Notas iniciais
Nesse capítulo, vemos batalhas onde alguns personagens deixam a honra de lado por seus próprios motivos

Não vou tirar muito do seu tempo nas próximas partes do meu conto. Eu já disse que iria parar de enrolar as lutas, começando e não as terminando. E você deve ter percebido que eu estava falando sério.

A luta anterior foi ligeiramente rápida e não mostrou o verdadeiro poder de nenhum daqueles quatro integrantes da Immortal Star. Eles usaram sim, magias de alto nível, mas nenhum deles lutou até o seu limite. Egan era um caso a parte, pois necessitava se controlar todas as vezes que lutava.

Mas as próximas batalhas serão um tanto diferentes. Algumas foram bem mais mortais, outras bem mais desportivas. Outras bem mais vingativas. E até algumas bem furiosas. Muitos estavam colocando suas vidas em risco, mas alguns colocavam suas honras em seus combates.

O que era o caso dessa pessoa.

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A dor no braço direito de Jimmy não havia sumido e não havia nem ao menos diminuído de intensidade. Ao dar três passos para trás para ganhar distância do oponente, Jimmy cerrou os dentes para forçar sua concentração. Ele estava de volta nas ruas, mas agora era uma menor, que ficava atrás do restaurante onde tinha acontecido uma parte da batalha. Como esperado, a rua estava deserta e por algum tipo de milagre, parecia que os desastres não tinham chego naquela parte ainda.

Jimmy e seu oponente tinham trocado mais alguns golpes pelo beco, mas nem um e nem outro tinham saído mais feridos. O que não ajudava a situação de Jimmy. Ele estava em clara desvantagem por não poder usar o braço direito, que era seu "canhão". Além disso, toda vez que ele fazia movimentos bruscos, a sensação das facas enterrando na carne voltava. Mas ele não podia virar as costas e correr. Ele já tinha aceitado o duelo e só teria um resultado possível.

Gerald já tinha partido para cima dele em alta velocidade. Como imaginado, essa não seria uma luta para brincadeiras. Os dois tentariam se matar em qualquer momento e em qualquer oportunidade que surgisse. Gerald atacou com um soco reto mirado no pescoço de Jimmy. Esse, por sua vez, usou o braço esquerdo para aparar e logo em seguida aplicou um chute baixo, que também foi esquivado com uma devida facilidade.

Agora eles estavam cara a cara. Os dois intensificaram suas auras, um olhando nos olhos do outro. Seria outro embate poderoso. Jimmy apertou a mão esquerda tão forte que os seus ossos estralaram sozinhos. Gerald separou as pernas e as flexionou muito lentamente. O silêncio tomava conta daquela área. Até que algo relativamente grande passou voando por cima dos dois, criando uma grande sombra, o que serviu de gatilho para o novo embate.

Jimmy foi o primeiro a atacar novamente. Usou a energia na mão esquerda para aumentar sua velocidade de ataque em vez de força, o que foi efetivo. O soco energizado acertou a lateral do rosto de Gerald, mas não em cheio. Esse último levantou a perna em um chute bem rápido mirando a lateral do corpo do membro da Immortal Star, mas o golpe foi defendido com a perna por Jimmy. No segundo seguinte, os dois trocaram exatamente cinco golpes rápidos alternando entre chutes e socos, e como se tivessem combinado, nenhum deles se defendeu.

Eles se afastaram dois passos, mas Gerald intensificou sua aura novamente e partiu para cima, não querendo dar tempo para seu oponente respirar. Ele atacou com um chute alto, que Jimmy quase não conseguiu se abaixar a tempo para esquivar. Ainda no impulso, Gerald girou o corpo e aplicou mais um chute giratório na altura do peito, que pegou de jeito. Jimmy perdeu o balanço e cambaleou para trás, lutando para não ir ao chão.

O que se seguiu não foi bonito. Gerald acertou um gancho curto no queixo de Jimmy, que perdeu ainda mais o controle do corpo, indo para trás e batendo em uma carroça sem cavalo que estava parada perto de um estabelecimento. Jimmy usou a carroça para se manter em pé, mas isso custou mais danos ao seu corpo. Gerald acertou mais dois socos retos e potentes em seu peito, fazendo seu oponente cuspir sangue. O atacante deu um passo para trás ganhando distância e depois, com mais um avanço, acertou um outro chute reto no mesmo lugar dos últimos dois socos.

O impacto foi tão grande que o corpo de Jimmy destruiu a carroça inteira, fazendo-o ir ao chão com vários pedaços de madeira e pregos. Por sorte, a carroça estava vazia. Gerald permaneceu no mesmo lugar, dando curtos pulos para se manter na ativa e não perder adrenalina. Ele pensava se a luta tinha terminado. Os últimos golpes foram acertados em cheio e Jimmy não tinha conseguido nem tempo para tentar se defender. "Talvez ele já tenha chegado em seu limite.", pensava Gerald.

Mas Jimmy surpreendeu seu oponente ao se levantar do amontoado de madeira. Ele sangrava pela boca e nariz, seu braço direito estava com uma coloração enegrecida e suas duas pernas tremiam. Mas ele se levantou e olhou para o seu oponente, quase como se respondesse algo como "Isso ainda não acabou".

O lutador de Muay Thai cuspiu no chão, pintando-o de vermelho. Deu dois passos curtos, saindo dos escombros da carroça. Movimentou o braço esquerdo, o estralando. E fez algo que não fazia há muito tempo: provocou seu oponente com a mão, o chamando para o combate.

Gerald não conseguiu deter o sorriso. Seu oponente tinha enlouquecido! Os danos em seu corpo eram tantos que provavelmente sua cabeça não estava mais funcionando como deveria. Mas isso não importava! Em uma luta, tudo aquilo era possível. Ele sabia. Não era a primeira, nem a décima e nem a centésima luta que estava fazendo. E com certeza, não seria a última.

Ele atacou com ferocidade. Pouco importava o estado de seu oponente. Tudo o que importava era que ele continuava de pé. Enquanto avançava, ele percebeu que Jimmy tinha começado a concentrar energia em volta do corpo, mas isso não o fez diminuir o passo. Uma coisa que Jimmy descobriria era que a arte marcial de seu oponente também era especializada para contra-atacar em momentos certos, fazendo o ataque inimigo ficar inútil.

Gerald veio com tudo. Correndo, ele energizou sua perna direita e aplicou um rápido chute horizontal na altura do estômago de Jimmy, mas vindo pelo lado. Ele sabia que o chute não era tão difícil de se defender, por isso já se preparava para aplicar outro golpe assim que seu chute fosse defendido. Mas o "problema" é que isso não aconteceu. Jimmy foi acertado com tudo, fazendo o corpo do lutador ir para o lado e lhe infringindo uma nova dor absurda em seu corpo.

Isso causou uma confusão na mente de Gerald, que ele não conseguiu raciocinar e muito menos reagir a contrarreação de Jimmy. O Lutador da Immortal Star estava colocando um plano perigoso em prática, e esse foi o primeiro passo. Assim que o chute lhe atingiu, ele passou toda sua energia para o braço que ainda estava inteiro e aplicou um novo golpe.

