Imortais | Fatais

2 Capítulo 1 |


Uma semana e meia depois da morte de Amélie

Havia muita coisa que Kiera gostava em relação à aeroportos.

Gostava do ar sentimental que os portões de embarque e desembarque tinham. Das lojas que sempre tinham algo interessante para comprar e das pessoas, era muito interessante observá-las enquanto esperava seu voo ser chamado.

Mas gostava de aeroportos principalmente quando viajava sozinha, por saber que assim que estivesse em terra poderia ir direito para a área dos táxis e dar o endereço do lotf que lhe era disponibilizado sem dar explicações a ninguém.

Entretanto, naquele momento, depois de setenta e três horas acordada com pequenos cochilos de meia hora, segurando o choro de raiva e tentando parecer o mais profissional possível, Kiera queria desesperadamente que alguém a estivesse esperando no saguão de desembarque.

Pelo menos eu já lidei com o velório.

Haviam casais e famílias se reencontrando, com abraços, beijos e lágrimas e casais e famílias se despedindo com seus últimos beijos e abraços.

Não havia ninguém a esperando no salão de desembarque.

Uma parte de si ficou definitivamente aliviada. Não haveriam respostas para dar. Ao menos para isso servira aquela nota ridícula de pesar para a imprensa.

Entretanto, outra parte de si estava profundamente cansada e triste pelos últimos três dias desejou que qualquer um estivesse a esperando, talvez conversar com alguém de fora tirasse aquela cena da cabeça. Chase... ainda não conseguia… a brutalidade ainda a deixava meio zonza.

Havia tanto sangue… fechou os olhos enquanto balançava a cabeça para tirar aquela imagem de sua mente.

Afastou-se da área de desembarque puxando a mala com a mesma expressão de sonolento desinteresse com a qual tinha embarcado até notar, pela visão periférica, um homem seguindo-a.

Não creio que vou ser seguida nessas condições, reclamou internamente, não tô com energia pra isso.

Quando Kiera parou na livraria do aeroporto para ler as manchetes dos jornais e forçar o corpo a manter-se alerta, o homem aproximou-se como se também estivesse interessado nas manchetes. As especulações sobre o motivo do assassinato da deusa estampavam todas as manchetes.

Ela não queria mais ver aquilo.

— Foi muito repentino, não é? Quero dizer, era uma deusa, poderia ter usado seus poderes divinos e acabado com que a matou.

Kiera baixou os óculos de sol e lançou um longo olhar avaliador para o homem que a observava esperando pôr uma resposta. Empurrou os óculos de volta com o dedo médio.

Cabelo preto ficando grisalhos, grande o suficiente para cobrir as orelhas mas não para chegar a gola da camisa, olhos frios e a postura de quem estava preparado para correr e conter alguém se necessário além de estar excessivamente alerta. Procurado ou foragido?

Alguém contratado para ameaçá-la? Já não bastavam tudo e todos os outros e que tiraram de si?

Kiera sorriu ao notar o que deveria ser uma página de arquivo digitalizada sobre si na tela do celular do homem. Que meigo, um stalker que tem minha ficha corrida.

— A maior desvantagem da imortalidade é que alguém vai tentar tirá-la de você. — respondeu pondo os óculos novamente no rosto. — A morte é especialista nisso. Tenho certeza que a polícia vai encontrar o responsável. Um assassino é relativamente fácil de achar.

O rosto do homem endureceu quanto ele baixou os olhos e viu a tela do celular ligada. Procurado, ela decidiu, um homicida provavelmente. Ele levantou o olhar conferindo se tinha sido descoberto. Sim, você foi descoberto antes mesmo de notar.

— Prefiro a foto do passaporte — Kiera comentou baixo, indicando o aparelho. —, a iluminação tá melhor e não parece que sou um boneco de argila recém terminado. Mas vamos ao que te interessa, o que quer comigo?

Se possível, o olhar do homem endureceu ainda mais. Kiera rolou os olhos antes de tirar os óculos escuros do rosto, mostrando as íris castanhas quase amareladas ao homem. Os olhos de uma leoa. Não estava com paciência para homens achando que podiam lhe ameaçar.

— Quero apenas que saiba que não pode se esconder aqui. — o homem avisou. — Um passo em falso e…

E o quê? — perguntou séria, o tom de voz duro e afiado. — Me diga, o que vai ser? O que vai acontecer comigo?

As narinas do homem dilataram discretamente. O indicador do homem estava em cima da foto que ilustrava a matéria, mostrava a imagem pixelizada do rosto de Amélie, Kiera sabia o que os pixels escondiam. A letargia do luto estava lentamente acendendo a raiva da jovem.

— E talvez Juno não seja a única que vai sorrir pela eternidade. — o homem finalizou. — E você tem a pele tão bonita e uniforme, seria uma pena um corte estragar isso.

Kiera suspirou e sorriu como se tivesse ouvido um elogio por alguns segundos antes que sua expressão se igualasse ao do homem. Raiva queimando lentamente no fundo de seus olhos e fazendo seus dedos tremerem.

— Eu não sei quem você é. — Kiera falou impassível. — Não sei se foi contratado, se trabalha sozinho, se é um fanático ou um daqueles que acha que os Avatares são uma mentira mas vou dizer a você algo que não vai encontrar na minha ficha. Eu não gosto de ameaças. Então, se você, seu chefe ou grupo acham que ameaçar uma Tríplice vai assustar, por parecer que sou frágil, repense. Lidamos com coisas piores que pessoas covardes, e, se você realmente leu minha ficha, sabe do que sou capaz de fazer.

