Immortalitatem.

1 Capitulum I: Nocturnae.


Notas iniciais
Bom, não sei se alguém vai ler essa história, mas quem não arrisca não petisca.
Boa leitura.

― Nocturnae! ― pude ouvir uma voz desconhecida, como estivesse a me chamar.

Estava desprovida de meus sentidos, não sabia o que fazer, podia ouvir tudo ao me redor, mas não podia eu, abrir os olhos, tampouco reagir àquela sensação nem um pouco agradável.

Sentia uma presença ameaçadora, ou talvez, várias presenças ameaçadoras. Não pude ser precisa em definir o que sentia, já que não conseguia sair daquele factível desmaio.

Eu desejava falar, perguntar, estava angustiada com aquilo. Sofrer de momentos como aquele eram torturantes, já que ― imaginava eu ― que qualquer coisa poderia estar acontecendo ao meu redor, e no entanto, eu não era capaz de saber o que e nem notar o que tais acontecimentos eram.

― C... Céus! ― consegui finalmente dizer, recuperando meus sentidos.

Minha visão estava precária, era como se eu estivesse com o pior grau de miopia existente. Não conseguia distinguir, nem reconhecer quem estava ali ou o que estava acontecendo.

Esfreguei os olhos com dificuldade, pois embora já houvesse me recuperado, ainda sentia uma impiedosa fraqueza em meu corpo, no entanto, para mim era difícil até mesmo mexer minhas mãos.

Minha visão agora, estava um pou― co mais nítida do que outrora, e então, direcionei meu olhar em direção a onde haviam algumas pessoas.

A minha frente havia um jovem de cabelos negros e olhos da cor lavanda, sua pele era alva e ele aparentava ser uma pessoa serena... O mesmo lançou-me um sorriso acolhedor, que aqueceu-me o coração naquele momento de plena tensão. Retribuí o sorriso, embora não o conhecesse. Apoiei-me em um criado-mudo que estava ao meu lado para conseguir levantar-me, e ao fazê-lo, encarei a todas àquelas pessoas, com um olhar levemente incrédulo. Não conseguia eu, com minha ingenuidade, entender nada que estava ocorrendo ali. Suspirei, sentindo um pouco de angústia, e então, o rapaz, gentilmente apanhou minha mão e beijou-a. Corei de instante, e então, pude ouví-lo dizer:

― Bem vinda, Nocturnae.

― … Nocturnae? ― indaguei, de forma imprecisa.

― Lhe apelidamos dessa forma, pois cremos que este nome combina com a senhorita. ― ele deu um leve riso.

― Cremos... ― Sussurrei, de forma imediata notei que haviam escolhido meu nome basicamente em grupo, talvez fazendo uma votação...? Sinceramente, escolher o nome de alguém é tão difícil a ponto de necessitar de várias pessoas para fazê-lo?

Olhei ao meu redor, e então, andei em direção a um grande espelho. Encarei-o, surpresa. Então, essa era eu? Meus cabelos eram brancos-gelo, tinha a pele levemente morena, as maçãs do rosto eram rosadas. Acho que nunca teria um sentimento tão bom como o que tive naquele instante. Era como se eu pudesse reconhecer à mim mesma...

Um detalhe talvez bobo chamou-me a atenção, meus olhos tinham cores distintas. Enquanto o esquerdo tomava a coloração lilás, o oposto tomava a coloração vermelha, assim como um rubi. Era um pouco intrigante, mas me sentia satisfeita com meu corpo e comigo mesma, embora ainda estivesse um pouco confusa.

― Imagino que esteja com fome, não? ― o moço aproximou-se de mim, e então olhei-o um pouco perplexa. ― Ah, perdão. Não me apresentei. Me chamo Maximmilien, prazer.

― Não estou com fome no momento, acho... ― suspirei ao ver sua auto-apresentação, ele me soava demasiado ansioso ou orgulhoso. Reverenciei-o, em sinal de respeito, logo continuando a frase ― Ah... Não se preocupe com tal detalhe, não é como se eu fosse ficar brava se não se apresentasse. ― virei-me na direção das pessoas, estava um pouco nervosa, embora demonstrasse uma grande intimidação. Sem rodeios, e sentindo como se estivesse me arriscando, perguntei à Maximmilien, cujo estava à minha frente: ― O-o que são vocês? O que estou fazendo aqui?

