Imortais
3 Capítulo 3
A água morna do chuveiro me fez sentir melhor. Não dormi quase nada ontem à noite, fiquei pensando como o Daniel estava, eu não tinha nenhuma notícia dele. Desliguei o chuveiro e peguei a toalha, me enxuguei e sai do banheiro do meu quarto. Meu quarto era pequeno, mas nele cabia tudo o que eu achava necessária pra ser meu quarto. A cama ficava de frente para a porta do quarto, encostada no canto direito. Ao lado dela minha escrivaninha onde ficam meu notebook, alguns de meus livros, um abajur de luz baixa, uns desenhos que faço e os objetos que uso para desenhar, alguns dentro de copos, e outros espalhados pela escrivaninha. A esquerda do quarto fica meu guarda roupa e o banheiro. Na parede que minha cama encosta tem uma grande janela de vidro e madeira, na parede contrária estão o resto de meus livros, alguns brinquedos de minha infância e uns cabides, onde penduro a mochila, bonés e moletons, quando não estão no guarda roupa.
Terminei de me enxugar e fui pegar algo pra vestir para ir à delegacia. Peguei uma calça jeans preta e uma camiseta listrada de manga longa para vestir. Olhei meu cabelo no espelho que ficava na porta do guarda roupa, calcei uma sandália de couro com correia cruzada, sai do quarto e desci as escadas que davam a sala de estar. A direita ficava a cozinha, entrei nela e vi que meus pais já estavam tomando café, pão com presunto e queijo e café com leite.
_Opa, filho, está tudo bem? – perguntou meu pai sempre carismático.
_Estou! – na verdade eu não estava nada bem, só havia respondi que estava para não abater meu pai. Minha mente estava muito confusa com tudo o que aconteceu ontem à tarde. Eu procurava explicações do porque um urso havia aparecido e desaparecido do nada. E se caso ele fosse um mutante, como seria possível alguém fazer isso? Eu já havia lido que a mutação era uma alteração causada por um gene desconhecido, mas como uma alteração genética poderia fazer uma pessoa aparecer e desaparecer? E caso isso fosse realmente possível – e parecia ser –, porque o mutante nos atacaria?
_Então, o que você quer comer? – perguntou ele interrompendo meus pensamentos, enquanto minha mãe pegava um copo para mim e colocava á mesa.
_Tem suco mãe? – perguntei
_Acho que tem um resto na geladeira. Deixa-me ver! – disse ela indo à geladeira e trazendo um jarro com o resto do suco de laranja com hortelã que ela havia preparado para o almoço de ontem.
_Aqui! Vai querer algo para comer? – perguntou ela pondo o suco no meu copo.
_Não. Isto está bom.
_A diretora Paiva ligou – olhei para minha mãe enquanto ela continuava – disse que já estava indo a delegacia para acompanha-lo no depoimento. Seu pai vai leva-lo de carro até lá.
_Ela disse se iria com alguém? Outra pessoa que iria depor? – perguntei, imaginando que Bethânia também tivesse de ir.
_Não, ela não avisou nada sobre mais alguém.
_Ah! – disse meio decepcionado.
Depois de eu e meu pai termos terminado de tomar o café, ele me levou de carro para a delegacia. Era um corsa prata 2004, duas portas. No caminho para a delegacia meu pai sempre tentava puxar algum assunto, mas eu não estava com cabeça para isso e eu sempre dava uma resposta direta para as perguntas que ele fazia. Ao chegarmos à delegacia, meu pai estacionou o carro no próprio estacionamento da delegacia, sairmos do carro e fomos até a recepção. Lá encontramos a diretora Paiva, e ao lado dela, Bethânia. Ela deu o sorriso torto para mim, na situação em que estávamos aquele sorriso parecia ser o melhor que ela podia me dar. Devolve o sorriso dela com outro mais sem graça ainda.
_Bom dia Senhor Maltez! Josué! – disse a diretora nos cumprimentando.
_Senhora Paiva! Então já podemos entrar para depor? – perguntou meu pai.
_Claro, quanto mais cedo começarmos, mais cedo saímos. – disse a diretora, logo após indo falar com um policial que estava na recepção.
_E então, você está melhor? – perguntou Bethânia. Olhei para seu rosto. Foi a primeira vez que parei para repara-la, seu cabelo estava solto, era castanho e ondulado. O rosado de suas bochechas era bem vista na sua pele clara, seus olhos castanhos eram bem nítidos e de alguma forma me deixaram sem graça. Olhei para o chão e respondi.
