. Sob a luz direta do sol do meio-dia, os cristais refratavam a claridade em feixes cintilantes, azulados e esmeraldas, criando um labirinto de luzes hipnotizantes e reflexos enganosos. Abaixo dessa camada de vidro reluzente, repousava uma matriz densa de minerais escuros e veios metálicos que reluziam em tons de cobre e cobalto sob a poeira fina.
Mas a beleza do lugar era sufocada por uma atmosfera pesada de absoluto suspense.
O vento do deserto, ao afunilar-se pelas fendas estreitas e cavidades ocas dos cristais gigantes, não soprava como uma brisa comum: ele ressoava num uivo agudo e melancólico. O som constante parecia um murmúrio humano distorcido, ecoando pelas paredes de basalto e mascarando qualquer outro ruído ao redor.
Para atravessar o desfiladeiro, o grupo não podia usar as plataformas de areia — a luz dos cristais refletiria o movimento no ar e entregaria a posição a milhas de distância. A única rota era a pé, caminhando por uma estreita garganta de rocha que serpenteava no fundo do penhasco, onde sombras densas cortavam o reflexo do sol.
A formação de marcha era rigorosa. Gaara guiava a vanguarda, varrendo o terreno à frente. Eu caminhava no meio — protegida entre os dois —, com a atenção tensionada ao limite. Sasuke vinha logo atrás, fechando a retaguarda como uma sombra vigilante, a mão repousada sobre o cabo da espada negra.
— Mantenham os passos leves e os sentidos atentos — instruiu Gaara numa voz baixa, quase um sussurro devorado pelo uivo do vento. O Regente seguia na vanguarda, com a areia da sua cabaça já levitando sutilmente ao redor do seu tornozelo esquerdo. — A acústica deste vale é traiçoeira. O eco dos cristais pode fazer um ruído à nossa esquerda parecer estar às nossas costas.
— E os reflexos pioram tudo — acrescentou Sasuke, a voz rija logo atrás de mim, com a mão direita repousada sobre a manopla da espada negra. Seus olhos negros vasculhavam as formações no topo dos penhascos, onde as lâminas de minério criavam pontos cegos mortais. — Qualquer movimento no topo se multiplica em dezenas de espelhos no chão. Não confiem no que veem de primeira.
Eu caminhava, trancando a respiração a cada três passos. O nervosismo fazia meu estômago se contorcer num nó apertado. Eu não sabia manejar uma espada, não tinha anos de treinamento de combate corporal como eles e o peso da adaga presa à minha calça parecia me lembrar da minha vulnerabilidade a cada segundo. Qualquer desvio de atenção ali seria fatal. Focando cada fibra de energia que possuía, mantive o olhar atento a qualquer vibração nas rochas, a mão esquerda tocando a bainha de prata para me certificar de que a arma de minério continuava ali.
Avançávamos em fila indiana, pisando sobre cascalhos de minério que estalavam bem baixo sob o solado de nossas botas. Estar no centro da formação me dava uma falsa sensação de segurança, mas a responsabilidade de ser o ponto mais despreparado entre dois Imperadores pesava sobre meus ombros. Meus olhos iam de um lado para o outro, vasculhando o interior das facetas reluzentes de cada cristal.
De repente... um som.
Um estalido seco e isolado ressoou à direita. Curto. Metálico.
Gaara parou no mesmo milissegundo, a cabeça virando suavemente para a direita. A areia que flutuava em torno de seus pés subiu num sobressalto contido, espalhando-se como uma barreira defensiva curta. Seus olhos verde-pálidos estreitaram-se ao fixar uma gigantesca formação de cristal. No entanto, tudo o que o Regente viu foi a refração distorcida de seu próprio rosto repetida em três ângulos diferentes na rocha espelhada.
Sustei a respiração no mesmo instante. Olhei rapidamente para uma coluna de cristal de quase três metros de altura. Por um segundo, vi a sombra de algo se mover na superfície translúcida, mas quando pisquei, era apenas o meu próprio reflexo distorcido pela refração da luz.
— Viram isso? — murmurei, a voz quase sumindo na garganta.
