Immortal Star - Segunda Saga
10 Diferença de força
Notas iniciais
Não é novidade para ninguém que grandes castelos ou até mesmo mansões tenham um segredo aqui e outro ali. Se você tem dinheiro para comprar uma mansão, a primeira coisa que vai querer fazer é criar um cofre secreto, que provavelmente vai estar atrás de algum grande quadro pintado à mão ou em uma porta secreta que se abre depois de você puxar o livro certo de uma estante.
Shiro ter encontrado uma instalação imensa e, além de obviamente secreta, ela deveria ser proibida, não era uma surpresa tão grande. O problema era que na situação do ninja, aquela descoberta acabaria gerando ainda mais confusão em sua mente e pressão em seu corpo ferido. E isso porque ele ainda estava para descobrir sobre o que realmente era aquele lugar.
Preocupações estavam vindo de todos os lados e não pareciam ser curtas. Haviam "exércitos de preocupações", e nem o palhaço mais sem graça do mundo tentaria brincar com esse fato. Riven estava realmente sendo cercada por todos os lados, e cada vez que uma nova informação do campo de batalha chegava até o Castelo, o peso no ombro dos Comandantes e lágrimas nos olhos dos soldados aumentavam. Assim era a Guerra.
Duas figuras sabiam muito bem como era esse sentimento. Perder pessoas queridas, vê-las morrendo diante dos seus olhos no meio de uma batalha. Saber que teriam que sair de uma luta só para entrar em outra, mais adiante. Essas duas figuras agora travavam uma dessas lutas, e mesmo com objetivos iniciais diferentes, elas sabiam que as levariam para o mesmo lugar: uma futura nova batalha.
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Pingos de sangue subiam e caiam pelo chão já muito sujo daquele campo de batalha improvisado. O mercado aberto tinha poucas barracas que ainda continuavam em pé, e quase nenhuma estava livre da pintura vermelha que as três assassinas faziam enquanto trocavam golpes rápidos e precisos.
Juri e Jake foram empurradas mais uma vez, forçando as pernas para não perderem o equilíbrio. Elas estavam com vários cortes em partes aleatórias pelo corpo, mas nenhum que chegasse a ser fatal. Jake estava mais abatida. Ter caído na armadilha de Mana lhe tomou um grande tanto de fôlego total, além de que cada novo movimento brusco que ela fazia, mais sangue se derramava de seu corpo negro. O fato de Mana ter aumentado sua força física por causa de sua arma mágica só encurtava ainda mais a perspectiva de vida da gêmea de cabelo curto.
Já a assassina da Immortal Star estava com a mente em branco, fazendo seu corpo trabalhar no automático. Ela estava ferida sim. Desde que as gêmeas decidiram se focar totalmente nela, Mana acabou sendo atingida quatro vezes, e uma dessas vezes, tinha sido um corte bem dolorido nas costas. Mas ela não estava parando para nada, nem para respirar direito. Ela usava a velha estratégia de fazer o inimigo se cansar mais rápido do que ela, e parecia estar dando certo.
Os ataques das gêmeas tinham ficado cada vez mais difíceis de se acompanhar. Elas avançaram agora, ao mesmo tempo como sempre. Duas estocadas rápidas, uma na altura na garganta e outra na altura do estômago. Mana aparou os dois golpes, usando uma katar para cada golpe. Logo em seguida, as gêmeas continuaram combinando novas sequências. No olho e no coração, aparados. Na perna esquerda e no braço direito, aparados. Um no pé direito e outro no pulso da mão direita, aparados. Um golpe duplo mirados exatamente no meio do peito, esquivados com um passo curto para trás. Nesse último movimento, Mana aproveitou para atacar Juri, que parecia mais próxima, mas essa assassina se afastou antes de ser decapitada.
Juri e Jake se olharam rapidamente, quase que mandando uma mensagem telepática uma para a outra. Elas balançaram a cabeça afirmativamente em uníssono, e aumentaram a emanação de energia por seus corpos. Estava na hora de adicionar um elemento a mais naquela troca incessante de golpes.
— DUETO TEMPESTUOSO!
Como antes, as duas gritaram a magia ao mesmo tempo. A emanação que corria de seus corpos se intensificou e se liberou, criando um tipo de malha negra e cinza escura que lhes envolvia. Mana ficou em posição defensiva, esperando que algo viesse para cima dela. Mas ela esperava algo mágico, e o que veio, foram as duas assassinas em uma nova investida.
É claro que seria diferente dessa vez. Elas deram três passos para frente e de repente sumiram. Um choque percorreu todo o corpo de Mana e ela forçou sua percepção. Se virou o mais rápido que pôde, mas não evitou os dois novos cortes em seu corpo. Jake e Juri agora estavam no outro lado, mas ainda muito perto de sua oponente. Elas giraram em um pé só, fazendo quase um passo de dança, e voltaram a atacar Mana. Sua velocidade agora era algo absurdo. Era isso que a magia tinha feito.
Um ataque vindo por cima e outro... De onde viria o outro? Mana não conseguiu acompanhar o segundo movimento das assassinas e foi atingida novamente na perna esquerda. Elas atacavam com uma metralhadora de estocadas, e Mana tinha que cerrar os dentes e pular para trás a cada segundo para conseguir se defender. E não estava dando muito certo. Ela não queria ativar o seu selo para as magias de gelo, então o que se fazer contra tantos golpes naquela velocidade? Vários golpes... Aha!
— VINGANÇA DE ASHURA!
Mana também deixou sua energia fluir de seu corpo enquanto ela cruzava os braços na frente da cabeça, a protegendo. Um tipo de barreira arroxeada brilhou fraco ao redor de seu corpo, fazendo as gêmeas terem um segundo a menos para reagir. Mas elas já estavam com o impulso ativo. Não poderiam parar na metade da combinação de golpes. Então elas simplesmente decidiram continuar os ataques e ferir Mana o suficiente para que ela não pudesse usar a magia a tempo.
Mana foi atingida doze vezes antes de poder reagir. Claro, ela era para cair morta depois de tantos ataques diretos, mas estamos falando de uma assassina que passou por batalhas o suficiente para ganhar dois Títulos Únicos. Ela fortaleceu a aura mágica de sua magia para lhe proporcionar mais defesa, pois sabia que poderia não aguentar se uma das estocadas das gêmeas lhe perfurassem algum ponto vital.
Antes de ser acertada pelos golpes número treze e quatorze, Mana abriu os olhos que brilhavam com um fogo ardente e deu um passo para frente, se esquivando dos dois golpes. As duas lâminas de suas katars vibravam com uma grande intensidade e uma aura cor roxa, prontas para serem usadas. Quase sem mirar, Mana aplicou um golpe duplo, um em cada assassina inimiga.
O golpe horizontal não foi exatamente rápido, então as gêmeas simplesmente levantaram suas armas e se prepararam para defender. Agora o que não tinha de velocidade, tinha de força. O impacto foi absurdo. Juri não aguentou a força e a katar ainda lhe cortou em cima no peito, quase no pescoço. Jake também não tinha aguentado tamanha força, mas foi atingida só no lado esquerdo do corpo, em um ferimento menos sério do que sua irmã. Também é importante descrever que as duas saíram voando para trás como se fossem feitas de papel.
Jake caiu no chão e rolou cinco vezes por cima de frutas e destroços de barracas. Ela não tinha sido tão ferida assim, mas tinha perdido completamente a compostura e agora estava zonza. Já sua irmã não teve essa "sorte". Juri bateu na parede de um muro de pedra a direita, onde o mercado terminava. Ela caiu sentada no chão, cuspindo saliva e umas gotas de sangue. A dor nas costas foi mais intensa do que o novo corte no peito, e ela imaginava que havia quebrado algo nesse impacto.
Cansada, machucada e preocupada. Mas isso não pararia os avanços da Lâmina Sanguinária. Respirando fundo e fixando sua visão, ela voltou a correr. Foi na direção de Juri, que estava mais próxima. Agora que as duas estavam separadas, era o momento certo para finalizá-las.
Juri pressentiu o perigo encravando em sua espinha que parecia estar quebrada. Ela tentou desesperadamente se levantar, mas a fisgada que suas costas lhe deram a fez soltar um grito fino e curto. Usou uma das mãos para se apoiar na parede e apontou a espada contra Mana com o braço livre. Suas pernas estavam bambas e sua visão estava querendo se apagar.
Mana atacou com voracidade. Sabia do estado de sua oponente e sabia que ela não teria forças para se defender. Por isso começou fazendo uma combinação tripla de cortes horizontais, finalizando com um grande movimento vertical para cima. Juri defendeu os golpes pela metade, se ferindo um pouco em cada movimento. E no último golpe, a força de Mana foi maior e fez Juri levantar o braço da arma, deixando sem defesa alguma.
— IMPULSO SÔNICO!
