Immortal Star - Segunda Saga
15 A última barreira
Notas iniciais
Sim, era essa a situação dos membros da nossa Guilda em questão. Todos foram para uma luta que quase não era deles. Eles tinham motivos diferentes para estarem lutando. Alguns lutavam por suas casas. Outros lutavam por honra e mérito para com seus companheiros. Uns ainda lutavam para pagar uma dívida. E tinham até alguns que lutavam pela própria sobrevivência. Independentemente de seus motivos, eles ainda eram uma só guilda, uma só família.
Ah claro, e eu sei que você deve ter achado muito estranho eu ter apresentado alguém completamente novo na parte passada. Smolder é um membro chave importante da Guilda por muitos motivos, alguns dos quais você ainda ouvirá de mim, mas não exatamente agora. Porque eu ainda tenho que lhe apresentar mais um membro importante, que não pode ser deixado de lado durante essa guerra. Não só porque ele também estava lutando para proteger seus companheiros, mas também porque ele era uma pessoa... Diferente em relação a quase todos os outros membros. Eu explicarei logo, e também deixo claro que ele será o último novo integrante que falarei até o fim desta Guerra.
Mas antes de introduzir o novo integrante, precisamos comentar sobre outra pessoa que estava um tanto perdida nessas batalhas todas. Não porque ele queria, veja bem. Ele se meteu em uma confusão de revelações e explicações que poderiam mudar não só Riven, como toda a história escrita em livros ao redor do mundo. E claro, só para deixar bem claro, ele estava “puto”.
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— CARALHO!
Shiro tropeçou e foi ao chão, sentindo não só a vergonha alheia, como também um rápido puxão de pele onde seus machucados das batalhas anteriores ainda perduravam. Estava difícil enxergar por entre toda aquela escuridão que eram os corredores do laboratório subterrâneo. Foi-lhe explicado que a falta de luz era parte do “sistema de defesa” do local, pois deixava fácil para qualquer invasor se perder para sempre. Urano tinha lhe dito que haviam muitas armadilhas e alguns corredores que davam literalmente em lugar nenhum. Nem mesmo o Soldado da Planetarium sabia dizer quantas pessoas já tinham sido encontradas mortas durante todos os anos depois da construção desse labirinto.
Essa informação não deixou Shiro menos fulo da vida. Ele estava exausto, não só fisicamente, como mentalmente. Ele ansiava para chegar no seu quarto na Base da Guilda, tomar banho, trocar de roupa e dormir por uns dois dias seguidos. Claro que ele tinha ciência de que isso era impossível. Mesmo que ele saísse daquele inferno subterrâneo, ele ainda teria que lidar com uma “guerrinha” que acontecia fora dos muros da Capital.
A atual situação era a seguinte: todas aquelas pessoas presas estavam tratando Shiro como um herói revolucionário, que tinha conseguido libertar todas aquelas pobres almas trancadas injustamente. Mas claro que não parava aí. Eles também pediram para que Shiro os levasse para fora, de volta para suas casas em segurança. O ninja quase riu do pedido. Ele disse que tiraria o povo da prisão, mas não podia fazer mais que isso. Mas havia seriedade nos olhos daquelas pessoas. Elas não estavam brincando. Shiro respondeu mais ou menos assim:
— Gente, eu não sei nem como diabos eu vou sair daqui! Imagine levar todos vocês para suas casas sem morrer no caminho!
— Isso não é problema. — falou Urano, fazendo todas as pessoas prestarem atenção no moribundo. — Eu conheço todas as saídas, além de saber exatamente quais são as mais seguras. Eu também quero sair daqui, e se você conseguir me levar para sua Guilda para eu poder me recuperar, irei ficar em débito vital com você.
Shiro aceitou não por querer usufruir de uma dívida com alguém da Planetarium. Ele sabia que Urano estava sendo tratado como um traidor, e seria difícil ser ouvido e pior ainda, ser acreditado. Mas o ninja falastrão não tinha outra opção. Ele já tinha entendido que aquele lugar era assassino, e ter um guia para finalmente poder respirar o ar fresco de novo era, no mínimo, acolhedor.
Então Shiro estava liderando um grupo de mais de trinta pessoas, que fazia parecer a maior caravana de mendigos do mundo. Um dos aldeões, um senhor um tanto idoso, mas provavelmente o melhor em constituição física do grupo, carregava Urano nas costas. Disse que o homem estava tão magro e leve que até uma criança poderia carrega-lo. O médico que cuidava de todos não estava junto, e prometeu não alertar mais nenhum guarda se Shiro mantivesse a promessa de não trucidá-lo. Sim, essa foi a palavra que o ninja usou para a sua promessa.
O ninja foi ouvindo as direções do Soldado da Planetarium, enquanto mantinha seus sentidos ativos para qualquer movimentação que poderia ouvir. Ele teve que se livrar de dois guardas que apareceram, não ao mesmo tempo. A vantagem que Shiro tinha naquele local, era que um corredor rodeado de trevas com apenas um foco de luz criava sombras o suficiente para ele aparecer e desaparecer onde bem entendesse. Shiro não matou os guardas, só os deixou inconscientes. Ele ainda conseguia se conter, mesmo com o nervosismo. Pelo menos por enquanto.
Mas quando eles estavam mais ou menos na metade do caminho, Shiro fez seu grupo parar e ficarem todos completamente silenciosos. Tinha algo errado a frente. Uma aura sinistra. Estranha também. Pois parecia que alguém tentando se esconder, mas avisando que caso fosse descoberto, iria usar todas as suas possíveis ferramentas para eliminar a pessoa que o descobriu.
Shiro só não estava tremendo porque sua adrenalina já estava alta e sua atenção mais ainda. Ele retirou uma kunai de sua bolsa e manteve bem firme na mão direita. Fez sinal para que todos ficassem imóveis. Só ele avançou. Passos silenciosos, mudos. Meio abaixado. Encostado na parede, de costas para ela. Um passo. Depois outro. Um barulho familiar de goteira em algum lugar reverberava. O som de uma tocha. O correr de um rato. Aranhas pegando mosquitos desprevenidos. Som de respiração. E então passos. Rápidos como uma flecha. Movimentação. Energia. Ataque!
Shiro levantou os dois braços para proteger o rosto, pois tudo o que conseguiu perceber era que seria atacado primeiro. O impacto foi grande. Mesmo tendo deixado sua kunai na frente como defesa, ele levou um golpe nos dois braços como se alguém tivesse atirado um pilar de mármore contra ele. Shiro bateu na parede com as costas, depois foi ao chão completamente desajeitado, rolando para trás duas vezes.
O ninja era um bom lutador. Estava preparado. Então conseguiu raciocinar muito rápido. Ele tinha levado um chute horizontal. Seus braços doíam e tremiam de choque. Quem diabos consegue uma força tão absurda em um chute às escuras? Shiro tentou manter a kunai levantada, mas quase não conseguia. Mas viu sangue na lâmina da pequena arma, mostrando que pelo menos seu atacante tinha se ferido com o ataque também. Se levantou rápido, virado para a direção do atacante. Seja lá quem fosse, era poderoso e tinha uma sede de sangue tão sinistra quanto a de Mana. Ou talvez até mais.
— Shiro?
A voz soou familiar. E não estava carregada de ódio ou fúria. Parecia até um tanto confusa. Shiro olhou para trás, apontou para uma moça que trazia uma tocha junto de si e pediu gentilmente para que se aproximasse. A mulher assim o fez, sem fazer qualquer tipo de pergunta. Até Urano se manteve quieto e tenso vendo toda aquela situação. Ele teve que admitir que estava tão debilitado que não tinha sentido o tal atacante. A mulher usou a tocha para iluminar alguns poucos metros à frente, e vendo a luz brilhante, a pessoa chutadora de ninjas finalmente apareceu.
— Porra, San! — gritou Shiro, sem o menor escrúpulo. — O que você está fazendo aqui, seu maldito? Aliás, vai se ferrar! Queria me matar com um chute, seu porra?
— Eu peguei leve no chute. — respondeu San, colocando as mãos no bolso e liberando sua tensão nos músculos. Ele parecia tão despreocupado, que Shiro quase o atacou de vingança. — Além disso, se você morresse com algo assim, então estaria provando que não é digno do seu Título Único.
— Ah! Vai a merda, cara! — praguejou Shiro, tentando não se estressar mais do que já estava. — Como diabos você encontrou esse lugar?
— Eu invadi o Castelo depois de ouvir algumas enfermeiras na ala médica do exército comentando sobre um ninja que estava lutando contra o General Leon. — começou San, olhando para o grupo atrás de Shiro e já se perguntando quem seriam todas aquelas pessoas. — Depois de fazer uma busca rápida nos corredores frontais do Castelo, eu vi um lugar que estava marcado com uma batalha recente, inclusive com um ponto no meio do corredor com muito sangue. Mas não havia corpos. — falou San, o que fez Shiro levantar uma sobrancelha. Será que eles já tinham tirado o corpo de Leon de lá? — Depois disso foi fácil seguir uma trilha de sangue, onde eu encontrei uma porta secreta. Mas acabei demorando pra andar por esse labirinto, mesmo tendo entendido como o pessoal daqui se localiza.
— Você “entendeu”? — disse Shiro, quase gritando. — Você não sabe o quão perdido eu estava me sentindo aqui nessa coisa!