― Essa é uma pergunta fácil. Nós somos seus criadores, Nocte.

― C-criadores?! ― desesperei-me de imediato. Como assim, fui criada?! Sinto-me normal, embora não tenha nenhuma memória passada. É como se eu sempre tivesse sido assim, e não como se eu tivesse sido criada por pessoas. Isso é lastimável e inaceitável para mim!

― Sim. Você foi criada por nós, pois temos uma necessidade muito grande, e você é a única que pode suprimí-la.

― Com licença? ― falei.

― Ah, você quer descobrir o que quero dizer?

― Sim, de fato.

― Isso é um segredo. Não o contaremos até um certo momento, mas quando a hora certa chegar, você ficará sabendo o que ele é.

― Tsc... ― queixei-me, impaciente. Minha expressão tornou-se séria assim que cruzei os braços. Não me sentia agradável com aquilo.

― Ahahahahah! ― Ele riu, logo colocando o braço ao redor de meus ombros. ― Não há razão para se irritar, Nocte!

― Certo... ― falei com um tom de voz sensato, não estava afim de agir gentilmente, tampouco como ficar sorrindo falsamente como se estivesse me divertindo. Olhei ao redor pela trigésima quinta vez, aquelas pessoas, o sentimento que elas me transmitiam não era bom, me dava um desconforto terrível, porém eu tinha que disfarçar o fato de estar sentindo tal coisa. ― Quero tomar um ar, não estou me sentindo bem.

― Ah, claro! ― O rapaz segurou-me pela mão, e guiou-me até uma porta de vidro, logo abriu-a. Era uma varanda, extensa o bastante, da qual dava à vista de um jardim claustro, o qual exibia uma beleza exuberante, tomado por flores vermelhas e brancas. Rosas talvez.

A beleza daquele local era abundante, e me fazia sentir bem, já que antes estava sentindo-me sufocada.

― Um jardim! Que lindo! ― falei inocentemente, deslumbrada.

― Quer vê-lo de perto? ― Maximmilien perguntou, calmamente.

Assenti com a cabeça, deixando um leve sorriso escapar sobre meus lábios.

Ele então, guiou-me para fora daquela sala aonde estava anteriormente, e então, descemos uma pequena escadaria que dava de encontro com um salão espaçoso. Abriu a porta de saída, e logo, andei para fora do local. Vi de perto aquele lindo jardim, andei com passos infantís até as flores, e então, ri comigo mesma, ingênua.

― Sinto-me tão bem! ― indaguei.

― Fico feliz em saber. Vê estas rosas? ― apanhou uma de cada cor, branca e vermelha ― Elas são da mesma forma que você. Neutras.

― Neutras? ― perguntei curiosa.

― Sim, sabe algo sobre aquelas pessoas que viu?

― Não faço a mínima idéia de quem sejam.

― São anjos e demônios. No entanto, quebramos nossa rivalidade para criá-la, Nocturnae. ― ele pigarreou, logo continuando a falar ― Você é uma de nós.

― O que?! ― falei, completamente irritada e confusa. ― O que sou? Quem sou?!

― Você não é um demônio e também não é um anjo, mas ainda assim segue sendo os dois.

― … ― fiquei em silêncio, precisava de um tempo para refletir, ou talvez para lamentar eternamente sobre o destino que me foi empregado. ― Ótimo! ― falei ironicamente ― Quando começo a pensar que sou uma pessoa normal, acabo por descobrir que sou um anjo... E um demônio. Muito legal isso!

Maximmilien aproximou-se de mim, e então, acariciou meus cabelos.

― Não tenha a ideia errada. Não o fizemos para te prejudicar, muito pelo contrário.

― É? E aonde que eu saio tendo algum benefício?

― Vejamos... Você é imortal.

― Imortal?! Você acha que isso é algo bom?!

― E não é?

― Não, não é. Há menos que ache benéfico ver aqueles que não são imortais morrerem enquanto sei que viverei para toda a eternidade!

― Você verá se estou errado, Nocte...