— Ali — murmurou Gaara, a voz tensa enquanto dava um passo calculado para o lado, tentando enxergar por trás da coluna transparente. — Não... é apenas o reflexo. O som veio da esquerda.
Sasuke girou o tronco com uma rapidez mortal, os olhos negros cravados na parede oposta do penhasco. Ele buscou a fonte com o olhar analítico, mas a luz do sol refratada nas pontas dos cristais criava feixes afiados que cegavam a visão direta, multiplicando vultos inexistentes em cada faceta do minério. O maxilar de Sasuke travou com visível irritação.
— Maldição... o vale está rebatendo o eco — rosnou Sasuke, a mão apertando o cabo da espada com mais força. Ele deu meio passo para trás, colando sua ombreira quase na minha para garantir que meu ponto cego estivesse coberto. — Fique no centro, Sakura. Não se mova.
Mais alguns metros. O uivo do vento pareceu oscilar, falhando por uma fração de segundo. E no vácuo daquela pausa...
Um arranhar abafado, como madeira pesada roçando contra a pedra bruta, ecoou do alto.
Gaara ergueu os olhos imediatamente para o topo das formações, a areia de sua cabaça subindo em espiral para cobrir nossas cabeças. Ele tentou rastrear o atrito, mas as paredes de basalto estavam cobertas por centenas de fendas e prismas de vidro. A madeira parecia estar ao mesmo tempo a dez metros acima e logo atrás de nós.
— Está vindo de cima... não, do solo — disse Gaara, os dedos da mão direita flexionando-se no ar enquanto controlava o fluxo de areia, visivelmente frustrado por não conseguir mapear a ameaça com a precisão habitual. — Os cristais estão anulando a vibração da terra.
Sasuke deu um giro rápido de cento e oitenta graus, cobrindo a nossa retaguarda. Seus olhos vasculharam freneticamente a penumbra das fendas escuras, o peito subindo numa respiração ritmada enquanto tentava ignorar as dezenas de ilusões de ótica que o sol criava no chão.
— Eles estão nos cercando usando os pontos cegos dos prismas — advertiu Sasuke, a voz caindo num tom perigosamente grave. — Estão se movendo junto com o ritmo do vento.
A sensação de estar sendo observado não era mais uma paranoia da minha mente; era palpável, física. Um arrepio gélido subiu pela minha nuca.
Então, o ar mudou.
Não foi apenas o ruído que nos alertou em definitivo, mas uma transformação sutil e claustrofóbica no próprio ambiente.
A brisa seca do deserto, antes limpa e purificada pela altitude, gradualmente tornou-se densa, quente e impregnada por um cheiro acre, almiscarado e pesadamente metálico. Era um odor espesso que impregnava as narinas e queimava o fundo da garganta como fumaça invisível.
A mudança no ar me atingiu como um soco no estômago. Minhas pupilas se dilataram e um arrepio violento correu por toda a minha espinha, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem sob o tecido da túnica. Senti a bile subir na garganta; a náusea causada pelo cheiro metálico misturou-se com o pavor puro de não saber de onde viria o golpe.
Tentei puxar o ar, mas meu peito estava tão comprimido pela ansiedade que a respiração saiu em ganfadas curtas e entrecortadas. Minhas mãos, trêmulas e suadas dentro das luvas de couro, apertaram o cabo da adaga com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. O coração martelava descontrolado contra as minhas costelas — um ritmo ensurdecedor que parecia ecoar dentro dos meus próprios ouvidos. O tremor começou nos meus joelhos e subiu pelas pernas, e precisei fincar os pés com firmeza no cascalho de minério para garantir que meu corpo não fraquejaria ali mesmo.
A formação estancou de vez. Sasuke deu um passo firme à minha frente, cobrindo meu peitoral com o próprio corpo, enquanto Gaara cruzou os braços em sinal de alerta máximo, o turbilhão de areia girando mais rápido ao nosso redor.
— Sente isso? — murmurou o Regente, os olhos fixos na cavidade mais escura do vale.
— Veneno — respondeu Sasuke, com o olhar queimando de fúria.
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