— Você é San, o Lobo Solitário. — falou Urano, pedindo com um aceno para a pessoa que o carregava para que ele se aproximasse. Urano ignorou completamente o chilique raivoso do ninja com o companheiro de Guilda. — Preciso parabeniza-lo por ter conseguido escapar com vida de Zanitar. Você enganou o Lorde daquelas terras, matou o seu Conselheiro Chefe e ainda roubou as três joias da Rainha, que tinham um valor inestimável. — a expressão de confusão que San fez foi histórica. Ele apertou o punho direito enquanto ouvia. E parecia querer usá-lo. — Fui eu que investiguei a situação que aquele reino estava, e fui eu que disse para eles que você os estava usando e traindo. Desculpe, era meu trabalho.
— Quem é você? — perguntou o garoto ladrão, com os olhos estreitados e completamente indecisos.
— San, ele é o Soldado de Urano, da Planetarium. — respondeu Shiro, se intrometendo entre os dois. O ninja percebeu o ar mudando em volta do companheiro de Guilda e decidiu acalmar a situação antes que ela piorasse. — Ele está nos ajudando a escapar, além de ter me revelado algumas coisas inacreditáveis, que nem mesmo você conseguiria adivinhar. — falou, e percebeu que a curiosidade de San para essas palavras foi maior do que esmurrar o moribundo. Shiro ainda se virou para trás e continuou. — E porra, Urano! Não dava pra deixar esse tipo de comentário pra depois? Caralho cara, olhe a nossa volta! Temos que sair daqui o mais rápido possível se não quisermos enfrentar o exército real inteiro aqui embaixo!
Um rápido silêncio tomou conta daquele corredor escuro. Os três se olharam rapidamente e meio que concordaram. Urano abaixou a cabeça em tom de desculpas e San aceitou a situação como “passado”. Shiro soltou uma lufada rápida de ar, mais tranquilizado. Olhou para frente de novo e fez sinal para que todos o seguissem. Ele não prestou atenção nos aldeões, que permaneciam quietos e tensos com a chegada do novo integrante. Ninguém decidiu fazer algum tipo de pergunta naquele momento, e simplesmente seguiram os dois membros da Immortal Star.
— O que você quis dizer com “relevar coisas inacreditáveis”? — falou San, imediatamente depois que voltaram a andar pelas sombras. Era difícil manter conhecimento ou até mesmo fofocas longe de San.
— Ah cara... — começou Shiro, balançando a cabeça negativamente para ele mesmo. Por mais que ele quisesse, aquilo tudo que tinha sido dito para ele era impensável. Talvez dividir isso com outra pessoa lhe tirasse algum tipo de “peso” dos ombros. E falar para San especificamente, vendo que ele tinha uma mente mais afiada do que sua ninja-to, facilitaria sua organização de ideias. — Prepare-se pra ouvir muita coisa sinistra.
Ele contou. Urano foi ajudando, adicionando mais informações que o ninja passava ou esquecia. Assim eles recontaram a mesma coisa que você já ouviu. As intrigas, os planos. As traições. As mudanças. O passado e o presente. E talvez um possível futuro forjado em ferro, fogo e sangue. Também foi explicado a situação daquelas pessoas que estavam junto com Shiro, de forma resumida, e que as mesmas perguntas que o ninja fez, San também as matutava em sua mente. Como reflexo, San também contou mais ou menos a situação que acontecia lá fora, o que não ajudava a acalmar os corações dos ouvintes.
Depois da última palavra dita, o silêncio mais uma vez os envolveu. Urano sabia que eles já estavam quase na saída, e por muito mais sorte, não encontraram nenhum outro guarda no caminho. Por mais que isso tenha sido algo bom, também era algo estranho. San parecia perdido nos próprios pensamentos, por isso não percebeu esse fato. Depois de poucos minutos, ele disse:
— Interessante.
— Só isso? — perguntou Shiro, visivelmente irritado. — A gente te conta uma coisa que pode mudar o destino de Riven, do reino que a gente vive, pra sempre! E tudo que você me fala é “interessante”? Ah vá!
— Infelizmente, não há muita coisa que eu possa falar. — falou San, sem parar de andar. Ele foi até uma esquina e ouviu passos. Fez sinal para que todos parassem e ficassem calados. Viu dois guardas correndo pelo corredor à frente, mas viraram para direita e não vinham em sua direção. Continuou falando quando voltaram a andar, agora mais rápido. — Eu sabia que havia algo errado com essa “guerra” que estamos tendo, e também sabia que poderia haver traidores dentro do círculo da Família Real daqui. Mas é impossível eu ter sequer desconfiado que era uma coisa tão profunda. E tão bem planejada também, devo admitir.
— Poxa, obrigado por iluminar minha mente com uma resposta tão inconclusiva! — falou Shiro.
— Ainda assim, isso não quer dizer que sua história não criou algumas dúvidas dentro de mim. — continuou San, ignorando as reclamações inúteis de seu colega. — Se Kaim pretende tomar o Reino para si, então porque fazer tantos contratos, com tantos reinos? Ele sabe que esses reis vão querer despedaçar todos os recursos que Riven tem como pagamento. Ou Lorde Kaim não se importa com os resultados desde que ele sente no trono, o que eu acho difícil, ou ele tem mais planos de lidar com esses outros Reinos que são seus “aliados” durante esse conflito. — falou o garoto, atraindo a atenção principalmente de Urano. — Isso me faz pensar que ele provavelmente tem um plano para fazer com que essa guerra não tenha um lado vencedor. Ele vai usar os tais Rúnicos para matar todos os soldados inimigos, e depois que esses tiverem recuado, fará algum ataque surpresa nos próprios aliados de Riven. Assim, o único “exército” que sobrará será o dele, e ninguém poderá desafiá-lo.
— Sua maneira de pensar me dá calafrios. — falou Urano, meio que concordando com San. Mas não querendo aceitar aquilo como realidade. — Mas você acha que ele teria coragem de fazer um ataque direto ao Rei, por exemplo? Isso faria com que todo o plano dele fosse por água abaixo. Ele provavelmente quer tomar o poder do reino de uma forma que pareça “justa”.
— E ele PODE fazer isso. — respondeu San, imediatamente. — Se ele conseguir criar uma situação no campo de batalha onde o exército real tenha que recuar para o Castelo, ele pode usar essa oportunidade para fazer uma invasão secreta e eliminar a única coisa que ficará entre ele e a Coroa.
— O REI! — falaram Shiro e Urano, ao mesmo tempo. San balançou a cabeça afirmativamente, contente que os dois estavam seguindo perfeitamente sua linha de raciocínio.
— Com o rei morto e ele tendo o poder do maior e mais poderoso exército restante em Riven, tanto os nobres, os membros das outras Famílias Reais e até mesmo o povo do reino serão obrigados a nomeá-lo novo Senhor de Riven. Pra mim, é um plano maleficamente perfeito.
Shiro ouviu e ficou um tanto tenso com a nova possibilidade. Ele nunca chegaria a esse tipo de ideia. Inclusive, esse era um dos motivos para ele querer a opinião de alguém como San. Já Urano ficou paralisado. Não que ele pudesse se mexer muito em sua situação, mas agora ele quase não respirava. Ele poderia se considerar um espião perfeito, uma pessoa sem identidade que poderia ser alguém ou ninguém. Mas ainda assim, ele tinha o próprio patriotismo, o próprio senso de dever. E saber que o seu Rei poderia estar correndo um sério risco de vida não lhe era reconfortante.
Mas eles não tiveram muito mais tempo para conversar sobre possibilidades assassinas. O grande grupo tinha finalmente encontrado uma das várias saídas. Assim como Shiro entrou, havia uma imensa escadaria que levava para cima. Aqui, o lugar já estava mais bem iluminado e não haveria problemas em subir os degraus com medo de tropeçar. San e Shiro foram lado a lado, na frente, preparados para atacar ou defender qualquer coisa que aparecesse. Urano disse que não haviam armadilhas nessa escada, pois era uma das mais usadas pelo pessoal que trabalhava ali dentro.
Quando chegaram no topo da escadaria, eles tiveram que empurrar uma alavanca um tanto escondida, que fez o “teto” se abrir em dois, revelando ser uma porta de pedra secreta. Os dois da frente espiaram silenciosamente, verificando para onde dava aquela saída.
Em resumo, ela dava para um tipo de armazém grande. Pense em um local retangular, onde o meio das duas extremidades menores estavam a porta de entrada e essa porta secreta, que saia no chão. Tirando isso, haviam inúmeras estantes de ferro recheadas de coisas. Essas coisas depois foram ser identificadas como provisões. Comidas frescas, enlatadas e milhares de sacos de grãos. Os estandes estavam divididas em sete fileiras compridas, criando cinco corredores entre elas. Além de comprido, o armazém também era alto, a ponto de ter outro andar. Mas não havia um teto para o “segundo andar”, apenas plataformas nos quatro cantos com duas grandes escadas mais próximas da porta de entrada.
O local estava lotado de sacos, carrinhos e escadas. Mas não havia nenhuma alma viva. San e Shiro pediram para que todos esperassem ainda na escadaria subterrânea e saíram. Verificaram barulhos. Nada. Se separaram e procuraram entre os largos corredores de estantes. Nada. O cheiro era forte, como se fosse uma feira de rua. Alguns locais pareciam bagunçados e desorganizados. Outros, deixavam claro que alguém tinha largado o que estava fazendo e depois sumido. Mas não haviam pessoas por ali.