― É mesmo? Quem me garantirá? ― disse a ele.
― Eu! ― indagou.
― Como posso confiar em uma pessoa como você? ― falei, arrogante.
Maximmilien permaneceu quieto. Eu não queria causar intrigas, mas tudo aquilo já estava me demasiado irritando.
― Você não precisa confiar. O destino lhe mostrará quem está certo.
Ri em tom de deboche. Destino? Se meu presente já está sendo um tanto desastroso, não quero ao menos imaginar o que ele planeja para meu futuro.
― É mesmo? Então já se sabe quem ganhou essa discussão, hm?
Ele me olhou com um tom convencido, como se eu tivesse me rendido a seus palpites falsos, que para mim, pouca importância tinham.
― Claro que sim, eu. ― falou, orgulhoso.
― Não crie falsas expectativas, pois você está traindo suas próprias esperanças. ― ri baixo, sabia que depois disso ele notaria que estava sendo sarcástica.
Andei mais ao meio do jardim, eu estava tão perdida naquele local que mal sabia o que fazer primeiro. Pude notar que ele havia ignorando o que havia dito, não me importei, já que me sentia melhor sem ter de ouvir o que ele tinha de falar.
― Mais tarde, os demônios te levarão para conhecer o rei.
Suspirei em angústia. Sinceramente, eu devo ser a única pessoa que conseguiu tantas dores de cabeça em menos de uma hora de convívio com pessoas desconhecidas.
― Valha-me Cristo... ― reclamei em voz baixa. ― ... Porque eu tenho de conhecê-lo?
― Porque isso faz parte de sua neutralidade, assim como faz parte do segredo, entendes?
― Na verdade não, não entendo. ― suspirei novamente, logo, sentando na grama. ― Hey, apenas me responda... O que levaria anjos e demônios a se juntar? Sei eu que ambos são rivais de morte.
― A vingança une de tudo. ― ouvi-o sussurrar.
Senti-me ameaçada de imediato. Vingança? O que estavam eles planejando, afinal?!
Tentei acalmar-me, talvez fosse apenas um modo de falar, da mesma forma que ele poderia estar falando sério. Fiquei estática, porém, tentei disfarçar minha reação o máximo que pude. Esse desconforto se torna cada vez pior...
― Céus...
― Ah, Noct...
― Não fale! ― o interrompi ― Pois cada vez que você abre a boca para dizer algo, fico sabendo de uma disgraça!
Ele riu, mas na verdade era para ele chorar, pois eu estava falando sério.
Iria levantar, e então, Maximmilien veio até mim para ajudar-me a fazê-lo.
― Se sente bem? Você me parece estranha, acho...
― Eu estou normal...
― Normal?
― É, normal. Nem muito bem, nem muito mal.
― Ah Nocturnae, anime-se! Afinal, você ainda tem o resto do dia para aproveitar!
― Não, não tenho... Não sinto como se fosse ter paz daqui pra frente. ― desabafei.
― Ter vários compromissos não é sinônimo de não ter paz. Você apenas terá de trabalhar muito, mas não é como se não fosse ter uma vida pacífica.
― Desculpe, mas sou uma pessoa preguiçosa, no entanto, ter vários compromissos, para mim, é sinônimo de não ter paz. ― falei com arrogância, logo então, pegando uma rosa vermelha.
― S... Senhorita. ― Ouvi uma terceira voz dizer, virei-me então na direção da onde tal voz vinha, e avistei uma garota simples, provavelmente uma serva.
― Me chame de Nocturnae, para mim basta. Não preciso de honras e mercês pois sou uma pessoa normal, não sou uma deusa nem nada do tipo.
― C... Certo. Bem, estão lhe esperando no hall. ― disse, parecendo um pouco nervosa.
― Bem, acho que vou-me indo então Maximmilien... Pode me acompanhar até o salão?
― Claro.
Fui andando em direção a porta, com passos não muito vagarosos em companhia de Maximmilien, e ao chegar no salão, vi uma garota da mesma estatura que eu, cabelos castanhos, e olhos da cor vermelha, porém eram foscos, sem brilho. Um detalhe que fazia-me estranhá-la.
A mesma sorriu para mim, sincera. Porém não posso me deixar levar por sorrisinhos, pois o outro dito-cujo que me recepcionou da mesma forma só me contou coisas ruins até agora. Contribui ao sorriso, embora não estivesse me sentindo animada o bastante para sorrir sinceramente.
― Venha, vamos aos aposentos do rei, e então ele poderá te conhecer. ― falou.
Aproximei-me dela, aquela garota me parecia menos "falsa" do que Maximmilien, já que não forçava tanto a si mesma para ser gentil.
Colocou em mim um tapa-olho tapando meu olho esquerdo, deixando a mostra apenas o meu olho cuja coloração era escarlate.