As duas katars da assassina vibraram com um som característico enquanto se enchiam de energia negra. Mana jogou os braços para trás para pegar impulso e depois aplicou um potente golpe duplo para frente, em forma cruzada. Juri, ainda tonta e machucada, conseguiu fazer seu corpo reagir a tempo. Energizou suas pernas com um tanto de energia e se jogou para o lado, sem nem ver onde cairia. Isso lhe salvou a vida: o golpe de Mana pegou na parede em suas costas e as destruiu como se fosse uma fatia de pão, jogando pedras pequenas e grandes para todos os lados. Mas isso não a livrou totalmente do dano. O braço esquerdo da assassina foi atingido na tentativa de esquiva, e o ferimento tinha sido muito sério.
Mana não ficou nem outro segundo se queixando por ter errado o golpe. Ela se virou e se preparou para continuar atacando sua oponente. Dê um segundo a mais de vida para uma Assassina profissional, e você perderá todo o resto de vida que você tem.
— ESTOCADA LASER!
Um fio fino de energia negra voou rapidamente na direção de Mana, vindo de sua esquerda. A assassina da Immortal Star levantou as duas armas na altura do rosto e se jogou para trás, defendendo o rápido golpe. Ela arrastou os pés no chão ao ser empurrada e uma fumaça malcheirosa começou a exalar de sua arma. A magia tinha sido aplicada com potência.
Foi mais rápido que um piscar de olhos. Jake apareceu ao lado de sua irmã, a levantou pelo braço que não estava ferido e depois se jogou para trás com ela, para o mais longe que conseguiu. Manteve os olhos nervosos em Mana a cada movimento. Sua preocupação era mais com o bem-estar de Juri do que com a própria vida.
— Você está bem? — perguntou Jake, com a espada apontada para Mana, que ainda estava longe, mas parecia se preparar para um novo avanço.
— Sim. — respondeu Juri, com uma voz fraca e parecendo contrariar a própria resposta. Ela tentou ficar de pé, mas uma nova fisgada em suas costas não lhe permitiu. — Acho que quebrei alguma coisa quando bati na parede. Não imaginava que ela pudesse ter um ataque com tanta intensidade.
— Não tinha como sabermos, essa informação não nos foi passada. Mas isso não importa agora. Me dê sua mão. — Juri nem precisou perguntar o por quê do pedido. Simplesmente levantou sua mão do braço que não estava machucado e cruzou os dedos com a mão de sua irmã. Jake concentrou um tanto de energia mágica, envolvendo tanto ela quanto sua irmã. — TRANSFERÊNCIA EQUIVALENTE!
As duas assassinas emanaram um brilho fosco negro com vermelho. Mas foi só o que aconteceu. Mana tinha parado o avanço quando a magia veio à tona, mas mais uma vez, nada foi atirado contra ela. O que ela viu foi que depois do tal brilho, Juri conseguiu voltar a ficar de pé enquanto Jake cambaleou e só não caiu de joelhos porque foi amparada pela irmã.
A assassina da Immortal Star não tinha tempo de analisar cada detalhe de cada magia que seus oponentes usavam, então ela simplesmente ignorava muitas magias que eram usadas na batalha. Mas para termos um melhor entendimento do que realmente aconteceu, é necessário dizer que as duas usaram uma magia de "mediação de ferimentos". Isso faz com que todo o dano que elas tomaram seja somado e depois dividido igualmente entre as duas. É simples de se entender, mas em realidade, é algo absurdamente raro. Transferência de sangue ou de energia mágica através de magia era uma coisa que ainda estava sendo estudada e muitos magos de alto nível acreditavam que não valia toda a atenção por ser algo praticamente impossível. San tinha feito algo muito parecido com isso no final do Torneio de Times, quando tentou salvar Mana. Os médicos que viram aquela cena tinham ficado incrédulos com aquilo, e por um motivo sensato.
— Não podemos continuar com essa forma de lutar, Juri. Precisamos ir para nossa Estratégia Final.
— Era exatamente o que eu estava pensando. Vamos acabar com isso de uma vez!
Ao mesmo tempo, as duas voltaram a ativar suas auras de energia. Mais uma vez, o ar ao redor daquele local ficou mais pesado e com um leve aroma de sangue e morte. Isso não afetava negativamente Mana, já que ela sozinha, conseguia exalar ainda mais desespero só por demonstrar suas armas e sua intenção assassina. Mas aquele cenário conseguia mostrar para ela que as irmãs estavam prontas para fazer um novo movimento, e pela intensidade de suas auras, era algo mais forte.
— DANÇA DO FIM DO MUNDO!
Outra vez, as duas liberaram a magia em uníssono, liberando uma grande explosão de energia mágica para todos os lados. Seus corpos se envolveram com um novo tipo de aura, que ainda era negra como a da última magia, mas agora era possível ver rápidas correntes elétricas feitas de energia mágica que percorriam aleatoriamente para todos os cantos. Além disso, as duas lâminas de suas armas também pareciam terem sido afetadas, já que as correntes elétricas também as percorriam.
E então avançaram. Rápidas, como duas flechas atiradas ao mesmo tempo. Elas iriam finalizar o trabalho. Provavelmente esse era um dos movimentos mais mortais que elas tinham. Mana sabia disso. Ou melhor, pressentia. Só que dessa vez, o resultado vai ser diferente. Elas não cairiam na mesma magia outra vez, então estava na hora de usar uma estratégia diferente. Estava na hora de mostrar para elas o quão erradas elas foram ao terem escolhido a Lâmina Sanguinária como alvo. Mana liberou sua energia com uma explosão e também avançou contra as gêmeas, em um grande salto frontal.
O ataque das duas começou de maneira estranha, mas muito rápida. Foram duas estocadas na altura dos ombros, aplicadas ao mesmo tempo. Foi seguida de um movimento vertical, depois dois ataques na altura do pescoço. Passou para um movimento circular que atingiria tanto a cabeça quanto os ombros. Depois três cortes horizontais que iam de cima para baixo, começando no meio do peito. Imediatamente seguido por duas estocadas nas pernas, uma em cada lado. E por fim, dois golpes que tinham ainda mais velocidade, chegando a ser uma estocada na velocidade da luz, exatamente no meio dos olhos. Todos os movimentos, sem exceção, foram duplos, ou seja, as duas usando os mesmos movimentos ao mesmo tempo e na mesma altura. Era realmente uma dança macabra.
Mas houve um certo problema. Mana começou defendendo as duas estocadas iniciais simplesmente colocando as katars na frente. Depois deu um passo para trás, se esquivando do corte vertical. Se abaixou para evitar o corte no pescoço. No movimento circular, ela aparou as duas armas inimigas ao mesmo tempo, as deixando fora do seu alcance original. Os três cortes foram evitados com três movimentos rápidos de seu corpo, terminando com um salto curto para evitar as estocadas nas pernas. No fim, os dois golpes ainda mais rápidos poderiam ter sido um problema realmente sério, pois só aquele golpe poderia terminar a luta. Mas Mana fez um movimento que as gêmeas jamais imaginariam e jamais esqueceriam: ela segurou as duas lâminas com força, tendo as duas mãos cortadas, mas impedindo o ataque nos olhos.
Tanto Jake quanto Juri ficaram boquiabertas e sem terem palavras para descrever aquela cena. Mana conseguiu evitar TODOS os golpes, de uma forma ou de outra. Isso era para ser impossível, já que além dos golpes serem aplicados em uma velocidade absurda, o fato de serem golpes duplos fazia com que qualquer oponente não conseguisse acompanhar a rápida troca de altura e distância. Que tipo de monstro conseguiria se defender tão bem vendo aqueles movimentos pela primeira vez?
Mana não iria dar a resposta para essa pergunta de uma forma indolor. Puxou as duas armas para si, trazendo as duas assassinas junto. Elas deram um passo errado para frente, perdendo um pouco de estabilidade. Mana aplicou um potente chute no estômago de Jake, a empurrando contra o chão. Se virou e aplicou um corte horizontal na altura do pescoço de Juri, que só não perdeu a cabeça porque conseguiu dar um salto para trás.
O próximo movimento de Mana aplicou algo a mais além de dor em sua oponente. A assassina permaneceu virada para Juri, deixou seu corpo cair para frente e com uma pisada forte no chão, se jogou contra a oponente. Juri não estava mais desequilibrada, mas continuava melindrada com a defesa impossível de Mana. Isso fez com que sua velocidade de reação caísse pela metade, isso claro, contando que ela ainda estava machucada e cansada. Mas o que piorou tudo foi isso:
— CAPA DA INVISIBILIDADE!
Mana tinha usado a magia enquanto estava no avanço, o que para Juri, tinha sido algo completamente desesperador. De repente tem uma assassina com olhos cheios de sangue, sedentos por morte vindo praticamente voando em sua direção e então "puff", ela desaparece a menos de um metro de distância de você.
Já foi dito que essa magia de Mana não era perfeita. Ela não escondia completamente sua existência. Ainda era possível localiza-la pelo som, pela sua aura ou até mesmo pela refração de imagem que seu corpo fazia por onde passava. Os dois problemas que Juri enfrentou naquele instante foram o fato de que ela estava desesperada por não saber como iria se defender, e pelo fato que Mana não tinha dado nenhum tempo para ela se preparar.
— LÂMINA DE ENERGIA!