— IMPACTO DIRETO!

Jimmy deu um pequeno passo a frente, ficando praticamente encostado em seu oponente, e atacou com o braço esquerdo em horizontal, acertando em cheio com o cotovelo exatamente no meio do nariz de Gerald. O impacto fez o oponente voar para longe, caindo no chão de costas. Mas imediatamente depois, ele se virou e ficou agachado, cuspindo no chão. Ele não gritou de dor, mas seu nariz quebrado estava lhe tirando toda a concentração que ele tinha até agora.

Gerald tentou se levantar, cambaleando um pouco. Ele tinha entendido o que seu inimigo fez. Levou o golpe em cheio para poder aplicar um golpe ainda mais potente e com mais chances de acertar. Era uma estratégia muito perigosa, e até mesmo impossível para alguns tipos de luta. Gerald limpou o sangue que escorria de seu nariz, sentindo ainda mais dor. Seu oponente iria pagar ainda mais caro por aquilo.

Ele avançou, mesmo que seu equilíbrio estava claramente alterado. Gerald energizou todo o corpo enquanto andava, o que fez Jimmy fazer o mesmo, sabendo que o embate iria ser poderoso. Para não perder nenhum tanto de energia, Jimmy decidiu ficar parado em posição defensiva, e deixar seu oponente se aproximar. Era estranho um lutador de Muay Thai fazer tal coisa, já que essa era uma arte marcial focada totalmente no ataque direto e destrutivo. Mas para o plano de Jimmy funcionar, essa era a melhor opção.

Gerald atacou com um soco mirando o pescoço de Jimmy. Era um golpe mirando um ponto crítico, e Jimmy não poderia simplesmente aguentar tal dano. Então ele levantou o braço esquerdo se preparando para defender... Mas era uma finta. Gerald parou seu braço na metade do caminho e movimentou a perna para um chute igual ao outro que tinha dado anteriormente, e ainda mirando o mesmo lugar. Pensando da mesma maneira, Jimmy se virou e movimentou o braço para defender esse golpe... E também era uma finta. Gerald abaixou o pé, usando o movimento para ganhar velocidade no corpo e terminou aplicando um gancho que acertou seu oponente embaixo do queixo. Uma finta dupla feita com sucesso.

Jimmy voou para cima e para trás, batendo com força no chão no final do processo. Ele tossiu e se espreguiçou no chão, quase sem forças. Mas isso estava longe de acabar. Gerald se abaixou e o pegou pelo colarinho, o levantando. Jimmy estava tão mole que quase não pesava nada. Mesmo atordoado, ele ainda tentou acertar um soco no rosto de Gerald, mas não o acertou. Gerald usou sua força e jogou o corpo machucado de seu oponente contra a parede mais próxima, que era de uma estalagem que ficava naquela rua. Jimmy bateu com as costas na parede, mas se manteve mais ou menos de pé. Ele respirava rápido e tentava fazer sua visão parar de tremer, o que estava sendo uma batalha mais árdua do que a luta contra as dores. O fato é, que Gerald queria mesmo que ele se mantivesse naquela posição.

— VINGANÇA DAS DEZ DORES !

Gerald passou a energia mágica acumulada para os dois braços, puxando eles para trás em sua cintura. Assim que brilharam com a intensidade requerida, ele deu um passo para frente e aplicou sua magia. Que se tratava de dez golpes, por sinal. Gerald golpeou Jimmy dez vezes, em lugares diferentes de seu corpo. O lutador oponente estava tão debilitado e cansado que não conseguiu se defender de nenhum dos socos. Os dez golpes de Gerald dividiam todo o dano que o usuário já tenha tomado mais a quantidade de energia que o utilizador colocava na magia. Ou seja, especialistas diriam que o golpe tinha sido aplicado em uma hora perfeita. Mas não havia ninguém mais ali além dos dois homens, e um deles estava prestes a partir também.

Jimmy não se aguentou mais em pé e foi se arrastando lentamente pela parede até encontrar com o chão de madeira da entrada da estalagem. Ele estava completamente destruído, com tantas dores que nem conseguia mais raciocinar direito. Um frio intenso lhe abraçou, e ele não sabia se era por estar no chão ou se seu corpo estava perdendo a vida. Para o pior dos casos, eram as duas coisas.

— Foi uma bela luta, Jimmy da Immortal Star. — disse Gerald, se aproximando um pouco mais. Ele limpou novamente o nariz sangrento e cuspiu bem ao lado do corpo caído do oponente. O gosto de sangue não queria sair de sua garganta. — A maioria dos lutadores desistem depois que entendem como minha magia funciona, pois sabem que quanto mais me acertam, mais fortes ficam minhas magias. Mas você continuou lutando até o fim. Mesmo sendo o vitorioso, eu devo dizer que respeito você e sua determinação.

— A luta... — começou a dizer Jimmy. Sua voz saia fraca e gaga. Ele tremia no chão e não parecia enxergar nada. — Ainda não acabou...

Gerald começou a rir o mais alto que pode. Mesmo sentindo dor, ele não conseguiu se segurar. O que aquele cara tinha na cabeça? Ele tinha ideia de como estava seu atual estado? Com toda certeza, esse era o oponente mais teimoso que Gerald já tinha enfrentado. E foi bem quando ele chegou nessa conclusão que aconteceu uma explosão.

Não foi uma explosão de fogo destrutiva. Foi uma explosão de aura. O corpo de Gerald reagiu automaticamente, e ele deu um grande salto para trás, se afastando. Ele estava suando, pois pareceu que acabou de sair de uma situação de vida ou morte. Seu coração palpitava em velocidade duplicada. O que era aquilo? Ele estava sentindo medo? Gerald passou as costas da mão na testa e nos olhos, limpando o suor. Ele mesmo não acreditou quando viu que estava tremendo.

Jimmy estava se levantando lentamente. Isso por si, já era assustador. Mas o que deixava tudo ainda mais impossível era a aura que rodeava o seu corpo. A intensidade era tão grande que ela estava parecendo se solidificar. Raios estalavam pelo chão e pelo ar e até mesmo o vento começou a se intensificar. De onde ele tinha tirado tanta energia? Aquilo era ridículo!

— Deixa eu lhe contar um segredo, Gerald. — disse Jimmy, incrivelmente com a voz firme e forte. Isso fez seu oponente dar um novo passo para trás. — Toda vez que eu vou lutar, eu propositalmente uso metade da minha energia mágica na luta. Esse limite faz eu ter que me esforçar ainda mais para chegar a vitória, e isso acaba me fortalecendo ainda mais. Mas quando eu vejo que o meu oponente é poderoso demais... — a pausa foi para que ele desse mais alguns passos para trás, não diminuindo aquela poderosa aura. — Só quando eu sei que meu oponente é digno, eu uso toda a minha força. Então parabéns! Você vai ver tudo do que eu sou capaz!