Naquele momento, por algum motivo, me senti menos ameaçada em meio aos demônios. Não sabia eu o motivo, mas era algo que poucas palavras podiam exclarecer. Me sentia como se estivesse no lugar certo, embora minha mente insistisse em falar o contrário... Um sentimento que me acolhia, mas que por outro lado era bastante perturbador.
― Vamos então... ― respondi com bastante hesitação por conta dos devaneios que tomavam meus pensamentos.
Pôs-se a andar à porta de saída do local e a segui. Ela agia como se fossemos bastante intimas. Quero dizer. Todos agiam dessa forma. E o que posso eu fazer? Nada, afinal, se esse meu destino deseja que minha vida assim seja, então tentarei sabotar os planos dele mais rápido possível...
Vi-me em meio à um extenso jardim, coberto por bluebells e árvores grandes, que por conta de sua extensão formavam uma grande sombra.
Avistei à frente a carruagem que nos levaria ao rei. Suspirei aliviada. Por um momento pensei que iriamos a pé, ou algo do tipo. Mas agora estava certa de que não o faria.
Fomos em direção à mesma. Era uma carruagem bonita, conduzida por um servo trajado adequadamente e puxada por cavalos de pelagem negra.
O servo abriu a porta da carruagem, e então entrei por primeiro, sentando-me basicamente grudada à janela. Queria ver esse mundo que a falta de liberdade me impede de conhecer. Quero ver de perto as pessoas, conhecê-las, conversar com elas... Me sinto como uma criança quando cobiça o doce de uma loja, porém, apenas o tempo poderá me dar esse “doce” que tanto desejo.
Virei meu olhar para o meu lado. A garota estava sentada à minha esquerda, parecendo um pouco distraída. Ela olhou-me, e então, perguntou:
― Está nervosa?
Suspirei.
― Um pouco. Muita coisa para minha mente... Aliás. ― dei uma breve pausa ― Como se chama?
― Me chamo Aaliyah.
― É um nome diferente, mas é bonito. ― sorri.
Senti a carruagem entrar em movimento, e tive de imediato um leve frio na barriga ao pensar que em breve estaria a conhecer um rei. Um rei que eu ao menos sei a personalidade. Algo que me deixa levemente aflita, já que temia de acabar falando algo indevido.
― Hum... O que achou de Maximmilien?
― Maximmilien? ― falei, um pouco nervosa. Queria falar a verdade sobre o que eu pensava sobre ele, mas tinha medo de acabar criando alguma intriga. ― Bem... ― desviei o olhar, sem graça.
― Pois é. Ele é meio sínico e um pouco extremista. Mas não é nada que você não vá se acostumar.
― Juro que me senti um pouco aliviada depois de te ouvir dizendo isso. ― ri baixo.
― Por que?
― Fiquei com um pouco de medo de dizer o que você disse, entende?
― Ahhh, sim. Não simpatizo muito com essas pessoas. Afinal, não sou igual a eles.
― Como assim?
― Sou uma das juízas, em intermediário do céu e do inferno. Julgo as almas e assim se é decidido em relação as coisas que elas fizeram e viveram para onde elas irão.
Agi como se fosse entendida do assunto. Modestamente, não sabia muito sobre coisas do tipo.
― Hmm... Você pode me achar estranha, mas, em meio a tantas pessoas diferentes, não vejo a hora de conhecer os humanos. Não sei. Me sinto estranhamente ansiosa em conhecê-los, em conversar com eles...
― Sobre isso, Nocturnae. Te dou uma dica de ouro. ― falou, séria. ― Quando conhecê-los, procure ao máximo em não se apegar a eles. Pois sabe, quando se adora muito a um humano, para você, a felicidade parece que vai ser eterna. Mais os humanos não são imortais, então, é muito dolorido ver alguém que você ama morrer, enquanto você sabe que vai viver para sempre.
Senti uma leve pontada no peito, como se temesse que algo assim acontecesse.
Desviei o olhar, encarando para a paisagem nublada que tomava todo aquele cenário. O céu estava coberto por nuvens acinzentadas, tristes. Algo que me deixara ligeiramente cabisbaixa.
Suspirei, fitando fixamente à janela. Àquela paisagem que embora fosse tão monótona, ainda me fazia ter a vontade de explorar todos os cantos desse mundo, desse mundo tão oculto.
Sentia-me uma criança que cobiça o doce de uma loja, uma criança que não sabe quando irá tê-lo, mas mesmo assim não deixa de sonhar em poder experimentar seu gosto.
― Que dia é hoje? ― perguntei, ainda a olhar à janela.
― Hm... Sexta-feira, 23 de março de 1769.
Dia vinte e três de março. Data do meu nascimento.
― … Ei, vamos demorar muito para chegar?
― Não, já estamos chegando.