Um movimento mortal. Uma estocada reta, nas costas. Aplicado com força. A única pessoa que conseguiu ver aquilo tinha sido Jake, que agora estava de pé e recuperava o fôlego. Ela viu Mana desaparecendo e imediatamente depois aparecendo atrás de sua irmã, com uma das katars levantada. Também viu quando a mesma katar ficou cheia de energia mágica. Mas o pior foi ver a lâmina entrar pelas costas de sua irmã e sair na frente do peito, despejando o quente e vermelho sangue pelo chão. Juri caiu primeiro de joelhos no chão, completamente mole e com uma expressão congelada em sua face, depois terminou de cair, batendo com a cabeça no chão.
— JURIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!
Jake começou a correr com toda força que tinha, já preparando energia mágica em sua arma. Sua mente tinha se fechado e agora só a raiva descontrolada a fazia dar novos passos. Mana se virou para a irmã que vinha em sua direção quase com a boca espumando. Afastou as pernas e flexionou os músculos e também correu contra a assassina negra. Mas não houve uma nova troca de golpes.
— FLOR INFERNAL!
Jake pulou alto muito antes de deixar Mana se aproximar. Passou grande quantidade de energia mágica para sua arma — para ser mais exato, tinha sido energia além do necessário, já que ela não parecia mais se controlar —, e por fim caiu com tudo, quase em cima de sua oponente, atingindo o chão com sua lâmina. Toda a energia fluiu para o chão e imediatamente depois, inúmeros feixes negros saíram do chão, em volta da assassina. Os feixes não atingiam uma altura grande, mas eram numerosos e vinham de todas as direções. Se aquela magia fosse vista de cima, era possível vislumbrar um tipo de flor desabrochando. Uma flor do submundo, claro.
Mana pressentiu a grande emanação de energia vindo do chão, então parou quase escorregando e pulou para trás. Dois dos feixes foram em sua direção, e ela levantou a guarda com as duas katars imediatamente. Um dos feixes ainda lhe cortou a lateral esquerda do estômago, mas isso não a impediu de se afastar dos outros inúmeros ataques.
Jake não parou para respirar. Deu mais alguns passos e se abaixou para perto de sua irmã caída. A poça de sangue ao redor era derradeira e aumentou ainda mais a preocupação de Jake. Ela virou Juri, colocando a cabeça dela em seu colo. Juri abriu os olhos muito lentamente, mas nada viam. Suas pernas e braços estavam dormentes e nem dores em seu corpo eram sentidas. Mas ela reconhecia o calor familiar de alguém que esteve com ela por toda sua vida, passando pelas mesmas dificuldades.
— Ja... ke...
Os olhos de Juri se fecharam de novo, e sua cabeça pendeu para o lado. Jake gritou pelo nome de sua irmã várias vezes, o mais alto que conseguia. A balançou com força e ordenava que ela abrisse os olhos novamente. Isso não aconteceu. Vendo de perto, o ferimento no peito de Juri era extremamente fatal. Jake sabia que não tinha como sobreviver àquilo, mas era de sua irmã que estamos falando. A esperança para que ela sobrevivesse seria a última coisa que iria morrer.
O que para Mana, não fazia a menor diferença. A assassina da Immortal Star não iria deixar as irmãs terem outro segundo de despedida. Para Mana, "misericórdia" seria fazer com que as duas irmãs se encontrassem logo, mas não nesse mundo. Partiu pela milionésima vez para cima da assassina que ainda restava, querendo finalizar de verdade aquela luta. Como dito anteriormente, lutas entre assassinos nunca eram tão longas.
Mana atacou com força e precisão. Um movimento horizontal, forte o suficiente para decapitar até mesmo um ogro. No final de seu movimento, um barulho alto de ferro ecoou pelo ar, e Jake foi jogada três metros para trás, quase perdendo o equilíbrio. Mana ficou surpresa que ela tinha aguentado o golpe naquela situação, mas quando olhou para sua oponente novamente, percebeu que um novo elemento havia se juntado aquele duelo: Jake estava segurando a espada de sua falecida irmã na outra mão. A defesa com as duas armas cruzadas foram o suficiente para aguentar a força violenta de Mana.
— Você vai morrer do pior jeito! — começou falando Jake. Sua voz demonstrava total fúria, chegando a ficar ainda mais grossa. Ela apontava uma das espadas para Mana enquanto falava. — Vou cortar seus braços e pernas e te furar aos poucos, só para eu ter o prazer de ver você morrendo lentamente!
Os sentimentos à flor da pele nunca eram vantajosos em uma luta. Todos os guerreiros são treinados dessa forma, e alguns acabam aprendendo da pior maneira. Ter a mente em outro lugar enquanto você batalha pela sua vida é simplesmente mortal. Pessoas como San acabavam usando um tipo de estratégia exatamente para tirar a concentração total de um oponente, e na maioria das vezes, funcionava. Outros lutadores, como o exemplo da própria Mana, conseguiam manter o foco em uma só coisa do começo até o final de suas lutas. É exatamente por isso que a resposta de Mana para a ameaça de Jake foi essa:
— SOMBRA DE LOKI!
Não adianta tentar papear com uma assassina profissional que está com sangue fervendo em seu corpo e com a adrenalina a mil. Mana puxou uma adaga de sua bolsa que ficava na perna e, imediatamente depois de passar um tanto de energia mágica para ela, atirou a arma contra a cabeça de Jake. Essa mulher, por sua vez, deixou mais uma vez fluir sua energia para fora, enquanto afastava as pernas e se preparava para defender. Ela movimentou a espada direita para cima, fazendo a adaga rodopiar sem destino pelo ar. Com um novo movimento seguido da espada da esquerda embebida de energia, ela aparou a adaga das sombras que também vinha secretamente escondida na primeira adaga. Jake já sabia o que essa magia de Mana fazia, indicando que realmente alguém andou passando informações específicas para ela.
Foi Jake que atacou dessa vez. Ela segurava a espada da esquerda firmemente, querendo que sua irmã lhe desse forças para matar aquela terrível mulher que as separou. Se pudesse, Jake iria finalizar Mana com a espada de sua irmã, como um ato de vingança.
As duas assassinas voltaram a trocar golpes. Dessa vez, as duas pareciam ter trocado a velocidade nos ataques por pura força e movimentos abertos. Os ataques de Jake mudaram drasticamente de ritmo, passando para golpes mais imprevisíveis e de difícil defesa. Mana poderia ter ficado impressionada com o fato de que ela lutava tão bem usando duas espadas quanto uma só, mas ela não tinha tempo para essas bobagens. Ela provavelmente também não teria tempo o suficiente para se acostumar com o novo estilo de luta da inimiga.
O embate não durou muito tempo e o resultado não foi o que poderia ser mais esperado. Mana se feriu com três novos cortes, sendo um no rosto que quase atingiu seus olhos. Isso não era fora do comum, já que era como enfrentar um novo oponente. Mas o "problema" foi que Jake saiu do embate bem pior.
Primeiramente é bom dizer que ela não conseguiu fazer Mana recuar nem três passos. Também é necessário dizer que Jake estava claramente mais cansada e psicologicamente afetada, o que fazia seus movimentos um tanto mais lentos e fracos. Mas ela lutava com garra. E levava cortes com fervor. Mana a atingiu mais cinco vezes, mas só um desses foi um corte realmente danoso, que foi na mão direita. Isso fez com que Jake tivesse problemas em segurar sua arma naquela mão nos últimos ataques, mas ela aguentou a dor e não parou de atacar.
Talvez por ver que estava em clara desvantagem, Jake decidiu partir para uma manobra mais arriscada. Seu corpo estava quase no limite, mas pelo menos ela ainda tinha energia mágica o suficiente. Isso é devido ao fato de que quando ela usa uma magia em conjunto com sua irmã, tanto ela quanto a irmã gastam metade de energia mágica para realizar uma magia, conseguindo fazer combates mais longos.
Então ela começou a atacar com muita energia concentrada nas armas. No primeiro movimento vertical duplo, Mana percebeu a diferença na força assim que tentou defender o golpe. Ela foi empurrada dois passos para trás, mas se manteve firme. Jake atacou mais três vezes, sendo um dos golpes no pescoço e dois nas pernas. Mana evitou dois dos golpes, mas sua perna esquerda foi cortada levemente. Essa assassina estreitou os olhos e, também forçando suas armas, aparou o próximo golpe duplo da oponente, que vinha de cima. As quatro lâminas tilintaram furiosamente acima da cabeça das duas mulheres que tinham o mesmo objetivo.
— CEM MORTES!
Jake, sem se afastar, puxou os dois braços para trás e passou grande parte de sua energia extra para as duas lâminas. Ela precisava acertar Mana de jeito, se não acabaria morrendo por puro cansaço. Assim que as espadas vibraram, Jake começou a fazer estocadas rápidas para frente, em alturas diferentes. Cem estocadas. Em muito pouco tempo.
Mana começou se defendendo, mas a velocidade pareceu triplicar a cada nova estocada. Infelizmente ela não conseguiu acompanhar a velocidade e depois do décimo e tantos ataques, ela simplesmente cruzou as katars na cabeça e pulou para trás. Não foi o suficiente para lhe salvar. Muitos ataques acabaram lhe perfurando, destruindo quase que completamente sua roupa e seu corpo. Mana só não tinha ficado completamente nua da cintura para cima por causa da cota de malha que vestia por baixo da roupa.