— Não se faça de fortão, Jimmy! Acha mesmo que eu vou cair em uma palhaçada com essa? — Gerald recuperou um pouco do susto e deu um passo para frente. — Por mais que você tenha uma aura poderosa, isso não irá curar os danos que você já recebeu! Palavras bonitas e impressionantes não vão fazer você escapar da morte nessa luta!

Por mais que Jimmy quisesse parecer um Deus naquele momento, ele não conseguiria fingir imunidade às dores e aos danos já recebidos. Ele admitia que seu oponente estava certo. Só impressionismo não ganhava lutas. Ele precisava provar o que estava falando. E ele iria.

Jimmy concentrou quase toda aquela grande energia que emanava de seu corpo diretamente para as duas pernas. Logo em seguida, partiu para cima do oponente, que continuava não acreditando no que via. Jimmy não estava parecendo tão ferido enquanto corria, e seus olhos estavam com um foco fervoroso. Isso fez com que Gerald engolisse em seco e liberasse toda sua energia restante, se preparando para defender. Dessa vez, era ele que esperaria o ataque e contra-atacaria com tudo assim que se esquivasse do golpe...

Que obviamente seria um chute. As duas pernas de Jimmy brilhavam em uma mistura de amarelo e roxo, em uma intensidade raramente vista em lutas corporais. Até mesmo o som dos passos daquele homem parecia pesar uma tonelada. Marcas no chão de terra eram deixadas enquanto ele se aproximava do seu alvo. Seria um golpe poderoso. Não dava para tentar se defender. Gerald sabia que nem ele sobreviveria se aquele chute atingisse um ponto vital. Ele precisava esquivar, ou no máximo se defender, mesmo que essa também não fosse uma boa ideia. Era melhor esquivar! Uma rápida jogada de corpo para o lado, depois um ataque direto para finalizar aquela luta. Sim!

— CHUTE DO RAIO EXPLOSIVO!

E era mesmo um chute, como se não fosse tão óbvio. Gerald afastou as pernas e preparou os braços, fingindo se preparar para defender. Era um blefe. Assim que o oponente verificasse a distância e aplicasse o golpe, ele iria se jogar para o lado. Ele nem queria saber o que aquele chute iria fazer ou qual potência tinha. Ele não era louco o suficiente para apostar sua vida pela sua coragem.

Mas saber o que o chute fazia seria realmente útil naquele momento. Assim que terminou de avançar, Jimmy forçou a perna direita no chão, mandando energia exatamente para a sola daquele pé. Depois, ele liberou tudo de uma vez, criando uma pequena explosão debaixo de seu pé. Isso fez com que a perna de Jimmy fosse jogada para frente em uma velocidade impossível de ser acompanhada, fazendo daquela magia ser um chute baseado em velocidade.

O chute acertou o lado direito do peito de Gerald com toda a força. Mesmo que ele estivesse preparado para se esquivar, ele não conseguiu acompanhar a trajetória e muito menos a velocidade do chute. Além do dano, Gerald foi jogado para mais quatro metros de distância, caindo e rolando aleatoriamente pelo chão empoeirado da rua. O chute foi com tamanha intensidade, que destruiu toda a roupa de Gerald e deixou só sua carne queimada para ser vista. Esse era o poder de um dos golpes mais fortes de Jimmy.

O mesmo Jimmy que agora respirava profundamente para recuperar o fôlego. Ele estava agachado com um dos joelhos no chão e segurando o braço direito, que ainda latejada como se fosse o castigo do Inferno. Mesmo com a falta de fôlego, ele não tirava os olhos do oponente caído. O chute tinha acertado em cheio, mas não tinha como saber se aquilo tinha terminado a luta ou não. Jimmy aprendeu da pior maneira que você nunca pode dar as costas a um inimigo que não está morto.

E ele tinha razão. Gerald ainda se mexia caído no chão. Ele movimentou os braços de uma maneira que parecia que ele estava tendo um ataque epiléptico, mas logo parou e permaneceu imóvel por cinco segundos. Depois, ele foi se virando no chão, forçando os braços. Logo após, começou a se levantar bem de vagar, tossindo fortemente e cuspindo sangue e saliva. Mesmo tremendo, ele tinha conseguido se virar para seu oponente, ainda agachado.

— Não acredito que você ainda consegue se levantar depois de um golpe daqueles. — disse Jimmy, aumentando a voz para poder ser ouvido.

— Você também conseguiu se levantar depois do meu. Então estamos quites.

Os dois não falaram mais nada, só ficaram se olhando e arfando. Eles estavam sorrindo. Era uma loucura entre lutadores. Estavam usando tudo de si para vencer porque sabiam que o outro também fazia a mesma coisa. Artistas Marciais que treinam por honra sempre acabam tendo esse tipo de reação durante suas lutas. Naquele momento, nada mais importava. Não existia guilda, não existia reino. Era um lutador contra o outro.

Gerald se levantou primeiro. Ele começou a concentrar todo o resto de energia mágica que tinha. Estava na hora do golpe final. Estava na hora de verdadeiramente encerrar aquela luta, mesmo que ele acabasse sendo o perdedor. Mas não iria. Tinha entrado com tudo naquela batalha para sair vitorioso. Enfrentar alguém com o mesmo espírito de luta que ele tinha sido uma mera coincidência do destino. Mas isso não mudava seu objetivo. Então atacaria para vencer.

Mesmo sentindo as dores no peito que parecia totalmente triturado, ele foi na direção de Jimmy, liberando toda sua energia ao redor do corpo. Seu oponente teve mais dificuldade de ficar de pé, pois por mais que ele possuísse mais energia mágica, sua vitalidade já estava chegando ao fim. Mas Jimmy também ficou de pé e concentrou ainda mais energia pelo corpo. Um duelo até a morte era algo duro de se ver, mas fazia os participantes exibirem mais de cem por cento de suas habilidades para poder sobreviver. E era essa quebra de limite que Jimmy estava exibindo naquele momento para dar vagos passos para frente, em direção ao seu oponente.

Os dois se aproximavam. Auras intensificadas. Olhares fixados. Vontades florescendo. Corpos feridos. Fôlegos terminando. Nenhum deles conseguiria fazer vários movimentos ou até mesmo movimentos muito bruscos. Então eles terminariam aquilo na clássica troca de golpes únicos. Era uma maneira honrada de terminar aquela luta. O tudo ou nada. Vitória ou derrota. Vida ou morte.

Mas então Jimmy foi surpreendido mais uma vez por uma ação que não fazia sentido vinda de seu oponente. Gerald saltou para frente e agarrou a cintura de Jimmy, fechando as mãos por trás de suas costas. Jimmy ficou tão perplexo que não sabia o que fazer. Ele só tinha certeza absoluta que aquilo não era um golpe da arte marcial de seu oponente.

— Eu pensei bastante e cheguei a uma conclusão aceitável. — disse Gerald, ainda agarrado. E sorrindo. Ah sim, e aumentando sua energia mágica sem parar também. — Não seria interessante ver quem sobreviveria a um ataque suicida de explosão de aura?