Senti o meu nervoso chegar a mil. Como assim?! Já estávamos chegando?! Mal tive tempo de tentar me manter calma. Mas de fato, agora que ela me contou isso, eu não irei mesmo conseguir ficar calma.
― Vou ser sincera com você... ― suspirei ― Estou com um pouco de medo.
― Medo?
― É, medo de acabar falando algo... Bobo.
― Nah, nem se preocupe. O rei é um pouco estranho, mas é uma pessoa boa.
― Ele é um pouco estranho e mais o que...?
― Hm... Ele é sádico, ignorante, sarcástico e pervertido. Só isso.
A olhei como se ela estivesse brincando comigo. Como ela quer que eu me mantenha calma com isso?!
― Isso é só brincadeira, né?
― Na verdade não.
Senti um desespero correr pelo meu corpo ao ouvir tal confirmação. Ok, tchau vida, tchau pessoas, tchau carruagem, tchau cavalos, tchau moço que conduz a carruagem, tchau pessoas que ainda não conheci, tchau Aaliyah, tchau todos. É hoje que eu morro.
Se bem que, eu mal nasci e já vou morrer. Bom, pelo menos ainda tenho aproximadamente cinco minutos de silêncio para refletir o pouco que vivi o hoje e as coisas boas que me aconteceram. Ou seja, basicamente nada.
― Ah meu Deus... ― sussurrei, em tom de lamento.
― Chegamos! ― indagou, animada.
Senti um frio na barriga assim que a ouvi falar. Logo a carruagem parou de movimentar-se e eu, naquele exato momento, clamei à mim mesma que em breve iria morrer.
Suspirei, um servo veio e abriu a porta da carruagem para que descessemos. Aaaliyah desceu por primeiro por estar mais próxima à porta, e eu saí logo após ela.
Atrás de mim havia uma extensa escadaria de pedra, que levava diretamente à um jardim claustro, assim como na mansão que estava antes, aquele jardim era composto por flores, bancos decorados com entalhes e ao centro, uma fonte.
À minha frente, havia uma estrutura com várias torres, algumas gárgulas e vários detalhes. Haviam várias janelas, principalmente nos andares de cima. Realmente, se eu pudesse gravaria a imagem desse lugar para sempre na minha memória.
Eu estava completamente distraída, afinal, em um lugar como aqueles era difícil não ter sua atenção tomada por tais detalhes nítidos.
Em um simples instante, minha atenção fora totalmente quebrada pela voz de Aaliyah a me chamar. Bom, pelo menos tinha conseguido esquecer aquele nervoso por um momento.
As grandes portas de madeira maçiça daquele castelo estavam abertas, alguns servos nos recepcionaram, e então, entramos no hall de entrada.
O chão era de mármore, e tinham um símbolo de algo que não consegui reconhecer. Os rodapés eram dourados, e à frente havia uma escadaria dupla, que levavam à corredores do lado esquerdo e direito.
― Veio para ter uma prosa com vossa alteza, não? ― perguntou um dos servos, ingenuamente.
― S-sim. ― respondi sem hesitar, um pouco nervosa.
Guiaram-me até uma sala no outro andar de cima. Aaliyah ficou no andar de baixo, conversando com uma outra moça. E sinceramente, estava me sentindo completamente desprotegida. Afinal, além de estar nervosa, ainda tinha que ir sozinha. Mas bom, tenho que superar isso.
Era uma sala bonita, havia uma grande janela, uma lareira, e uma pequena mesa. Os servos pediram-me para que me sentasse e esperasse um pouco até que seu mestre chegasse. Assenti com a cabeça, logo dando um pequeno sorriso. Aquele lugar era tão bonito. Me sentia confortável ali, e para ser sincera, me sentia mais confortável aqui, do que com Maximmilien e as outras pessoas. Exceto por Aaliyah, embora a conheça por tão pouco tempo, sinto que ela é mais confiável e sincera.
Ouvi a maçaneta da porta virar, de imediato senti uma dor de nervoso, e então, vi entrar no cômodo um rapaz alto, jovial, pele alva, cabelos loiros e olhos da cor escarlate. Vívidos. Ele tinha a aparência de ter uns 20 anos, e para ser sincera, era bastante bonito.
Olhei para ele um pouco sem graça, não sabia se ria ou se chorava, então para mim, um simples olhar já bastava.
Ele aproximou-se da mesa, colocou a mão sobre a mesma e aproximou seu rosto do meu. Bom, fiquei sem reação, afinal, já estava nervosa, e esse tipo de ato não estava contribuindo nem um pouco para que eu acalmasse.
Me senti um grão de areia por ter aquelas profundas orbes vermelhas a me encarar, mas nada eu podia fazer.
― Prazer em conhecer-te, fräurein. ― falou, sua voz era rouca, pacífica, ao mesmo tempo que era levemente lasciva ― Será que terei o prazer de saber o nome dessa tão linda dama?