— Esse é um dos armazéns de estoque do castelo. — começou a explicar Urano, depois que os dois deram sinal positivo para que os aldeões pudessem sair da escadaria. — Estamos há poucos metros do castelo, no lado direito. Usamos esse lugar para guardar comida que sobra e que não cabe dentro dos armazéns das nossas cozinhas, dentro do castelo. Além disso, é aqui que lavradores e donos de fazendo trazem seus pagamentos em forma de plantio. — Shiro prestava atenção na explicação, mas San ainda verificava o local, como se estivesse procurando algo escondido. Ou alguém. — Claro, essa é a desculpa oficial. Extraoficialmente, esse armazém abriga os mantimentos que são usados no laboratório subterrâneo. Existe outro igual a esse, no lado oeste do castelo, exatamente com o mesmo propósito.
— Ok, obrigado pelas explicações. Podemos cair fora daqui? — perguntou Shiro, sem nenhum pingo de paciência.
— Shiro, vá verificar a porta de entrada. — falou San, apontando para a grande porta deslizante de ferro, que ficava no outro lado do armazém. — E tome cuidado. Eu estou com uma estranha sensação desde que começamos a subir essa escadaria.
Shiro queria ter perguntado sobre aquilo, mas estava com tanto desejo de respirar o ar puro novamente que foi correndo para a porta, seguido por San e mais cinco aldeões. Ele examinou a porta cuidadosamente, procurando alguma armadilha ou tranca. Não havia nenhuma das duas. Segurou e empurrou devagar, a testando. Ela abriu, sem nada acontecer. Era pesada, por isso pediu ajuda para San. Os dois juntos a empurraram sem nenhum problema, fazendo os aldeões gritarem uma viva rápida e sonora.
Mas ninguém saiu. Na verdade, ninguém sequer se moveu depois daquilo. E não era porque dali, com a porta aberta, eles conseguiam ouvir o som de batalhas e explosões em todos os lugares. Não, eles foram paralisados. “Magicamente” paralisados.
Passo. Algo ecoou da porta secreta, vindo daquela escadaria que levava para o fim do mundo subterrâneo. Era um passo. Firme. Forte. E metálico. Outro passo. Ninguém se mexia, mas todos ouviam. San conseguiu virar a cabeça para trás, depois Shiro. Eles perceberam que havia uma magia de área sendo usada ali, mas era um tanto diferente. Não estava fazendo algo tão ativo. Era como se fosse uma simpatia, um convite. Ou uma ordem, dada diretamente ao corpo da pessoa. Era poderosa. E somente para Urano, era “conhecida”.
— Essa aura... — falou ele, baixo o suficiente para não ser ouvido pelos outros. — Eu não acredito... O que “ele” está fazendo aqui?
Passo e passo de novo. Os sons ecoavam por todo o armazém, como se fosse algo místico. Os aldeões estavam completamente paralisados. Alguns até choravam por não entenderem o que estava acontecendo. Alguns queriam gritar desesperadamente, mas nem isso era lhes dado. Mesmo San e Shiro não conseguiam se mexer direito. Mas isso não perdurou por tanto tempo. Naquele momento, pareciam horas, mas tudo isso não passaram de cinco segundos.
— Pode acreditar nisso, velho companheiro. — disse uma voz, aparentemente masculina, vindo da entrada da escadaria. Os passos continuavam e finalmente revelaram a pessoa. — Que bom que consegui alcança-los aqui.
Era inacreditável. Botas de prata reluzente que subiam até os protetores de joelho. Daquela parte até a cintura, havia um calção bem grosso e estufado, na cor azul escuro. Sua camisa era simples, de botões de manga comprida na cor branca, com a borda da manga aberta em babados e sem nenhum bolso. Não havia nenhuma armadura protegendo seu corpo. E nem sua cabeça. Ah claro, o mais importante de tudo, havia uma aura imensamente densa e poderosa que o revestia, como se fosse uma nova roupa. Se você tem boa memória, vai lembrar que fiz uma descrição extremamente parecida há um tempo atrás.
— Bart... Evans... — falou Shiro, pausadamente.
— É impossível não diferenciar esse Campo de Aura. — falou Urano, parecendo o único que não estava paralisado. Mas isso não faria muita diferença, vendo sua situação. — Seu “Conselho Obrigatório” está tão poderoso quanto eu lembrava.
Bart riu, calmo. Era sempre prazeroso receber elogios sobre seu poder. Lhe inflamava o ego e lhe dava mais autoconfiança. E “força” era um dos aspectos que Bart mais seguia. Dentro da Planetarium, ele era um dos melhores controladores de Aura. Conseguia controlar a ponto de influenciar a vontade das pessoas ao seu redor, e até ordená-las a fugir ou avançar, se quisesse. Mana sentiu isso na pele quando o viu no ataque ao castelo. E San acabava de lembrar desse detalhe.
— Estou decepcionado com você, Urano. — começou Bart, dando mais um passo à frente. Sua voz parecia tranquila, mas ainda tinha um tom imponente. — Você não só traiu a confiança de nosso grupo como também planejou fugir levando informações confidenciais do nosso Reino. Nunca esperaria isso de você.
— Eu não sei o que lhe disseram Netuno, mas posso te afirmar que nunca trairia o nosso povo, nosso grupo ou nosso Reino. — tentou explicar o moribundo que ainda estava nas costas de um dos aldeões. — Nosso grupo está dividido e alguns trabalham secretamente para Lorde Kaim Horth XV.
— Claro que sim. — respondeu o soldado recém chegado, ainda rindo. — E você acha que eu iria acreditar nisso, assim do nada? Onde está sua prova disso?
— Eu não posso...
Urano não terminou sua frase. Bart, que estava tão cheio de si e tranquilo teve que agir rápido, cortando a fala do companheiro. Isso porque ele teve que pular para o lado, se esquivando de uma kunai jogada contra sua cabeça. Quando os dois soldados da Planetarium olharam mais para a frente, viram San com o braço estendido. Com a quebra de concentração de Bart, todos saíram de suas paralisias ao mesmo tempo. Alguns foram ao chão, de tão repentino. Gritos e choros ecoaram pelo armazém, mas a tensão que tinha ficado do ataque ainda permanecia.
— Eu sabia. — falou San, mexendo os braços como se estivesse se alongando. — Esse seu poder de controle de aura só pode ser usado quando você não está em fase de batalha. A Mana tinha razão.
Para não deixar você confuso, devo explicar rapidamente o que houve aqui. Tanto San quanto Shiro estavam paralisados com o poder do possível inimigo. Mas é bom lembrar que San era conhecido por ser o melhor manipulador de energia de toda a Immortal Star. O que ele fez foi criar um campo reverso em volta dele mesmo usando a própria energia mágica, o suficiente para que ele pudesse se mover. Como Shiro estava do seu lado, San puxou uma das kunais guardadas em sua bolsa e, quase sem mirar, atirou a arma. A ideia era um acerto mortal, mas isso seria sorte demais.
— Urano, não adianta você tentar dialogar com ele. — falou San, em alto tom. Isso fez todos olharem para sua direção. — Se ele tivesse com o mínimo de confiança em você, ele não nos teria paralisado dessa forma. Provavelmente já lhe contaram uma outra história, e a não ser que você consiga provar suas descobertas, ele vai continuar te marcando como inimigo.
— O garoto tem um pouco de razão, velho companheiro. — respondeu Bart, tentando manter a mesma tranquilidade de antes, mas ficando bem mais atento. — Infelizmente não estou aqui para lhe dar ouvidos, principalmente quando tem tantos prisioneiros escapando bem na minha frente.
— Netuno, essas pessoas são inocentes! — clamou Urano, mas não tão alto como gostaria. Ele deu três tossidos roucos depois disso. Sua falta de força era irritante. — Olhe para elas! Acha mesmo que eles são bandidos ou assassinos?
— O que eles são, não me interessa. — respondeu Bart, seco. Deu mais um passo para frente. — Escutem todos vocês! Eu vou lhes dar uma única chance! — agora a atenção estava toda no soldado de Netuno. Algumas mulheres até pararam de chorar para poder entender o que ele iria dizer. Talvez isso também tenha a ver com o poder de Bart. — Se vocês voltarem para suas celas imediatamente, eu não lhes farei qualquer mal, e vocês não serão feridos e nem maltratados posteriormente. Mas eu juro: se vocês decidirem sair por aquela porta, eu irei caçar cada um de vocês, e irei lhes tirar a vida que lhes é tão preciosa. — o pavor se espalhou pelos quatro cantos do armazém, deixando todos com expressão de medo e incerteza. — Mesmo que vocês se espalhem pela cidade, eu não demoraria nem uma hora para caçar todos. Então se vocês querem essa uma hora de liberdade, fiquem à vontade para saírem.
