Imortalidade - O caso Safira
1 Imortalidade - O caso Safira (Capítulo único)
Ao contrário do que dizem por aí, vampiros podem sim andar sob o sol. Eles estão em todo lugar: no trabalho, na sala de aula da escola secundária e até na Academia, de acordo com sua idade e nível de maturação. Hoje falaremos de um ente que está no nível mais avançado de sua metamorfose.
Safira, há algumas dezenas de anos atrás, fora útil, bondosa, disposta e bela. Poucos dias antes da “experiência”, em seus 88 anos, era uma dessas velhinhas mirradas que passam o dia sentadas em uma cadeira de rodas, não cosendo sapatinhos de tricô para os bisnetos, mas olhando para a frente, imprestável e muda, provavelmente se lembrando de um tempo distante em que um derrame ainda não tinha levado embora sua capacidade de falar e de se mover.
Vigorosa, cuidou dos oito filhos com afinco desde que o marido se fora com uma tuberculose, deixando a então viúva de 31 anos sem ter com quem contar. Com todos trabalhando e vivendo suas vidas depois de grandes, o único que a admitia em casa era Nelson, o filho mais novo, que a deixava sob os cuidados ingratos da mulher, filhos e netos. Estes últimos em especial, Talita e Agostinho, conseguiam ser piores do que todos os outros que fingiam que a velha era uma planta: cobriam sua cabeça alva com lençóis, corriam à toda com sua cadeira de rodas, deixando-a colidir de encontro à parede, acenavam diante de seu rosto aguardando reação, gritavam-lhe nos ouvidos e riam-se de sua inatividade como se fossem imunes aos efeitos do tempo. Nelson certa vez pediu à filha que conscientizasse suas crias. A adolescente tardia prometeu correção, mas logo voltou sua atenção ao controle remoto da TV, ignorando o pai e os filhos.
Certo dia, Maria do Perpétuo, mulher de Nelson, fora encarregada de levar Dona Safira ao cartório para renovar a procuração que lhe permitia receber o benefício da aposentada. Na volta, a pretexto de comprar algo no supermercado, Maria do Perpétuo deixou a idosa a sós no carro dizendo que “voltaria dali a pouco”, o que não aconteceu. Do estacionamento, Safira pôde observar a nora jogando conversa fora com uma amiga enquanto ela torrava debaixo de um sol de quase quarenta graus. Ofegando, olhou para o lado e, se pudesse, gritaria ao ver quem estava ao seu lado: um belo e pálido jovem desconhecido, que não reconhecia como sendo nenhum de seus netos.
— “Quem eu sou?” — ele lhe perguntou, como se lesse seus pensamentos – Eu fui como você há algumas dezenas de anos. Se eu dissesse que é possível abandonar isso tudo, você me chamaria de louco, certo?
Socorro!, a idosa gritava em seu inconsciente.
— Sobre sua pergunta, gostaria de dizer que sou um enviado dos deuses para resolver seus problemas. Mas não: sou apenas alguém que está com fome no momento.
Foi um segundo entre ele revelar suas presas imensas e cravá-las no pescoço fino e envelhecido da mulher, que sentiu uma dor equivalente à de duas vacinas afincadas na região.
— Como não acho educado sair sem me apresentar, meu nome é Jonathas, mas eu também já me chamei Renato. A quantidade de nomes de cada um de nós vai mudando de acordo com a necessidade. A eternidade pode ser um pouco entediante, mas tudo vai depender do seu ponto de vista. Obrigado pela refeição, mas seu sangue tem o gosto horroroso.
Dona Safira achou que estivesse sonhando: acordou com o movimento do carro e sua nora impaciente ao volante, reclamando da obrigação de estar com ela:
— O Nelson me apronta cada uma! Nem pela minha mãe eu faço isso!
E assim por diante. O curioso era que Safira agora não escutava mais com dificuldade o que ela dizia. Antes, tinha que entender o que ela falava pelos seus movimentos bruscos, sua cara zangada e seus gestos agressivos. Foi então que ela começou a pensar na possibilidade de a visita do vampiro não ter sido exatamente um sonho. Esse fato ficou ainda mais concreto quando ela moveu a cabeça para o lado e a dor lancinante das presas se fez perceber.
— O que está olhando? — inquiriu a nora, emburrada.
— Nada... — Safira conseguiu responder.
O carro fez um ziguezague na Avenida Principal e houve muito burburinho, buzinadas e freios.
— Está maluca, minha senhora? — gritou um dos motoristas, muito nervoso.