Jimmy teve um choque estático que percorreu toda sua espinha e que subiu até o topo de sua cabeça. Aquilo era impensável! Seu oponente queria se explodir liberando toda sua aura por seu corpo de uma só vez. Era um ataque suicida mesmo!

O medo de não conseguir sobreviver a uma explosão daquele porte e daquela distância preencheu a mente de Jimmy. Ele agarrou o braço do oponente e fez força para tirá-lo daquele agarramento. Mas não adiantou. Jimmy não tinha força o suficiente usando um só braço. Ele precisava nocauteá-lo antes que ele concentrasse energia o suficiente para explodir. Mas daquela posição, ele não conseguiria usar nenhum chute e nem joelhadas, que eram suas armas mais destrutivas. Mas havia algo que poderia ser feito. Jimmy levantou o braço esquerdo para o alto e concentrou energia mágica ali. Seria um ataque fatal, e ele realmente esperava que desse certo.

— QUEBRA-CRÂNIO!

Jimmy desceu seu braço com toda força que conseguiria, aplicando uma cotovelada no meio da cabeça de Gerald. O ataque não tinha sido com a força normal, já que Jimmy tinha costume de usar o braço direito para tal. Além disso, seu cansaço e falta de espaço atrapalharam bastante. Mas o golpe ainda tinha acertado em cheio.

Gerald tremeu e cambaleou. Soltou os braços e deu um curto passo para trás. Sangue caía de sua cabeça, e se juntava a já criada linha de sangue que escorria de seu nariz e sua boca. Ele estava nas últimas... Mas sorriu. Jimmy presenciou isso e paralisou. Os olhos de Gerald ainda estavam vivos. Ele ainda estava vivo!

— Você caiu direitinho na minha armadilha, Jimmy! — falou Gerald, fechando a mão direita e puxando o braço para trás. — Agora presencie o meu golpe mais poderoso! — toda a aura que envolvia o corpo dele sumiu de repente, e no mesmo instante, seu braço direito brilhou com uma intensidade maior do que qualquer outra vista durante essa luta. — GOLPE SUPREMO! VINGANÇA DO ÚLTIMO SUSPIRO !

Eu já disse uma vez que quando alguém grita "Golpe Supremo", a coisa é de arrepiar. Normalmente é uma magia extremamente espalhafatosa, que destrói tudo ao redor e não deixa nada sobrando. Ou é um golpe tão poderoso que nenhuma barreira consegue suportar sua destruição. Mas em alguns momentos, é um golpe que parece simples, sem explosões, sem cores e sem grandes efeitos bonitos.

Era quase o caso do golpe de Gerald. O braço direito dele passou de sua coloração normal para um marrom escuro com umas linhas arroxeadas. Sua carne pulsava, como se alguma coisa quisesse sair de dentro do braço. Gerald só conseguia utilizar esse golpe se ele estivesse na linha entre a vida e a morte. Mas essa limitação também aumentava drasticamente o poder do golpe.

Jimmy estava quase paralisado, sentindo a intensidade daquele golpe. Ele precisava se defender, não importava como. Ele não tinha tempo para usar outra magia. Também não iria conseguir desviar com o corpo ferido e cansado daquele jeito. Então ele só conseguiu fazer uma coisa: colocar seu braço esquerdo, o único que ainda funcionava, na frente do golpe.

Gerald aplicou o golpe com força total. A velocidade do golpe estava levemente reduzida, mas naquela situação, ele sabia que seu oponente não poderia esquivar. Mas ele admite que ficou impressionado quando Jimmy colocou o braço esquerdo na frente. E isso importava? Não. O golpe acertou. E o que houve foi esquisitamente desastroso.

Assim que o punho fechado de Gerald acertou o braço que estava no caminho, toda aquela energia marrom passou para o membro do oponente. Todo o braço esquerdo de Jimmy contraiu de uma maneira impossível, como se algo estivesse sugando toda a carne do membro. Assim que ficou quase só nos ossos, o braço inflou e explodiu. Todo o braço.

Jimmy não voou para longe e nem explodiu junto com seu braço. Ele simplesmente gritou como nunca havia gritado em sua vida e cambaleou para trás por uns cinco passos, depois foi ao chão, com fumaça saindo de onde deveria estar seu braço. Ele ainda gritava enquanto estava no chão e sangue escorria de seu corpo sem parar. Além de ter perdido o braço, metade dos ossos do lado esquerdo do corpo também se foram. As dores eram tantas que o cérebro do lutador da Immortal Star entrou em choque e ele desmaiou.

— Hehe... — riu Gerald, caindo de joelhos no chão. Ele não sentia mais o braço que aplicou o golpe, mas a sensação de vitória o livrava de qualquer preocupação. — Esse duelo... A vitória é minha!

Gerald caiu de cara no chão, não conseguindo mais respirar direito. Seu corpo exibiu alguns espasmos, e ele também fechou os olhos, não sabendo se iria os abrir novamente se não fosse curado com urgência.

Os exércitos dos Reinos agiam, treinavam e até mesmo seguiam valores diferentes uns dos outros. Alguns eram mais disciplinados, outros chegavam a ser loucos por sua nação, fazendo qualquer coisa que lhes ordenassem, sem pensar duas vezes. No Império Haoriano, existiam as duas coisas.

Essa nação era uma das mais organizadas do mundo. Eles mantinham a ordem em todos os locais através da força e obediência, e qualquer um que quisesse morar por lá, era obrigado a seguir os padrões e se adaptar as rígidas ordens sobre trabalho e vivência. Em teoria, era um país que você era obrigado a dar tudo de si em cada coisa que fazia.

Lelouch conseguiu chegar ao cargo de Capitão dentro do exército seguindo exatamente a linha de raciocínio deles. Se esforçava ao máximo para sempre estar com os melhores recordes no treinamento, nunca cometia um erro de cálculo nas simulações de batalha e conseguia dar as melhores ordens quando era nomeado Líder de Esquadrão nas rondas obrigatórias pelo reino.

Dentro do exército, era ensinado que todo soldado deveria jogar fora as mais complicadas emoções para se focar totalmente no duto do dever. Nenhum soldado era permitido se casar, não era permitido chorar por ninguém e não era permitido demonstrar raiva ou compaixão perante seus inimigos. O soldado deveria manter uma mente fixa no objetivo e não deixar nada o atrapalhar. Quando Lelouch virou Capitão, isso se intensificou ainda mais. O que, obviamente, lhe cansou.

Mesmo sabendo que teria uma vida mais complicada se saísse do exército, ele escolheu a liberdade de ação e pensamento. Por mais que ele fosse um atirador de elite de um nível extremamente alto, ele ainda queria poder fazer muitas coisas na vida, como arranjar uma namorada, por exemplo. Foi por isso que ele saiu do Reino. Bem, isso e o fato de que desertores são mortos imediatamente.