Corei levemente. Senti uma pequena raiva daquele homem, e então afastei meu rosto dele, fazendo-o soltá-lo.

Ele riu baixo e sarcasticamente, logo sentando-se.

– Me chamo Nocturnae, senhor. – respondi, séria.

– Não há necessidade de me chamar de “senhor”, menina. – respondeu arrogantemente – Não aceito ser chamado com esse tipo de cortesia barata.

– Tsc... – resmunguei, irritada. Não sei se agüentaria ficar nem mais cinco minutos perto daquele homem. – Perdão. Então como prefere que te chame, rei? – falei gentilmente.

– Me chame de Lord.

– Lord?

– Lord Aleister. – falou, cheio de si. – Sabe, garota, sua gentileza me perturba.

– Já que prefere, “Lord”, lhe tratarei com arrogância, já que é isso que vossa Alteza almeja.

Ele riu ao meu comentário de forma sarcástica. Parecia estar aproveitando bastante as minhas respostas.

– Huh, então, fraurëin. Que tal se eu lhe mostrar alguns dos cômodos do castelo, hm?

– Ótimo. – falei disposta, e logo levantei-me.

Ele levantou-se assim que eu o fiz, e saiu do quarto com passos apressados, e então, eu o segui.

Via-me caminhando por aqueles corredores no estilo de uma abóboda. Era um lugar muito lindo, o chão de mármore e o rodapé dourado... Sim, era lindo demais para ser destinado à demônios...

– Essa é a biblioteca. – falou ele, abrindo uma porta.

Me animei naquele momento. Digo, é uma biblioteca! Livros, e silêncio! Waaah! Basicamente um paraíso dentro de um cômodo.

Aproximei-me da porta assim que Aleister abriu-a, e entrei depois dele.

Era um cômodo gigante. Haviam muitas e muitas prateleiras extensas e cheias de livros de diversos assuntos. Se um dia eu puder voltar aqui e ler cada um dos livros, o faria sem dúvidas!

O teto era bem mais alto do que o normal, e havia uma escada que dava a um plano superior, onde havia mais livros.

– W... Wow! – Exclamei.

– É lindo, não é?

– Sim, e como...

– Fique a vontade.

Fui até a escada alegremente e subi-a. Fui andando perto das prateleiras, e com a atenção totalmente tomada acabei por tropeçar em algo, levei um leve susto, e virei-me para ver no que havia atropeçado.


?? POV.

Fazia minha única obrigação ali. Estava cansado, minhas mãos doiam por conta das punições e por conta do copo de vidro que havia acabado quebrando enquanto eu o lavava. Já faziam horas e horas que eu estava ali, trabalhando sem ter como fugir desse verdadeiro inferno.

Porém, com todos os anos que vivo aqui, já cheguei a conclusão de que minha situação não poderia ficar pior... Pelo menos, se ficar, já mal sei eu o que farei.