— MORRAAAAAAAAA!
Jake também não deixou sua oponente se recuperar. Pulou para cima com tudo, segurando as armas o mais firme que conseguia. Aplicou um golpe de cima para baixo forte o suficiente para Mana não conseguir aguentar. A assassina da Immortal Star rolou para trás com o impulso do ataque, sem conseguir recuperar fôlego o suficiente para se defender melhor. Jake continuou partindo para cima, gritando com raiva. Ela estava ficando fora de si a cada vez que aplicava um novo golpe.
Depois de mais três golpes quase idênticos, que obrigaram Mana a se afastar, se arranhando pelo chão e não a deixando se recuperar, a assassina acuada decidiu que estava na hora de improvisar. Ela sabia que Jake estava quase fora de si e lutava automaticamente. Ou seja, ela provavelmente não estaria esperando por movimentos sem sentido.
O que Mana decidiu fazer? Acredite ou não, tinha sido algo que poderia até ser engraçado se as duas não estivessem tentando se matar. Mana flexionou as pernas mesmo no chão e se jogou contra Jake, corpo contra corpo. Elas esbarraram e foram ao chão, praticamente abraçadas. Elas rolaram pelo chão, ficando cheias e poeira e sujeira de frutas. Ao terminarem, Mana tinha ficado por cima de sua oponente. Ela levantou uma das katars e tentou atingir Jake na cabeça. Mas essa assassina soltou sua arma da mão direita e segurou o braço de Mana, parando sua lâmina a poucos centímetros do ataque mortal.
Ainda naquela posição, Jake aplicou um chute desengonçado nas costas de Mana. Não tinha dado dano nenhum, mas foi o suficiente para que Mana fosse jogada para frente, caindo de costas no chão, ainda cansada. O pior foi que ela perdeu a concentração, e suas armas mágicas foram desativadas. Só um tanto de azar para complementar aquela batalha.
Jake respirou fundo, se virou e se impulsionou para frente, fazendo o mesmo que Mana ao lhe derrubar. Agora era Jake que estava por cima. E ela estava com a espada de sua irmã nas mãos. Era tudo que precisava. Levantou a arma até acima da cabeça, a segurando com as duas mãos ensanguentadas. Iria se vingar. Iria terminar a luta do jeito que deveria terminar. Sua irmã poderia descansar em paz sabendo que ela foi devidamente vingada. Vingança. Era tudo que a inundava a mente abalada daquela mulher.
— Caiu na minha última armadilha. — disse Mana, com uma tranquilidade completamente surreal. — ACUPUNTURA DO PRIMEIRO INFERNO!
As manobras que Mana tinha utilizado poderiam ser vistas como aleatórias, mas um grande analista conseguiria ver o plano por trás delas. Mana já estava ciente de que o perigo das Gêmeas era exatamente o fato delas lutarem juntas em uma ligação quase perfeita. Então seria difícil atingir uma das duas com movimentos secretos. Mas agora que só havia uma...
Assim, que Mana foi jogada para frente pelo chute errado de Jake e perdeu a concentração nas katars, ela tinha puxado uma das agulhas de sua bolsa e, assim que ficou de costas para o chão, atirou a tal agulha para o céu, já energizada. Foi um planejamento imediato, com ela sabendo que ficaria em desvantagem sem uma arma. Foi então que Jake se jogou para cima dela, como se fosse a única coisa que realmente adiantasse naquela situação. Finalmente, foi só ativar a magia.
Jake não teve tempo de olhar para cima. As agulhas mágicas choveram em sua cabeça, costas e ombros, retirando todo o último fôlego que ela tinha aos gritos. A dor apagou qualquer traço restante de sua mente, jogando Jake em um mar infernal de sentimentos. O novo sangue que caiu de seu corpo limpou quase toda a sujeira adquirida por ter rolado no chão há poucos segundos atrás.
Mas o destino também gosta de pregar peças nas pessoas uma vez lá outra. Mana iria finalizar aquela luta de uma vez, mas estava sem armas na mão e continuava deitada no chão. Ela não teria tempo para trazer suas katars de volta, então precisava de outra ferramenta, e rápido. Foi aí que sua mão esquerda tocou em algo que ela reconheceu imediatamente. Segurou um tipo de cabo e não esperou um segundo a mais. Aplicou um golpe fatal no pescoço de Jake, que ainda estava aturdida com a dor das agulhas.
Essa assassina soltou a arma que segurava e deixou os braços caírem. Olhou para baixo, já com a garganta cheia de sangue e não podendo respirar mais. Ela sabia, mesmo naquela situação, que a luta tinha acabado e ela havia perdido. Mas a derrota não lhe feriu tanto quanto ver que Mana tinha utilizado sua própria espada — que Jake tinha soltado para se defender de um ataque depois de rolarem — para finalizar a luta. Jake não teria palavras para descrever o sentimento, mesmo que tivesse saído dessa com vida.
Mana empurrou Jake, que foi ao chão completamente mole e sem vida. A Lâmina Sanguinária se levantou aos poucos, olhando para todos os lados, só para ter certeza de que não haviam inimigos extras escondidos por ali. Ela ainda ouviu gritos ao longe, e algumas explosões, mas nada parecia tão perto. Andando rapidamente, foi até o corpo sonolento de sua discípula, que continuava no mesmo lugar. Por sorte, ela não havia se ferido.
Depois de ter colocado Victoria nas costas novamente e sentido o corpo realmente cansado, Mana voltou a caminhar em direção à casa da garotinha, que não estava muito longe. Ela ainda andava furtivamente pelas ruas, entrando em becos. Logo quando saiu da feira de frutas, viu uma tropa do exército da cidade indo para o portão oeste, e se escondeu para não causar qualquer desentendimento.
Quando chegou na dita casa, Mana não esperou para bater na porta. Foi logo entrando e fechando a porta atrás de si. A casa de Victoria era ligeiramente grande e muito bem enfeitada. De um lado, quadros e pequenas estátuas eram distribuídas pelos corredores. Do outro lado e em uma sala em específico, haviam muitos modelos de armas e armaduras. Até mesmo Mana conseguia ver que haviam coisas "demais" naquela casa, como se fosse algum tipo de colecionador que não tem espaço o suficiente para guardar seus tesouros.
Algum barulho pode ser ouvido de um dos cômodos mais a frente, e imediatamente depois uma mulher alta e vestida com um longe vestido vermelho apareceu. Sua expressão era a de medo, ou de alguém que acabou de levar um susto. Olhou para Mana e a reconheceu imediatamente. Elas não conversaram nenhuma vez, mas já haviam cruzado olhares em muitas oportunidades. Agora o que lhe aterrorizou mesmo foi ver sua filha nas costas daquela assassina.
— Minha filha! — disse ela, em alto tom. Sua voz também continha um tanto de desespero. — O que aconteceu com minha filha?
— Acalme-se, ela está bem. — respondeu Mana, indo até a sala que ficava ao seu lado direito e deitando Victoria em um dos grandes e luxuosos sofás. A mãe preocupada correu até perto da garota e, se ajoelhando, começou a passar a mão em seu rosto. — Ela lutou contra um elfo e acabou se ferindo um pouco, mas não foi nada sério. Está desmaiada porque passou do seu próprio limite usando energia mágica.
A mãe de Victoria, uma mulher bonita com seus trinta e poucos anos, se chamava Alandra Goeny Jardem. Ela tinha características de uma clássica mulher nobre: tinha o peso ideal, uma beleza que fazia homens parar suas atividades para espiá-la, e um tipo de "aura" de uma pessoa imponente. Verdadeiramente, era uma mãe trabalhadeira, preocupada e acolhedora. Foque a parte do "preocupada".
— O que está acontecendo com essa cidade? Por que minha filha teve que lutar com monstros? O que o exército está fazendo? O que VOCÊS estão fazendo?
— Senhora Jardem, eu suplico para que se acalme. — respondeu Mana, tentando ser o mais calma e tranquila que conseguia. Ela não tinha tempo para explicar sobre tudo que estava acontecendo, então era melhor criar um resumo e sair logo dali. — Eu também não sei exatamente o que está acontecendo, mas estamos sendo atacados. Sua filha simplesmente tomou o papel de um verdadeiro membro da nossa Guilda e morador dessa cidade, lutando para protegê-la. Imagino que seu marido esteja fazendo o mesmo.
— Ele esteve aqui não faz nem uma hora atrás e me pediu para me esconder! — disse a mulher, ainda um tanto nervosa. Colocar aquelas palavras para fora parecia estar ajudando-a manter a cabeça no lugar. — Você não sabe o quanto eu fiquei preocupada com Victoria!
— Eu entendo, mas não temos tempo a perder. — Mana fazia de tudo para ignorar as dores que apareciam agora, já que sua adrenalina tinha sumido. Ela chegou a se apoiar em um dos sofás para não ir ao chão. — Victoria me falou que vocês têm um esconderijo aqui na casa para esse tipo de situação, certo? — Alandra respondeu à pergunta imediatamente, balançando a cabeça em um "sim" lento. — Leve sua filha para lá e cuide bem dela. Não saia de lá até seu marido chegar.