Então depois de viajar pelo mundo, entrar de cabeça em uma guerra rebelde procurando por seu familiar e finalmente se juntar a uma guilda, Lelouch estava verdadeiramente vivendo. Parecia que os perigos que ele andou enfrentando nos últimos meses fizeram ele ser quem deveria ser. Então não era estranho ele ter se tornado grande amigo de quase todos os membros da Guilda. Lelouch era uma pessoa livre, brincalhona e fácil de se aproximar, então todos sempre o cumprimentavam ou lhe pediam conselhos aleatórios.

Foi por esse motivo, essa aproximação e essa amizade intensa que ele criou dentro da Immortal Star, que seus instintos demonstraram algo que nunca havia acontecido antes. Lelouch desceu do telhado da casa em que estava e foi na direção de Geovanna. A mulher que a enfrentava continuava no mesmo lugar, chamando por seu mordomo que tinha fumaça saindo da cabeça. Não era provável que ele tivesse sobrevivido a um ataque direto sem ter nenhuma proteção mágica.

— Geovanna, você está bem? — perguntou o atirador, mesmo sabendo qual seria a resposta.

— Minha barriga... dói... — respondeu ela, pausadamente. Havia sangue saindo por sua boca e os olhos dela se abriam e se fechavam ligeiramente, como se ela estivesse com muito sono.

— Descanse. — disse ele, segurando no ombro dela. — Eu vou acabar com isso rapidamente e te levar para um médico!

— PROJEÇÃO MÁGICA, ESPADAS ROXAS DE ASTRAL!

Não parecia que Charlotte estava com ânimo para deixar os dois membros da Immortal Star trocaram palavras consoladoras. A mulher tinha ficado nervosa com o fato de seu mordomo não lhe responder a seu chamado, mas não acreditava que ele estava morto. Aquele homem lhe servia há muitos anos e ela mesma sabia o quanto ele tinha treinado para ser o seu escudo humano. Então tudo o que ela precisava fazer era acabar com aquela luta de forma rápida e ver o que ela poderia fazer pelo seu servo mais fiel.

— TRANSFORMAÇÃO DE ARMAMENTO — SUBMETRALHADORA DUPLA!

Mas uma coisa que Lelouch não tinha perdido mesmo depois de ter saído do Exército era sua total concentração em um inimigo ativo. Ele segurou firme seu rifle e passou energia mágica para ele, mudando sua forma. Suas mãos se dividiram com a energia que criou duas submetralhadoras UZI. Ele se virou para as espadas que vinham voando alto em sua direção e puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo. Os tiros atingiram várias vezes as armas mágicas, as fazendo explodir logo em seguida. Uma grande lufada de vento se espalhou por todo o ar, levantando muita poeira pelo campo de batalha. Mas não afetou nenhum dos dois lutadores.

Lelouch deu vários passos para frente, retirando o municiador das duas metralhadoras e mandando mais energia para elas, recriando munição. Ele parou depois de alguns passos e olhou sua oponente. Não. Isso era bom demais para descrevê-la. Lelouch olhava sua inimiga com uma raiva que jamais tinha sentido. Até mesmo ele estava achando estranho essa fúria, já que além de nunca ter sentido isso, Geovanna não era parte de sua família e também não era um amor de sua vida. Sem contar que o atirador sabia bem da cegueira que a maga tinha por San, o que não vinha a ser importante no momento.

— Como você ousa ficar no mesmo chão do que eu? — perguntou Charlotte, como se os dois estivessem no tapete que dava para um trono de um castelo. — E ainda ousou atacar meu fiel escudeiro! Acha mesmo que você pode sair vivo daqui?

— Então essas são suas últimas palavras? — respondeu Lelouch, em forma de pergunta. Seus olhos estavam vibrando e faltavam só sangrar, de tanta fúria que sentia naquele momento. — Eu, Lelouch Maximolf, Capitão da Segunda Linha de Frente da Immortal Star, lhe sentencio a morte devido ao ataque de um de nossos companheiros!

Com um impulso para frente, Lelouch começou a correr em direção a mulher, colocando as duas armas em prontidão para atirar. Como rápida reação, Charlotte levantou sua aura de energia e também se preparou. Ela sabia que estava em desvantagem contra uma arma de longo alcance, e por isso já preparou uma magia de defesa. E que ela ativou assim que Lelouch puxou o gatilho de sua submetralhadora da mão direita.

— PROJEÇÃO MÁGICA, ESCUDO AMARELO DE ZUR!

Assim que os tiros foram voando rapidamente em direção da mulher, um escudo amarelado apareceu em sua frente, parando os tiros sem deixar passar nenhum deles. Nenhum golpe tão fraco iria conseguir quebrar sua proteção. Mas o problema é que Lelouch não parou de atirar. Eu deixei claro que ele disparou só da arma da direita, não é?

Os dois lutadores estavam bem longe um do outro, então demoraria um certo tempo para que Lelouch chegasse perto da mulher. Parece estranho ele querer se aproximar sendo que ele era um Atirador de Elite? Pode até parecer. Mas sua estratégia era outra. Ele sabia que sua inimiga tinha magias de longa distância, e por ter calculado o fato dela ser algum tipo de classe mágica, uma aproximação direta faria ela ter que se focar mais na defesa do que no ataque. Acertou em cheio.

Lelouch, sem parar, começou a disparar com a arma da esquerda assim que a da direita cessou suas balas. Isso fez com que Charlotte mantivesse o escudo ativo, que ainda estava longe de quebrar. Ela não sabia o que aquele cara tinha em mente, mas se ele achava que iria destruir sua magia com meros tiros estava muito enganado.

E ele não queria destruir nada. Enquanto atirava com uma das armas, ele mandava energia para recarregar a outra. Assim que a que estava atirando terminasse, ele atirava com a recarregada e mandava nova energia para recarregar a vazia. Foi fazendo isso cinco vezes que fez ele ficar quase cara a cara com Charlotte, que não imaginava uma aproximação daquela forma.

— TRANSFORMAÇÃO DE ARMAMENTO — SHOTGUN!

Lelouch mudou suas armas novamente enquanto se movimentava, sem perder sua mira nem por um segundo. Charlotte desfez o escudo de energia, pois seu oponente já tinha se aproximado demais. Ainda sim, ela não foi rápida o suficiente para evitar o primeiro tiro da poderosa SPAS-12 do Atirador.

O primeiro tiro fez a mulher soltar um grito curto e ir vários passos sem firmeza para trás. Lelouch não estava muito afim de cooperar. Ele deu mais um passo para frente e atirou novamente. Tudo que Charlotte conseguiu fazer foi cruzar os braços na frente do corpo. Ela levou dois, três e quatro tiros sem poder nem pensar direito. Ela estava com uma aura de proteção, mas nem por isso as dores pareciam diminuir. Ela começou a concentrar muita energia para contra-atacar, mas Lelouch não ligou e não parou de atirar até dar o oitavo tiro, fazendo sua arma ficar vazia.

