Immortal

1 Curiosity


Trembling, crawling across my skin.
Feeling your cold dead eyes,
Stealing the life of mine [...]

[...] Say goodbye, as we dance with the devil tonight.
Don't you dare look at him in the eye.
As we dance with the devil tonight.

A noite cada vez mais silenciosa e solitária deixava explícito para qualquer um que soubesse ler o ambiente, que já se passavam das dez. Sequer uma casa mantinha suas portas e janelas abertas, apenas os velhos e pêndulos postes de iluminação deixavam a velha Faith Hill longe da total escuridão da iminente madrugada. Porém, não só as grandes e movimentadas cidades possuem habitantes cujas crenças não interferem em sua vontade de manter a vida noturna.

Descendo pela última rua, uma silhueta se formava sob a frágil iluminação, vestida de um vermelho sangue, quase que impossível de se ver sob um sobretudo negro e esguio. Apesar das roupas coladas ao corpo, sua face não era em nada calorosa. Seus pés eram a única fonte de som naquele local, fazendo pequenos e pausados estalos quando o ambos os saltos se encontravam com o chão, respectivamente.

No fim da estrada, podia ser visto de longe um pequeno painel iluminado onde se lia “Bloody Moon” juntamente com um pequeno aviso de maioridade. O frio levou toda a frente do local a se sucumbir em neve, o inverno nunca tivera piedade, não seria este o primeiro a ter. Poucas partes da cidade estavam intactas, como algumas calçadas que tinham sido limpas após a geada do anoitecer.

Suas mãos pálidas alcançam a maçaneta, coberta de couro de algum animal local, e abrem a porta, deixando sair o som da música que tocava dentro do estabelecimento. Como uma prévia do lugar, um estreito corredor de tijolos e madeira levavam os clientes para o hall principal. A garota deixa seu sobretudo em um dos ganchos da parede do corredor, seguindo para a parte interessante.

No fim do corredor, o hall era uma grande sala revestida de madeira. Uma grande lareira na parede ao fundo, ao lado de algumas mesas de lado oposto ao bar. Cerca de cinquenta pessoas bebiam, conversavam, dançavam, e faziam o que não puderam fazer durante toda a semana. Caminhando em direção ao bar, ela examina todos os rostos ali presentes. Ninguém nunca faltava, não importava o que acontecia. E pelo visto, ela era a única atrasada.

— Ora essa, Rosemary. Perdeu a hora enquanto tirava a poeira dos livros? – Perguntou uma voz que vinha de um dos bancos em frente ao bar. Tratava-se de uma moça de baixa estatura e porte médio, cuja face exalava alegria, apesar da melancolia do inverno.

— Teria saído mais cedo, se a neve não estivesse amontoada em minha porta. – Retrucou a garota, sentando-se no banco ao lado da conhecida. – E é Rose.

— Achei que estivesse na biblioteca hoje, resolveram, por milagre, fechar neste inverno? – Indagou sua colega, que segurava uma taça de vinho, ou alguma outra coisa vermelha e de aparência agradável.

— Pelo contrário. Apenas tive de fechar mais cedo, com todos os boatos da Lua chegando. Não quis arriscar. – Disse Rose, num breve esforço para manter a postura em seu assento. – Nunca se sabe o que esperar aqui, pelo visto.

A moça abriu um sorriso irônico, e lhe ofereceu um gole da bebida, gentilmente recusado. Tal como o nome do lugar, um fenômeno natural estava perto de acontecer. Segundo os mais velhos, em todas as noites de Bloody Moon, aqueles cujos corpos estão desprotegidos têm suas almas ceifadas pelo demônio do Vale. Todos os nascidos em Faith Hill possuem tatuagens, que recebem após os dez anos de idade, na parte do corpo em que escolherem. Tratando-se de uma espécie de símbolo tribal feito pelo povo que fundou a cidade, indígenas que acreditavam que o local estivesse sob influência de uma força maior. A tatuagem os protegeu por centenas de anos, enquanto vilarejos próximos sofriam com ataques de criaturas misteriosas, acompanhados de mortes e desaparecimentos.