_Ah, sim. Na medida do possível!
A diretora voltou, e disse que o policial iria chamar o delegado para pegar nossos depoimentos. Enquanto isso era para a gente acompanha-lo a outra sala. Entramos em um corredor ao lado da recepção, na segunda sala o policial pediu para que nos esperássemos o diretor nela enquanto ele fosse chama-lo. A sala era dividida em duas partes, a primeira era a sala de espera, a segunda eu acreditava ser a sala onde daríamos o nosso depoimento. Na sala de espera havia um bebedouro e um banco com cinco lugares onde sentamos para esperar o delegado. Não demorou muito tempo e o delegado entrou, ele aparentava ter quarenta anos, tinha o cabelo bem curto com alguns fios grisalhos, assim como o bigode e orelhas visíveis no abaixo dos olhos.
_Bom Dia, sou o Delegado Nunes, sou o encarregado de resolver o caso de vocês. Gostaria de começar ouvindo o depoimento do Josué Maltez, é você? – disse ele apontando para mim. Acenei a cabeça, e deixei que ele continuasse – Me acompanhe, por favor.
Entramos na sala seguinte. Lá dentro havia uma mesa com alguns papéis, canetas e lápis e alguns outros objetos. Duas carteiras para as testemunhas e outra para o delegado, que ficava de costas para a janela. A esquerda da sala ficava a mesa do escrivão, ele possui olhos puxados, cabelos negros cortados em cuia, pele clara e aparentava estar á cima do peso, ele provavelmente descendia de orientais.
O delegado se sentou, pediu ao escrivão que se preparasse e a mim para que começasse a depor, descrevendo o que me levou á ir ao beco, até o momento em que a diretora apareceu. Tive que dizer a ele que Daniel já me obrigava a fazer os seus trabalhos escolares a um bom tempo, também contei que resolvi engana-lo dizendo que havia feito o trabalho de biologia, até o momento que ele me perseguiu e entramos no beco onde o urso apareceu. Disse também sobre o ataque do urso e como nos agimos, até a hora em que ele desapareceu, quase no mesmo instante em que a diretora apareceu com o zelador e Bethânia.
Depois que terminei o depoimento me librou e me pediu para chamar Bethânia para entrar. Enquanto ela dava o depoimento resolvi tirar uma dúvida com a diretora.
_Senhora Paiva, – ela olhou para mim e continuei – como está o Daniel?
_O corte em seu peito foi fundo, foi necessário levar alguns pontos, mas não atingiu nenhum órgão vital. Ele se recupera bem. Já está acordado. Neste exato momento deve estar dando seu depoimento para os policiais, o delegado Maltez pediu que dois policiais fossem lá no hospital em que ele está internado para pedir seu depoimento. Eu irei ao hospital visita-lo logo após deixar a Bethânia na casa dela, se quiser pode me acompanhar. Você não precisa ir hoje à escola. Passou por um momento ruim.
_Claro, só vou avisar a meu pai!
No mesmo estante, Bethânia e o delegado Nunes saíram da sala. Ela sentou ao meu lado, para ouvir o que o delegado tinha a dizer.
_Bem, ainda não posso dar nenhum veredito, já que ainda falta o depoimento do outro aluno, o Daniel. Já mandei dois policiais ao hospital para ouvir seu depoimento. Então, pelo enquanto, estão liberados. Peço para que não saiam da cidade por esses dias, ou isso poderá ser usado contra vocês. Caso seja necessário chama-los novamente, entraremos em contato. Vou pedir que o policial Oliveira acompanhe vocês a saída.
O delegado chamou o mesmo policial que nos trouxe. Nos despedimos do policial e fomos para o estacionamento da delegacia.
_Pai, pode voltar para casa. Eu vou com a diretora até o hospital ver o Daniel, ela só vai deixar a Bethânia em casa e depois seguiremos para lá. – disse a meu pai.
_Ok então. Até mais diretora Paiva.
Ele me abraçou e entrou no carro.
_Se não for incomodo diretora, gostaria de acompanha-la também. – pediu Bethânia
_Imagine, não será incomodo algum. Vamos?
Entramos no Uno vermelho 2010 da diretora e seguimos para o hospital.
Fale com o autor