— PROJEÇÃO MÁGICA, CHICOTE ROSA DE KATRYNA!

Mesmo caída, Charlotte movimentou o braço direito contra Lelouch, e um desenho saiu de trás de sua camisa curta e se materializou na sua frente. Ela segurou a magia, que ficou com um formato de um chicote rosa longo e grosso. Com um só movimento, o chicote passou pelas pernas de Lelouch e o apertou na região dos pés. Isso fez o atirador perder o equilíbrio e ir ao chão imediatamente, não se ferindo tanto. Mas essa não era a única intenção de sua inimiga.

Ficando de joelhos só para conseguir força, Charlotte puxou o chicote para cima e fez o corpo de Lelouch voar como se não tivesse peso nenhum. Esse era o poder do chicote. Ele fazia tudo que estava preso a ele perder o peso, para que sua usuária pudesse-o movimentar do jeito que quisesse. E o desejo dela naquele exato momento era fazer ele voar com tudo na parede mais próxima.

Lelouch foi jogado com tudo para dentro de um estábulo que tinha ao lado. Era um daqueles lugares onde se alugavam ou compravam cavalos e carroças, mas parecia um pouco destruído por causa dos recentes ataques feitos no reino. A construção de madeira foi quase toda abaixo quando o corpo do atirador bateu em sua parede, fazendo ele desaparecer embaixo de feno, madeira e telhas.

E para Charlotte, isso era só o começo. Ela também não iria dar tempo para que seu oponente pudesse respirar ou sequer pensar. Ela afastou as duas mãos, abrindo os braços para o lado e concentrando muita energia. Iria dar um ataque poderoso o suficiente para explodir todo aquele quarteirão, se deixassem. Mas ela queria se focar em um só lugar. Aquele atirador iria pagar caro e iria se arrepender na pós-vida por ter lhe atacado de um jeito tão rude.

— PROJEÇÃO MÁGICA ESPECIAL! — assim que gritou o início de sua magia, um de seus anéis prateados da mão direita, o que estava no dedo indicador, criou vida e subiu aos céus, indo até acima do estábulo destruído. Lá, ele brilhou e liberou uma grande quantidade de energia mágica. — CHUVA DAS MIL FACAS!

Charlotte bateu uma palma em frente ao corpo e ao mesmo tempo, o anel que voava livremente sumiu, deixando só uma poeira de energia mágica. Essa mesma poeira foi se separando rapidamente e espalhando por toda uma área circular, sem sair de cima do estábulo. E imediatamente depois, essa poeira se transformou em facas retas cinzentas e extremamente afiadas e pontiagudas, todas viradas para baixo. Assim que as mil facas se transformaram, a maga abaixou as duas mãos, e junto com elas, as facas caíram. Uma chuva de destruição caiu em cima de Lelouch.

Se o estábulo já estava meio destruído antes do atirador ir de encontro com ele, agora, logo após essa chuva de lâminas... Não havia ficado nenhum traço de que algum dia foi um estábulo. A fumaça tampava qualquer visão do que tinha sobrado. Charlotte respirava rapidamente, recuperando o fôlego por consumo de energia. Ela sorriu e tirou um lenço branco do bolso da calça, passando pelo rosto. Mesmo com as dores, ela estava satisfeita com o desfecho daquele combate. Ela tinha sido avisada sobre o poder dos membros da Immortal Star, mas pelo o que ela tinha acabado de ver, ela conseguiu concluir que seus companheiros haviam superestimado aquelas pessoas.

Esse pensamento foi, obviamente, antes da mulher ver o que havia por trás daquela fumaceira deixada pela destruição do estabelecimento. Ainda estava difícil de enxergar, mas ela tinha a certeza — e não só por sua visão —, que havia uma figura humanoide em pé no centro daqueles destroços. A mulher ficou paralisada, sem saber o que deveria fazer ou sequer pensar. Será que ele ainda estava vivo? E inteiro? Depois de receber uma chuva de lâminas afiadas no corpo? Será que ela estava vivendo em um pesadelo tão macabro?

Lelouch não só estava em pé, como seu olhar continuava afiado e furioso. Mas ele não estava exatamente "inteiro". Seu corpo estava recheado de cortes em inúmeras direções e profundidades, e sua roupa não tinha mais a coloração original, já que o vermelho predominava. Mas ali estava ele. Em pé. Olhando para frente. E segurando seu grandioso lança míssil RPG-7.

Assim que o atirador puxou o gatinho, uma nova explosão de fumaça foi criada em uma forma de linha, que era o caminho que o míssil energizado e extremamente perigoso fazia. Mesmo aflita, Charlotte conseguiu fazer seu corpo obedecer o cérebro e fazer a melhor reação que pode naquele instante, mandando energia por seu corpo e enviando para sua frente, logo em seguida.

— PROJEÇÃO MÁGICA, ESCUDO AMARELO DE ZUR!

O desenho criou vida assim que se destacou da saia curta da Princesa, girando e aumentando de tamanho exponencialmente, criando um escudo amarelado que permaneceu em sua frente. Sua poderosa proteção nunca lhe falharia, por mais poderoso que fosse o ataque do inimigo.

Mas falhou. Assim que o míssil atingiu o escudo, houve uma grande explosão que destroçou totalmente o escudo mágico da mulher, fazendo o resto do impacto a jogar para o outro canto da rua. Charlotte voou gritando e bateu com força em um muro de tijolos que havia em seu caminho. Mas isso não foi o real problema. Assim que estava no chão sem ar, ela começou a gritar de dor, segurando a perna direita. Ela olhou para baixo e viu seu pé dobrado de uma forma que não deveria. Para seu azar, antes de bater no muro, seu pé bateu com força na subida da calçada, o quebrando.

O que foi realmente impressionante foi a resposta que Charlotte deu à sua própria situação. A dor era tanta, que em vez dela perder completamente a concentração e acabar desmaiando, ela transformou todo aquele resentimento em fúria e energia mágica. A aura era tão forte e intensa, que cresceu em um raio de dois metros. Mesmo longe, Lelouch conseguiu ver e sentir a intensidade. Ele se manteve parado, sabendo que estava preste a ser alvo de algo grande. De novo.

— PROJEÇÃO MÁGICA ESPECIAL! — gritando, Charlotte deu um tapa com a mão direita no chão a sua frente, e no mesmo instante, as quatro pulseiras de prata que enfeitavam aquele braço desapareceram do mesmo jeito que aquele anel que se virou em facas. — CAMPO DAS ARMAS INCOLORES!

Toda a energia concentrada se espalhou rapidamente ao redor da maga, crescendo por muitos metros e chegando até a passar por onde Lelouch estava. Em seguida, inúmeros desenhos de armas aleatórias começaram a surgir do nada no chão, nas paredes de casas e lojas, nos tetos das mesmas, em muros de todos os tipos e tamanhos. Depois, os desenhos tremeram e "se arrancaram" de suas superfícies, ganhando vida e sobrevoando sem rumo por ali. Eram espadas feitas de terra, lanças feitas de tijolos, machados feitos de telhas e escudos feitos de madeira. Eram centenas. Todos elas não exibiam nenhuma cor, mas havia uma aura as rodeando, sem exceção.