— Não deem atenção a ele! — gritou San, assustando ainda mais o povo. Outro que ficou ainda mais assustado tinha sido Shiro, pois ele nunca vira seu companheiro gritar tão raivosamente. — Prometemos tirá-los em segurança daqui e iremos cumprir! Vocês não são prisioneiros! São pais e mães que cansaram de esperar pelas explicações do Reino sobre o paradeiro de seus filhos! — aquelas palavras estavam lhes enchendo de confiança, ou no pior dos casos, diminuindo um pouco o medo que lhes penetrou a mente com a ordem de Bart. — A Immortal Star aceita esse “Trabalho Emergencial”! Nosso objetivo será libertá-los e juntá-los com seus filhos que agora lutam nessa guerra! Uma vez que um trabalho seja aceito, toda nossa guilda irá dar seus corpos e almas para completarem!
Essa foi, provavelmente, o discurso mais emocionante que alguém como San já tinha dado em público. Para falar a verdade, nem ele mesmo sabia como tinha dito com tamanha certeza e convicção, já que nunca falava muito sobre suas convicções sobre a Guilda em si. Ele era totalmente fiel à Guilda, mas não parecia “morrer” tanto por ela como Mulkior, por exemplo. O Mago de Ferro derramaria uma lágrima se ouvisse San dizer isso de agora.
— San, eu tenho uma ideia de como despistar esse cara. — falou Shiro, tranquilamente pela primeira vez. Talvez o acúmulo de adrenalina em seu sangue tivesse acordado sua mente guerreira, além de ter lhe acordado para uma situação verdadeiramente perigosa. — Leve esse pessoal para a nossa Base, que daí podemos juntar o resto dos nossos membros e protege-los até as batalhas no lado de fora terminarem.
— Pretende lutar contra um Soldado da Planetarium sozinho? — perguntou San, mas já se preparando e montando algum tipo de plano para sair dali ileso.
— Lutar? O caralho! — falou Shiro, colocando as mãos em suas bolsas e fazendo uma contagem de quantas armas arremessáveis ainda tinha. Ficou irritado por saber que não lhe sobraram quase nada. — Eu vou enrolar ele aqui e depois desaparecer pelas sombras e deixar ele atrasado o suficiente para não alcançar vocês.
— Ok Shiro, vou confiar no seu julgamento e habilidades de fuga. — falou San, ainda com um tanto de dúvida em sua mente. — Mas não faça loucuras. — San correu mais para frente, levantando um braço e gritou. — Sigam-me todos vocês! Eu irei leva-los para um lugar seguro! VAMOS!
San usou um poder esquisito em sua voz em sua última palavra. Foi quase que um comando absoluto. A intensidade fez muitos aldeões saírem de seu estado paralisado, e esses ajudaram a puxar seus familiares para a porta de saída. Quase todos estavam conseguindo se movimentar mais ou menos normalmente, energizados pelo discurso heroico do Estrategista da Immortal Star.
— Isso, corram para a Immortal Star! — falou Bart, sorrindo friamente. Ele chegou a abrir os braços para falar com superioridade. — Juntem todos os alvos em um só lugar! Vai facilitar ainda mais o meu trabalho!
San parou de correr no mesmo instante. Como assim “todos os alvos”? Ele parou e lentamente olhou para trás, só para ter um novo vislumbre do sorriso chato do Soldado da Planetarium. Alguma coisa não estava certa.
— É isso mesmo que vocês ouviram. — continuou Bart, como se já soubesse que sua primeira fala iria atrair a atenção dos dois membros da Immortal Star. — A sua Guilda também está na nossa lista de prioridades. Temos ordens de “parar” vocês, mesmo que seja pela força. Nesse exato momento, vocês são um perigo maior para o Reino, e serão tratados como inimigos caso qualquer um de vocês reaja violentamente. — ele balançou a cabeça negativamente, ainda sorrindo. — Conhecendo vocês, eu acredito que é exatamente isso que farão. Ou seja, eu já tenho que me preparar para eliminá-los. Todos vocês... Não. — outra pausa, ele olha para cima, com ar pensativo. — Eu salvarei apenas Mana. Ela é a única que vale a pena ser salva. Vai receber um convite especial meu. Aliás, eu já a convidei e ela já recusou. Então terei que ser mais específico e lhe dar uma ordem. Deixarei bem claro que ela não terá escolha. Será treinada por mim, e será reintegrada na “Casa Evans” como nobre, para me servir. Servirá como esposa ou como empregada. Isso sim, será escolha dela.
Existem momentos na vida de uma pessoa que ela simplesmente perde todas as noções físicas e mentais de seu corpo. Aquilo que dizem sobre “ver uma luz branca em um momento de perigo” é uma descrição plausível do que pode acontecer nesses momentos. Em um mundo de magia, onde seu estado físico pode ser afetado por emanação de energia mágica, esses mesmos vislumbres podem sair do seu corpo em forma de auras. Foi isso que Shiro viu quando olhou para trás, por ter sentido uma faminta sede de sangue.
Veja bem, Shiro é um ninja há muito tempo e teve que passar por muitas batalhas sangrentas e perigosas. Ele tem um grande número de vezes onde acreditou não sair de vida de certa situação. Então ele já está acostumado com o medo da morte. Mas naquele dia, naquele exato momento, ele sentiu um tipo de medo que penetrou pelas unhas dos seus pés e subiu lentamente, passando por todas as veias, fazendo seu coração quase parar, e depois indo diretamente para sua garganta, tirando quase toda sua respiração, terminando no cérebro que lhe deu um choque.
— Shiro. — a voz de San parecia estar vinda diretamente do Inferno. Ele deu um passo para frente, e aquele simples passo rachou parte do chão. A aura vermelha escura que o envolvia parecia criar uma forma bestial. — Mudança de planos. Quero que você leve essas pessoas para nossa Base e fique lá para protege-las. Deixe que eu cuido de Bart. Eu lembrei agora que estou devendo umas palavrinhas com ele por causa do ataque dos rebeldes no Castelo.
Não houve resposta sonora. Não houve nem sequer hesitação. Shiro se virou e correu na direção da porta, fazendo um gesto para que todos o seguissem. O ninja estava tentando bloquear a visão demoníaca que tinha acabado de ver, além de tentar parar de tremer. Sem saber o que fariam, todos os aldeões simplesmente deixaram aquele armazém, correndo atrás do ninja e vislumbrando um céu carregado de nuvens da guerra.
— Tem certeza que não quer ir com eles? — perguntou Bart, desembainhando sua espada. — Eu dou alguns minutos de vantagens para vocês.
— Não vamos falar disso. — começou San, o olhando com uma expressão dura. Suas palavras também não saiam de forma gentil. — Vamos falar sobre suas investigações sobre a Mana. — nesse momento, toda a alegria de Bart sumiu, o fazendo ficar com uma expressão curiosa. Mas antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, San continuou. — Você não precisa se fazer de idiota. Eu sei que, depois que o Torneio dos Deuses terminou, você tentou “recrutar” a Mana várias vezes, enviando uma invejosa quantidade de cartas para ela e até mesmo enviando pessoas que você chamava de “embaixadores”. Eu também vi inúmeras pessoas suspeitas nos vigiando sempre que saíamos, o que provavelmente eram espiões seus. Isso sem contar que, com sua ampla rede de informações dentro da Planetarium, você deve ter conseguido todo um histórico sobre as ações e todo caminho percorrido por ela. Tudo isso, para procurar uma desculpa a mais para tê-la.
— Uau! — falou Bart, quase encabulado. — Como você sabe de tudo isso?
— Não vai nem tentar negar? Ok. — respondeu San, estralando os dedos e movendo os ombros, os afrouxando. — Infelizmente para você, eu sou a pessoa que mais a conhece em todo esse mundo. Conheço parte da vida dela que nem vocês conseguiriam rastrear. E sei mais do que ninguém sobre como ela te enoja, queimando cada carta e se esquivando de cada convite. — agora, foi possível ver a fúria tomando parte dos olhos de Bart. — Então, por ela e por tê-la machucado, você vai perecer aqui.
— ESTOCADA RELÂMPAGO!
Um raio atingiu San em cheio. Foi exatamente assim. Do nada. Uma hora estava tudo quieto, outra hora o corpo do membro da Immortal Star estava voando velozmente, batendo em uma das prateleiras gigantes que havia no depósito, fazendo um caos com comida, ferro e seja lá o que mais tivesse no caminho. O Soldado limpou a lâmina com uma sacudida, tirando o sangue do coração daquele sujeito.
Bart não quis ouvir mais nenhuma outra palavra. As ações de um homem perdidamente apaixonado poderiam ser loucas. Mas aquilo já era um absurdo. Ninguém nesse mundo poderia saber mais sobre Mana do que ele. E sim, ele a investigou até o último fio de cabelo. Descobriu toda a trajetória dela enquanto estava na Dead Blade. Soube como ela conseguiu seu Título Único. E até soube de uns trabalhos aqui e ali que ela tinha feito no início de sua carreira. Mas não sabia de sua “origem”. E isso frustrava Bart mais do que qualquer coisa. Era a primeira vez que a rede de informações da Planetarium falhava, e tinha que existir um motivo excelente para tal. Por isso, ele se recusava a dar ouvidos a um qualquer, que a conhece só por estarem na mesma Guilda. Bart estava sentindo o estômago revirado, de tanto nojo que sentia naquele momento.
— ESTILO DO DRAGÃO, CHUTE DA ANIQUILAÇÃO!
Bart foi acertado na lateral de seu corpo, e assim como San, foi jogado para o outro lado do armazém, batendo contra outra prateleira e a levando a criar mais bagunça ainda, com pó de farinha rodeando e preenchendo o ar. Só que isso não havia substituído o cheiro de sangue e nem o ar carregado de ódio.