— Mas-
— Não, só ouça. — cortou Mana, com vigor. — Quando Victoria acordar, ela vai querer sair imediatamente para ou procurar o pai, ou ir para a Guilda. Então eu estou passando uma missão oficial para ela, e quero que você repasse assim que ela acordar.
— O que você vai pedir para ela no meio desse caos todo?
— Para que proteja você, acima de todas as coisas, e proteja esse lugar. A missão dela só vai terminar quando tudo se acalmar e a cidade não estiver mais sobre ataque. Se ela desobedecer essa ordem e sair do esconderijo, ela estará imediatamente banida da Guilda. Fui bem clara?
Alandra não sabia muito o que pensar naquele momento, então simplesmente respondeu afirmativamente. Mana relaxou um pouco e já planejou seu próximo passo. Sua guilda poderia estar sob ataque naquele momento, e seus companheiros poderiam estar precisando de ajuda. Ela não tinha mais tempo a perder. Mas seu corpo não queria reagir com suas conclusões. Assim que tentou se virar para caminhar para fora da sala, Mana caiu de joelhos no chão, respirando rapidamente. As dores estavam piores agora e havia alguns sangramentos incessantes.
— Você está muito ferida! — falou a mãe de família. — Nós temos um kit de primeiros socorros em um gabinete no banheiro! Espere aqui que eu vou buscar.
Mana queria retrucar, mas não teve tempo e muito menos forças para tal. Alandra saiu caminhando rapidamente da sala e desapareceu da vista da assassina. Mana se arrastou até o outro sofá e se jogou nele, não se importando se iria o sujar de sangue. Poucos segundos depois, Alandra apareceu com uma caixa de tamanho médio, e junto com a própria assassina que parecia apressada, começou a enfaixar e costurar as feridas mais sangrentas de seu corpo cansado.
Ronan foi jogado para trás por um sopro potente de vento. Havia intensidade mágica ali, mas não se tratava de uma magia propriamente dita. Any tinha liberado um tipo de explosão de simplesmente destroçou completamente aquela sala de antes. Agora o alquimista estava no jardim da mansão, bem perto da parede por onde entrou. E estava fascinado.
— O poder de um deus, eim? — falou Ronan, para si mesmo. Ele viu Any andando lentamente, saindo do cômodo da mansão e o encarando com fervor. — É realmente algo incrível! Mas acha mesmo que pode me enganar com meras invocações?
— Não tenho mais nada a falar para você. — respondeu a Líder de Guilda, apontando a mão direita para o maluco. A energia concentrada tinha sido grande e em alta velocidade. — RAIO SOLAR!
Foi a mesma teoria para sua magia primária, que era o Raio de Luz. Seus dedos brilhavam intensamente enquanto concentravam energia mágica, com a diferença de que dessa vez, o brilho era em um laranja mais escuro e a intensidade era muito maior. Um segundo depois, um feixe reto de energia que parecia misturar fogo e luz foi disparado contra Ronan. Esse, por sua vez, fez o que mais gostava de fazer: testar coisas.
O alquimista levantou as duas mãos e "segurou" o feixe de energia que vinha perigosamente em sua direção. A batida foi forte, o empurrando imediatamente para trás. Mas por mais incrível que tenha parecido, ele estava aguentando. Suas mãos estavam queimando, ficando quase sem pele. Pequenos raios de energia voavam para todos os lados. Ele foi empurrado daquele jeito até bater com as costas na parede. Mas no outro segundo, a magia terminou e lá estava ele, quase inteiro se não contar as mãos danificadas.
— MUAHAHAHAHA! — a voz do alquimista poderia ser ouvida lá do Castelo, de tão alta. — Esse é o poder de um deus? Ahahahahah!
Any tentou não demonstrar, mas estava realmente surpresa com aquilo. Ronan tinha mesmo se superado. Para ter conseguido criar uma poção com aquele efeito, a ponto de transformar um corpo capaz de segurar uma magia de dano direto com as próprias mãos. Ela nunca admitiria, mas talvez Ronan fosse mesmo um daqueles "gênios excêntricos" que aparecem no mundo uma vez por cada tantas décadas.
— TOMA, VADIA!
Mais uma vez, não dando tempo nem para um piscar de olhos, e Ronan já estava ali do lado da maga de luz. Ele puxou o braço e aplicou um soco com toda força que tinha, na altura do rosto da mulher. Tinha que ser assim. Ela tinha o enganado com toda aquela falação e demonstração de poder mágico. Sua magia tinha ficado mais forte sim, mas só aquilo não seria capaz de defini-la como "deusa".
O soco foi aparado. Any levantou o braço esquerdo e defendeu com sucesso o potente soco, sem nem sair do lugar. Agora vamos ao fato importante: a maga NÃO tinha essa força. Ela não tinha como aguentar um golpe daqueles sem acontecer nada. Essa rápida conclusão passou pela cabeça de Ronan, mas foi antes de perceber que havia algo a mais ali. Um tipo de barreira praticamente invisível rodeava o braço defensor de Any. O que era aquilo, Ronan não sabia.
E não se importava. Ela tinha uma barreira de energia, grandes porcarias. Ronan puxou o braço de volta e aplicou um novo golpe, mais embaixo no estômago. Como já dito antes, Any não era uma boa lutadora corpo a corpo, mas tinha aprendido a se defender por pura obrigatoriedade. Ela abaixou a mão e defendeu o novo golpe, acontecendo o mesmo que antes. A barreira parecia proteger o impacto certeiro e diminuído muito a potência. Ronan tentou outras coisas, como socos em cima, embaixo e até mesmo nas costas. Todos eles foram defendidos.
— Ah, então essa é a grande moral de sua magia? — questionou o alquimista, ainda com um sorriso malévolo no rosto. — Uma barreira protetora de ataques físicos? Acha mesmo que isso vai te salvar por mais tempo?
— Parece que você ainda não percebeu a própria situação. — respondeu Any, sem expressão. — O que você acha que aconteceria se você tocasse no Sol com suas mãos nuas?
Ronan se preparou para responder com algo bem sarcástico, pois tinha achado a pergunta um tanto patética. Mas algo naquele rosto sem expressão de sua oponente fez o alquimista tentar entender melhor o significado daquelas palavras. Ele sabia que a Peste Escarlate não era alguém que fazia enganações durante uma batalha, então algo deveria estar acontecendo e ele não havia percebido ainda. Claro, isso foi antes de suas duas mãos entrarem em combustão.
O homem começou a gritar enquanto via suas mãos pegarem fogo. Como aquilo tinha acontecido? Any não havia atirado nenhuma magia! Ele estava completamente atento a toda a emanação de energia da maga, então tinha certeza que nenhuma magia nova havia sido usada. Então o que era aquilo? O fogo era real, não havia magia nele. Desesperado, o alquimista puxou outro frasco do jaleco — e queimou o peito no processo, tenho dito —, e depois de concentrar só um pouco de energia mágica no objeto, utilizou outra magia.
— COMPONENTE 07, POÇÃO LÍMPIDA!
O frasco recebeu energia mágica imediatamente, se enchendo com um líquido azul bem claro. Talvez tenha sido o fogo, mas assim que o líquido apareceu, o vidro do frasco se quebrou em suas mãos, as molhando com aquele líquido grosso. Outro segundo mais tarde, o fogo desapareceu da mesma maneira que tinha aparecido, e Ronan tinha finalmente parado de gritar. Suas mãos estavam em carne viva, e o cheiro não era a única coisa horrível naquela situação. Sua magia curava alteração de saúde de seu corpo, assim como venenos e até paralisias. Mas não lhe recuperava do dano tomado.
— ELEVAÇÃO AO SOL!
Claro que Any não ficaria ali parada só vendo aquele teatro de desespero. Ela se abaixou e tocou o solo aos seus pés. Fez uma linha imaginária dela até seu oponente, o que foi um tanto complicado pois ele não parava quieto. Assim que traçou a linha, mandou energia mágica para todo o caminho e invocou sua magia. O chão tremeu violentamente enquanto vários gêiseres de ar e luz iam eclodindo alinhadamente em direção à Ronan. Quando chegou ao seu destino, um vasto pilar de luz feito de energia mágica apareceu, atingindo o alquimista com força e o jogando muito para cima. Tinha sido outro golpe direto, e Any torcia para que fosse o último.
Ao contrário das magias de fortificação abruptas, como eram a do próprio Ronan ou até mesmo a de Kula, a "Benção do Deus Sol" que Any utilizava não tinha características mortais contra o usuário. A diferença era que não era tão poderosa quanto o da Maga de Fogo de sua Guilda, e também não era tão duradouro.
Essa é uma das magias mais complicadas de se explicar, mais porque a origem ainda é um total mistério para o mundo. Mas vamos pelo começo: essa magia só era possível por causa de uma "Gema de Energia Especial" que ficava na ponta do cajado de Any. Essa Gema foi criada em uma das Universidades Mágicas mais "estranhas" que existem no mundo, que eram lar dos "Magos Invocadores". A magia deles se tratava de trazer entidades, monstros, seres e criaturas, todas muito diferentes umas das outras para esse mundo e os utilizá-los em uma luta.