Assim que Charlotte puxou seu corpo para trás, apoiando as costas na parede onde bateu, ela percebeu que não via mais seu oponente. Lelouch tinha se escondido em algum canto assim que viu as armas voadoras sinistras. Charlotte deixou escapar um sorriso, mesmo ainda sentindo a dor aguda em seu pé. Ela pensou em como o atirador era esperto. Ele não era louco de enfrentar tantas armas assim de frente. Mas havia algo a mais nessa magia que ele descobriria da pior forma.

Lelouch, um pouco sem fôlego, apontou seu novo rifle de precisão para Charlotte. Ele tinha retransformado sua arma há alguns segundos atrás, pois correr com o peso de um lança mísseis no ombro não estava na lista de boas ideias. Agora ele segurava uma M82A1, seu rifle mais potente. Mesmo machucado, ele conseguiu subir em uma casa baixa que tinha mais ao lado. Ele se deitou e se preparou. Sua oponente continuava parada no mesmo lugar e as incontáveis armas continuavam dançando sem rumo pelo ar. Ele não sabia o que ela planejava, mas não iria esperar para descobrir.

O atirador de elite da Immortal Star puxou o gatilho depois de mirar exatamente no meio da cabeça de Charlotte. A arma deu um coice furioso com o tiro e ele pode ser ouvido por todo o quarteirão. Era uma arma de calibre alto e conseguia penetrar armaduras mágicas como se fosse papel. Mas ele percebeu que o tiro não penetrava cinco armas mágicas criadas com projeção.

Foi isso que aconteceu. Assim que disparou, cinco armas aleatórias fizeram uma fila na frente de Charlotte, a protegendo. O tiro destruiu três das armas, mas quando bateu na quarta, ele desapareceu. Lelouch quase mordeu a língua de raiva. Ele não tinha entendido como aquelas armas tinham se movimentado tão rápido para protegê-la. O pior: a maga não pareceu dar nenhum comando para que elas se movimentassem.

E não acabava por aí. Charlotte sorriu quando encontrou o local onde seu oponente estava, e depois que eles trocaram olhares mesmo naquela distância, mais cinco armas aleatórias vibravam e voaram mortalmente para a direção do atirador. Lelouch xingou mentalmente e se levantou o mais rápido que pôde. As armas acertaram o telhado e destruíram não só isso, como toda a casa em uma explosão de energia. O atirador foi jogado violentamente contra o chão, sofrendo mais danos. Mas foi melhor do que ser atingido diretamente pelas espadas.

— AHAHAHAH! O QUE FOI, ATIRADOR? — gritava Charlotte, rindo maluca e escandalosamente. — Vai continuar fugindo? Vai continuar escondido? Faça o que quiser! Você não tem mais como fugir do meu Campo Mágico e das minhas armas sensitivas! Ahahahah!

Gritar aquilo não tinha sido só uma loucura do momento. Aquilo também fazia parte dos planos da maga. Ela estava fazendo seu oponente raciocinar para ter um só tipo de ação. Ela já sabia que uma das armas mais problemáticas que Lelouch poderia usar contra ela seria algum tipo com vários tiros rápidos, pois a fazia ficar na defensiva. Ou seja, seria uma boa ideia se ele puxasse suas duas submetralhadoras novamente e atirasse diretamente contra ela, pois mais armas iriam ganhar vida e ir à sua defesa. E com os tiros seguidos, as armas não teriam tempo para atacá-lo. Ele poderia se aproximar e finalizar a luta, já que ela não conseguia se mover. Era um plano perfeito! E era nisso que ela apostava que Lelouch pensaria. Pois se ele tentasse tal coisa — ou algo muito parecido —, ela terminaria a luta com outra magia secreta que não usava há anos. Tudo que ela pensava agora era "Vem cá. Tenta chegar em mim novamente!".

Como todo bom soldado muito bem treinado que conseguiu subir para um nível de Capitão, tanto em um reino quanto em uma Guilda, Lelouch era extremamente bom em criar planos onde nem ele e nem seus companheiros acabassem se ferindo. Ele sempre analisava as opções, os caminhos, os planos. Sua concentração total criada nos anos de ordens rígidas em seu antigo exército serviam para alguma coisa. Ele se levantou usando a parede como apoio e forçou sua mente a ignorar as dores. A falta de sangue já era preocupante naquele ponto. Sua visão estava um pouco turva e ele tremia de frio. Mas precisava continuar com a adrenalina no sangue. Precisava finalizar aquilo. E graças a seu tempo para pensar, ele já tinha feito o plano final.

Lelouch estava em um beco sem saída cercado de latas de lixo e destroços. Ele estava bem escondido ali. Olhou para cima e viu algumas armas voando, parecendo procurá-lo. Mas não estavam. Sua oponente fez um erro terrível quando falou sobre essa magia, e isso acabaria lhe entregando a morte. Não importava mais. Lelouch começou a passar uma grande quantidade de energia para o rifle que segurava, fazendo-o brilhar de intensidade. Ele iria tentar usar sua nova magia, que vinha treinando desde que viu uma certa batalha do Coliseu, há alguns meses atrás.

— Perdão Mulkior, mas vou copiar um pouquinho sua magia. — Lelouch apontou o rifle para cima e começou a passar um novo tipo de energia para ela. Uma linha vermelha se misturou na arma e ela começou a mudar drasticamente. Ele estava usando sua energia vital dessa vez. — TRANSFORMAÇÃO DE ARMAMENTO ÚNICO — PHASER!

Enfim, a arma em sua mão começou a mudar de forma. Ela cresceu de espessura e não de tamanho — visto que o rifle que ele segurava já era bem comprido — e também mudou de cor. Passou para o branco com marcas vermelhas. Mas a forma era quase inexplicável. Parecia um lança mísseis, mas não havia a parte do "cano". A frente da arma terminava em um retângulo com um tipo de grade na frente. Havia uma mira mágica ao lado da arma, e no meio dela, existiam três medidores de níveis que não dava para saber o que exatamente mediam. A arma parecia muito pesada, mas Lelouch a manteve segurando para cima sem problema nenhum.

E então apertou o gatilho, o mantendo segurado. Uma energia branca começou a se juntar na ponta retangular da arma, criando uma esfera inconsistente. Um dos medidores subiu até o limite e fez um "bip". Os outros dois subiram até ficarem na metade e também fizeram o mesmo barulho. Depois, a arma disparou. Agora imagine o maior feixe laser feito de energia pura que você já viu. Um enorme pilar voou aos céus, atraindo a atenção de todas as pessoas que ainda estavam por aquela área. Isso, claro, incluía principalmente Charlotte, que não estava muito longe daquilo. Ela olhava boquiaberta para aquilo, sentindo a tamanha concentração mágica que possuía.