Rosemary perdeu seus pais em um desses ataques. Por volta de seus cinco anos de idade, sua família fugia da civilização em busca da calmaria da floresta e das montanhas, quando em uma noite de tempestade sofreram um grave acidente de carro. Quando o povoado chegou, já era tarde demais. Rose passou a morar em um pequeno orfanato no centro da cidade, até o dia em que atingiu a maioridade e conseguiu um emprego na biblioteca local. Depois do acidente, nada além de Faith Hill parecia um lugar melhor. Era a única lembrança que ela tinha de seus pais, deixá-la para trás estava fora de cogitação.

Sua tatuagem se situava mais escondida que a dos demais, sob seus seios, para lembrar a todos de que ela não havia nascido na cidade. Assim, seria mais fácil de dar prioridade aos nativos durante um ataque. Não precisava ser justo, eram as regras. Aquilo nunca pareceu lhe incomodar, afinal ela sempre foi próxima de todos no vilarejo. Com suas exceções, claro. A noite passou rápido, nada além de bom humor e boa música, até que alguém no fundo começou a falar sobre a bem dita Bloody Moon.

O assunto se espalhou pelo lugar como uma praga, gerando sussurros, teorias, e medos. Rose sempre acreditou nas crenças do povoado, mas sua curiosidade era claramente mais aguçada que a dos demais. Seus olhos tateavam cada expressão das pessoas ali presentes, analisando cada detalhe. Todos pareciam preocupados, exceto por uma pessoa.

— Anotem minhas palavras, isso não passa de bobagem. – Disse em alta voz, um rapaz ao fundo do bar. Por milésimos de segundo, todos ficaram em silêncio, logo murmurando sobre o tão infame comentário. Rose soube que ele não estava completamente em sã consciência, ao ver a quantidade de bebidas e frente a sua cadeira. Naquele estado, ele era capaz de qualquer coisa. Ela não se lembrava muito do rapaz, só sabia que seu nome era Elliot. Ele sempre foi extremamente cético sobre tudo, não era nenhuma novidade.

— Vocês duvidam, eu sei. Mas não estão pensando por si mesmos. Usem a cabeça... Isso não passa de mentiras, para pôr fim em tudo que construímos por nós! – Algumas pessoas pareciam concordar com o discurso de Eliot, e isso só o deixava ainda mais empolgado, falando cada vez mais alto, enquanto tateava o bolso de seu casaco. Rose estreitou os olhos, tentando compreender o que ele pretendia fazer, mas não conseguiu. Embora não tenha demorado muito para que todos entendessem o que ele estava prestes a fazer.

— Vocês vão ver, meus caros. Apreciem a verdade! – Elliot puxou uma faca do bolso de seu casaco, provavelmente a roubou do bar mais cedo, não se sabe. Todos levantaram, por impulso, implorando que ele abaixasse a arma branca. Uma moça ao fundo parecia estar prestes a chorar, suas amigas a seguravam para que a mesma não saísse da mesa.

— Elliot... guarde a faca. Por favor. – Disse o rapaz que servia as bebidas no bar. Seu rosto estava tão pálido quanto a cor de seu avental que pendia na cintura. Ele ergueu as mãos na altura da cabeça, tentando controlar o desespero em sua face.

Por um instante, eu diria que ele hesitou. Mas o tempo deste passou tão rápido quanto sua mão ao erguer a manga direita do casaco, onde era claramente vista sua tatuagem. Que, inclusive, tratava-se de um Nó Celta. Elliot suspirou e deu uma olhada breve ao redor, antes de em instantes arrancar a tatuagem fora com a face, num alto grito. Todos na sala puderam sentir o clima ficando mais frio, e pesado. Como se a proteção do lugar estivesse prestes a quebrar. Após segundos, ele sorriu, subindo na cadeira em que estava, abrindo seus braços como uma águia prestes a alçar voo.