Preciso lhe chatear com outro fato desses magos: eles estavam cada vez mais escassos, e o motivo é ainda mais sinistro. Todos os magos dessa classe precisavam ter um tipo de treinamento MUITO lento e absurdamente seguro, pois a grande maioria das criaturas invocadas simplesmente agem como querem e as vezes, são descontroladas e atacam qualquer coisa que vissem. A quantidade de fatalidade durante o treinamento era algo que fez essa Universidade estar à beira da falência.
Mas alguns Magos Invocadores realmente poderosos conseguiram outras ideias de como usar esse poder grandioso. Eles conseguiram dois avanços extraordinários. O primeiro, era invocar uma criatura inteligente, e fazer um tipo de "contrato" com ela, transformando-os em parceiros leais em batalhas. O segundo e que tem a ver com o que Any utilizava, era extrair somente a energia e poder da criatura invocada. Nesse caso, eles utilizavam a energia no próprio corpo ou armazenavam nessas tais Gemas de Energia Especiais, do qual falei.
Ainda havia um certo problema com essa energia contida nas Gemas: não era qualquer pessoa que conseguia controlá-la ou absorvê-la. Parece que existia um tipo de "sincronização" necessária para que uma pessoa conseguisse utilizar a Gema. No exemplo de Any, a Gema do Deus Sol só poderia ser utilizada por alguém que já controlasse magias do elemento fogo ou luz. Por fim, o último problema que existia nessa Gema era que ela só poderia ser utilizada uma única vez. A pessoa teria que ir atrás de uma nova Gema se quisesse usufruir dessa vantagem, mas elas eram tão raras quanto achar um trevo de quatro folhas. Any teve a sorte de conseguir adquirir essa Gema de um antigo colega de Clã, que era um Invocador e que hoje, não se encontra mais nesse mundo.
Ronan sumiu da visão da maga de luz. O alquimista voou tão alto que acabou caindo em cima da mansão, no telhado. A intensidade da última magia de Any tinha sido tanta que conseguiu levantar uma pessoa a mais de três andares de altura. Mas depois de ouvir o baque surdo do corpo do oponente no telhado, nada mais aconteceu. Any ficou preparada para atacar uma nova magia assim que ele surgisse... Mas já haviam se passado dois minutos e nada.
Any adentrou a mansão pelo mesmo buraco que tinha criado ao ser jogada para dentro da mesma. Ela sabia que algo estava errado quando olhou para cima e sentiu um frio na espinha ao perceber a cortina de uma janela no terceiro andar se mexer como se fosse o vento. Além disso, toda a mansão tinha se tornando "ameaçadora", assim de uma hora para outra. Mesmo com isso, a Maga de Luz não poderia ficar lá embaixo esperando, pois sua transformação tinha tempo limite.
Ela passou pela sala de jantar que estava quase completamente destruída. Não havia mais porta para o corredor que circulava a mansão, então ela se esgueirou até a parede e, com cuidado, espiou por ali. O corredor era largo e comprido, com um tapete verde musgo com detalhes dourados, paredes enfeitadas com quadros, um grande e bonito relógio cuco, e no teto haviam pequenos candelabros também dourados. É importante ressaltar que metade dessas coisas estavam jogadas ao chão, quebradas ou pior. Any ignorou o cenário e virou a esquina da parede ao ver a escadaria ao longe, mais à direita.
Já ao pé da larga escadaria de madeira trabalhada, a Líder da Immortal Star sentiu ainda mais tensão vindo dos andares superiores. Ronan não tinha morrido ainda, e tinha planejado alguma coisa. Era uma armadilha, ela sabia disso. Mas não podia voltar atrás. Ela precisava ter certeza que aquele homem saísse de jogada. Tinha que proteger seus companheiros custe o que custar. Com as mãos fechadas e olhar atento, ela começou a subir os degraus.
Achou mais estranho por não ter acontecido nada ao chegar no terceiro andar, do que se tivesse acontecido uma explosão ou algo assim. Mas isso não era motivos para ela baixar a guarda. Deu mais alguns passos lentos e silenciosos em direção ao que ela imaginaria ser o quarto onde tinha sentido aquela emanação sinistra. Infelizmente, ela não chegou ao seu destino.
— EXPERIMENTO DE CAMPO — BOLHA DA DESTRUIÇÃO!
Foi algo imediato, tão rápido que Any não teve tempo de reagir e nem de saber o que sequer estava acontecendo. Embaixo de seus pés, um grande circulo arcano cor vermelho escuro tinha aparecido, que tinha mais de dois metros de diâmetro. Era diferente dos Círculos Ritualísticos que os Magos Elementais usavam, pois em vez de escrituras em runas, haviam letras de uma língua que Any não conseguia identificar.
Assim que um brilho ofuscante iluminou todo aquele andar, a Maga foi envolta por uma estranha bolha de energia que a elevou poucos centímetros do chão. Any perdeu o equilíbrio e sua adrenalina se elevou a mil, pois ela conseguia sentir a concentração absurda que aquela bolha emanava. Mas não foi sua percepção que chegou a essa conclusão. Um segundo mais tarde, uma corrente elétrica vinda de todas as direções de dentro daquela bolha estranha aplicaram um choque na mulher, que logo começou a gritar. Esse não foi o problema. O problema foi quando a bolha se encheu com ainda mais energia mágica e depois causou uma explosão que quase fez sumir todo o terceiro andar daquela mansão.
Muitas pessoas que fugiam, soldados de vários reinos que lutavam dentro da Capital e até mesmo monstros a quase um quilometro de distância daquele lugar conseguiram ver, ouvir ou sentir a grandiosa explosão. Ronan preparou uma armadilha um tanto poderosa para matar Any. Essa é uma clássica magia do tipo “Ritual”, mas os alquimistas fazem isso utilizando seus frascos com um determinado componente e o próprio sangue para fazer as escrituras. Quando ele saiu do seu esconderijo, que ficava em um banheiro no canto daquele mesmo andar, era possível ver que "sangue" ele tinha de monte. Seu corpo estava completamente danificado, com queimaduras sérias em todo o peito e pernas, sem contar que ele quase tinha ficado careca. Ele só sobreviveu àquela última magia de Any porque tinha um corpo realmente modificado para aguentar ataques mágicos.
Ele andou rapidamente até o local da explosão. Ele nunca chegaria lá, pois o tal local não existia mais. Cinco ou seis cômodos sumiram como se nunca tivessem existido, criando um cenário de uma casa que parecia ainda estar em construção. O andar de baixo também foi afetado, mas como essa magia era do tipo que explodia em área ao redor, a destruição tinha sido mais focada no terceiro andar.
Só tinha sobrado uma pergunta: onde estava a maldita maga? A visão do alquimista não teve descanso enquanto ele virava a cabeça de um lado para outro procurando sua oponente, ou qualquer outro traço que ela poderia ter deixado. Quando não encontrou nada além de destroços e não ouvi nada além de coisas se partindo e indo para o andar de baixo, ele deixou um sorriso brotar no rosto. Ela tinha explodido completamente? Tinha virado pó? Será que a sorte dele era assim tão grande? Deu duas gargalhadas altas, enquanto afastava os braços e olhava para cima.
— Não me sinto mal por estragar sua felicidade.
Ronan se afogou com a própria risada, depois deu um pulo para trás e ficou atento novamente. A voz dela! De onde estava vindo? Ele andou até a parte destruída novamente e olhou para baixo. Lá estava ela. Saindo de um cômodo que poderia ser qualquer coisa, menos um quarto, de tão destruído que tinha ficado.
Any estava inteira... Mas era só o que dava para se ver. Tinha queimaduras bem graves nos dois braços e nas duas canelas e joelhos. Seu cabelo parecia ter se queimado na ponta e parecia um pouco mais curto. Sua roupa tinha quase que completamente desaparecido, ficado só alguns trapos que quase não lhe tampavam nada. O que tinha sobrado de pele, estava por baixo de uma sujeira clássica do pó. Agora o que era bem visível, era a intensa e forte aura laranja que a rodeava, uma um pouco diferente do que ela tinha antes. Essa aura pulsava como batimentos cardíacos e, o mais estranho de tudo, não emanava nenhum tipo de energia.
"Como eu não estou sentindo nada vindo dela? Nem mesmo sua presença está ali!" foi o que o homem pensou enquanto olhava para a maga que se limpava rapidamente. Isso era impossível, pois ele conseguia ver que aquela benção ainda estava ativa. Então porque ele não a sentia? E o que era aquela aura?
Any não queria e não iria responder. Mas ainda como um tipo de resposta, ela "desativou" aquela aura e toda a sensação de poder e perigo voltou a impregnar o ar. Ronan foi pego em uma sensação ruim, como se tivesse perdido todo o ar do pulmão de uma só vez. Ele também voltou a se concentrar, mandando uma mensagem para seu corpo dizendo que a batalha não tinha terminado ainda. E foi assim que veio o sangue.
A garganta de Ronan se encheu de sangue e ele cambaleou para trás e cuspiu tudo aquilo fora. Sua cabeça começou a doer e uma tontura horrível lhe atingiu com tudo, fazendo ele ir ao chão de joelhos. Ele gritou para si mesmo algo como "Não, agora não!". Sabia que aquilo era o pós efeito de sua poção mortal, mas ele não esperava que os efeitos aparecessem tão rapidamente.