— Como? — perguntou Bart, já em pé e dando passos para frente, saindo daquela nuvem de poeira branca. Ele não parecia muito ferido. Isso só provava que a resistência de um Soldado da Planetarium era divina... Ou ele tinha um segredo não revelado. — Eu atingi o meio do seu coração! Como você ainda está de pé?
— Atingiu? — perguntou San, afastando a mão do ferimento. Não era no coração. Havia um furo um tanto feio exatamente no meio do peito de San, que cuspia sangue à medida que o mesmo se movia.
— Não, impossível! — praguejou Bart, completamente inconformado. — Minha mira é perfeita! Eu sei que atingi seu coração! Você não pode ter esquivado naquele momento! Ninguém nesse mundo é tão rápido ou atento para prever meu golpe relâmpago!
— Então melhor tomar cuidado. — disse San, se preparando para atacar. — Você está preste a descobrir muito mais coisas que não conhece desse mundo!
Literalmente nenhum lugar da Capital, naquela hora do dia, estava segura. Não eram muitos, mas ainda haviam monstros a soltos, se escondendo nas sombras depois de terem perdido o controle mental de sua manipuladora. O fogo, pelo menos, havia sido contido, e tudo o que restavam eram brasas que terminavam de queimar coisas sem salvação. Pelo sim ou pelo não, a maioria dos cidadãos continuavam escondidos debaixo de suas camas ou mesas, agarrados aos seus entes queridos e esperando por alguma notícia do exército.
Nem mesmo a Base da Guilda estava exatamente segura. Era isso que os três assassinos, escondidos em uma sacada mais alta ao sul da Base. Eles eram membros da Millenium Hunter, aquela Guilda criada com alguns membros da Monster Hunter que decidiram se juntar à Aliança inimiga de Riven. Mas o objetivo deles naquele momento era diferente e mais importante.
Depois que as “negociações” iniciadas por Charlotte falharam, ficou claro para qualquer outro membro dessa Guilda saber que a Immortal Star não mudaria sua opinião. Existiam dois espiões que viram toda a luta de Charlotte contra Lelouch e Geovanna, então quando essa terminou, os dois saíram para reportar. E foi assim que se deu início ao plano de emergência “Tomada de Base como Posto Avançado”.
O plano consistia em tomar controle total da Base da Immortal Star por ser a mais nova, menor (em comparação às outras Bases das outras Guildas que tinham aqui) e por fim, com menos defesas. A Millenium Hunter usaria a Base como Posto Avançado, podendo planejar ataques de dentro da Capital, derrotando seu inimigo onde eles menos esperam.
Os informantes da Millenium Hunter estavam a par de quase toda a situação por dentro e por fora da Capital. Por isso sabiam que a Base da Immortal Star estava com quase nenhum membro sobrando. Todos os fundadores estavam fora, e alguns dos membros mais poderosos tinham ido para a frente de combate. O único problema seria lidar com a barreira poderosa que envolvia toda a Base. Mas era exatamente por isso que esse trabalho foi dado àqueles três.
Eles já estavam ali faz poucas horas, e eles estavam cronometrando a emanação de energia da barreira. Tabatha era especialista em barreiras e criava coisas poderosas o suficiente para deter até mesmo Magias Supremas de poderosos magos. Mas por mais que uma barreira pudesse ser perfeita, ela ainda era uma magia. E magias consumiam energia mágica, que não era infinita. Logo, em tempos em tempos, Tabatha tinha que desfazer sua barreira momentaneamente para respirar e recuperar sua energia.
E era exatamente entre esses momentos que os três planejaram atacar. Seria uma invasão rápida. Entrariam por três locais diferentes, por janelas no primeiro e segundo andar. Eles sabiam que haviam muitos feridos dentro da Base e muitas pessoas inocentes, então o plano era usá-los como peças de ameaça, caso algum membro decidisse intervir. Cada assassino tinha uma especialização, e juntos, faziam um time assustadoramente “completo”. Eles se olharam rapidamente quando perceberam a barreira brilhar fracamente e começar a desaparecer. Seria agora.
Eles estavam preste a pular da sacada, mas pararam quando viram a grande porta dupla da entrada da Base se abrir rapidamente. Viram uma pessoa saindo e fechando a porta atrás dele, sem a menor preocupação. Deu quatro passos para frente e olhou os arredores. Os assassinos, com uma boa visão que tinham, sabiam que aquele era um membro da Guilda, pois tinha o símbolo costurado em sua capa de ombro.
— Sabemos que estão aí! — gritou o homem, alto o suficiente para que os três assassinos pudessem ouvir. Os três arregalaram os olhos nesse momento. — Não adianta nada ficarem escondidos. O que vocês esperam não irá mudar o destino de cada um de vocês. Então saiam agora e se rendam, que suas vidas serão poupadas!
Parecia ridículo demais para acreditar. Mas era a verdade. Os três se olharam, sabendo que seu plano estava comprometido por serem descobertos. Como isso aconteceu? Como foram vistos? Sua posição estava escura demais e não havia como vê-los do chão! Algo precisava ser feito. Mas infelizmente para eles, “falhar e retornar” não era uma opção. O Líder da Guilda deixou isso bem claro. Então eles tinham que mudar o plano. Mas primeiro, precisavam analisar.
Quem era aquele? Se vestia bem. Tinha botas de ferro leve, prateada, que protegiam toda a sua canela, calça um pouco larga na cor preta, um cinto de prata bonito com entalhe desenhado, segurando uma bainha de sua espada. Sua camisa era de manga comprida, na cor vermelho claro, tinha botões tanto na ponta das mangas, quanto no meio do peito. O tecido parecia ser de uma seda pura, cara. Usava um colarinho de laço caído na cor negra no pescoço, preso com uma presilha de ouro. E uma capa que tampava o ombro esquerdo e ficava meio na frente e meio atrás, também na cor negra com bordas vermelhas. Na frente, era costurado um símbolo como um brasão de família real, e atrás, a bandeira da Immortal Star.
Ele era atraente também. Não parecia ter mais de vinte e cinco anos. Seu rosto era angelical, sem nenhuma cicatriz ou sinal. Sua boca pequena jazia com um sorriso sem preocupação. Seus olhos castanhos escuros ainda pareciam procurar um possível inimigo. Usava um brinco de ouro na orelha direita, que tinha o formato de uma estrela. E seu cabelo negro, cheio, liso e bem penteado para os lados, deixando só alguns fios grossos para frente, completava uma visão que raramente não conseguiria conquistar o coração de uma dama.
Os assassinos tinham informações de todos os membros relevantes da Immortal Star, então sabiam bem quem era aquele homem. Eles só não sabiam que eles estavam na Base naquele momento. Mas isso era o de menos. A Base precisava ser invadida e tomada. Isso era uma certeza. Os três começaram a trocar palavras rápidas, falando sobre um outro tipo de intrusão e talvez se afastar um pouco para enganar aquele homem.
— Pelo visto não darão ouvidos à razão. — falou o homem, ainda em uma tonalidade alta o suficiente para ser ouvido. — Bom... Então vou ter que passar para um aviso mais direto. — o homem desembainhou sua espada em um só puxão rápido, fazendo ela reluzir. Se tratava de uma espada medieval de lâmina dupla, de formato simples, com cabo de madeira entalhado e com um cristal verde no fim, provavelmente uma esmeralda. Tirando o fato de que parecia uma espada nova em folha, não parecia ter nada de especial. Isso se não contarmos a energia mágica que ela recebeu naquele mesmo instante, a preenchendo com uma aura avermelhada. — AURA DO DRAGÃO URIA – ONDA EXPLOSIVA!
A espada criou uma forma estranha. Vários linhas que formavam vários octógonos ligados um ao outro, tudo em uma linha preta. Logo em seguida, a aura ao redor do braço e da espada se intensificou, deixando uma aura cor vermelha viva. Os assassinos só conseguiram ver a luz vermelha depois que algo já estava vindo em sua direção. O homem manejou a espada em um corte diagonal no ar, em direção à onde eles se escondiam. Isso atirou uma onda mediana de energia avermelhada, que viajou mais rápido do que os assassinos esperavam.
A explosão não foi gigantesca, mas foi grande o suficiente para destruir completamente a sacada onde os três se escondiam. O homem controlou seu poder para diminuir o máximo possível de dano excessivo, pois ele sabia que aquele prédio ainda poderia abrigar alguém amedrontado. Mas só essa explosão foi o suficiente para fazê-los sair de lá. O membro da Immortal Star viu duas sombras pulando para direções diferentes, e uma dessas caiu bem perto dele.
— Maldito... Fairsworth! — disse um dos assassinos, com metade do corpo queimado pela explosão.
Fairsworth Alexander Starkys era um dos membros mais memoráveis da Immortal Star. Isso porque ele não era só um cavaleiro com habilidades refinadas, como também um Lorde de uma cidadela ao extremo sudoeste de Riven. Sua participação na Guilda merece ser explicada não só pela introdução a ele, mas porque era um importante passo para o futuro da Immortal Star.