Agachado eu esfregava o chão com uma esponja qualquer. Havia um balde com água ao meu lado na qual eu mergulhava a esponja de vez em quando.

Minhas costas doiam muito, e não via a hora de que chegasse o momento que eu pudesse me levantar e descançar um pouco...

De repente, senti algo esbarrar em minha perna e direcionei meu olhar na direção aonde havia o sentido.

– Ah! Desculpe, desculpe, desculpe!

Olhei surpreso à figura que via à minha frente. Era uma jovem de cabelos da cor da neve, longos de lisos. Sua pele era levemente morena e – pelo menos um dos olhos que me era visível – tinha a cor vermelha.

Não soube como reagir naquele momento, e por um instante, temi que ela fosse me punir por não ter notado que ela estava ali. Porém... Aquele seu jeito infantil parecia não ser capaz de fazer algo do tipo.

– Não se desculpe, por favor. A culpa é inteiramente minha por não tê-la avistado antes. – respondi.

– Xiu! Por favor digo eu! Não diga essas coisas como se a culpa fosse sua, oras. – falou levemente brava, e então cruzou os braços.

– ... – me mantive em silêncio, sem encará-la nos olhos.

Ouvi o som de passos, e por fim vi que era a pessoa que eu mais enojava entre todas...

Me levantei e reverenciei-o, afinal, ele era o “meu” rei.

– O que o verme aprontou dessa vez, hein? – falou ele, em tom de desgosto.

Abaixei o olhar.

– Essa pessoa não fez nada, há menos que esteja se referindo a mim, já que a culpa foi minha. – ela respondeu séria, dando ênfase quando falou sobre mim.

Me preocupei de imediato. Não queria que ela pagasse por um problema que é meu.

O rei olhou-a com ignorância, mas de alguma forma não retrucou à sua resposta.

– Faça o que quiser, então. – falou, descendo as escadas.

Ouviu-se o som da porta se fechar e então a garota suspirou em alívio.

– Argh... Isso não é bom, conseguir problemas com um rei logo hoje... – respirou fundo e então deu um leve sorriso – Mas pelo menos ele já não está aqui.

– Hm... – sussurrei. Não sabia o que falar, não tinha assunto e eu não queria me atrever a falar algo com ela.

A garota deu um sorriso infantil e então se aproximou um pouco de mim, não hesitei em me afastar... Já mal sabia eu como reagir com outras pessoas.

– Ei, você... Como se chama?

– Eu...? – gaguejei.

– É óbvio. Vê mais alguém aqui no quarto? – ela falou em tom de deboche.

– Eu nasci nesse lugar, e segui a vida assim como minha mãe. Porém, ela acabou morrendo alguns dias depois do meu nascimento, e ninguém se deu ao trabalho de me dar um nome, afinal, sou um escravo, não uma pessoa importante.

– Huh... Me chame de Nocturnae então.

– Um nome bem peculiar, não?

Soltou uma leve risada, e respondeu:

– Ah, sim... – deu uma leve pausa, e logo continuou – Bom!

– Bom...?

– Vou fazer uma proposta pra você. Nós mal nos conhecemos... Mas, talvez se você ouvir, isso será uma oportunidade para que nós nos conheçamos bem.

– Diga...

– Bom, você não tem um nome, e meu nome é estranho... Bingo!

– Ahn?

– Vamos fazer assim... Eu escolho um nome para você, e você me escolhe um nome, capitche?

– Ah, sim... – sorri – Então... Julienne?

Seus olhos brilharam assim que ouviu o nome e ela então vibrou como uma criança que ganha um doce.

– Hm... Hm... Você... Você parece ser de outro país.

– Ah... Isso é uma informação que consegui de alguns empregados que conheceram minha mãe, e eles me disseram que sou descendente de japoneses.

– Certo então! Hm... Yukio talvez?

Assenti com a cabeça, e então, ambos rimos baixo. Acho que na primeira vez em todos esses dezesseis anos eu definitivamente acreditei que isso aconteceria...



Notas finais
Espero que tenham gostado, se quiserem que eu continue, por favor mandem reviews! :)
Ah e, deceptae significa "equívoco", em relação à oque Maximmilien havia dito. #spoilertalvez.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.