— CANHÃO SOLAR!
Claro que oportunidades tendem a aparecer todo o tempo em uma batalha. Vai depender de o lutador usar ou não esse tempo para ganhar ou passar à ter vantagem. Foi o que Any fez, quando suas duas mãos, fechadas, brilharam intensamente com aquele mesmo laranja de antes. Ela juntou as mãos na frente do corpo, com os braços esticados e fez uma grande esfera de energia surgir à frente delas. Um segundo mais tarde, um grosso e largo cone de energia laranjada e amarela.
A magia atingiu Ronan em cheio, mesmo que ele tenha tido tempo para cruzar os braços em frente ao corpo. Como a magia foi atirada para cima, em diagonal, ela também destruiu parte do piso do terceiro andar, onde o alquimista estava naquela hora. O cone de energia subiu e desapareceu aos céus, deixando um feixe de partículas que caíram como uma chuva colorida pela mansão já bem destruída.
Any respirou rápido depois da magia. Sua benção estava no fim, e tudo porque ela decidiu converter a energia que ela ganhava em uma barreira para se proteger da armadilha explosiva do seu oponente. O fato de Ronan não conseguir senti-la depois, foi porque a barreira era tão impenetrável que chegou a bloquear até mesmo a existência da maga para o mundo exterior.
Mesmo cansada, Any não poderia parar agora. Ela olhou para os lados e viu um lugar com um sofá e um armário semi destruídos onde ela poderia usar para subir para o terceiro andar, já que não havia mais escada. Depois de se puxar para cima e ficar em pé, ela conseguiu ver Ronan do outro lado, se mexendo devagar. Ele ainda estava inteiro, mesmo depois de ter recebido tantas magias diretas. Pior do que inteiro: havia uma emanação mágica vinda de seu corpo!
— EXPERIMENTO DE CAMPO — INFERNO DE NAPALM!
Um grande círculo mágico se abriu. O problema é que Any não o viu, pois ele se abriu no chão ao redor da mansão. E mais impressionante que isso: ele rodeou toda a mansão em um mísero segundo. A maga se preparou para contra-atacar ou para se esquivar, mas não havia nada vindo em sua direção. Pelo menos não diretamente.
Primeiro, vou explicar como Ronan fez isso. Ele não teve como fazer um outro círculo mágico ao redor daquela grande casa, pois não tinha passado pelos locais. Mas ele fez uma coisa genial, algo que poucos iriam pensar em fazer naquela situação. Quando ele foi jogado para cima, seu sangue espalhou para muitos cantos. Primeiramente, ele sabia que poderia usar aquelas marcas de sangue para criar algo, mas precisaria de muito tempo e mais sangue. Mas e se ele usasse energia mágica para completar um círculo onde seu sangue já estava espalhado, lentamente? Foi isso que ele fez.
O círculo não tinha ficado completo, mas estava grande o suficiente para ser ativado. A magia não sairia com seu poder total, mas era o que podia ser feito naquela hora. Tudo ficou vermelho ao redor da mansão, e a temperatura deu um salto. Um fogo vivo e mágico se acendeu lá embaixo, queimando plantas, árvores, flores e, principalmente, a casa.
— Eu não acredito! — falou Any, com o pouco de clareza mental que lhe sobrara. Ela viu a fumaça subir por todos os cantos e sentiu o calor. Depois, viu as chamas. — Você vai usar mesmo aquela magia que matou tantos dos nossos ex companheiros?
— A mesma? Ahahahahah! — ria Ronan, enquanto lutava para ficar em pé. Ele estava ajoelhado e olhava diretamente para a maga. Seu corpo estava parecendo em decomposição. — Não seja tola, Peste Escarlate! O Componente que você viu naquele dia não tinha nenhuma fórmula perfeita, nenhum teste feito anteriormente e nenhuma perfeição de sobreposição de energia! — a intensidade de sua voz fazia parecer que ele não estava tão ferido assim. Falar sobre seus experimentos lhe dava novas energias e o empolgava mais do que tudo no mundo. — O que você vai ver aqui é a visão do próprio Inferno! Vai ver chamas que não se apagarão com nenhum líquido do mundo! Ahahahahah! Você vai queimar até não sobrar nada! — COMPONENTE 03, POÇÃO DA VITALIDADE!
Ainda rindo, Ronan puxou um novo frasco que estava em seu bolso direito, passou energia mágica para ele e o encheu de um líquido vermelho claro. Any não esperou nada e começou a correr, tentando achar um caminho que passava daquela cratera que tinha ficado no terceiro andar. Mas Ronan tinha conseguido beber todo o líquido antes mesmo dela chegar na metade do caminho.
Any chegou já atacando com um punho embebido de energia mágica. Mirou na cabeça, pois ele ainda estava de joelhos. Ronan levantou a cabeça, mostrando o sorriso incessante. Levantou a mão e segurou o soco. Percebeu que sua força estava diminuindo e o efeito da poção de fortalecimento estava acabando, mas ainda assim, lutaria. Sua última poção estava recuperando sua energia vital de pouco em pouco, mas ele não poderia ficar esperando. Puxou o punho da maga para trás e a jogou com força. Ela voou baixo e caiu no chão, rolando. Isso não a machucou, mas deu tempo para ele conseguir fôlego o suficiente para ficar de pé.
Seria uma luta onde os dois estão com suas magias de tempo no limite. Any tinha a vantagem por estar com menos danos do que seu oponente, mas Ronan era mais forte em lutas corpo a corpo e parecia não se importar com o cansaço. Por isso ele avançou para cima com ferocidade. Ele ainda tinha um pouco de sua velocidade aumentada, então seus ataques iniciais foram quase todos acertos em cheio. Any não conseguia acompanhar os movimentos do oponente, então ficou na total defensiva. Isso até o piso ruir aos pés deles.
O fogo mágico era algo fora do comum. Falar que qualquer coisa mágica é "fora do comum" parecia sem sentido, mas até mesmo para os campos mágicos ou alquímicos, aquele fogo era algo bizarro. Ele já tinha tomado todo o primeiro andar e o calor estava fazendo os pilares de sustentação racharem. Foi por isso que o piso do terceiro andar rachou e os dois combatentes caíram. Ronan caiu em cima de um guarda-roupa que já estava no chão, se cortando um pouco. Agora Any caiu na banheira de gesso do banheiro do mesmo cômodo, batendo forte com as costas.
O primeiro a se levantar foi obviamente Ronan. Ainda cuspindo sangue, ele se livrou das incontáveis farpas pelo corpo e foi até a suíte onde a maga estava. Any estava no chão agora, se contorcendo e tentando retomar o ar. Ronan a pegou pelo braço e a jogou contra a parede onde havia o chuveiro. O impacto foi tão forte que o cano que já estava fraturado estourou, encharcando a mulher.
Ronan começou a apreciar o espancamento. Ele socou duas, três, quatro vezes a maga no estomago e no peito, depois segurou ela pelos cabelos e a jogou contra o chão. Any não estava tendo tempo para se recuperar, e tudo que fazia era tentar se arrastar inutilmente. Não se passou pela cabeça dela que o efeito de "queimar a mão de um oponente quando ele encostar no meu corpo" não estava mais funcionando. Sua benção estava no fim.
— MARCA DIVINA, ENERGIA POENTE!
Disso ela sabia. Sua energia do sol estava desaparecendo, e logo ela teria que voltar a lutar só com seus poderes. Mas vamos lembrar mais uma vez que estamos falando de uma maga com anos de experiência no campo de batalha, e isso a fez se precaver em diversas situações. Ao ativar essa sua última magia, toda o restante de energia que sobrou de sua benção é transferido para seu corpo como energia mágica comum, lhe recuperando até mesmo um pouco de fadiga.
Any respirou fundo quando foi puxada mais uma vez para cima pelo braço, e quando se encontrou mais ou menos em pé, tomou firmeza nas pernas e se virou rápido, aplicando um soco energizado no peito de Ronan. Esse, por sua vez, não conseguiu se defender a tempo e foi jogado contra a mesma parede do chuveiro que tinha encharcado a maga.
A Líder da Immortal Star se virou mais uma vez e saiu cambaleando daquele banheiro pequeno e destruído. Ela precisava de distância. Tentou concentrar energia nas mãos novamente, mas estava ficando difícil. Não só pelo estado de seu corpo, mas porque aquele andar já estava quase todo tomado por fumaça. O fator "recuperação de ar" não estava funcionando tão bem.
— COMPONENTE 02, NÉVOA DO PÂNTANO!
Sem nem sair do banheiro, Ronan atirou um novo frasco, dessa vez, com um líquido verde musgo. Antes mesmo do frasco se estilhaçar no chão, Any já sabia o que aquilo fazia. Era um dos Componentes que Ronan mais utilizava, e por um bom motivo. Assim que o vidro se quebrou, uma fumaça verde escura começou a se espalhar por todo o cômodo, e não parecia querer parar até envolver toda a mansão. O maldito iria colocar veneno e fogo na mansão.