Lorde Fairsworth se tornou um líder de cidade muito jovem por causa de uma fatalidade acontecida ao seu pai, o antigo Lorde daquela área, que foi assassinado por bandidos em uma viagem de negócios. Ele virou líder de uma cidade chamada Esmiteril, de tamanho mediano, mas que é uma das maiores comercializadoras de bronze do mundo, além de ter uma grande quantidade de artesãos mundialmente conhecidos. Essa cidade é o ponto divisório entre Riven e Bersária, o Reino que andava em decadência por causa de guerras civis incensáveis. Não por causa da linha de divisão, mas sim por um acordo oficial, Esmiteril era propriedade total de Bersária.
Por mais que eles tivessem uma boa demanda e o comércio da cidade fosse bom, as incontáveis guerras civis acabaram afetando cada canto do reino. Esmiteril começou a sofrer inúmeros roubos, assaltos pelas ruas e até mesmo assassinatos. Alguns desses atos eram tão bem executados que não pareciam meros fora da lei que organizavam. E isso acontecia quase todos os dias, dando um verdadeiro trabalho árduo para os soldados que cuidavam da cidade.
Foi pedido ajuda direta do Rei de Bersária, que enviou tropas três vezes. Mas o número de soldados era baixo, já que muitos estavam alocados em outras cidades, lutando nas guerras. Ou seja, essa ajuda não foi suficiente e quase todos os soldados acabaram mortos ou debandaram. Por causa disso, o Rei decidiu não mandar nenhuma ajuda a mais.
Por uma coincidência do destino, os esquadrões de ataque da Immortal Star estavam em uma missão para ajudar o Reino com essas Guerras Civis, e eles iriam passar uma noite naquela cidade antes de irem para o local da missão em si. Sabendo disso, o próprio Fairsworth foi ao encontro deles, com um pedido embrulhado em desespero.
Você sabe o quanto um Lorde precisa engolir de sua honra e integridade para sair do seu castelo ou mansão e ir até uma estalagem para fazer um pedido? Normalmente, o Lorde envia algum subordinado para fazer um convite. Mas Fairsworth foi pessoalmente. Se ele precisasse mostrar dedicação com seu povo, ele precisava fazer isso. Com a cabeça erguida, ele entrou na grande estalagem onde os membros estavam e pediu para falar com o Líder da Guilda.
Ele foi ouvido em silêncio. Fairsworth falou calmamente e educadamente, mesmo sabendo que aquilo era um tanto absurdo. Ele explicou a situação de sua cidade e perguntou se a Guilda poderia fazer alguma coisa a respeito, já que não havia muitas outras Guildas naquele Reino. A tensão aumentou imediatamente quando Any falou que a Guilda já estava no meio de um trabalho e que todos ali iriam para a guerra na manhã bem cedo. O Lorde foi perdendo a compostura e deixou seus ombros caírem enquanto ouvia o pedido sincero de desculpas da Líder da Immortal Star.
— Eu fui tocado pelo seu clamor, Lorde Fairsworth! — falou Mulkior, quando Any parou de falar. O mago de ferro se levantou de sua cadeira e foi até o Lorde. — Não são muitos os Nobres que ignoram suas posições pelo bem de seu povo! Você poderia ter nos ordenado a aparecer em sua residência ou até mesmo nos expulsar caso não aceitássemos. — ele colocou a mão em seu ombro, respeitosamente, mas parecendo ser um velho amigo. — Mas você veio até aqui pessoalmente, sem escolta e sem fazer alarde de sua chegada. Se o mundo tivesse mais líderes como você, evitaríamos essas guerras inúteis que tiram tantas vidas inocentes. — Fairsworth apertou as mãos enquanto ouvia, meio emocionado e meio confuso. Não falou nada enquanto Mulkior falava. — San! O que podemos fazer para ajudar?
— Acho que não vai adiantar eu dizer que nossa tropa está completa e com plano pré-estabelecido de movimentação e incursão... — começou o Estrategista, soltando um bufado rápido de despreocupação. — Então existem apenas duas coisas que eu posso dizer. Primeiro, precisaríamos encontrar e desfazer qualquer bando de ladrões que está pelos arredores e que sabem que essa cidade está sem defesas. — Fairsworth continuou confuso com a conclusão imediata de San, que continuou. — Para isso, nós precisaríamos tirar os membros do esquadrão que não tem um posto fixo, que nesse momento... — falou ele, olhando para todos que estavam por ali, fazendo uma contagem mental.
— São você e Mana, que sempre estão lutando em todas as frentes que conseguem. — respondeu Any, que sabia mais do que ninguém a composição de cada tropa. A resposta dela tinha um tanto de reclamação, pois ela achava irritante os dois sempre estarem em qualquer lugar de forma desorganizada.
— Então eu e Mana. — respondeu San, ignorando o olhar afiado que Any lhe dava. — Depois que lidarmos com esses bandidos, eu aconselharia a você, Lorde Fairsworth, para que faça oficialmente uma mudança de reinado. Sua cidade é divisa com Riven, então você pode fazer um pedido oficial para o Rei de lá e fazê-los mandar tropas para cá. — falou San, e depois apontou para Mulkior, que continuava no lado do Lorde. — Você pode contar com a ajuda de uma das Famílias Reais para lhe dar suporte e ter um encontro diplomático com o Rei e seus conselheiros.
Aqui começou um verdadeiro falatório inacreditável por parte de Fairsworth, que não acreditava na conclusão de San e que a Guilda iria disponibilizar apenas dois integrantes para lidar com um problema de toda uma cidade. A conversa foi longa, mas o Lorde não iria conseguir mais do que isso, mesmo os membros falando que resolveriam aquele problema.
Na noite do dia seguinte, o próprio Fairsworth se juntou aos dois quando eles falaram que já tinham encontrado o esconderijo de um bando de assaltantes e estavam indo lá “verificar”. O Lorde achou que era alguma piada, mas não era. Eles foram até o norte, fora da cidade e encontraram umas duas cabanas no meio de uma floresta, que abrigava mais de dez pessoas. Com uma olhada mais de perto, Fairsworth conseguiu identificar algumas coisas roubadas, pois tinham símbolos de famílias nobres de sua região. Com essa afirmação, San e Mana atacaram, e Fairsworth, ainda inconformado, os seguiu com espada em mãos. Nessa batalha rápida, os dois membros da Immortal Star puderem ter um vislumbre da força e magia única do Lorde, que atacou ainda mais do que eles.
San e Mana ainda ficaram quase uma semana na cidade, servindo como “vigilantes noturnos”. Eles prenderam mais sete pessoas, onde algumas delas eram fugitivos de outras cidades que haviam sido completamente consumidas em guerras. Depois, os dois acompanharam Lorde Fairsworth até a Capital de Riven, onde Mulkior e seu pai já esperavam. Eles tiveram um encontro oficial com o Rei Julius, que aprovou a abdicação da cidade e iria mandar uma tropa imediatamente para lá. Seria necessário um novo acordo real com o Rei de Bersária, mas isso quem cuidaria seriam os conselheiros reais dos dois reinos.
O Lorde não sabia como agradecer a Guilda por todo o esforço que fizeram. Ele foi até a Base dizendo que traria uma boa recompensa pela ajuda, e foi quando ele teve uma nova surpresa.
— Não queremos seu dinheiro, meu caro colega. — falou Mulkior, meio o abraçando. — Nós queremos que sua cidade seja compromissada com a nossa Guilda. Sabemos que não tem muitas Guildas por lá, e nós também somos novos demais para fazer contratos com outras cidades. Então o que nós pedimos é que qualquer trabalho que alguém da sua cidade tiver, seja repassado para nós. Isso não só serve como pagamento, como também um favor extra que damos para você. O que acha?
É óbvio que Fairsworth aceitou com um largo sorriso e um caloroso aperto de mão. Isso era bom demais para ser verdade. Tanto é que ele estava achando tudo um tanto injusto. Para poder ficar equilibrado, o Lorde pediu para ser membro oficial da Guilda, que trabalharia em sua cidade, mas que apareceria em qualquer situação que a Guilda precisasse. Ninguém teve qualquer menção contra sua entrada, e ele virou um membro naquele momento, voltando para casa carregando uma bandeira da Immortal Star.
Por essas e outras, ele é o membro mais “distante” da Guilda, já que precisa continuar seu trabalho como Senhor daquelas terras. Ele pode ficar quase um mês sem aparecer na Capital de Riven, mas nunca deixa de mandar cartas sobre a situação decorrente de seu Reino, além de enviar vários pedidos para trabalhos oficiais para a Guilda. Ainda assim, ele nunca deixou de responder a um chamado quando a Immortal Star fosse fazer um grande trabalho, mesmo que foram apenas duas vezes que isso tenha ocorrido.
Hoje não seria uma dessas vezes, pois Fair (ele pediu para que os membros da Guilda o chamassem assim, para serem menos formais) estava na Base fazem três dias, já que tinha prestado presença a reuniões no Castelo de Riven. Tinha sido uma coincidência absurda, mas o próprio estava contente de poder defender sua Base naqueles momentos difíceis. Era por isso que ele ainda estava sorrindo enquanto caminhava lentamente em direção a um dos assassinos.
— É um prazer saber que até mesmo vocês conhecem o meu nome. — começou ele, a poucos metros de distância do assassino que se levantava rapidamente e desembainhava uma espada mais curta, uma ninja-to. — Infelizmente, eu devo informar que isso não é o suficiente para lhes salvar.