Só podia estar, pensou de si para si Maria do Perpétuo. Dona Safira não falava há mais de sete anos!
A novidade foi recebida com assombro em casa. Dona Safira tagarelou ao jantar, lembrando causos que seus netos e especialmente seus bisnetos não gostariam de ver verbalizados, ainda mais na versão dela. Naquela noite, Perpétuo e Nelson começaram a discutir, desesperados, o que fariam caso Dona Safira descobrisse sobre aquele empréstimo que eles tiraram para reformar um banheiro só porque não gostavam da cor, ou aquele outro que fizeram para comprar aquela joia que Perpétuo nunca mais veria na frente se não apresentasse o dinheiro ainda naquela semana. Sem falar do dia que Luiza, filha deles, aproveitou que o cartão tinha a senha anotada no verso e fez mais um empréstimo no caixa eletrônico para ir com os amigos a uma casa noturna em certo fim de semana.
Se eles estavam desesperados naquele momento, maior foi seu espanto no dia em que Dona Safira veio até a mesa do café da manhã caminhando, e elegantemente vestida. Quem a visse, jamais a associaria à idosa de vestes mal colocadas e postura prostrada de algumas semanas atrás.
— Bom dia, meus queridos – disse, com uma voz branda que parecia mais assustadora do que gentil.
Sua visão, como a audição, foi outro sentido que melhorou drasticamente: coisas a quilômetros de distância apareciam como se estivessem a poucos metros de seus olhos, límpidas e espelhando, sem um mínimo de embaçamento para contar história. Ela também ficou rápida e forte: conseguiu em milésimos de segundos aparar Talita nos braços quando seu irmão Agostinho a empurrou da escada depois que as crianças brigaram entre si.
Safira agora via e escutava as coisas como se estivesse permanentemente detrás da porta das pessoas. Chegou a descobrir, em curto intervalo, as traições da nora com um garotão, os empréstimos, a gravidez de Luiza e uma nota vermelha de Agostinho. E quantos mais fizessem suas confidências desesperadas dentro dos limites daquela casa, ela estava a par de tudo. Foi também um processo natural descobrir o quanto era indesejada, e o quanto era tolerada somente devido à renda que acabava despejando mesmo sem querer para sustento de todos os outros.
Surpreendeu o gerente quando deu as caras no banco: o homem ficou pálido quando ela veio querer saber das contas feitas em seu nome. De qualquer modo, o que era cinco anos de dívidas para quem tinha a imortalidade nas mãos?
Safira estava também cada vez mais jovem: um certo dia, ficou surpresa ao ver no espelho uma imensa mecha de cabelos negros. Seu rosto também parecia menos marcado pelo tempo, e os olhos pareciam mais vivos e menos cansados. Apenas sua pele estava ganhando uma palidez incômoda, mas isso não parecia ser um problema muito grande diante das outras vantagens adquiridas. E essa juventude assustadora foi progredindo a ponto de chamar a atenção geral: quando, afinal, ela conseguiu se tornar mais jovem que sua nora?
Levaram-na a especialistas. Nada de estranho fora descoberto, apenas que suas doenças haviam sido surpreendentemente dissipadas (ela comemoraria o resultado do exame despejando seus remédios no ralo da pia). Outro golpe na lenda vampírica dos leigos: vampiros não estão mortos, ou os médicos de Safira teriam percebido; seu coração batia como o de qualquer outro e seu sangue continuava quente...Por falar nisso, a vampira descobriu um método imperceptível de beber o sangue dos netos enquanto eles dormiam, e tomou gosto especial pelo de Luiza, aquela neta que ficou gestante. Aparentemente, a gestação tornava seu sangue mais saboroso. Nada mais justo que sugar de volta aqueles que a sugaram um dia no passado.
Suas experiências com a alimentação a levaram à seguinte conclusão: o jovem vampiro que a atacara não teve a intenção de se alimentar dela apenas, mas de transformá-la. Com que propósito, afinal? Ela conseguia se alimentar dos netos sem transformá-los nem deixar marcas neles. Safira retornou ao estacionamento do supermercado onde o encontrou pela primeira vez, e fez isso repetida e exaustivamente, sem sucesso. A decisão de procurá-lo não foi aleatória: no seu aniversário de 79 anos, aparentava ter cerca de trinta e cinco e seu benefício da Seguridade Social fora bloqueado, pois o gerente do banco teimava que a proprietária do cartão tinha de vir pessoalmente para revalidar a senha. Ou ela, ou um procurador. Perpétuo poderia preencher essa lacuna por um ano. Mas, e nos outros, quando a procuração já tivesse vencido?