Any teve um lapso de idéia. Alguma coisa naquela batalha não estava fazendo sentido. Primeiro Ronan colocou fogo na casa. Era uma magia poderosa e iria consumir tudo aquilo em chamas. A vontade era de matá-la, claro. Mas isso não o mataria também? Além disso, o veneno também afetaria todo aquele andar, mas sobre isso, Any tinha certeza que Ronan deve ter algum tipo de imunidade ou outra poção com antídoto. Mas e o fogo? Como ele se livraria?
Sem se importar com a grossa fumaça verde que tampava tudo, Ronan atacou mais uma vez. Any não o viu se aproximar mais pelo fato de que ele se escondeu pela fumaça. O alquimista aplicou um soco no peito da mulher, a fazendo girar e ir até a parede. Ele estava mais fraco, mas ainda assim, conseguia dar golpes potentes. Ele não parou ali, continuou atacando só com as mãos, dando socos em lugares aleatórios. Prever os golpes não seria problema se não fosse o fato que a maga tinha que lutar prendendo a respiração.
— EXPLOSÃO DE LUZ!
Mas ela não ficou defendendo por muito tempo. Juntou um pouco de energia o mais rápido que pôde e usou sua magia com epicentro bem debaixo de seus pés. Uma explosão não muito grande aconteceu, limpando tudo que tinha ao redor dela. Isso incluía Ronan e a grossa camada de veneno que a rodeava. Any usou os poucos segundos de “ar limpo” que tinha para respirar fundo.
— COMPONENTE 001, DINAMITE!
— FEIXE LUMINOSO!
Pode-se dizer que esse movimento era esperado pela Líder da Immortal Star. Assim que Ronan se levantou depois de ser jogado por uns seis metros e bater com as costas no que tinha sobrado de um quadro, ele puxou um novo frasco e passou energia para ele. Nesse momento, ele percebeu que não lhe restava muito mais disso, mas ele não iria desistir até ver sua oponente morta, queimada ou explodida.
O problema foi que antes dele conseguir pegar impulso e jogar o frasco na direção de Any, essa mesma moça concentrou um pouco de energia no dedo indicador direito e atirou um fino feixe de luz concentrado, que viajou ainda mais rápido do que a velocidade da luz. O feixe atravessou o frasco exatamente no meio — Any não “viu” o frasco, apenas sentiu onde a energia estava sendo concentrada e atirou lá —, quebrando o vidro e causando algo inesperado. A explosão pegou Ronan mais desprevenido do que se ela tivesse atirado em sua cabeça.
O grito desesperador do alquimista encheu todos os cômodos que ainda restavam daquela mansão, enquanto ele andava tortamente com a cabeça levantada e segurando seu braço direito com a mão esquerda. Sangue jorrava para todos os lados da onde deveria estar a mão direita de Ronan, que foi desintegrada com a explosão.
— Espero que esteja saboreando bem essa dor. — disse Any, se aproximando, já com energia concentrada na mão direita. — Nossos companheiros sofreram bem mais por causa do seu fogo maldito! Eles arderam nas chamas da traição! Aquilo é muito pior do que você está sentindo agora! — a voz elevada de Any fazia sua concentração mágica ainda mais forte, deixando sua mão brilhando com uma intensidade severa. — Como Ex Vice Líder da Diamond Wall, eu irei dar o castigo que lhe é merecido! — ela apontou a mão para ele, que tentava fazer o máximo possível para aguentar a dor e ouvir a maga ao mesmo tempo. — Mas mais importante que isso: como Líder da Immortal Star, eu vou eliminá-lo por ameaçar nossa família! RAIO DE LUZ!
— COMPONENTE 001-MX, MINA TERRESTRE!
Any disparou seu raio de energia superconcentrado com toda a força que tinha contra seu oponente tão odiado. O raio acertou em cheio no meio do peito, fazendo o alquimista gritar tudo aquilo que não tinha conseguido ainda, até sua garganta arder. Mas ele não tinha simplesmente deixado ser atingido de graça. Usando a mesma tática do sangue jorrado pelo chão, ele mandou energia mágica e ativou uma magia bem embaixo dos pés da maga. Uma mina que explodiu todo o chão, quebrando tudo o que ainda não havia sido destruído e queimado.
O resultado desse embate não foi bonito para nenhum dos lados. Any levou todo o dano da mina, além de que o chão se quebrou e a fez cair um andar... DE NOVO. Dessa vez ela caiu onde seria a cozinha, batendo em cima de uma mesa que já estava pela metade. Ronan também caiu na cozinha, mas bateu com tudo no chão de piso.
Vamos ver se você está prestando atenção na situação até agora. Lembra que eu disse que as chamas da magia de Ronan já estavam consumindo todo o primeiro andar? Pois então. Os dois lutadores caíram onde o fogo já estava muito suspenso, e não havia nada além da visão do Inferno ali. Quase não havia mais móveis inteiros e praticamente nenhum lugar estava sem o fogo.
Assim que sentiu a pele queimar, Any usou sua energia mágica restante para fortalecer o corpo. O fogo ainda era mágico, então essa estratégia funcionava até certo nível. Mas o atual grande e mortal problema para a maga de luz era exatamente seu equivalente contrário: a escuridão quase total. A fumaça enegrecia tudo e retirava qualquer ar respirável para um ser humano. Any também estava tentando engolir o choro, pois suas pernas estavam doloridas demais e ela nem conseguia ver o quão danificadas tinham ficado. Desorientada, machucada e quase sem energia restante, a situação da Líder da Immortal Star era mortal.
Quando você está em uma situação muito ruim, nunca, nem de brincadeira diga “Poderia ser pior”. Foi o que Any pensou consigo mesma quando conseguiu ficar de pé por um mísero segundo. Algo lhe agarrou por trás, lhe abraçando em uma força chamejante. Desesperada e se sentindo queimada viva, a maga começou a se remexer e a gritar.
— VAMOS PARA O INFERNO JUNTOS, PESTE ESCARLATE!!!
Ronan não parecia mais humano. Ele estava em carne viva, em chamas e com um grande buraco no meio do peito. Como ele estava vivo, isso ninguém naquele mundo conseguiria responder. Mas sua vontade — ou teimosia — era tanta que o fez continuar perseguindo sua oponente, até vê-la morta. A dor não o incomodava mais, pois até mesmo seu cérebro já havia bloqueado por ter passado do limite.
O temor da morte preencheu a mente da maga. Ela estava sem forças. Tentou respirar para gritar e acabou engolindo uma grande quantidade de fumaça, o que a fez perder o fôlego restante. Caiu de joelhos com o alquimista ainda agarrado a ela. Tentou se virar e não conseguiu. Tentou chamar por alguém, qualquer um. Sua voz não saiu. Os olhos não enxergavam mais nada. Os fechou. Seu corpo amoleceu. Dor, calor, calor. Depois não havia mais dor. Só o calor. Ronan parecia ter a soltado e caído ao seu lado, provavelmente morto. Sem forças. Calor. Caiu de cara no chão ainda mais quente. Calor.
— BARREIRA DE DIAMANTE!
A temperatura sumiu do nada. Any ainda estava acordada, mas não ouvia nada e não via nada. Só seu tato existia naquele momento, e parecia que ter se livrado dos outros sentidos acabou lhe trazendo ainda mais dores. Mas onde tinha ido parar o fogo? O calor de seu corpo queimado ainda existia, mas ela estava sentindo uma aura gélida, algo não natural. Tentou mexer as mãos e percebeu que onde deveria ser o chão, havia um tipo de crosta lisa e forte. O que estava acontecendo?
— LÍDER!!! SAÍA DAÍ!!!
O grito de alguém parecia ser o primeiro som que Any ouvia fazia muito tempo. Seus olhos se abriram como em um susto e ela tentou entender o que estava acontecendo. Olhou para os lados com dificuldade e se viu envolta por uma aura cristalina azulada. Ela conhecia aquilo, mas seu cérebro ainda parecia meio dormente. E o grito? De onde tinha vindo? De quem era?
— ANY!!! ESTÁ ME OUVINDO? LÍDER!!!
A voz de novo! Tentou se levantar. Dor. As pernas não obedeceram mais. Mas a voz! Ela conhecia! Agora fazia sentido! Aquela aura, aquele sentimento. Ela estava em volta de uma barreira. Era Tabatha! Como? E por quê? Não. Não pense nisso. Ande! Engatinhe! Se arraste! Faça algo, saia daí! Com suas ideias sendo forçadas a cada segundo, Any começou a engatinhar para o lado de onde vinha a voz. Na verdade, ela tinha “chutado” o lado, já que seu senso de direção estava completamente apagado.
— Ali! Lá está ela! Rápido!
Any ouviu um novo grito, mas grosso dessa vez. Olhou para frente e viu alguém vindo em sua direção. Mas pelo fogo? Como? Havia algo ao redor dele, estava difícil de enxergar. Fumaça demais. Cansaço demais. Estava se aproximando. Quem era? Olhos fecharam. Mente apagou. A Líder da Immortal Star tinha entrado em um sono forçado, com seu corpo desmaiado. A única pergunta que tinha sobrado era: será que ela voltará a acordar?
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