O assassino atacou. Veja bem, ele não tinha entrado em fúria incontrolável ou algum tipo de desespero mortal. Naqueles poucos segundos, o assassino analisou sua própria situação, viu que não tinha para onde correr, e sabia que se virasse as costas para aquele inimigo, ele seria atingido por aquela onda mágica. Além disso, ele sabia que seus colegas apareceriam para ajuda-lo logo em seguida.
O ataque inicial do assassino foi uma estocada na região do abdômen, que foi facilmente defletido por Fair. Mas em seguida, o atacante continuou com uma rápida sequência de movimentos curtos e rápidos. Cortes verticais e horizontais, todas mirando em pontos cruciais do corpo humano. Fair defletiu cada um dos golpes com exatidão e habilidade, enquanto dava passos para trás ganhando espaço próprio.
— Ah eu conheço esse tipo de manejo! — falou Fairsworth, girando sua espada ao seu lado depois de defender do último golpe. — Isso é ninjutsu! Eu tenho um colega aqui na Guilda que também usa, mas ele é bem mais rápido do que você.
— CINCO SOMBRAS!
De novo, isso não tinha sido por nervosismo a provocação de Fair. Era pensado, mirado, cronometrado. O assassino levantou sua arma que liberou um rápido brilho negro e roxo. Quando ele desceu a arma em forma de ataque, Fair viu cinco espadas vindo em sua direção, cada uma tomando um caminho diferente. Ilusão? Provavelmente. Mas não era uma ilusão tão simples para ser diferenciada. Mas o mais problema era que foi rápido demais e perto demais.
Tudo o que Fairsworth conseguiu fazer a tempo foi levantar o braço esquerdo para proteger a cabeça. Foi momentâneo, mas ele viu que o ataque real viria dali. E ele acertou em cheio, já que o golpe atingiu seu braço com força, criando uma pequena explosão mágica. O que foi estranho aqui, foi o “barulho” que soou quando houve o impacto. Teoricamente, Fair deveria ter perdido o braço. Mas quando a lâmina da ninja-to encontrou sua pele, foi possível se ouvir algo como um “plim” metálico. A espada não ultrapassou o braço e isso fez o assassino arregalar os olhos.
— Você não esperou me atingir em cheio com um golpe desses, não é? AURA DO DRAGÃO URIA – GARRA RETALHADORA!
Fair mandou energia mágica para seu braço esquerdo, que continuava levantando e junto a lâmina inimiga. Esse braço brilhou em um vermelho mais vivo, imediatamente passando toda a energia para os dedos e depois as unhas do Lorde. Em forma de garra, Fairsworth movimentou seu braço rapidamente, atingindo o rosto e ombro do assassino.
O golpe foi em cheio, arrancando a máscara e parte de cima da roupa negra do assassino, assim como pele e muito sangue. O que foi “estranho”, foi o grito fino que o assassino soou quando cambaleou para trás, com sua mão na ferida. Sem a máscara, um cabelo comprido e negro caiu para as costas, e sem a parte de cima da vestimenta negra, foi possível ver um certo volume no peito do assassino.
— Olha, mas que surpresa! — falou Lorde Fair. Ele não sabia que expressão fazia naquela situação. — Não esperava que sua roupa escondesse tão bem o fato de você ser uma mulher.
— Maldito! Maldito! — praguejava a assassina, tremendo enquanto tentava estancar o sangue que escorria pelo seu rosto. — Como você não perdeu o braço no meu golpe? Que tipo de armadura você está usando aí?
— Armadura? Ah sim. Pode ser considerado isso sim.
Fairsworth calmamente desabotoou o punho da manga de sua camisa de seda, logo em seguida a puxando para cima, mostrando o seu braço. E a visão era uma raridade. Não havia pele humana: havia escamas avermelhadas, como se fosse algum tipo de réptil. Pareciam grossas e resistentes, mas ainda tinham algum tipo de charme inexplicável, algo místico. Não só agora, mas a assassina também percebeu que toda a mão de Fair e até seu pescoço era rodeado dessas escamas.
— Que tipo de monstro é você? — perguntou a mulher, quase gritando.
— Monstro? Como você OUSA? Como se atreve a desprezar centenas de anos da história da minha família? — falou Fair, perdendo a calma pela primeira vez. Ele concentrou mais energia mágica na espada, que a fez vibrar e liberar uma aura arroxeada. — Eu estava pensando em pegar leve com você e até mesmo dar a chance de se render. Mas ninguém nesse mundo insulta a minha família e vive para contar história! AURA DO DRAGÃO EXCELION – IMPULSO FLASH!
Como o próprio Lorde Fairsworth não iria explicar aquilo para um inimigo, cabe a mim deixar claro o tipo de magia dele e o porquê ele ficou tão nervoso com o comentário. A magia de Fair era única no mundo. A chamamos de “Magia Vinculada ao Sangue”, uma verdadeira raridade. Seu criador criou uma magia e, com muitos rituais e até mesmo sacrifícios, fez sua magia ser passada de geração a geração. Somente os filhos dos Starkys poderiam usufruir desse poder único.
E não estamos falando de qualquer magia. O primeiro Starkys fez algo corajoso (alguns chamam de estúpido): fez um contrato vitalício com um dragão. Sim, aqueles enormes, cuspidores de fogo, que voam e que possuem a maior quantidade de energia mágica de todos os seres do planeta. Ninguém sabe exatamente como, mas ele ligou o seu sangue com o sangue de toda uma a linhagem de dragões e acabou adquirindo poderes colossais. Isso teve consequências terríveis, mas não precisamos entrar em detalhes sobre isso.
O resultado é que os membros da Família Starkys podiam usar magias de dragão, que podem ter uma variação enorme, dependendo de como a pessoa treina ou se adapta. Magias elementais, magias de invocação, magias de fortalecimento e mais uma salva de diferentes tipos de magias poderiam ser conjuradas por um único mago, se ele conseguisse controlar sua emanação grandiosa de energia. O preço era alto: o sangue de dragão é potente demais e suga a vida do usuário, então todos os grandes guerreiros dessa família não passaram dos quarenta anos de idade. Não que isso parasse Fairsworth de treinar e se fortalecer.
Lorde Fairsworth não tinha um Título Único, mesmo com um poder absurdo em mãos. Mas ele tinha uma “Classe Única”, que não poderia ser copiada por ninguém. Atualmente, ele era o único “Cavaleiro Dragão” do mundo, o que lhe trazia tanto orgulho quanto o fato de poder usar isso para esnobar. Acontecia mais esse segundo fato, acredite.
Assim como os golpes da assassina, Fair também se moveu rápido, como um flash de luz. Puxou sua espada para trás e a encheu de energia, para depois sumir do nada em um só impulso frontal e mortal. Sua oponente se moveu desajeitadamente e tentou se esquivar para trás. Mas foi tarde demais. A espada de Fairsworth atravessou o meio do peito da assassina, a fazendo perder fôlego o suficiente para não gritar de dor. O Lorde empurrou o corpo da assassina que foi ao chão quase imóvel, enquanto ela se afogava no próprio sangue. Com dois balanços fortes, Fairsworth limpou o sangue de sua espada enquanto olhava tristemente para o corpo em fase de falecimento em sua frente.
— Tinha que ser logo uma mulher? — falou ele, sozinho. — Eu já tenho um histórico um tanto ruim com as damas lá da minha cidade. Acho que tenho algum tipo de maldição...
— CHUVA DE FACAS!
Uma grande concentração de energia explodiu em cima da cabeça de Fairsworth, e uma verdadeira chuva cinza caiu em sua direção. Por mais que ele tenha sido pego desprevenido, Fair sentiu o perigo a tempo o suficiente para levantar os dois braços com a espada e defender o golpe em cheio. Sua armadura escamosa o protegeu bem, mas a magia tinha energia o suficiente para que algumas facas conseguissem o ferir.
Fair pulou para trás com três rápidos pulos, mantendo sua guarda alta. Não demorou nem outro segundo para que uma outra pessoa aparecesse em um pulo, caindo bem do lado do corpo imóvel da assassina ninja. Essa nova pessoa estava vestida exatamente do mesmo jeito que a garota no chão, parecendo até mesmo um clone de sombras.
— KARLA!! KARLA!! — gritava o assassino, claramente um homem por causa de sua voz grossa e desesperada. Ele se abaixou perto do corpo da assassina e a mexia com vontade. — Abra os olhos, por favor! Karla!!!
— Devo lhe informar que é desnecessária sua preocupação ou gasto de energia para com essa dama. — falou Fairsworth, mostrando um bom tanto de superioridade enquanto falava formalmente.
— DESGRAÇADO! — gritou o assassino, se levantando e puxando duas facas compridas de prata de seus bolsos traseiros e liberando energia por todo o corpo. — Você vai morrer! Você vai morrer!
E então partiu com tudo para cima do membro da Immortal Star. Ele era mais rápido que sua companheira e atacou fortemente com uma estocada dupla mirando os olhos de Fair. Mesmo impressionado com a velocidade de seu oponente, Fairsworth ainda conseguiu se esquivar e aplicar um golpe vertical logo em seguida. Era incrível sua capacidade de análise de oponente, pois ele logo percebeu que esse assassino não era qualquer “fracote”.