— Vou voltar a trabalhar – anunciou, quando então tinha oitenta anos e o rosto de vinte e cinco.
Suas netas já não conseguiam mais ficar ao seu lado sem tocarem na cara, incomodadas de parecerem mais velhas que a avó; sua juventude anormal ganhou repercussão junto aos amigos das jovens, e ela chegou inclusive a ser perturbada por rapazes paqueradores que não lhe respeitavam a idade de registro...
Quando escutou pela noite uma discussão sobre quererem levar seu caso à TV, percebeu que era a hora de sair de casa. Não queria seu rosto imortal e jovem explorado por mortais estúpidos para ganhar dinheiro.
Por intuição ou qualquer outra coisa, rumou para os lados do supermercado. Tinha se esquecido de que poderia voltar a atrair a atenção dos homens, e foi bastante assediada pelo caminho. Por fim, ao lá chegar, conseguiu reconhecer de costas o rapaz que a transformou:
— Eu não quero ficar assim – suplicou – Faça isso parar!
Ele se virou para ela, sorriu e pegou algo no bolso do casaco.
— Então, o que tem feito com sua nova vida? Compreendeu, finalmente, que a imortalidade anda de braços dados com a solidão?
Dona Safira pensou um pouco, e não precisou refletir muito para ver o óbvio: ela já era sozinha. O filho que a pegou como responsabilidade para si não tinha tempo para ela, os demais filhos sequer a visitavam. As netas e netos apressavam-se em atividades de jovens para não serem encarregados de cuidar da avó. A nora a detestava, dizendo que sua imobilidade era fingimento para não colaborar nos deveres da casa. Ou sugeria coisas a respeito de ela não ter se cuidado com alimentação e exercícios quando jovem, e estar colhendo os frutos de seu suposto desleixo. Os bisnetos, numa vez que lhe acertaram uma bola ao rosto, disseram “se ela não gritou, não doeu”.
Apesar disso, ela balançou a cabeça meigamente e disse:
— Eles ainda viverão o bastante para saber o que é estar no meu lugar.
O jovem levantou o pequeno pedaço de papel que pegou no bolso. Era uma foto de um senhor bem envelhecido.
— Este sou eu...em 1938. Eu tinha esposa, amigos, filhos e muitas propriedades. Quando declaramos falência, todos se afastaram. Minha mulher voltou para a casa dos pais levando as crianças. E eu fiquei sozinho, esperando que eles voltassem e compreendessem que estarmos juntos era mais importante do que tudo.
— Eu sinto muito – respondeu Safira, com a voz de uma jovem de dezenove anos.
— Quando o “Mestre” apareceu, ele me prometeu juventude e imortalidade. Ele me alertou sobre tudo o que eu veria acontecer no futuro: os grandes momentos políticos, as revoltas, as guerras, as descobertas tecnológicas...disse que nada iria me impactar porque o tempo seria o meu escravo e a vida eterna o meu grande trunfo.
— Mas ele se esqueceu do peso que o tempo tem... – disse a sábia mulher – O nosso corpo só reflete aquilo que nossa mente acumula pelas eras.
— A ideia me pareceu empolgante no começo – o rapaz deu de ombros – Mas, como você disse, eu me sinto cansado. Muito cansado.
— Como eu posso fazer para minha família voltar a me reconhecer?
— Não se incomoda com o tratamento que eles têm dispensado a você?
— É uma etapa que eu preciso passar até chegar o fim. Todos passam por esse sentimento de impotência, tristeza e rancor antes de partir. Seus ossos ficam fracos, seus olhos inúteis, suas convicções vencidas e ultrapassadas por tudo aquilo que é moderno. E você fica abandonado por todos aqueles que lhe deveriam ser gratos...Fugir disso...não é natural. Como eu posso fazer para falar com seu mestre a respeito disso?
— Não existe reversão para o vampirismo. Sol, água benta, bala de prata, estaca de madeira, ou simplesmente se jogar do alto de um prédio, nada disso mata.
— Então, eu vou ficar assim para sempre?
— Não...só até encontrar alguém a quem transferir sua imortalidade.
— Então, você...?
— A senhora deve ter reparado que eu pareço um pouco mais velho do que da última vez. Eu consegui usar a senhora, um espírito infeliz e cheio de desejos de morte, como passagem para a minha travessia.
Safira o encarava, entre indignada e confusa. Ele esclareceu:
— Eu agora posso morrer. Desejo sorte na sua missão.
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