— Viram? Nada aconteceu. Eu disse. Toda essa baboseira, demônios, espíritos? Não passam de mentiras para nos prender em casa em noites como essa! – E assim, Elliot começou um discurso que para alguns parecia motivador, para outros, soava como um grande delírio. Para Rose? Ela não saberia explicar. Mas estava prestes a descobrir como. A garota se perguntava a que ponto as pessoas poderiam chegar, ao ver o rapaz tirar fora sua única proteção, como se jogasse fora o maior presente que os Deuses poderiam lhe dar.

Rosemary suspirou, não sabia mais o que esperar daquela noite. A garota ao seu lado virou-se em sua direção, com uma expressão de seriedade. Seus cabelos claros caiam sobre a face, enquanto um singelo e quase que imperceptível sorriso aparecia em seus lábios.

— Ele vai se arrepender em segundos. – Ela disse, se virando para a mesa do bar e pedindo mais uma dose. Rose se perguntava o que ela queria dizer com aquilo, as coisas estavam ficando cada vez mais confusas. Para quem não tinha bebido sequer um copo de cerveja desde que chegou, ela se sentia atordoada. Seus olhos se fecharam por segundos, a garota apoiou-se com as mãos e as costas na bancada do bar, seus pés pareciam prestes a lhe pregar uma peça e deixa-la cair ali mesmo.

Tudo parecia ter ficado em câmera lenta, quando Rose abriu seus olhos e pode ver uma figura encapuzada cruzando o corredor em direção ao hall principal. Era com certeza uma silhueta masculina, alta e esculpida, coberta por uma espécie de sobretudo cujas costas acabavam em um capuz. Cabisbaixo, o desconhecido fez o local parecer estar congelando no momento em que seus pés tocaram a sala. Um calafrio percorreu todo o corpo de Rosemary, dos pés até o fim da nuca. Suas mãos tremeram, e ela queria perguntar a todos ali se também podiam ver a figura, mas sua boca sequer se abria.

As mãos do desconhecido chegaram até seu capuz, o levando até as costas, revelando um rosto único, de traços marcados e apesar de jovens, donos de uma seriedade sobre-humana. Seus olhos eram de cor única, da margem aos cílios, negros como a meia noite. Sua pele quase tão branca quanto as paredes de uma igreja. O homem traçava seu caminho na direção de Elliot, quando de algum modo sentiu que a garota o via.

Seus pés o impediram de continuar. Algo se passava na cabeça do rapaz, mas ela não sabia decifrar o quê, só conseguia pensar que havia chegado sua hora. Mas para sua surpresa, o homem engoliu em seco, e levou seu dedo indicador direito para a frente da boca, sutilmente lhe pedindo que fizesse silêncio. E aquilo bastou para que tudo sumisse.

— Rose! Rosemary! – Gritava uma voz feminina, conforme o corpo da garota era balançado para frente e para trás. Em câmera lenta, ela pode abrir seus olhos. A menina do bar estava a sua frente, e Rose se viu deitada sobre o piso do bar. Ela ajudou-a a se sentar, mas ninguém parecia ter notado seu desmaio repentino, e o motivo, era bem mais grave que uma simples tontura. – Ele foi morto, Rose. Acharam o Elliot no banheiro há cinco minutos. Cortaram sua garganta.

Estreitando seus olhos na direção do fundo do local, Rosemary sequer precisou questionar a informação dada por sua colega. Uma multidão se aglomerava ao redor do corpo frio e pintado de vermelho de quem já foi Elliot Verlac. Um assassinato a sangue frio, doloroso e impiedoso, cujo assassino somente ela teria avistado. A imagem do homem não saía de sua cabeça, tudo parecia girar novamente, e a garota voltou ao chão. A menina do bar gritava por ajuda, mas ninguém tirava os olhos do corpo. A porta da frente aberta para que o resto dos moradores pudesse ver a cena do crime só trazia o inverno para a festa, fazendo seu corpo estremecer e apagar, assim como a lareira que antes brandia em chamas, tudo agora era frio, confuso, e distorcido.

Notas finais
Trecho da música: Dance With The Devil - Breaking Benjamin
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.