Agora vamos concentrar nesse último fato em específico. Com tanta concentração mágica em um só lugar, todas as armas mágicas que haviam sido criadas pela magia de Charlotte começaram a vibrar enlouquecidas. Sem poder controlá-las, as armas viraram para o pilar de luz e avançaram como se fossem ratos correndo atrás do maior queijo do mundo. A maga não fez nada além de assistir um verdadeiro teatro de destruição.

O super raio laser concentrado não ficou muito tempo, mas para Charlotte pareceu uma eternidade. Ela estava parada ainda, quase sem respirar. Via parte de sua magia cair dos céus, destruídas. Algumas armas caíam e explodiam no chão, sem energia. "O que aconteceu aqui?" pensava ela. Seu plano não tinha saído como ela planejou. Mas SEMPRE saía! Ela sempre estava por cima. Sempre era a vencedora. Sempre era a mais forte, a mais bonita, a mais desejada. Ela iria se tornar Rainha logo! Ela TINHA que sempre estar em primeiro lugar! O que tinha dado de errado hoje?

Era "ele". Aquele maldito caipira atirador tinha estragado tudo! Charlotte abaixou a cabeça ainda paralisada e viu, ao longe, um brilho esquisito. Para qualquer que não estivesse acostumado ao campo de batalha, aquele brilho poderia significar muitas coisas, a maioria, inofensiva e boba. Mas Charlotte SABIA o que era. Aquilo era o reflexo de uma lente de precisão. "Ele" estava fazendo mira mais uma vez.

— TIRO PENETRANTE!

Não houve mais nada para Charlotte perceber. Ou evitar ou até mesmo pensar. Lelouch usou sua magia de penetração, um tiro superconcentrado com o intuito de ultrapassar barreiras ou armaduras. Junte isso ao poder de fogo de um rifle de precisão e sua mira impecável, e você tem uma das mais efetivas formas de matar de um Atirador de Elite. E Lelouch era alguém que não gostava de levar lutas além do esperado. Então mirou no coração de sua inimiga, que por estar imóvel, não conseguiu fazer nada para evitar.

Andando lentamente em direção ao corpo caído da maga, Lelouch desfez a transformação do rifle de precisão, voltando com suas duas pistolas companheiras. Ele ainda as mirava para o corpo. Lelouch aprendeu da pior forma que nunca deveria abaixar a guarda enquanto você não tem cem por cento de certeza que seu inimigo está ou derrotado ou morto.

Ele chegou aos pés da mulher e a analisou de longe. Ela não se mexia e não parecia respirar. Muito lentamente, ele foi se aproximando. Girou o corpo dela para o lado, a deixando deitada de costas. O tiro tinha sido perfeitamente assassino. Charlotte estava morta. Mas não seu mordomo.

Lelouch sentiu um arrepio na espinha e sabia que havia caído em uma cilada. Tubes, o fiel escudeiro e mordomo de Charlotte sangrava mortalmente pela cabeça, sem enxergar pelo olho direito e sem nem poder ouvir nada. O ataque tinha sido fatal... Mas não tinha sido o suficiente para matá-lo de uma só vez. Ele estava acabado, e não conseguiu se levantar a tempo de proteger sua Princesa. Então a única coisa que restava era sua sede de vingança. Ele precisava levar aquele maldito atirador para o Inferno junto com ele. Só assim Princesa Charlotte poderia descansar em paz, sabendo que tinha feito o certo em escolhê-lo como Protetor e Seguidor.

Ele estava com uma de suas magias ativas. Todas as magias de Tubes se tratava de transformar o próprio corpo em uma composição diferenciada, podendo-lhe conceder defesa, ataque, velocidade ou até mesmo algum atributo único. Como era o caso desse atual. Seu corpo estava cristalino, parecendo uma pérola em tamanho humano. Era sua magia de camuflagem. Ela não só o fazia ter um corpo de camaleão, podendo se esconder pelos cenários e ficar quase invisível, como também lhe escondia sua presença e poder mágico. Enquanto ele estiver com essa magia ativa, ele não pode fazer nenhum tipo de ataque. Foi por isso que Lelouch o sentiu quando ele desativou sua magia, já bem às costas do atirador.

— CORPO DE OURO!

Sem esperar, ele transformou mais uma vez seu treinado corpo, o deixando totalmente dourado. Ele parecia um troféu de campeonatos de levantamento de peso ou até mesmo de torneios de luta livre. Essa era sua magia para ataque. Ele ignorava todo o resto para se focar totalmente na força física, e um soco dado com aquela forma tinha mais potência do que uma Magia de Terceiro Círculo de escolas arcanas. Para facilitar, pense que um só soco dele era tão forte quanto o Torpedo da Destruição de Kula e até mais potente do que as armas de nível dois de Mulkior.

— CANHÃO DE ENERGIA CONCENTRADA!

Como dito antes, a magia de Tubes perdia os outros atributos para se focar totalmente no ataque. E isso também contava na "percepção". Então ele não viu Geovanna se levantar com muita dificuldade, concentrar energia nas duas mãos que estavam apontadas para ele e depois disparar um grandioso feixe de energia pura e concentrada em sua direção. Tubes só viu a magia chegando mais próxima quando já estava a uns quarenta centímetros de distância.

Então ele foi acertado em cheio por mais uma magia concentrada de destruição pura. O mordomo foi empurrado não para muito longe, mas caiu pesadamente no chão quando a magia terminou de queimá-lo. O feixe lhe atingiu a parte de cima do braço direito e chegou a pegar no pescoço. Como já estava em seu último suspiro, o fiel escudeiro não aguentou as dores e desmaiou ali mesmo.

Lelouch se levantou rapidamente, saindo do transe que estava por ter sentido a presença tarde demais. Ele tinha certeza de que se fosse acertado por um só soco daquele... Bom, era melhor não pensar mais a respeito. Também devagar, ele se aproximou do corpo caído do mordomo e viu que ele estava desmaiado, mas ainda respirava pausadamente. Sem ter o mínimo de compaixão, Lelouch apontou para a cabeça do homem e atirou mais três vezes, encerrando sua vida de uma vez por todas. Depois ele se virou para trás, vendo Geovanna cambalear enquanto caminhava para frente. Ela estava prestes a cair, mas Lelouch correu em sua direção e a pegou, colocando o braço dela por cima de seu ombro.

— Acho que... — começou a dizer ela, quase sem forças. — Estamos quites agora.

— Estamos nada! — respondeu Lelouch, deixando a raiva finalmente sumir. — Quando isso tudo acabar, eu vou te pagar uma bebida!

— Desculpe... Só tem um homem com quem eu tenho vontade de beber junto.

Soltando uma alta gargalhada, Lelouch começou a caminhar em direção à base da Guilda, onde seus companheiros provavelmente estariam esperando ou para beberem ou para lutarem ainda mais.

Notas finais
E no próximo capítulo, veremos mais um desenrolar de algumas batalhas e como algumas pessoas estão usando o caos da cidade para fazer seus planos pelas sombras