O assassino levantou as duas facas e bloqueou o golpe, imediatamente empurrando para o lado e fazendo Fair perder o equilíbrio. Ainda aproveitando o momento, o atacante girou o corpo e aplicou um chute no estômago de Fair, o fazendo dar dois passos para trás. Sem poder respirar e retomar o equilíbrio, o assassino ainda o atacou novamente, fazendo dois movimentos de corte diagonal e horizontal, os dois acertando em cheio o peito desprotegido do Lorde. Mas o som que foi ouvido não era da carne sendo rasgada.
— O que é isso? — perguntou o assassino, ainda em sua raiva quase cega. A camisa de Fairsworth tinha rasgado e dado visão para seu peito escamoso. — Você é algum tipo de homem lagartixa?
— Esse insulto é um erro que você não vai gostar de ter cometido.
Foi a vez de Fair atacar. Usou uma combinação não sequencial de golpes de ponta e de balanço, difíceis de se prever. O assassino foi se afastando e se defendendo habilidosamente, mas ainda foi atingido uma vez no braço esquerdo. Não tinha sido um ferimento grave, e a dor sentida estava sendo ignorada. No último movimento de Fair, que era um corte vindo de baixo, o assassino aparou chutando o braço atacante antes de completar o golpe. Sem sua arma, Fair não teve escolha a não ser levantar o braço esquerdo para se defender de uma nova estocada de seu oponente.
Mas dessa vez o resultado foi diferente. A faca penetrou poucos centímetros, só sua ponta, no braço do Lorde. Com a dor, Fair olhou para a faca e a viu embebida de energia mágica. Seu oponente era um bom controlador de energia e parece ter uma vasta experiência em combates corpo a corpo. Fair tentou acertar um novo golpe com sua espada, mas o oponente pulou para trás, se esquivando e se afastando ao mesmo tempo.
— Sua resistência é poderosa, mas não é impenetrável. — disse o assassino, concentrando energia mais uma vez.
— E você parece muito bem treinado para um reles assassino. — respondeu Lorde Fairsworth, olhando para o ferimento no braço por um rápido momento. — Ou isso é um aumento de poder devido ao falecimento de sua colega de trabalho?
— Ela era minha esposa! — gritou o assassino, em resposta. Ele batia o pé forte no chão toda vez que gritava daquele jeito. Sua energia mágica fluía quase descontroladamente. — Você não só matou a mulher da minha vida! Você matou meu futuro, meu ser, meu tudo! Nem eu e nem a alma dela descansará em paz enquanto você estiver respirando! PESO GRAVITACIONAL!
Passando sua energia mágica para uma de suas facas, o assassino faz uma mira rápida e atira a arma velozmente, na direção da cabeça de seu oponente. Fair não queria perder tempo em uma magia tão simplista, então simplesmente bateu na faca antes dela completar seu destino, a aparando em pleno voo. O problema foi que essa era exatamente a ideia do assassino.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O braço de Fair sentiu um puxão. Sua espada tinha ficado com o mesmo peso de um prédio. A espada bateu firme no chão, destruindo pedra e terra. Fair olhou para baixo e viu que a faca arremessada estava grudada na lâmina de sua espada, com uma bolha quase invisível a rodeando. Lorde Fairsworth tentou puxar a faca, mas ela não queria sair dali de maneira alguma.
A percepção do Cavaleiro Dragão o fez olhar para frente a tempo de poder se esquivar de um novo avanço do assassino. Fair largou a espada ali mesmo e se moveu rápido para se esquivar dos próximos três cortes rápidos do assassino. Um golpe o acertou, lhe fazendo um arranhão um pouco abaixo do pescoço, quase mortal.
— ESTOCADA TRIPLA!
E o assassino continuou sem dó e nem piedade. Ele estava aproveitando seu impulso inicial e agora só iria parar quando perdesse o fôlego ou o oponente caísse morto no chão. Ele sabia que tirar a arma de Fair tinha sido uma jogada de sorte, pois agora ele faria o membro da Immortal Star tentar se defender completamente com sua resistência corporal, o que seria seu fim. Por isso ele atacou três vezes, em uma velocidade sobre humana, no mesmo lugar. Fair, sem ter para onde correr ou como se defender, colocou a mão na frente do golpe.
Essa foi a primeira dor realmente forte que Lorde Fairsworth sentiu naquela batalha. As três estocadas aconteceram quase ao mesmo tempo, perfurando sua mão e jorrando sangue para todos os lados. Fair se afastou ainda mais segurando uma mão com a outra, e olhando fervorosamente para seu oponente. Por causa da máscara em seu rosto, não era possível ver sua expressão, mas Fairsworth tinha certeza que ele estava sorrindo loucamente.
— Vejo que você é muito dependente dessa sua espada. — começou o assassino, girando sua faca em sua mão, tirando o acúmulo de sangue. — Não se preocupe. Depois de te matar, eu ainda vou mutilar seu corpo usando essa sua espada!
— É verdade, essa espada é minha querida companheira. — respondeu Fair, mais calmo do que aparentava. Ele olhou para a palma da mão ferida, e com a outra mão, começou a passar o dedo indicador ao redor da ferida. Seu corpo emanava energia mágica o suficiente para o assassino entrar em alerta total. — Mas ela é só UM dos meus queridos companheiros. RITUAL SECRETO DE INVOCAÇÃO – TARANIS!
Foi uma ação meio bizarra de se ver. O sangue da mão de Fair começou a inflar como se fosse um balão se enchendo de ar, até ficar com mais ou menos quarenta centímetros de altura, em um formato oval. Depois, a cor do sangue deu lugar para um amarelo escuro. Se isso por si só não fosse bizarro, o ovo sanguíneo começou a soltar faíscas para todos os lados. O assassino simplesmente não sabia o que fazer. Era melhor se afastar? Ele iria atirar aquilo? Aliás, o que diabos era aquilo?
Até o momento que aquilo “rachou” e se quebrou, dando vida a nada mais nada menos que um dragão em miniatura. Um dragão amarelo, com duas asinhas esbranquiçadas, pescoço longo, cauda que não parava quieta, e quatro patinhas com garras que pareciam mais =/de enfeite do que mortais. Ele abriu os olhos e piscou três vezes, olhando para os lados. Algumas pessoas achariam a criatura “fofinha”, mas algumas pessoas também bebem muito álcool e veem coisas sinistras, então isso não era um parâmetro válido.
— UWAAAAAA! — bocejou o dragãozinho. Ele voou para cima e para baixo, depois fez uma pirueta. Olhou para Fairsworth com a expressão que ele mesmo achava ser “séria”. — Fair, eu já disse para você não me invocar nesse horário que geralmente eu estou dormindo!
— Desculpe Taranis, mas estou em uma situação complicada e preciso muito de sua ajuda. — respondeu Fairsworth, sorrindo. Outras pessoas (nesse caso, o assassino), estariam fazendo a nota mental: “O dragão tem uma voz muito fininha!”. — Deixo você comer mais chocolate hoje, prometo.
— AHA! Promessa é dívida, Fair! — respondeu Taranis, dando outra pirueta no ar. — Vou querer aquele chocolate com nozes que eu comi da vez passada!
— Ok, ok, eu compro aquele pra você. Agora vamos? — respondeu o Lorde, esticando o braço. O dragãozinho voou alegremente e pousou perto da mão, virado para o assassino. Sua cauda não parava de balançar, parecendo um cachorro preste a ganhar um osso de seu dono. Fairsworth perdeu o sorriso bobo que fazia e passou energia mágica para seu braço e depois para Taranis. — AURA DO DRAGÃO TARANIS – INCORPORAÇÃO ELÉTRICA!
Fair balançou o braço como se tivesse atirando uma pedra, e o dragãozinho amarelado disparou em direção ao inimigo. Ele era rápido como uma flecha, voando reto e de forma pontiaguda. Ainda um tanto confuso, o assassino tomou impulso e se jogou para o lado, indo ao chão e depois rolando. Ele rapidamente se levantou e sorriu. Se aquela era a magia que ele se preparou tanto para atirar, então o membro da Immortal Star tinha sérios problemas de auto confiança.
— Para onde você está olhando? — perguntou Fairsworth, com a mão apontada para o assassino.
Movimento. Corte. O assassino tropeçou e caiu de joelhos no chão. Levou a mão na lateral de seu corpo e viu o sangue fluir. Havia um corte ali, não muito profundo, mas dolorido. Ele olhou para frente e viu alguma coisa girando e voando na direção de Fair. Esse, por sua vez, segurou a tal coisa, que só assim foi possível ver seu formato: era uma espada. O assassino olhou para trás e não encontrou a espada caída do oponente, e muito menos o pequeno dragão. Olhou para frente de novo e vislumbrou a espada nas mãos de Fair.
Mas não era a mesma espada que estava trancada no chão até um segundo atrás. O cabo tinha mudado para um metal mais puro, a empunhadura tinha ficado com o formato de asas para os dois lados e a lâmina tinha crescido um pouco mais. E claro, a espada inteira estava amarela, de uma ponta até outra.
— Agora... — começou Fairsworth, mexendo a espada duas vezes. Em seu movimento, a espada estralava com faíscas incandescentes, parecendo eletrificar todo o ar. Além da espada, uma nova aura amarela estava rodeando seu corpo. — Você vai ter o privilégio de saber o que acontece quando luto com dois dos meus companheiros ao mesmo tempo!
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