E antes que o homem pudesse responder algo Kiera tinha se afastado, óculos novamente no rosto e uma das mãos afundada no bolso do casaco longo enquanto a outra puxava a mala de rodinhas para a área dos táxis.

Assim que entrou no carro e deu o endereço de onde ficaria, buscou o celular e suspirou ao ver as notificações na tela. Ignorou todas elas e foi para a discagem, ligando para Evy mesmo que estivesse de madrugada na outra metade do mundo.

Descanso pra quem? Não para nós.

Que foi Praga? — a voz sonolenta de Evy perguntou assim que a ligação foi atendida.

— Ainda bem que está de bom humor, tenho coisas para contar.

Foram longos minutos até chegar no destino, foram longos minutos ouvindo uma voz conhecida.

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Havia tempo considerável que não ia ao loft, mas ele tinha sido mantido exatamente da mesma que se lembrava.

Cômodos grandes e arejados com grandes janelas, cores neutras nas paredes, decoração minimalista colorida nos ambientes comuns e cinco quartos, dos quais ela só tinha a chave de dois.

Kiera manteve-se ocupada durante o dia todo, forçando o corpo e a mente a exaustão para evitar pensar no homem que a ameaçou e na parca certeza que tinha de que estaria protegida por trás da fachada de Tríplice.

Às dez da noite, depois de um banho demorado para tirar o cheiro de viajem do corpo e relaxar os músculos, tudo que ela esperava era um pouco de paz para dormir o suficiente.

Estava considerando ir pra cama mais cedo quando a campainha começou a tocar de forma insistente demais para ser uma entrega de comida.

Prendeu o cabelo com um palito de cabelo feito de metal com a ponta afiada e pôs-se a ir até a porta com passos altos e a abriu de supetão, dando de cara com um rapaz de aparência esbaforida e farda policial.

Isso lhe quebrou qualquer expectativa. Deixou que a cabeça prendesse um pouco para o lado, um pouco do cabelo cacheado soltando-se do palito.

— Não me lembro de ter… uh, chamado ajuda…?

O rapaz policial não parecia ter mais que vinte e quatro anos, o que a deixou um tantinho zonza já que não passava dos quase vinte e um.

— Perdão pelo horário, mas houve uma série de pequenos imprevistos que me impediram de encontrá-la no aeroporto. — o rapaz policial falou quase num fôlego só.

Eu só quero uma noite de descanso, só isso.

— Você… sabe ao menos quem eu sou? — perguntou lentamente.

Tirou o palito do cabelo como se não fosse nada demais, o deixando encaixado entre os dedos.

— Você é a senhorita Kiera Fakhri, estou certo? — Kiera assentiu lentamente. — Tríplice sacerdotisa, o cargo mais alto que um mortal pode chegar dentro do Panteão. Chegou hoje entre as onze da manhã e duas da tarde.

— No voo da uma da tarde. — corrigiu num murmúrio.

— Ninguém avisou que alguém da polícia estaria a sua espera?

Kiera suspirou pesadamente.

— Não... Mas teria apreciado sua presença já que fui ameaçada na livraria do aeroporto.

O rosto do rapaz policial avermelhou-se rápido demais e uma partezinha da jovem sentiu-se mal. Mas o cansaço silenciou essa parte.

— Me desculpe, ah deuses me desculpe por não estar lá para ajudá-la! — o rapaz policial começou a falar, muito rápido. — Eu deveria ter me organizado melhor! Passei tanto tempo estudando sobre que-

— Já passou. — Kiera interrompeu, abrindo mais a porta. — Eu só… estou cansada dos últimos dias. O assassinato e o velório foram desgastantes.

O rosto rapaz contorceu quando ele baixou os olhos e viu os braços descobertos de Kiera. Pôr um segundo ela teve o ímpeto de cobrir os braços, mas no segundo seguinte decidiu que não o faria mais.

— São dos treinos. — contou. — Sacerdotes gostam de falar que treinam pesado, mas só fazem um quarto do esforço de um Tríplice.

— Eles sempre fazem parecer tão difícil para qualquer um que não esteja envolvido no mundo deles.

Kiera rolou os olhos, aí de um Sacerdote se tivesse sua rotina de obrigações.

— Acontece, eles são o intermédio entre fiéis e nós, gostam de parecer mais durões. — explicou. — Mas ainda não sei seu nome, policial.

O rosto do policial coloriu-se de vermelho ao notar que ela tinha razão. Ele empertigou a postura e pôs sua expressão séria no rosto para se apresentar.

— Ronan Layvel, detetive-auxiliar na investigação do assassinato de Juno. — apresentou-se. — E realmente sinto-

— É um nome bonito policial. — comentou o interrompendo gentilmente. — Seu turno deve começar às oito em ponto, — ponderou, antes que o policial continuasse a falar. — lá pelas nove e meia passo na delegacia para ver como anda a linha de investigação, mas realmente preciso dormir agora. Boa noite detetive Layvel, até amanhã.

E fechou a porta sem esperar resposta, irritada com o próprio comportamento, mas cansada demais para se arrepender.

Caminhou arrastando os chinelos até o quarto onde dormiria, torcendo para que tivesse uma noite sem pesadelos.

Notas finais
comentários, criticas, teorias são sempre bem vindos